quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O menino, o mar e os poetas

(caio silveira ramos)

O Colégio São Francisco Xavier do Ipiranga escolheu a obra e a vida do poeta Vinícius de Moraes para desenvolver um projeto de leitura com seus alunos do 2º Ano do Ensino Fundamental.  O projeto culminou com uma apresentação teatral e eu fiquei matutando se não seria melhor terem usado mais músicas do repertório infantil do poeta do que suprimir “trechos incômodos” de algumas de suas obras.  Talvez fosse mais interessante cantar “A pulga”, “A foca”, “Menininha” (todas parcerias com Toquinho) e “São Francisco” (com Paulo Soledade), ou até mesmo obras adultas como “Chega de saudade”, “Se todos fossem iguais a você”, “Garota de Ipanema” (todas com Tom Jobim), “Coisa mais linda” (com Carlos Lyra) “Valsinha” (com Chico Buarque) e “Pela luz dos olhos teus”, que vetar as partes faladas de “Samba da Bênção” (com Baden Powell) – o que fez sair de cena as próprias bênçãos -, e de “Sei lá...a vida tem sempre razão” (com Toquinho) ou retirar as estrofes que enumeram os amores marotos do pequeno bardo de “O poeta aprendiz” (também parceria com Toquinho). 
De qualquer forma, o saldo do projeto foi muito bom, porque fez a meninada voltar para casa conversando sobre os parceiros do Poetinha e cantarolando a parceria com Tom Jobim, “Eu sei que vou te amar”, a com Toquinho e Paulo Soledade, “O pato (pateta)”, e as canções, só de Vinicius e Toquinho, “A Porta” e “Tarde em Itapuã” (com direito até a estrofe em que se argumenta “com doçura com uma cachaça de rolha”). 
Eu, sem saber se a professora tinha explicado o significado de algumas palavras de “O poeta aprendiz”, abri um dicionário com João Pedro e fomos tirando da cartola todos os sentidos de um menino valente e “caprino”. Ou do “bodoque” de um “infante” sadio e “grimpante” com o olhar “verde-gaio”.  E depois rimos gostosamente quando meu pequeno disse que uma coleguinha, ao interpretar “Tarde em Itapuã”, cantava “na Praça caída senti preguiça no corpo” em vez de “na Praça Caymmi senti preguiça no corpo”.  Aproveitei a deixa e perguntei se ele sabia quem era aquele “Caymmi” que dava nome a uma praça.
“Era um cantor, né?”
Era. Mas era tanto mais. Tanto que o verbo devia ser conjugado no presente: Caymmi é.  Mas como explicar isso ao pequeno? Como resumir o mar, o mar tamanho, a uma gota repousando na palma da mão?
Não entanto, Caymmi é mar e é gota.  Preenche os espaços abertos e se abriga nas miudezas. Revela os infinitos e as pequenas coisas.
Então, achei que, melhor que explicar tudo aquilo, seria contar uma história. Uma história que ocorreu noutro dia mesmo para mim. Ou há muito, muito tempo para um menino de oito anos.
Bebê de colo ainda, João pouco chorava. Mas quando chorava, pela proximidade do sono ou quando qualquer outra coisa lhe perturbava o sossego, sua voz ecoava com força. E eu, pai de primeira viagem, inventava mil e um segredos para recolher no meu próprio peito aquilo que eu achava ser dor ou incômodo para uma vida que cabia nos meus braços. 
Um dia, durante um daqueles momentos de choro, depois de andar com os pés no teto e me equilibrar na corda do varal (mas sem o sucesso da trégua), me veio em socorro a voz de Dorival Caymmi. Grave, potente, sonora. Mais sonora que o soluço do Joãozinho. Porém, ela não chegou trazendo o seu famoso “Acalanto”.  Ela saiu de mim em forma de mar. “O mar”:
“O maaaaaar, quando quebra na praiaaa, é boniiiiiiiiito, é boniiiiiiito”.
O pequeno parou imediatamente de chorar e me olhou intrigado. Um olhar profundo com todos os seus veres.
Aproveitei a deixa e, tal qual a gravação Caymmi, modulei a tonalidade:
“O maaaaaar, quando quebra na praiaaa, é boniiiiiiiiito, é boniiiiiiito”.
Aninhado pelo som potente que fazia vibrar meu peito e meu colo, Joãozinho sossegou de vez seu choro. E serenou, serenou. Até que dormiu.
E dali em diante, cada vez que ele chorava, eu me caymmizava todo. E “O mar” desaguava majestoso e sonoro sobre o desassossego do pequeno.
Anos depois, ele acharia graça por ter se deixado hipnotizar tantas vezes pelas ondas de um mar desenhado pelo homem que dava nome à praça da canção de Vinicius de Moraes e Toquinho.  Mas lá atrás, com meu filho ainda no meu colo e já dormindo, eu me lembrava de meu pai e de outra canção daquela dupla. Então, mergulhado em benquerenças, eu sussurrava baixinho para alimentar seus sonhos: “dorme meu pequenininho, dorme que a noite já vem/teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem”.
E inundado de mar e poesia, eu adormecia também.



Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 23/10/2016

A força que vem do além

(caio silveira ramos)

