sexta-feira, 13 de julho de 2018

Cheguei numa Sexta-Feira Santa


(caio silveira ramos)

Cheguei numa Sexta-Feira Santa.
Não ao mundo, que isso foi na Quarta-Feira.
Cheguei em casa (“em” mesmo, que chegar “a casa” seria muito pouco acolhedor) numa Sexta-Feira Santa.  A velha casa. A casa da mãe, do pai, das irmãs, da infância. Cheguei em casa que, no fundo, no fundo, é chegar ao mundo também.
Dizem que estavam as três meninas sentadas na escada de madeiras largas do saguão da entrada, lugar do mais alto pé direito da casa. Ali, entre a porta da rua e a do corredor que dá para a sala.
As três meninas, oito, seis e quatro anos.  As três irmãs sentadas no mesmo degrau, uma ao lado da outra.  Quel, a mais nova, devia estar com uma blusinha de manga comprida e uma calça confortável. Ruthinha, a do meio, de vestidinho branco de algodão bem macio. Teca, a mais velha, de blusa de frio com decote em “v” e calça de brim azul. As três quietas e tentando enxergar, através dos quadrados de vidro trabalhado da porta que dava para a rua, se alguém estava chegando.  Se alguém estava passando.  O trá-trá-trá do caminhão de lixo e o fluplam-flupam-flupam dos lixeiros em correria, jogando o conteúdo das latas quadradas de óleo no tal caminhão antes de devolvê-las às calçadas? O lefe-lefe da correspondência passada por baixo da porta pelo carteiro de boné amarelo-claro? O poque-poque do cavalinho da carroça do seu João Verdureiro? O troque-troque da roda do carrinho do seu Doceiro? “Não, não, Quel, hoje é feriado. Não tem lixeiro, carteiro, verdureiro, nem doceiro.”
“Eu queria só seu Doceiro. Tô com fome. Será que vai demorar ainda?”
“Olha, olha, acho que estão chegando... Não, foi só alguém andando até o ponto de ônibus”.
“Mas hoje não é feriado? Tem ônibus?”
“Claro que tem.”
“Tô com fome.”
“Eu quero conhecer logo meu irmãozinho...”
“Vocês querem fazer silêncio? Não pode ficar falando! Hoje é dia que Jesus morreu!”
“Jesus morreu hoje?”
“Não foi bem hoje, mas é como se fosse...”
“Ele morreu, então? Ah, não!”
“Parem de choramingar. Vocês são muito crianças mesmo! Não entendem nada.”
“E você não é criança também?”
“Olha, olha, olha, acho que chegaram...”
Mas era só mais alguém passando.
Às vezes penso que aquele momento ainda está ali: elas esperando, esperando até hoje, sentadinhas, fazendo psiu com os dedinhos indicadores na boca: silêncio porque é o dia que Jesus morreu.
Não me vejo chegando, a casa desperta, as três em volta da mãe espiando o bebê no colo e dizendo palavras enternuradas. Vejo-as ali na escada esperando.  Ou depois: as lembranças palpáveis daquele dia ou dos seguintes: o berço montado novamente com seu colchãozinho de palha. A pulseira de identificação do hospital. A cesta de plástico verde com bolinhas brancas para guardar produtos de higiene. Um sem fim de babadores coloridos dados por alunas, vizinhas e amigas da mãe.  Um quadrinho pintado por tia Clemência com um anjo alto abençoando um bebê loiro.
Não me vejo atravessando a porta, as meninas se encantando.
Mas disseram e eu acredito:
Cheguei numa Sexta-Feira da Paixão.










Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 20/5/2018

Três personagens e um quase autor


(caio silveira ramos)