O músico Fernando delPapa foi para França aos dezenove anos com a cara, a coragem, o cavaquinho e o talento.  Depois de mais de uma década na Europa, “Fernando do Cavaco” assumiu o sobrenome (embora artisticamente modificado) e lançou neste segundo semestre de 2016 seu primeiro CD, “Eu também”, um dos melhores discos dos últimos anos.  Suas letras e melodias são tão inspiradas, que o próprio Chico Buarque gravou um vídeo elogiando Fernando e seu CD.  A palhetada do Fernando é tão espetacular que o disco é ao mesmo tempo brasileiríssimo e universal.
Conheci o Fernando numa roda de samba antes de sua viagem para Paris. Naquela época, sua destreza com o instrumento, influenciada por Luciana Rabello, já mostrava “o que pode um cavaquinho”.   Além da paixão pelo samba, eu, ele e seu pai (um fabuloso cantor chamado Sérgio Del Papa) tínhamos pelo menos mais uma coisa em comum: nós três, assim como tantos outros, éramos discípulos de João Borba.    O que nos ligava a esse grande artista piracicabano não era apenas o seu canto: era também todo o espírito do samba que ele encarnava.
Depois que se aposentou do seu serviço na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, finalmente João Borba pôde cuidar melhor da carreira que já vinha desde os anos 1950 e que passava pelo grupo de teatro, música e consciência negra de Solano Trindade, pelas Escolas de Samba de São Paulo e pelas noites paulistanas.   Aposentado, finalmente Borba conseguiu gravar seus três CDs: “João Borba: Memória do Samba Paulista” (gravado em 2005 e lançado pelo Kolombolo em 2014), “João Borba Canta Jorge Costa” (2008) e “Eu comigo e meus amigos” (2011). Aposentado, finalmente Borba pôde levar seu samba e sua voz pelo mundo, principalmente para Paris, onde reencontrou Fernando e seu cavaco.
No começo do segundo semestre de 2015, João Borba andava um pouco doente, mas estava animado com sua última viagem. E já se preparava para ir à Cuba. Ele me procurou dizendo que em Paris, Fernando delPapa tinha criado a palavra “Baoborba”, mistura dos nomes da mítica árvore e do sambista. Fiquei entusiasmado com a ideia de Fernando, que definia tão bem a força soberana de João Borba.  Mas meu amigo me procurava por outro motivo. Tivera a inspiração de fazer um samba, não sobre si próprio, mas sobre a árvore que lhe emprestava o novo apelido.  Ele ainda não sabia como seria, não tinha a letra, nem a melodia, e por isso me provocava com sua doçura: “então, vamos fazer um samba sobre o baobá?”. Aceitei na hora, comovido pelo convite e pelas ideias que já me atropelavam com alegria e fúria.
Fiz a letra, esbocei a melodia e mostrei para o Borba. Ele se empolgou e disse que iria completar a música. Mas lentamente os males do corpo foram solapando a raiz daquele Baoborba que eu julgava eterno: ele não foi para Cuba, começou a cancelar algumas apresentações e não completou o samba.  No dia 10 de setembro de 2016, liguei para dar os parabéns pelos 82 anos.  A querida Salete atendeu, percebi que ele pigarreou para ajeitar a garganta e o corpo, e lá de longe eu ouvi a voz serena do meu parceiro: “estou fazendo 18 anos!”. Para animá-lo, contei que a melodia de “Baobá” estava pronta e acabada só esperando para ele gravar, quem sabe, fazendo um dueto com o médico e baluarte Chico Aguiar. E que poderíamos, no final do samba, preparar um duelo entre um violão 7 cordas e um violoncelo, e ainda... Mas senti que, mesmo colocando o sorriso de sempre na voz serena, meu amigo estava já cansado. E nos despedimos com o carinho de sempre.
No dia 20 de setembro de 2016, dez dias depois, tombou para sempre o meu Baoborba. O Baoborba de Fernando delPapa, Chicão, Pasquale Nigro, Wandi Doratiotto e de tantos outros parceiros, amigos e sambistas. O Baoborba da Pérola Negra, do Império do Cambuci e de tantas outras Escolas de Samba de São Paulo. O Baoborba da Vila Madalena, do Centro, de Embu das Artes, de Piracicaba, de Paris e de onde mais o samba chegou e chegará.
Nesses últimos vinte anos, meu conterrâneo João Borba foi meu parceiro, meu intérprete e meu irmão.  Para ele escrevi e atualizei seus “releases”, fiz o texto de encarte de um dos seus CDs e ofertei sambas que ele gravou ou apresentou em shows.  Juntos, planejamos inúmeros espetáculos (inclusive o que ele pretendia apresentar até o final de 2016: “João Borba: 60 anos de música e sonho”) e compusemos amizade, fraternidade e música.
Nossa única parceria gravada fala de um rio em que nós dois, quando meninos, mesmo em épocas tão distintas, matamos a sede e nos espelhamos.  Que a água cristalina sonhada para nosso rio e para tantos outros sacie todas as aflições. Que o samba, feito um baobá, ilumine todas as almas.
Viva sempre em nós, João Borba!
Para você, o samba sonhado:

Baobá
(Caio Silveira Ramos) – para João Borba e Fernando delPapa

Amei
Acima de qualquer pecado
Rasguei
Meu coração encarcerado
Plantei
Uma semente nessa terra
Que espera, feito ela,
Renascer, se libertar

E do meu coração dilacerado
Brotou
Meu samba novo, germinado
Cresceu
Embriagou-se de tristeza
Recriou a natureza
Se agigantou
Tocou o céu.

Baobá
A força que vem do além
Do além-mar
Além deste tempo, deste lugar
Raiz que ensina a caminhar

Baobá
Rompendo qualquer grilhão
Baobá
Abraço da multidão
Baobá
Sagrada profanação
Baobá

Baobá
Meu sangue já abrigou
Baobá
A sede já saciou
Baobá
Meu corpo multiplicou
Baobá
                                                                                          

                                                                                                                                                Publicado no Jornal de Piracicaba em 9/10/2016



A volta do Tigre Negro

(caio silveira ramos)

A cadelinha Nina chegou revirando o mundo. Mudou a disposição das coisas na área de serviço. Fez alguns cômodos da casa fechar suas portas. Espalhou obstáculos feitos de borracha e pano no tapete da sala.  Depois se espreguiçou e ofereceu a barriga manchada de branco para afagos de mil sóis e mãos infinitas.
A moça que trabalha no prédio sentenciou: “ela parece cachorro de pobre. Cachorro de rico é branco, peludo, sem focinho e tem rabo curto. Ela tem focinho grande, pelo rente e rabo comprido. Como ela, e ainda malhadinha assim, marrom, com mancha preta e pata bege, tem um monte na favela”.
Rindo, retruquei: “então a Nina é perfeita pra gente: não somos ricos mesmo!” E lá fui eu, todo feliz, com meu filho, jogar bola com a cachorrinha no meio da sala.
E lá vai ela, feliz também, correr com as orelhas balançando. Nina pula, deita, rola. E balança a cabeça, segurando com os dentes cheios da valentia dos seus dois meses, o cachorrinho de pelúcia Tibúrcio.
Nina parece tão feliz, que a suspeição da faxineira sobre o pedigree mambembe trazido pela criadora se dissolve no primeiro olhar profundo pedindo colo. E a “mini daschund arlequim” se transforma deliciosamente numa “salsichinha malhada”, provavelmente não tão “inha” assim no futuro.  E se seu “padrão raro de pelagem” – com manchas pretas, e focinho e patas cor “tan” –, se revela, na verdade, como o provável resultado de algum cruzamento temerário, apenas duas roladas de 360 graus no chão da sala fazem o prédio desabar de ternura por causa de Nina, a mais bela. Nina, Nininha, Ninoca, Ninotchka. Nina Biscoito. Nina-mel.
Mas existe algo mais naquela cadelinha que provocou a querença instantânea em mim.  Algo além da maciez do pelo malhado, da corrida saltitante pela casa, da delicadeza de mordiscar sem dor a mão que lhe afaga a barriga. 
Olhando uma sequência de fotos em que ela, apoiada no meu ombro, vai serenando tranquilamente os olhos até fechá-los por completo, decifro o sonho que a cadelinha devaneia.  Em algum lugar, lugar perdido entre mim e ela, Nina faz seu chamado, que é também o meu.
E ao longe, eu e ela avistamos quem atende ao nosso pedido.
Destemido e altivo, o Tigre Negro está de volta.

***
O cachorrinho de plástico, que já tinha passado pelas mãos das minhas três irmãs, chegou até mim sem os olhos e as rodinhas. Mas mesmo assim, eu me empertigava todo puxando o brinquedo por um barbante lá no quintal de casa. De tanto verem a cena, quando a Jô anunciou que a cadelinha da sua casa iria dar cria e que eu poderia ficar com um dos filhotes, meus pais decidiram que já era hora de eu ter um cachorro de verdade.
No começo de janeiro de 1979, os filhotes nasceram e ficou combinado que, assim que a nossa família voltasse da viagem de uma semana pra Poços de Caldas, iríamos apanhar o bichinho.  Quando a Jô disse que o cachorrinho tinha o pelo quase todo preto, imediatamente comecei a pensar em nomes.  Depois de muito matutar, anunciei solene: “ele vai se chamar Tigre Negro”.
Alguém ironizou e até me falou alguma coisa, mas na minha cabeça eu e Tigre Negro já enfrentávamos os mais temíveis vilões do Universo. Seríamos uma dupla corajosa e invencível, pronta para combater o mal.
A viagem para Poços foi muito, muito boa, mas confesso que entre os sabonetes artesanais, as fontes luminosas coloridas, o relógio de flores no meio da praça, o café da manhã de hotel, a vista do Cristo, uma cachoeira, um parque infantil e um barquinho de ferro da coleção “Matchbox”, Tigre Negro aparecia voando, me convidando para uma nova missão. Por isso, na mesma tarde em que chegamos cansados da viagem, fui com meu pai e minhas irmãs até a casa da Jô para me encontrar com meu parceiro.
Os filhotes estavam dentro de uma manilha de concreto e, mesmo antes de a mãe da Jô apanhar o bichinho certo e colocá-lo numa caixinha de papelão, eu já tinha reconhecido o temido Tigre Negro.  Que descansava serenamente de olhos fechados.
Em casa, rodeado por panos e crianças, o cachorrinho parecia se acostumar com as novidades. Menos com o nome. Eu chamava baixinho, “vem Tigre Negro, vem”, porém ele parecia não ligar muito. Mas quando minha irmã Ester esfregou os dedos com um pedacinho de comida e falou “tipe, tipe, tipe” ele levantou a cabeça, saiu da caixa e foi cambaleando, cambaleando, saborear o petisco. Depois, para minha surpresa, lambeu amoroso a mão da minha irmã. Que fez seu rá, rá, rá, triunfante, o afagou com gosto e completou:
“Tipe, tipe, tipe. Isso! Ele mesmo já escolheu seu nome: Tipe!”
Reclamei, sustentei o título, chamei, chamei de novo, com energia de um soluço engasgado “Tigre Negro! Vem cá!”.  Depois, minha voz foi se entristando baixinho, mas ele não veio. Ester tentou consolar:
“O tigre é um felino. Vai ver que ele acha que você tá chamando ele de gato...Ele é um cachorro valente.” 
Ela então o conduziu de volta para a caixinha de papelão e me ensinou que, coçando a orelha do bichinho, ele fechava os olhos. Depois segurou minha mão e fez meu dedo passear ao longo do focinho do cachorrinho, que foi se acalmando, me acalmando. Até que manso, ele dormiu com um suspiro adocicado.
Como muitas vezes ainda faria, me deixei consolar afagando longa e serenamente aquele meu novo amigo. E sussurrei, ainda que sem jeito, para mim e para ele:
“Dorme, Tipe. Dorme bem.”

***
Ainda que para o veterinário eu insistisse que o nome do meu amigo era Tigre Negro (“só o apelido é Tipe, mas pode chamar desse jeito mesmo”), acabei me rendendo ao inevitável e, exceto nas histórias ilustradas com canetinha – “em que o fabuloso herói Tigre Negro salva sua amada cachorrinha pequinês Pink” -, o nome “Tipe” passou a ser um dos que mais minha voz lançava pela casa com amor e alegria.
Não que fosse indomável, mas ninguém achou que adestrá-lo fosse importante. Assim, se ele era normalmente proibido de entrar nos cômodos internos da casa e até no pátio, lá no quintal (que começava no muro baixo e vazado, com seu portãozinho de ferro, e ia até o quartinho dos fundos), Tipe se espalhava com tal liberdade, que domá-lo pareceria violência ou insensatez.  Mesmo sendo completamente indisciplinado – ele nunca trouxe a bolinha atirada de volta -, Tipe se tornou meu grande parceiro pela cumplicidade.
Quando eu chegava triste, ele me olhava fundo, se sentava ao meu lado no chão e depois se ofertava para um afago silencioso. E permanecia lá, até que a minha tristeza se perdesse na sua pelagem preta.  Mas quando eu vinha felizando o dia, ele me pulava nas pernas, pegava alguma bola e saía correndo pra que eu fosse atrás dele sem nunca alcançá-lo. Depois ficávamos os dois exaustos, encostados em uma das colunas do ranchinho ou no tanque de pedra onde minha mãe o banhava.  Quando as respirações se acalmavam, ele oferecia a barriga e eu a coçava rapidamente do lado esquerdo, o que fazia a pata traseira da mesma banda girar freneticamente.  Ele então se esticava todo de contentamento.
Em outros dias, minha alegria de menino era tanta e se transbordava de tal forma, que só de me ver Tipe danava a fazer círculos enormes pelo quintal, numa velocidade três vezes maior que normalmente ele mostrava: cinco, seis voltas, passando feito um tiro em meio a galhos, troncos, touceiras, pedaços de madeira, degraus de canteiros, colunas do ranchinho aberto (que ficava no caminho), vasos, vasilhames e todo tipo de tralhas. Nada, nada o segurava. Ficava morrendo de medo que ele trombasse de frente com uma árvore, tropeçasse numa garrafa ou ficasse entalado entre galhos cortados. Mas Tipe parecia guiado por uma força sobrenatural, como se algo o conduzisse pelas frestas mais escondidas para que ele seguisse sua sina de relâmpago.  Depois parava bruscamente, bebia sua água com sofreguidão e vinha manso descansar ao meu lado.
Talvez por seu reino se limitar às fronteiras do quintal, Tipe se tornou uma fera com estranhos.  Se era amoroso e cheio de dengos para com os da casa, com os de fora – exceto com a Jô, Dona Délia e sua neta Marcinha e, lógico, com a Tita, por quem Tipe morria de amores -, ele se transformava mesmo em Tigre Negro, rosnava com força e, se pudesse, partia para o ataque.
Seus alvos preferidos eram os meus amigos que vinham para brincar ou jogar bola no pátio: talvez achasse que eles queriam machucar o seu querido parceiro.  Nesses dias, Tipe latia furiosamente e sem trégua, e quase se esgoelava com a cabeça entre as grades do portãozinho. Meu pai chegou a colocar uma tela e alguns arames grossos para ele não se machucar ou ficar entalado, mas para infelicidade dos meus amigos, Tipe, de tanto chacoalhar o portão, acabava por abrir o trinco e disparava feito um raio louco pra cima dos meninos.
Um dia ele foi direto na canela do Genival: não machucou muito, mas fez terminar o  futebol daquela tarde e quase acabou com a amizade também. Mas quando o Tipe foi pra cima do Nando, a coisa ficou feia pro lado do meu cachorro. A sorte é que, goleiro voador que era, Nando deu três pulos altos e livrou sua canela saltando pra cima da mesa da copa.  E enquanto eu prendia o Tipe de novo, balançando no ar uma folha de espada-de-são-jorge (uma das poucas coisas que o Tipe temia, embora nunca tenha apanhado), meu pai foi tirar o Nando de cima da mesa.
Depois daquele susto, ficou decidido: enquanto meus amigos estivessem em casa, Tipe ficaria preso no quartinho dos fundos.  Mas para que meu amigo ficasse mais à vontade durante seu desterro, meu pai serrou a porta do quartinho ao meio e colocou um trinquinho na parte de baixo, deixando a metade de cima aberta para o ar, para o som e para o sol.
Jogando bola com a molecada, eu ouvia ao longe os latidos incansáveis e ferozes do Tigre Negro.  E quando os meninos iam embora, lá ia eu libertar meu amigo.  Que pulava em mim afoito, parecendo conferir se aqueles intrusos tinham me machucado.  Cheio de remorso eu abraçava meu amigo, enchia seu potinho de água fresca e me sentava ao seu lado, conversando com ele, perguntando por que era tão bravo.  E ele, Tipe renascido, já despido do temível Tigre Negro, se aninhava tranquilo por me ver seguro de novo.
Ele e seu parceiro, mais uma vez, tinham conseguido escapar de todos os perigos do Universo.