Não há ninguém desinteressante.
No fundo da alma do ser aparentemente mais insosso, um mundo se revolve.  Mesmo quem atravessa a vida inteira no sossego e na pacatez, em algum momento perdido, um fato ou um ato acabam por deixar um sinal certeiro. E um romance todo pode ser escrito em vinte volumes.
Mas há aqueles que vão além: um simples apelido ou até um jeito peculiar de ser constroem personagens completos.  Prontos. Como são os casos de Galo Cego, Mirtica e Trevisan.
Quem me falou do Galo Cego foi o Zé Borges: eles moraram no mesmo bairro quando crianças.  Bom, talvez só o Zé fosse criança, porque o Galo Cego já usava barba rala, camisa aberta no peito castigado pelo sol e a corrente de metal barato no pescoço.  Pelo menos é assim que eu imagino o Galo Cego. Ou simplesmente o “Galo”, como diz o Zé Borges quando reconta as histórias perdidas do amigo.
Pois o Galo devia ser mais velho que sua turma. E acho que foi ele quem apresentou para a molecada do bairro os estabelecimentos comerciais mais fuleiros da cidade.
“Estabelecimentos comerciais”: assim o Zé Borges chama aqueles botecos com prateleiras altas, lotadas de cima a baixo com garrafas (milimetricamente arrumadas) da pinga mais sem-vergonha.  No balcão, sob o vidro já embaçado, deve ter um pratinho de azeitona ou de tremoços, um ovo colorido de 1943 e uma mosca já caduca.  Os mais sofisticados têm uma mesa de sinuca com tacos meio tortos e o pano, de um verde desbotado, cheio de marcas de giz.
Para mim, o Galo devia ser o rei daqueles estabelecimentos todos.  E das vielas, das esquinas, das noites espalhadas. Quando a meninada se deu conta, o Galo já tinha perdido uma vista. Imagino que fosse a vista esquerda, o que aprimorava sua mira, embora o Galo não usasse arma de fogo e preferisse acertar suas contas por meio de seu vernáculo burilado nas encruzilhadas.
Dizem as más línguas, que a vista se perdeu quando o Galo, trançando as pernas na madrugada, tropeçou na guia e feriu o olho num caco de garrafa. Mas para mim foi numa briga, defendendo uma moça que estava apanhando de um safado qualquer. O Galo chegou, intimou o sujeito, que largou o braço da garota e sorriu debochado, porque percebeu que um comparsa chegava pelas costas do herói com a navalha armada. O Galo ainda encheu a fuça do covarde, mas a navalha traíra riscou seu olho sem pena. Os bandidos apanharam, fugiram e nunca mais foram vistos. A moça se apaixonou pelo Galo que, pra tranquilizá-la, forjou no fundo da dor um “não foi nada, não foi nada”. Mas a vista se perdeu para sempre e o apelido arranhou sua alma como a navalha traiçoeira.
Galo Cego que, pelo que o Zé falou, “vivia de expedientes”, se meteu em muitas outras brigas. Por ele, pelos amigos, pelas mulheres. Mas foi ficando velho, a molecada pra quem ele ensinou a malandragem foi tomando rumo, arranjando emprego pra sobreviver, se aprumando, constituindo família, deixando o Galo sozinho nos estabelecimentos comerciais e nas brigas.
Muitas histórias contam do Galo. Algumas dizem que ele mesmo inventou, como aquela que vivia repetindo nos últimos tempos, se gabando: a de que tinha namorado, antes de ficar famosa, uma atriz da Globo nascida na cidade. O pessoal ria: “menos, Galo! Pega leve. Você não, né?”  É que quando o Galo começou a contar essa, a bebida vinha comendo bonito seu fígado e o sol castigando ainda mais sem dó sua pele enrugada.  Aliás, ele parecia mais velho do que de fato era.  Tossia, resmungava, tava ficando rabugento. Apanhando mais do que batendo.
Dizem que teve filhos, mas mesmo quando começou a capengar, parece que nenhum quis saber dele. Ele que, aliás, sempre morou com os pais.  Falaram que era bom filho, nunca os abandonou porque os dois tiveram ele tarde e sempre pareceram doentes.
A mãe enviuvou, o Galo deu uma sumida.  Num estabelecimento comercial qualquer, perguntaram dele durante uma conversa vadia. Alguém disse que tinha parado de beber, que tava cuidando da mãe e arranjara um emprego pesado para pagar os remédios dele e dela.
Mas o Zé Borges veio dizer outro dia “que soube por alguém que”, depois que a mãe partiu, o Galo degringolou de novo.  E agora tava, vai não vai, num hospital vagabundo qualquer, definhando, pele e osso.   No bairro, dizem até que ele já morreu.  “Coitado do Galo”, diz o Zé Borges. 
Zé Borges, que pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