***
Além de ter sido um amado professor de Educação Física e um lendário técnico de basquete e vôlei, tio Sebastião Simões nunca deixou para o dia seguinte o que podia fazer no anterior. Talvez por isso, assim que se viu preocupado com minha coluna de 16 anos moldada pela miopia, ele resolveu construir uma barra fixa para eu me exercitar em casa. 
Para sustentar o cano de ferro da barra, tio Sebastião cavou dois buracos na parte cimentada do quintal e em cada um deles ergueu os enormes batentes de uma antiga porta que estavam encostados no ranchinho. Por fim, para deixar tudo bem seguro, construiu em volta da base daquelas colunas de madeira (já furadas no alto para receber o cano de ferro), dois “caixotes” de concreto.
De dentro do quartinho, enquanto tio Sebastião suava com suas ferramentas no quintal, Tipe  latia, só que sem muito entusiasmo. Mas só depois que a obra ficou pronta e tio Sebastião foi embora, que eu percebi que meu cachorro não estava muito bem: assim que foi solto, andando pelo quintal, Tipe trombou com a base da barra. Ele estava praticamente cego.
Não demorou muito, sua visão se perdeu totalmente, a barriga ficou inchada e dura, e ele entristeceu-se todo.  Só ficou a ternura. 
Numa tarde de sábado, minha mãe ligou para um ex-aluno que era veterinário. Ele veio, examinou o Tipe, balançou a cabeça e aplicou uma injeção para amainar suas dores.  E no dia seguinte, de manhã, as dores se foram todas. Menos a da tristeza, que se instalou sem prazo para ir embora: Tipe fechou os olhos sem que meus dedos precisassem passear por seu focinho.
Como meu pai estava em Ribeirão Preto, na casa da Ester, minha irmã Raquel convenceu seu namorado a cavar um buraco bem profundo perto do pé de caqui para enterrar o Tipe.  Eu despreguei uma das tábuas de uma caixa (do tipo usado para vender cachos de uva), peguei uma lente de aumento e fui pacientemente direcionando a luz do sol para queimar, feito um pirógrafo, a madeira macia. E ponto por ponto, fui gravando letras e números naquela lápide de pau, fogo e lágrima: “TIGRE NEGRO (TIPE) - 09/01/1979 - ...”.  A data da partida também estava lá na placa, mas agora não me lembro mais. Me esforço, faço contas e associações, mas o choro que embebedou aquele pedaço de madeira, apagou tudo. O ano talvez seja 1986 ou 1987 ou 1988, mas o dia e o mês se perderam em meio a todas as chuvas de céu e de olhos, assim como se desintegrou aquela tábua que tinha sido queimada pela dor e pelos raios do sol.
Meu pai, quando voltou de Ribeirão, para aplacar sua tristeza, plantou margaridas bem na área onde a terra ainda úmida abrigava meu amigo. E como a tristeza talvez fosse muita, nas bordas dos três canteiros do quintal, ele cultivou mais das mesmas flores, contornando aquele canto do mundo de branco, amarelo, verde e do silêncio de um Tigre Negro.
Até que eu girei a chave da porta da entrada de casa e, vindo lá de dentro, o latido vigilante de Tipe escorou-se em mim.  Mas quando entrei, nem era do Tipe a voz agora estancada: quem me olhava fundo nos olhos e corria para o tapete da sala de um apartamento, se esticando toda para um agrado, de barriga para cima, era a cadelinha malhada Nina.  Sem mesmo tirar o paletó, me agachei ligeiro para que as minhas mãos de menino se desdobrassem em mil e um afagos.  Mas aquele menino nem era eu.
Eu continuava de pé, no meio da sala daquele apartamento, vendo meu filho de capa e coragem, voando pelos séculos ao lado de sua parceira tigrada.
Os dois prontos para derrotar todos os vilões da galáxia.

Ilustrações: Erasmo Spadotto e Maria Luziano – cedidas pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 e 28/8 e 11 e 25/9/2016



Fantasia de Maria

(caio silveira ramos)