Quem conhece bem o Mirtica é o tio Vavá, que na verdade não é meu tio, mas é tratado como se fosse.  De qualquer forma, não tem uma história contada pelo tio Vavá, nem uma conversa entre ele e seu irmão Roberto, o Brancão, que lá pelas tantas o Mirtica não apareça.  E como nunca tive o prazer de conhecer o Mirtica, para mim ele é uma verdadeira lenda. Um mito.
De fato, a presença do Mirtica nas conversas tem diferentes funções, dependendo da situação e do estado de ânimo dos participantes.  Vejamos lá alguns casos:
Mirtica como indicador de tempo:
“(...) não, não foi nesse ano que você falou! Foi antes! A segunda filha do Mirtica nem tinha nascido ainda nessa época!”
Mirtica como índice de evolução patrimonial:
“(...) eh, eh. Olha essa foto! Quem tinha uma Brasília velha igual a essa era o Mirtica! As coisas mudaram... Hoje ele só anda de carrão!
Mirtica: uma referência na moda:
“Chique mesmo era aquela calça boca-de-sino do Mirtica!”
Mirtica: a verticalização das cidades e a mudança nos costumes:
“(...) concordo, pode até ser mais seguro. Mas morar em prédio é diferente de casa: magina se eu tenho amizade com meu vizinho do apartamento da frente que nem eu tinha com o Mirtica...”
Mirtica e o aquecimento global:
“(...) hoje, mesmo no frio, vê se o Mirtica ia conseguir usar aquele casacão dele...”
Mirtica e os programas de culinária gourmet:
“Picanha? Desse jeito? Muita frescura pro meu gosto! Picanha boa mesmo foi aquela que a gente comeu lá na casa do Mirtica!”
Mirtica: solução ou polêmica?
“Não, Brancão! Não tá comigo: a morsa grande o pai deu de presente pro Mirtica.  Você lembra como o pai gostava dele! Já a torquês, o Mirtica emprestou faz uns trezentos anos, mas devolveu quando o pai ainda tava vivo. E comigo também não tá!”
É verdade: seu Domingos, pai do tio Vavá e do seu Roberto, gostava mesmo do Mirtica. Pedreiro de mão cheia, grande e forte como um touro - capaz de derrotar no braço de ferro, e ao mesmo tempo, os dois filhos parrudos (e, se bobeasse, o Mirtica junto) –, seu Domingos era um trabalhador incansável, mas também um apreciador das boas coisas da vida. “Eh, é uma beleza tudo!!!” era uma de suas frases preferidas.
Seu Domingos, já aposentado, gostava de receber os parentes e amigos ali na entrada da casa (construída por ele), entre o portão e a porta da sala: em vez do carro (a idade não o deixava mais pegar no volante), ele colocou naquele espaço uma mesa de tampo quadrado e quatro cadeiras, todas de madeira rústica e provavelmente feitas também por ele.
Tal qual um rei, ele se sentava na cadeira voltada para o portão e, com as mãos apoiadas na bengala ou no tampo da mesa, botava os grandes olhos azuis na rua ou conversava longamente com quem o visitava. Enquanto isso, aquele soberano apreciava calmamente um copo de vinho ou cerveja. Eu, que conheci seu Domingos quando ele já tinha quase oitenta anos, sempre aparecia por lá para bater um papo ou simplesmente levar uma caixa de bombons ou alguma outra guloseima: ele amava doces. Eu, sua sabedoria.  “Eh, Piracicaba! Que beleza!”. 
Muitas vezes, enquanto estava por lá, vi chegar o tio Vavá com sua alegria. E seu Domingos, depois de ganhar na testa um beijo do filho, abria o sorriso e com a voz brotada lá em Laranjal Paulista (mas tecida pela vida toda de “lavoro” em Santo André) perguntava da nora, dos netos e, lógico, do Mirtica.
“Mandou um abraço pra mim, fio? Ah! Que amigo bom é o Mirtica! A vida é mesmo uma beleza!” – dizia seu Domingos.
Seu Domingos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