Maria tem três anos e pouco. A pele morena e o cabelo escuro (que usa até os ombros) ela ganhou de Bangladesh.  E a fendinha que tem no arrebito do nariz ela copiou de sua mãe, que é paulista-pernambucana-italiana-etc-e-o-mundo.
Mas o sorriso, que ela estende pela rua quando vê a gente lá de longe, é só dela.  O olhar espremidinho de alegria, que não traz o azul da mãe, também é só dela. E os braços abertos, vindo, vindo, para trazer no abraço profundo aquele sorriso estendido e os olhos espremidinhos, também é apenas dela.
Pois a diretora da escolinha chamou a mãe da Maria para uma reunião. E lá foi, toda preocupada, a mãe da Maria. Com ares graves e sérios, diretora e professora disseram para a mãe da Maria não incentivar muito a imaginação da pequena, que deveria ser prontamente introduzida nas realidades do mundo com mais firmeza e menos fantasia.
A mãe da Maria suspirou aliviada, ficou um tanto constrangida pelo pensamento das duas pedagogas, mas não retrucou, nem sorriu irônica, pois não é do seu feitio desdenhar de ninguém.  Talvez se ela não tivesse tanta imaginação e não incentivasse tanto a fantasia da Maria, ela desdenhasse. 
Como as duas senhoras não explicitaram muito bem as situações fantasiosas da Maria, a mãe da Maria tentou imaginar, embora já suspeitasse, o que tanto sua filha andava matutando para que a direção da escola praticamente a pintasse voando pelos ares.
Pois ela não contava histórias para a Maria todos os dias? Não se misturavam na hora de dormir os contos de Daniel Munduruku com os dos irmãos Grimm? Não era ela mesma quem levava a Maria a peças de teatro e brincava que ela não era a mamãe, mas o lobo da Chapeuzinho-Maria, e as duas riam, riam de quase pular de soluço?
Por isso Maria sempre quis o lobo. E o jacaré. E o jabuti. E a onça. O macaco, o coelho e o Riquete Topetudo. Mas na escola talvez não conheçam histórias desses personagens e, não contem a ninguém: suspeito que pensam que tudo deve ser apenas fantasia da Maria e da mãe da Maria. 
Mas a escola toda conhece a princesa Elsa, da super-produção Frozen, da Disney. Os vestidos da Elsa. A cabeleira quase prateada de Elsa e sua trança idem.
E é tão lindo ver todas as meninas no intervalo cantando “Let it go”. É tão emocionante ver as meninas se fantasiando de Elsa ou de qualquer outra princesa.  Pois essa fantasia pode: essa está na moda. Na escola, na noite do pijama, nas sextas-feiras, nas brincadeiras no intervalo, na saída do “jardinzinho”, os adultos se desmancham ao verem suas meninas incorporarem as mais belas princesas dos desenhos.
E embora cantem “livre estou, livre estou”, o que fica dos contos de fadas para as crianças não é o enredo fabuloso, nem o chamado empoderamento feminino que teria vindo com as princesas Elsa, Valente e a Aurora de “Malévola”, que em seus filmes não encontram mais em príncipes encantados o amor verdadeiro. O que fica é apenas a fantasia. Mas não a fantasia da Maria, não a fantasia do sonhar, do encantamento, mas sim, a fantasia de, literalmente, apenas vestir roupa e cabelo. Essa fantasia é importante também, mas às vezes se perde na superfície do lago, deixando só a imagem no espelho.
Mas os “ligados na realidade” querem mais é a imagem chapada desse espelho sem fundo e se orgulham de suas meninas metidas debaixo de desengonçadas perucas platinadas de uma Elsa esvaziada.  Ou se gabam de suas pequenas imitando as coreografas de músicas que tratam de “poderosas” e “recalcadas”, mas que muitas vezes apenas reduzem meninas e mulheres a velhos estereótipos machistas. Esse é o “mundo real” onde as palavras “liberdade”, “fantasia” e “poder” se transformam em sapo e viram meras figuras retóricas.
Maria dança na roda de mãos dadas com as amiguinhas. Sorri, abraça, pinta, borda e brinca. Assiste ao “Sítio do Picapau Amarelo” e bate palmas ao ver a Menina do Nariz “Arrebentado”. Os olhos da Maria são vivos, ligados. A realidade não lhe escapa. O que ela teria feito?  Teria tentado voar do brinquedão da escola pensando ser a fada Sininho e acabara se estabacando no chão?  Teria se frustrado quando o amiguinho beijado no rosto não virara um sapo-boi? Ou se espantara por ter feito salacadula num boneco de madeira e ele permanecera apenas um boneco da madeira (porém falante)?
Depois de muito fuçar, a mãe da Maria descobriu a “excessiva fantasia”: durante a semana em que ela ficara de férias, sua filha, quando chegava à porta da escola, não queria entrar: dizia que lá dentro estava o lobo e que era melhor ficar em casa, cuidando das suas bonecas.  Estranhamente, o lobo sumiu da escola quando a mãe da Maria voltou a trabalhar.
É que talvez a fantasia da Maria seja muito poderosa: com um simples passe de mágica ela consegue fazer sumir o lobo mau.
Ou transformar adultos em abóboras recheadas de vento.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 31/7/2016



sexta-feira, 29 de julho de 2016

O sopro do lobo

(caio silveira ramos)

Ela tinha 54 anos, fazia faxina e se encantou com nosso menino. Virava e mexia, ela aparecia com um bolo, uma roupinha, um brinquedo. E enchia os olhos de alegria ao ver o pequeno batendo palmas e correndo para lhe dar um beijo na bochecha.
Naquele dia, ela chegou com três porquinhos abraçados, que compunham uma única peça de plástico e se assemelhavam, nos focinhos e na roupagem, aos do desenho famoso dos Estúdios Disney.  Pra completar, nas costas do porquinho do meio havia um pequeno botão que, acionado, chiava no ar o refrão “Quem tem medo do lobo mau?”. Quando ouviu, o menino quase virou cambota de contentamento. Ela, no entanto, me perguntou o que é que os porquinhos estavam cantando.  Estranhei, mas debitei na conta da desaparelhagem sonora do brinquedo.
Sob o olhar dos dois, dei para desenrolar a história ali mesmo no chão da sala: era uma vez três porquinhos etc e tal.  Quando cheguei na parte da construção das moradas, enquanto o menino se preparava para se metamorfosear em lobo e soprar todos os ventos (conhecedor já de pedaços da história), pedi a cumplicidade dela para enflorecer o conto:
“O primeiro porquinho fez uma casa de...de... Do que mesmo, Ná?”
Ela sorriu estranhada:
“ ‘Uma casa de quê?’ Não sei. Os porquinhos são de uma história, é?”
Disfarcei o embaraço e engatei no conto, retirando do ar casas de palha, madeira e tijolos. E lobos, ameaças, sopros, bufos, peles de carneiro, chaminés e caldeirões fumegantes. Ela e o menino se encantaram. Mas eu fiquei, pelo resto do dia, espiando atônito pelo buraco da fechadura o lobo que também me espiava do outro lado da porta.
Desde que o inglês James Orchard Halliwell e o australiano Joseph Jacobs publicaram no século XIX suas versões de “A história dos três porquinhos”, que pertencia à cultura popular inglesa, muitos ventos sopraram: em 1933, Walt Disney espalhou o conto pelo mundo com seu curta-metragem de animação “The three little pigs”, embalado pela canção de Frank Churchill, “Quem tem medo do lobo mau?”.  Daí em diante, a história ganhou centenas de versões nas mais diversas línguas, quase sempre tomando por base o premiado curta americano: novos desenhos para cinema e televisão, paródias, quadrinhos, jogos, livros (dos mais diversos formatos, tamanhos e materiais), discos, brinquedos, fantoches e bonecos espalharam pelos quatro cantos do planeta o enredo, os porquinhos (com seus instrumentos, roupas e casas), a canção, a fala do lobo, o sopro do lobo e a fome do lobo, tudo à moda de Disney.  Nas versões impressas e sonoras até os nomes dos porquinhos (Heitor, Cícero e Prático) se popularizaram, embora Braguinha, ao contar a história para a “Coleção Disquinho”, da Continental, mesmo que baseado também na versão de Disney e na canção de Frank Churchill, tenha nomeado os três de Bolinha, Bolota e Bolão.
De qualquer forma, eu tinha certeza: essas informações pouco importavam para adultos e crianças de todo o planeta. Para eles, bastaria um simples assobio de um trecho de “Quem tem medo do lobo mau?” ou um esboço distraidamente rabiscado em um pedaço de papel (e que de alguma forma lembrasse três porquinhos ou três casinhas singelas), para que se lembrassem da história e começassem a soprar o mundo.
Até que uma mulher de 54 anos soprou também. Soprou qualquer certeza para longe.
E tudo voou pelo ar.

***

“A história dos três porquinhos” me parecia tão enraizada na cultura de todas as gentes que, quando aquela mulher de 54 anos e coração generoso disse desconhecer completamente o conto, o canto e os personagens, me espantei. E meu espanto me embaralhou pelo resto do dia.
Depois dei para pensar se aquele espanto diante do desconhecimento alheio não era uma visão turvada pela minha ignorância, fruto de um eurocentrismo esnobe e de uma disneycultura mergulhada em mim até os ossos.
Não, talvez eu estivesse exagerando. Ana Maria Machado escreveu na sua “Apresentação” para os “Contos de Fada” (ed. Zahar, 2010), que as histórias de Perrault, irmãos Grimm, Andersen e outros “fazem parte de um patrimônio comum de todos nós, um tesouro que a humanidade vem preservando pelos tempos afora”. E que “cada um de nós tem direito a um quinhão dele”.  E vai mais além ao afirmar que o historiador José Murilo de Carvalho “confirmou o que as Histórias de Tia Nastácia (de Monteiro Lobato) ou as Histórias da Velha Totonha (de José Lins do Rego) já apontavam: o repertório de contos maravilhosos narrados por escravos e seus descendentes em fazendas no século XIX e início do XX era europeu, filtrado pela linguagem e habilidade narrativa africanas – um importante capítulo de nossa formação cultural”.
De qualquer maneira, embora os três porquinhos e o lobo já tenham ultrapassado o folclore inglês e os produtos da Disney, e sejam hoje um verdadeiro “fenômeno pop” – tanto que o brinquedo sonoro representando os personagens dado ao meu filho por sua admiradora fora comprado num camelô da rua Silva Bueno –, é claro que existem crianças e adultos, dos mais diferentes grupos espalhados pelo planeta, que desconhecem totalmente a tal história. E conhecem muitas e muitas outras, tão ricas e interessantes quanto. Lendas e cantos que falam das Histórias de cada povo, com seus sonhos, sua geografia e sua própria cultura.
Quantas e quantas narrações fantásticas das mais diversas raças e etnias que formaram e formam o Brasil são desconhecidas dos nossos currículos e das nossas vidas, e infelizmente não fazem parte dos nossos sonhos e dos sonhos de tantas crianças do País. Merecemos essas histórias, assim como todos, todos, merecem os contos de Perrault, Grimm, Andersen e Jacobs. Antropofagicamente deglutidos ou não.
Mas naquele meu espanto diante do desconhecimento de “Os três porquinhos” havia mais do que a minha ignorância e a simples constatação de que, qualquer que fosse a forma, os personagens já tinham mergulhado, não na barriga do lobo, mas no mais profundo imaginário popular.   
Meu espanto era a surpresa diante de uma infância pilhada.
Aquela mulher de 54 anos não trazia a história dos três porquinhos, como também não trazia, da fazenda de cacau em que tinha nascido e passado boa parte da sua meninice, qualquer história inventada ou lenda soprada pelos mais antigos.  A história de infância que ela trazia era a dela mesma: uma história difusa, em que o trabalho na lavoura desde muito cedo parecia engolir suas mais remotas lembranças.  Em que a mesquinhez do dono da fazenda, a brutalidade do pai e dos parentes, e a resignação da mãe lhe tinham roubado qualquer possibilidade de criação do imaginário de sua própria infância.  Vassoura de bruxa? Para ela era simplesmente uma terrível praga que devastava a lavoura de cacau e que tinha provocado o êxodo de sua família de uma terra que de fato nunca fora sua.
Hoje, suas canções de embalar os filhos e os netos são músicas românticas ou religiosas ouvidas do rádio de agora e não as dos braços que um dia, ainda que pouco, a tomaram no colo. As histórias que gosta de contar são as que assiste nos programas policiais da TV, que parecem oferecer o vislumbre de vidas ainda mais trágicas que a sua, marcada pela violência que lhe comeu a infância e que devora sua paisagem diária.
E, ainda que com muito sacrifício sua casa seja feita de tijolos, o lobo está ali fora.
E continua à espreita.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 3 e 17/7/2016

Manchas

(caio silveira ramos)