O Trevisan era um grosso. E não só os colegas do ponto de táxi diziam isso: a maioria dos passageiros – principalmente as senhorinhas (e o bairro era repleto delas) –, os porteiros dos prédios, o pessoal da padaria e os entregadores de pizza viviam reclamando dele para o Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto, que vire e mexe tinha que perder uma tarde inteira no departamento de trânsito para livrar a cara do Trevisan.
Não que o sujeito fosse má pessoa. O problema era que ele vivia dizendo que tinha sido motorista do falecido humorista Costinha e por isso gostava de contar, para quem quisesse ou não ouvir, piadas que fariam o próprio comediante ruborizar de vergonha, tão escabrosas eram elas.  Pra completar o quadro, o Trevisan tinha uma boca murcha sem dentes (que o ajudava em caras e trejeitos que lembravam de fato o Costinha), usava normalmente camisas do tipo polo que não lhe cobriam totalmente a barriga e calçava diariamente vistosas sandálias de tiras claras e grossas.   Ninguém entendia como aquele senhor de cabelos totalmente brancos, que já devia ser até avô, pudesse falar tanta besteira por centímetro quadrado de frase. 
Marrento, vivia discutindo por qualquer bobagem com os colegas do ponto: dera um empurrão no Ivan (que ao cair esfolara o braço no muro), ameaçara puxar uma faca pro Mosquito e até o Carlão, que fala manso e normalmente é sereno como um monge, ele tirara do sério.   Uma vez, passei de ônibus em frente ao ponto e vi seu Valdir e o Trevisan parecendo duas crianças birrentas, sentados de braços cruzados, emburrados e mudos, cada qual em seu extremo do banco de madeira. Aliás, os dois viviam às turras, pregando quase todos os dias com fita adesiva, no telefone do ponto, bilhetinhos com frases altamente motivacionais como “é a sua inveja que faz meu carro acelerar” e outras tantas com um linguajar nem tão polido assim.
Adorava aterrorizar as velhinhas que desavisadas pegavam seu carro e acabavam ouvindo suas piadas indecentes. As que já conheciam o Trevisan (que reclamava uma barbaridade com elas quando a corrida era curta), ao perceberem que o carro dele estava em primeiro lugar no ponto, disfarçavam e faziam uma horinha na banca do João (vendo alguma revista ou comprando figurinhas para os netos) até que o Trevisan saísse para uma corrida.  Se ele percebesse antes, gritava: “ô dona fulana, pode vir, não tenha medo, não! Seu preferido não está aqui, mas eu faço um servicinho pra senhora!” Algumas continuavam fingindo na banca, mas muitas atravessavam a rua, falavam “seu descarado!” e entravam no carro seguinte.  Dizem que numa época em que ficou quase sem clientes, atendia ao telefone do ponto mudando a voz e dizendo seu primeiro nome, que quase ninguém conhecia. Ele saía para buscar a cliente no endereço informado, mas voltava logo: a passageira quando via que o tal “Antônio” era o Trevisan e não um novo taxista no ponto, recusava a corrida.
Ele gostava de dizer que tinha perdido um dos dedos da mão durante uma briga com um sujeito armado: no primeiro tiro, o dedo tinha voado longe. Mas quando o outro foi dar o segundo, Trevisan conseguiu desarmá-lo, acabando por matar o sujeito.  Dizia que tinha sido absolvido por legítima defesa, mas eu e o Zé Carlos Alves desconfiávamos que aquela história toda era mentira e o Trevisan tinha mesmo perdido o dedo fugindo de um marido traído.  Porque o cara podia ser feio como o capeta, mas era metido a namorador incorrigível.
Quase nenhuma empregada doméstica passava pelo ponto sem que o Trevisan se entusiasmasse.  Nessas horas, para conquistar, se fazia educado, “posso ajudá-la a carregar as sacolas?”  Se a moça caísse na conversa, ele ficava tão empolgado que dava presente, ajudava a família com cesta básica, fazia comidinhas nos encontros amorosos.  Quando se apaixonava de fato, perdia a cabeça, se metia em dívidas e comprava até celular para falar mais tempo com a escolhida.
Foi o que aconteceu com a moça da cicatriz.