“Então você é sobrinho do João Fazendinha, hein?”
Percebi que aquele homem se referia a meu tio João, irmão mais velho da minha mãe.  Mas não entendi a razão do apelido. E me incomodou a graça que ele pôs na boca para fazer a pergunta. Olhei para minha mãe, mas foi ele quem continuou:
“Seu tio se gabava tanto da tal fazenda no alto da Serra de Brotas e floreava tanto as histórias que ele teria vivido por lá, que não tinha como a gente não cutucar com o apelido... Mas tem um coração imenso e é desde menino um excelente amigo”.
Tio João sempre me pareceu a ovelha diferente de uma família que nunca deixou de levar suas contas com sacrificada rédea curta e na ponta do lápis.  Cheio de ideias para novos negócios, recheava sua certeza de que o próximo plano finalmente “arrebentaria a boca do balão” com uma imaginação profundamente fértil, um olhar de Detetive Columbo e uma lábia que fazia derreter qualquer desavisado do outro lado da linha telefônica: “boa tarde, senhorita, quem fala aqui é o Dr. Mello...”  A tal fala adquiria ares de ainda maior confiabilidade quando ele caprichava no carregado sotaque caipiracicabano nunca perdido.   Me lembro de uma viagem até a Serra de Brotas, quando ele, tia Maria da Glória e eu procurávamos a exata localização da fazenda lendária. Ao avistar a touceira de uma planta que lhe indicaria o ponto exato da antiga porteira da “Nossa Senhora da Glória”, tio João se entusiasmou e desprendeu o sotaque de dentro da alma: “Pára o carro, Maria! É aqui!! Olha o vetiver!!”  Mas ele nem precisava descer do carro e me fazer sentir o cheiro da planta.  Aquele “vetiver” dele saiu com todos os “ês” e “erres” a que tinha direito. E muitos outros mais e além.  O “vetiver” falado por tio João já vinha perfumado e recriava a extinta fazenda diante dos meus olhos e do meu espanto.
De negócio em negócio, com reviravoltas e mais reviravoltas de sua vida, foi morar em Goiás e de lá me trouxe um arco e flecha que teria recebido de presente de legítimos índios guerreiros de uma tribo perdida.  Eu amava a história de Robin Hood e quando tio João me viu esticando um elástico entre as pontas de um cabide de madeira quebrado, me prometeu que na próxima volta, traria a arma do meu herói. E caprichando no sotaque, emendou: “você vai ver que quem verga não é a corda. É o arco”. E não é que era verdade mesmo?
Por causa de suas histórias, de um “sempre novo” negócio que finalmente arrebentaria a boca do balão, daquele arco e flecha, e de um fone de ouvido que já vinha com um radinho de pilha AM/FM embutido, dei pra sonhar com outros presentes.   Presentes nunca pedidos nem mesmo em pensamento. Presentes timidamente paquerados no fundo da imaginação silenciosa.
Seria assim: um dia, do nada, tio João apareceria com um Autorama, que eu montaria no “quarto do piano” para disputar corridas com todos os meus amigos até a hora da janta.  Noutro sonho, meu tio chegaria com um “Telejogo” (“exclusividade Mappin!”), para que eu me tornasse o rei do paredão, do tênis e do futebol, simplesmente girando um botão.  Já mais velho, dei para imaginar que entregariam na porta de casa um pacote enorme, enviado logicamente por tio João. E de lá de dentro, roncaria o motor de uma Mobilete que me levaria pra passear tranquilo no quintal, enquanto meus dezoito anos não chegassem me convidando pra dar voltas pelas ruas da cidade.
Suspeito que, se meu pensamento tivesse a cara de pau de sobrevoar os sonhos do tio João, ele teria feito alguma loucura para satisfazer meus desvarios.  Mas hoje vejo que ele foi muito além disso.
Para encortinar uma tristeza desmedida, tio João desanuviou uma história inteira.


***

A tristeza chegou desmedida, mas talvez nem fosse o caso. É que quando se tem 11, 12 anos, o mundo sonhado é grande demais. E qualquer esbarrão que atrapalhe o sonho se transforma numa entrada desleal e violenta do adversário, fazendo o jogador sair de maca rolando de dor e pedindo o colo da mãe.
A minha tristeza nascia de uma prova de Matemática que eu tinha feito naquela manhã e colocado, todo confiante, na mesa do professor. Mas a confiança foi parar na sola do pé assim que cruzei a porta da sala de aula: de repente me dei conta de um erro terrível.   Terrível porque eu sabia a matéria e tinha me distraído com um detalhe muito simples, mas que comprometia quase toda a prova. Pensei em voltar e implorar ao professor que me deixasse corrigir a distração. Mas sabia que aquilo era impossível. E segui em frente com a alma dilacerada e o orgulho ferido.  Exagero? Podia ser.
No almoço, meu garfo redesenhava a comida no prato, mas não queria chegar até a boca.  Com um nó na garganta e a cabeça baixa, nem percebi que tio João, que passava uns dias lá em casa, puxou a cadeira para se sentar ao meu lado. Usando uma roupa que eu achava que o nome era “safári” (mas descobri depois que o correto era “slack”), ele pousou sua mão no meu ombro e me perguntou qual era a causa da tristeza. Expliquei, ainda de cabeça baixa, a situação e ele me disse que tudo passaria. E em breve eu esqueceria o problema e a tristeza: “a vida dá muitas voltas. Veja eu, por exemplo...” E me contou que, certa vez, o avião em que estava viajando tinha caído. Era um avião pequeno, com poucos passageiros, o acidente tinha sido feio. Mas ele tinha sobrevivido.
Levantei a cabeça surpreso: diante daquela situação meu problema parecia ter corrido para o ralo mais próximo. Mas devo ter feito certo ar de descrença, pois ele emendou outra história:
“Tinha uma menina na minha escola: ela era a mais linda do mundo.Tudo nela era perfeito: os cabelos, os olhos, o sorriso. A roupa era a mais bonita e bem cuidada. O seu andar era o mais perfumado.  E ainda ela tinha o mais belo caderno de recordações que eu já tinha visto: a capa de couro, adornada nos cantos com plaquetas de metal dourado, mostrava uma paisagem pintada por algum grande artista, onde se destacava uma linda menina: a gravura parecia ter sido feita para ela. Inspirada nela. Havia ainda uma fechadura delicada que só podia ser aberta por uma chave de ouro presa numa corrente finíssima também de ouro.  Por dentro, o livro era ainda mais bonito: cada página, costurada à mão ao volume, abrigava uma moldura tecida com filetes dourados.  Em cada uma, letras caprichadas, às vezes acompanhadas por desenhos belíssimos, revelavam os textos mais doces e carinhosos dedicados à menina. Para minha surpresa, certo dia ela chegou perto de mim e com a voz mais suave do mundo pediu: ‘João Baptista, você poderia escrever no meu livro de recordações? Você tem tantas ideias, é tão criativo! E ainda tem a letra mais linda que eu conheço.  Escreve para mim, por favor!’”
O jovem João, sempre confiante e seguro, daquela vez se encabulou e derreteu: no livro, só pessoas muito especiais tinham deixado suas recordações: as três melhores amigas, a irmã, a mãe, a madrinha e uma tia querida. Homens, apenas dois: o pai e um primo mais velho e galante.  João tentou se recuperar do susto, construiu seu olhar mais charmoso e aceitou o convite. A menina entregou-lhe o livro, deu um beijinho no seu rosto e partiu ofertando seu sorriso encantado para o mundo.
Em casa, João se acomodou diante da escrivaninha do pai, endireitou o corpo, pigarreou solenemente três vezes, abriu o livro na página que receberia seu texto, esticou os braços e finalmente pegou a caneta para mergulhar no tinteiro.
Mas talvez emocionada, sua mão esbarrou no tal tinteiro e o derrubou.
E sem dó, ele desaguou quase todo seu azul na página branca e desavisada.

***
Quando tio João contou sobre o tinteiro se derramando na página do livro de recordações, esqueci minha tristeza e fiquei paralisado, de queixo caído.
A sorte é que no pretérito quase perfeito o jovem João agiu rápido, ergueu o livro, virou-o aberto para baixo e isolou a folha manchada para que a tinta não se espalhasse pelas outras páginas. 
A seguir, pegou uma tira de mata-borrão e a colocou atrás da tal folha. Por fim, com mais calma, repousou o livro novamente sobre a mesa e foi tentando secar a mancha, dessa vez com a ajuda do “berço” de madeira para aplicar o mata-borrão.  Com um pano, conseguiu limpar algumas poucas gotas que tinham respingado na beirada da capa de couro e na escrivaninha do pai. Então, quase refeito, olhou desanimado para o estado da arte.
Folheando rapidamente o livro, tudo parecia perfeito: as páginas, seus escritos e desenhos caprichados continuavam lá, rendendo as mais delicadas homenagens à menina bonita. Mas de repente, os olhos se desmoronavam quando encontravam aquela única página com sua enorme mancha azul, que preenchia quase todo espaço emoldurado pelos filetes dourados.  João tentou pensar pelo lado bom: as outras folhas estavam intactas. E até o verso da manchada não revelava muito o oceano azul.
No outro dia, na escola, a menina se aproximou doce e esperançosa: “Joãozinho, querido, o que você escreveu para mim?” João escondeu o quase desespero atrás do seu sorriso mais sedutor e, vestindo-se de confiança, respondeu: “Ainda não ficou pronto: estou preparando algo muito especial para você...”
Mas à noite, escondido dos pais e dos irmãos, João olhou desconsolado para o infinito azul. Já seco, mas profundamente azul. 
Como não dava para apagar a mancha, pensou até em arrancar a página. Mas logo percebeu que isso era impossível: além de se deparar com um minúsculo sinal dourado no pé de cada folha – as páginas eram numeradas! –, notou que todas eram cuidadosamente costuradas umas as outras: a retirada de uma delas não só poderia comprometer a beleza do livro, como não daria sequer para imaginar o que aconteceria com o conjunto todo.  Porém, João imaginou. Imaginou todas as folhas se desprendendo da lombada: páginas de declarações voando pela janela. O livro se desmanchando junto com os olhos da menina.
Outro dia clareou e, mais uma vez, lá foi João de cabeça baixa e mãos vazias para a escola. No recreio, ela apareceu como o sol:
“Escreveu, João?”
E no outro dia:
“Você trouxe meu livro João Baptista?” (Ela fez questão de pronunciar o “pê” mesmo que mudo).
Mais um dia. E ela veio de novo. Mas ao contrário do que João esperava, chegou desarmada:
“João, eu sei que você está caprichando, mas será que poderia trazer meu livro amanhã? Minha prima do Rio vai passar só este final de semana em casa e eu queria muito que ela escrevesse para mim também...”
Não tinha mais jeito. Precisava ser naquela sexta-feira.
Tio João olhou para mim e sorriu:
“Então, depois de uma noite sem sono, fui para escola e, antes de começar a aula, caminhei firme e entreguei o livro pra ela: ‘Não abra agora, por favor. No recreio você me diz o que achou.’ Esperei ansioso o intervalo e assim que tocou o sinal ela veio na minha direção. Veio séria, olhando para mim. Por um instante tremi, mas não abaixei a cabeça.  Ela chegou, me deu um beijo muito terno no rosto. Depois sorriu: ‘Joãozinho, é a coisa mais linda que eu já recebi na vida. Nunca vou esquecer você. Obrigada.’ E saiu, com a lágrima pendurada em algum canto do mundo, me deixando apenas o sorriso. O sorriso que palmilhou o meu destino.”
Fiquei ali, esperando que ele reabrisse o livro. Que ele me dissesse logo o que a menina tinha visto.
Então ele me revelou todos os mistérios do oceano.

***

Mas antes de revelar todos aqueles mistérios, tio João guardou suspense e me olhou de canto, com seu sorriso malandreado número 85,4 (talvez o mesmo sorriso de um menino que fazia tranças nas crinas dos cavalos e no dia seguinte punha a arte na conta do saci).  Só que eu continuei sem voz, sem um respiro, esperando que o passado me invadisse. E no meu silêncio, o oceano se revelou:
“No canto, no único espaço não coberto pela tinta azul dentro da moldura dourada, eu escrevi: QUE ESSA SEJA A ÚNICA PÁGINA MANCHADA DE SUA VIDA. COM CARINHO, JOÃO BAPTISTA”.
Tio João me sorriu seu sorriso malandreado número 94,3.  E eu devolvi o meu, encabulado e surpreso. E me esqueci da prova de Matemática. E me esqueci de qualquer tristeza.
Mas passados tantos anos, ainda me pergunto se toda aquela história seria verdadeira. 
Teria realmente a menina recebido tão bem aquela mancha em seu caderno precioso, mesmo que acompanhada por uma frase inspirada?  Ela teria convivido com aquele oceano azul ressacando com tanta violência suas lembranças?
E de tanto pensar, chego a duvidar da existência da menina. Da existência do caderno. E do pedido. E da mancha. Do beijo. De toda historia, enfim.
Verdadeiro ou não, aquele relato me consola e me enche de fascínio: se não é real, mostra o inegável talento de tio João para contar histórias e enganar os desenganos.
Muitas vezes, reencontro aquele enredo pelos caminhos tortuosos. Então, vislumbro possibilidades de corrigir erros e endireitar estradas.  Até consigo reconstruir trilhas que pareciam perdidas para sempre.  E acho que tio João também.  Tanto, que já passou dos 90 anos e continua forte, com seus muitos sorrisos. E suas muitas histórias.
E eu também: sigo imaginando e historiando:
Imagino um apartamento num andar alto de um prédio.  Imagino um quarto. E uma janela. E naquela janela, uma mulher, com seus 92 anos, que olha a cidade grande se espalhando feroz pelas ruas cinzentas.
A mulher deixa a janela. Escuta seus bisnetos brincando na sala, mas não presta atenção.  Ela agora olha para seu quarto: a cama arrumada, um quadro na parede, o criado-mudo, uma gaveta. Ela abre a gaveta.  Debaixo de alguns papéis e de um cartão com um desenho infantil e a frase “para a vovó, com amor”, ela retira um velho caderno. Mas não é um caderno comum: a capa de couro, adornada nos cantos com plaquetas de metal dourado, mostra uma paisagem pintada por algum grande artista, onde se destaca uma linda menina. Há ainda uma fechadura delicada que só pode ser aberta por uma chave de ouro presa numa corrente finíssima também de ouro.  Por dentro, o livro é ainda mais bonito: cada página, costurada à mão ao volume, possui uma moldura tecida com filetes dourados.  Em cada uma, letras caprichadas, às vezes acompanhadas por desenhos, revelam textos doces e carinhosos dedicados a alguém.  De repente, uma enorme mancha azul, um tanto desbotada, invade os olhos da mulher.  Ela afaga a página, a mancha e uma pequena frase escrita com letra caprichada num dos cantos da moldura dourada.  Depois, volta a guardar o livro na gaveta do criado-mudo, bem debaixo dos papéis e do cartão “para a vovó, com amor”.  As crianças brincam na sala, enquanto a mulher leva seus 92 anos para janela da cidade grande que continua se espalhando feroz pelas ruas cinzentas.
Tudo se resolve.
Tudo.
Talvez menos a saudade acabrunhando a alma.
E o amor querido, mas não realizado. 


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 8 e 23/5 e  6 a 20/6/2016