***

Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto de táxi em que trabalhava o Trevisan, era o oposto do colega: vivia para a família, se orgulhava da honestidade, respeitava de criança de colo a idoso com mais de cem anos, cumpria as promessas mesmo que baseadas somente no fio do seu bigode e, por um amigo ou cliente, era capaz de ir até o outro lado da Muralha da China com seu táxi.  Além da esposa e da neta - que por ter superado um grave problema de saúde, era seu grande orgulho, exemplo e paixão -, tinha quatro filhas, o que fazia com que tivesse a mais profunda consideração por todas as mulheres do mundo.
Família, nome, amigos e honra eram os grandes tesouros do Zé. E se alguém mexesse com qualquer um deles, ele virava bicho.    Foi o que aconteceu certa vez numa história do Zé Dançarino, também taxista do ponto.  Pois não é que o tal sujeito chegou num prédio e pediu pra chamar certo morador?  “Quem que eu devo anunciar?”, perguntou o porteiro.  E o outro: “José Carlos, taxista.”
O morador, que era cliente do ponto e sabia que o Zé não o procuraria por qualquer coisa, desceu voando.   Quando chegou na portaria, deu de cara com o Zé Dançarino, que teve a cara de pau de pedir cinquentinha “pra comprar um remédio pra mãe doente, coitada”.  O cliente, pego de surpresa, sacou a grana e deu.  Mas depois, se sentindo uma besta, contou tudo pro Carlão, que ficou furioso e repassou para o Zé Carlos Alves.  Que ficou mais furioso ainda e partiu pra cima do Zé Dançarino: “você usou meu nome, safado!” “Mas eu também me chamo José Carlos!” “Mas o cliente não sabia disso, malandro!”
O Zé Carlos Alves, além de enfrentar as artes do Zé Dançarino, tinha o maior trabalho com o Trevisan, tantas eram as reclamações do mau comportamento do sujeito.    Fosse lá por que motivo, eu gostava de provocar o Zé Carlos Alves dizendo que, no fundo, o Trevisan era um incompreendido.   E eu dava até exemplo disso.  Ele tratava mal os passageiros? Pois eu contava uma história acontecida comigo: num dia de chuva forte, estava eu de terno e gravata, sentado no banco do ponto, esperando que algum táxi aparecesse.   Eis que o Trevisan encostou o carro, abaixou o vidro e disse: “não posso levar você hoje: tenho uma corrida marcada pra daqui a cinco minutos. Mas sobe aí que eu vou encontrar um carro em algum outro ponto”.  Eu disse que não precisava, ele insistiu e lá fomos nós. Uns três quarteirões depois, encontramos um táxi num ponto, o Trevisan chamou o colega e quase ameaçando, recomendou: “leva o homem direitinho que é gente boa”.   No outro dia, contei a história e provoquei o Zé Carlos Alves: “não falei que o Trevisan é um incompreendido?”  E o Zé: “incompreendido? Vai nessa, vai...”
Mas o que eu gostava de dizer ao Zé Carlos é que o Trevisan, na verdade, era um romântico.  E, falando sério, até comecei a acreditar de fato nisso.
O Trevisan vivia contando sobre suas façanhas. No começo eu fingia que ouvia e pensava noutra coisa, achando que era papo de cafajeste.   Mas depois comecei a perceber que debaixo daquela papagaiada toda se revelava um ingênuo.   As mulheres faziam dele gato e sapato.   Teve até o marido de uma delas (que jurara pro Trevisan ser viúva) que um dia ligou para ele e chacoteou: “e aí, meu irmão? Não vai mais mandar cesta básica aqui pra casa?”.  Trevisan ficou doido, mas era assim mesmo: quando se apaixonava, dava presente, comprava leite especial se amada dizia que o filhinho tinha intolerância à lactose e por aí vai.  Celular então, já tinha comprado uns cinco para diferentes namoradas.
Numa das corridas, ele falou da conquista da vez.  A moça estava no ponto de ônibus, não era bonita, mas ele também não.  Trevisan puxou papo, conversaram, começaram a se ver. Um dia, ele a levou pra casinha dele. 
Quando me encontrou, veio satisfeito me contar. Disse que a moça tinha uma cicatriz na barriga: devia ter tido um corte profundo e alguém costurara tudo com má vontade e relaxo.   A pele ficara toda torta.   Ele riu e com a boca torcida tentou imitar a cicatriz da barriga de moça. Achei de mau gosto, me fechei.  Mas ele continuou. Não por minha causa. Parou de caçoar, falou “tadinha” e começou a se abrandar. Primeiro em dó, depois em ternura.   “Que terá sido aquilo: facada, tiro, perda de um rim? Aconteceu um troço violento ali...”  Chegou a falar que talvez um maldito tivesse tentado arrancar da barriga dela um filho à navalha.  Sofria a moça, sofria. 
Nas corridas seguintes, não parou mais de falar dela. Começava fingindo a caçoada, imitava a cicatriz torta. Mas depois se derramava. Aquela cicatriz o atraía mais que o corpo todo dela. Que o rosto. Que o mundo.   Aquela cicatriz a tornava tão miserável quanto ele. Estava apaixonado. Por ela, por aquela cicatriz.  Apaixonado. 
Talvez ela também.

***

Durante muitas corridas, o Trevisan falou de sua paixão pela moça da cicatriz.  Ele até emagreceu e parou de contar as piadas esdrúxulas, mas continuava bem-humorado. Diminuiu a bebida. Estava feliz. Assobiava até. 
Nessa mesma época conseguiu financiar um apartamento num conjunto habitacional que ficava bem longe. O lugar era barra pesada e ele vivia encontrando pelos corredores uma moçada mal-encarada usando droga.  No começo teve medo, mas depois já estava até dando conselhos pra rapaziada.   Apaixonado, aprendera uma receita para fazer uma carninha grelhada especial pra amada. E estava até pensando em guardar um dinheiro para arrumar a cicatriz dela. Embora achasse que sua eleita fosse linda de qualquer jeito.
Então teve o dia em que o Zé Carlos esperava em segundo no ponto - logo atrás do táxi do apaixonado -, quando chegou um casal com malas e filhos. Bom dia, bom dia, entraram no carro do Trevisan: o marido no banco da frente. A mulher e as crianças no banco de trás. Partiram. Um minuto depois, estavam de volta ao ponto. Furioso, o homem puxou a família pra fora do carro do Trevisan (que estava quieto e sem graça) e perguntou ao Zé se poderia levá-los ao aeroporto.  No caminho, todos instalados, o Zé perguntou o que tinha acontecido: era coordenador do ponto e qualquer reclamação ele poderia tomar providência. O tal homem falou então que, nem bem tinha começado a corrida, “o cafajeste do outro taxista – Trevisan o nome dele, não é? -, tinha mexido no retrovisor pra bisbilhotar sua esposa no banco de trás”.  Antes que o Zé pudesse falar qualquer coisa, o homem foi dizendo que não perderia tempo naquele momento. Mas na volta da viagem iria ele mesmo ao departamento de trânsito denunciar o Trevisan.
Se ele teve uma recaída ou fora sua fama que induzira o passageiro, não sem sabe.  Mas aquela nova reclamação e o receio dos outros taxistas expulsaram o Trevisan do ponto.  Depois de ficar um tempo sem trabalhar, voltou, mas num ponto três quarteirões pra baixo.  
Um dia o Zé me falou que o Trevisan tinha tido uma discussão com um pipoqueiro e levara uma pedrada na testa. Mas não deve ter sido coisa muito grave: uns dois meses depois, ele me viu andando na calçada, botou o bração pra fora do carro e chamou: “fala, compadre!”.
Depois disso o perdi de vista. De vez em quando perguntava para o Zé: “tem visto o Trevisan?”.  E o Zé: “às vezes esbarro com ele por aí. Mas quero distância...”.
Porém, houve um dia em que encontrei o Zé abatido.  Quase tremendo, tentou disfarçar: “ficou sabendo do seu amigo?”. “Seu amigo” ou “seu protegido” era como o Zé se referia ao Trevisan quando conversava comigo.  Mas naquele dia a coisa não parecia boa.  E não era: o Trevisan tinha sofrido um grave acidente: sozinho, estourara o carro na murada de uma avenida movimentada ali perto e morrera.  “Foi hoje?” “Faz umas duas semanas. Quem contou foram os colegas do ponto dele”. 
Ficamos os dois quietos.  O Zé se abalava muito quando algum colega morria de acidente ou assalto. Já eu fiquei imaginando como teria sido o velório e o enterro do Trevisan: alguns poucos colegas do ponto (mas não todos), quem sabe uma filha, talvez um vizinho.  Num canto, a moça da cicatriz.  Mas como os outros iriam saber? A cicatriz escondida como ela. Como a lágrima dela.  Depois foi embora, ninguém nem percebeu.  Ninguém nunca percebia mesmo.
Agora já era tarde, mas se eu soubesse, teria ido. O Zé Carlos Alves também.
Zé Carlos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.



Publicado em série no Jornal de Piracicaba em 11/3, 25/3, 8/4, 22/4 e 6/5/2018


O fim da corrupção


(caio silveira ramos)

Recebi no celular um vídeo curioso: dois homens fazendo uma disputa de braço de ferro diante de três moças muito atentas.  Quando o rapaz de óculos percebe que vai perder, passa ao outro – sem que as moças percebam – algumas notas de dinheiro.   Ele guarda (também sorrateiramente) as notas dentro do bolso e imediatamente o jogo começa a virar até a vitória final do moço de óculos, deixando as garotas espantadas e eufóricas.  Para reforçar a armação, o perdedor ainda faz cara de quem está dolorido, lamentando sua derrota.
Mostrei o vídeo ao João que pareceu não ver qualquer graça na cena.  Perguntei se ele tinha entendido o que se passara ali.
“Um estava perdendo, então ele tirou uns papeizinhos do bolso, distraiu o outro, que se desconcentrou e perdeu.”
Me surpreendi: o pequeno, sempre astuto e cheio de frases risonhas sacadas do fundo da cartola, dessa vez tinha sido traído pela ingenuidade de seus nove anos.
“Não filho, não foi isso. Esses ‘papeizinhos’ são notas de dinheiro: um, vendo que não podia ganhar justamente, deu dinheiro ao outro, que não se distraiu: ele aceitou o dinheiro, guardou no bolso e então entregou o jogo.   Isso se chama suborno.
Ele ficou intrigado. Parecia não acreditar:
“Mas por que eles fizeram isso? Por que alguém paga pra ganhar e outro recebe pra perder?”
“Você já percebeu que toda hora, na televisão, nas conversas dos adultos, tem sempre alguém falando a palavra “corrupção”? Isso que eles fizeram é uma forma de corrupção. Toda vez que alguém dá ou recebe algo – que pode ser dinheiro, presente ou favor – para fazer uma coisa que não é justa ou correta, está praticando corrupção.”
“Isso é muito feio. E não tem graça nenhuma, não é?”
“Não. E tem menos graça ainda quando alguém está recebendo ou dando alguma coisa que vai acabar piorando a saúde, a educação, a segurança das pessoas.”
E ficamos os dois calados, sentados no sofá da sala, olhando para o nada ou talvez tentando enxergar o futuro.
Eu não sei quanto a ele, mas senti certa esperança.  Podia ser uma esperança quase piegas e tão ingênua quanto supostamente foi a visão inicial dele quando se deparou com aquele vídeo mostrando a tal queda de braço. 
Porque talvez aquele primeiro olhar não fosse produto da sua ingenuidade, mas de sua incapacidade de aceitar a existência do suborno e da torpeza bilateral que o alimenta.  Talvez ele, sua geração e as próximas cresçam com a percepção natural de que a corrupção seja algo totalmente sem sentido, ultrapassado. Algo que foi moda há muito tempo, como parece que um dia também foi aquele antigo e estranho hábito de fumar cigarros. Algo que um dia bizarramente existiu, mas que para eles não terá qualquer cabimento em seu mundo. Em seu vocabulário. Em suas vidas. 
Não, não. Esqueçam. Reconheço: esse raciocínio foi tão ingênuo quanto o dele. 
Mas se João, pela vida afora, continuar não encontrando sentido em atos como aqueles praticados pelos dois homens do vídeo; se ele persistir em não achar graça nas consequências daqueles mesmos atos, talvez essa minha ingenuidade tenha valido à pena.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 25/2/2018


O filho que ele quer ter


(caio silveira ramos)

Abriram perto de casa um parque coberto, que tem como atrações trampolins, redes elásticas, paredes acolchoadas, piscinas de espumas sintéticas, tabelas de basquete para “enterradas” depois de saltos fantásticos e até muros escaláveis.  Embora haja um setor exclusivo para adultos, é a parte infantil que mais atrai o público: mães e pais ficam esperando tranquilos (ou fotografando alucinadamente) enquanto suas crianças pulam felizes, parecendo voar como passarinhos.
Pois Joãozinho também foi voar com os amigos. E tudo ia às mil maravilhas quando o Lolô chegou esbaforido dizendo que o João tinha se machucado. Assustada, a mãe do acidentado saiu correndo e o encontrou num canto, com os olhos assustados e as mãozinhas entre as pernas, tossindo, quase sem fôlego, mas sem chorar. Ao seu lado, alguns monitores tentavam lhe dar um copo d’água, enquanto outros explicavam à mãe do pequeno que ele tinha caído, com as pernas abertas, na borda de uma piscina cheias de cubos de espuma. E que, mesmo acolchoada, a tal borda acabara ferindo o Joãozinho em uma região muito sensível.
A mãe levou o menino ao banheiro, examinou-o rapidamente e quando percebeu que ele tinha ficado mais calmo, perguntou se estava tudo bem.  E o Joãozinho, com os olhos molhados e profundamente tristes, encarou a mãe, segurou o choro e disse grave:
“Mamãe... eu... não vou poder mais ter filhos!”
A mãe do Joãozinho já esboçava um riso quando percebeu que o pequeno falava sério e sentido.   Então o tranquilizou dizendo que ele estava só assustado e dolorido, mas tudo ficaria bem. E um dia poderia ter quantos filhos sonhasse.
“E a dor, passou?”
“Tá passando. Só está um tiquinho.”
“Quer voltar a brincar?”
“Não quero, não.”
“Então tá bem.”
Mas faltando uns dez minutos para acabar o tempo de acesso aos brinquedos, ele esqueceu a dor e os temores, e aceitou o chamado dos amigos para voltar a voar.
Quando cheguei do trabalho, já sabendo da aventura, perguntei para ele se tudo estava bem. E se ele ainda estava com dor.
“Na hora doeu muito, mas agora já passou tudo. Papai, você viu o gol do Messi no jogo de hoje à tarde?”
Eu disse que não tinha visto, mas que tentaria ver.   Só que mais do que o belo gol do Messi, ficou passeando na minha cabeça a preocupação embutida na frase que o pequeno tinha dito a sua mãe naquela tarde. 
No serviço, contei aos colegas.  Todos acharam muita graça e se espantaram com uma suposta precocidade do Joãozinho.  Perguntaram de onde viria aquela ideia dele sobre a paternidade e suas origens. Respondi que talvez viesse de uma conversa qualquer comigo ou com sua mãe. Ou talvez, da advertência cuidadosa do professor ao orientar os meninos para se protegerem da bola na formação de uma barreira no futebol.  Uma amiga, rindo também, observou:
“Ele é canceriano mesmo: tem pendores dramáticos e é profundamente ligado à família!”
Eu que desconheço o caminho dos signos, mas me perco perseguindo a poesia, sorri-devaneando com os sonhos do filho. 
Não, não me empavonei por imaginar orgulhosas e numerosas descendências.  Mas sorri por João perceber, na sua ainda curta existência, que a paternidade pode ser uma experiência prazerosa. E, ao que parece pelo tamanho do seu temor de não conseguir conhecê-la um dia, entender que é algo que comporta mais do que a simples capacidade de ajudar a criar outro ser.
É algo que tem a real e bem-aventurada possibilidade de tentar fazer esse outro ser mais feliz.









Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 11/2/2018

O voo da borboleta


(caio silveira ramos)

Conheci Marisa Pimentel quando ela trabalhava no protocolo do setor de administração de recursos humanos.  Marisa era muito gentil no atendimento, mas só trocávamos um “boa-tarde-obrigado”.  Foi então que a Olívia Gurjão, que sempre incentivou minhas palavras, me disse que a Marisinha escrevia poemas. E na vez seguinte em que fui protocolizar alguns documentos, saí da sala com um livro escrito por ela: “Poetrix e Sentimentos”.
Fiquei sabendo que “Poetrix” era um gênero de “poema com um máximo de trinta sílabas métricas, distribuídas em apenas uma estrofe, com três versos (terceto) e título” (http://www.goulartgomes.com/visualizar.php?idt=1402080) criado pelo poeta baiano Goulart Gomes.    O livro de Marisinha tinha versos muito inspirados, mas fiquei mesmo admirado com a qualidade e a intensidade de outros “Poetrix” que não estavam em sua obra e que ela foi aos poucos me mostrando.  E pela poesia, ficamos amigos.
Mas nossa amizade ultrapassou a poesia quando João Pedro nasceu em 2008: Marisinha se apaixonou por meu filho de tal forma que se autoproclamou “a terceira avó”.  Talvez aquele “título” procurasse subentender o profundo carinho que tinha por mim e que agora se materializava naquele parentesco ainda que postiço. Mas o fato é que ela nunca se cansou de me pedir fotos novas do pequeno. Com elas, estampou uma caixa de madeira (que nos presenteou para guardarmos fotos novas impressas) e preencheu a tela inicial de seu computador do serviço.  E pra quem chegasse para pedir orientações ou protocolizar algum papel, ela virava a tela e falava: “meu neto não é lindo?”, “olha como ele cresceu!”, “não tá a cara da avó?”, “que olhar inteligente!”, “fala a verdade, mas ele não é lindo demais?”. 
João Pedro foi crescendo e as fotos na tela foram acompanhando cada uma de suas fases.   As pessoas já até perguntavam se ela tinha fotos novas, como estava passando seu netinho, se ele já estava na escola, coisas assim.  Quem me encontrava, dizia: “você que é o pai do neto da Marisinha?”.  “Nossa, vi seu filho: como está bonito!”.  “Seu filhinho já está andando, que graça!”.  O melhor foi um taxista do ponto em frente ao serviço: “não sabia que a Dona Marisa era sua sogra...”
Todo dia 18 de cada mês, era infalível: ela ligava ou mandava mensagens: “João Pedro, meu querido netinho. Parabéns pelos seus tantos anos e tantos meses. Vovó Marisinha te ama muito. Beijos, beijos, beijos”.    E ela nunca errava a data e o número de meses.   Muitas vezes encaminhava também um chocolatinho, um adesivo bonito, uma revista de palavras-cruzadas ou um brinquedinho singelo.  Num dos aniversários do pequeno, a corintianíssima Marisa chegou a presenteá-lo com uma camisa “retrô” do Palmeiras com o nome do pequeno estampado nas costas. E mesmo dizendo que a compra tinha deixado nela uma coceira alérgica, pediu: “depois me manda uma fotinho dele com a camisa nova?”.
E para ele, e para mim, e para as pessoas que eu queria bem, ela mandava cartinhas carinhosas ou presentinhos. Pequenas lembranças abrigadas em embrulhos caprichados e sempre enfeitados com sua indefectível marca: o adesivo de uma borboleta delicada.
De tal delicadeza que parecia se desmanchar durante o voo.

***
Marisa era tão delicada quanto as borboletas em forma de adesivo que ela usava para enfeitar seus embrulhos de presente, suas cartas e seus recados.  Uma borboleta passeando num pântano povoado por monstros não tão gentis.
Em suas fotos antigas, ela, menina, parecia ter um olhar frágil e desamparado. Quase triste. E assim penso que foi a vida toda. Mas ao mesmo tempo, seus poemas, seus bilhetes, sua história de paixão e dor, sua necessidade de amar e ser querida revelavam a ânsia de viver com intensidade. O que muitas vezes a fazia sofrer e se ferir.
E a sensibilidade da alma se irradiava pelo corpo: Marisinha tinha uma saúde frágil. O coração necessitado de cuidado.   A diabete violenta incomodando seu apetite quase maroto por bolos e docinhos.
Do coração, por temores, se descuidou.  Da diabete, por doçura, se deixou levar.  O que importava era a ternura incontornável que tantas vezes sua vida parecia testar.  Um dia partiu uma paixão. Em outro, o amado irmão Paulinho.  Também partiu a mais querida das tias, Ione, que tinha se ausentado muito antes, carregada pelo Alzheimer, mal que Marisinha poeticamente dizia que provocava “saudade de quem não se foi”.
Para evitar novas dores, foi morar sozinha num apartamento pequeno, que ela decorou com todo seu capricho.   Com habilidade, bom gosto e orçamento apertado, deu para criar faixas para cabelo, tiaras, colarzinhos, cachecóis e cintas feitas de tecidos e lãs, que ela vendia por preço muito inferior ao tamanho da arte. Ou simplesmente dava de presente a quem lhe ofertasse um simples sorriso.   Mas Marisinha não ficou sozinha por muito tempo: com ela foram morar, em períodos diferentes, dois sobrinhos que ela cuidava com ternura de mãe zelosa, chegando a dizer que se divertia ao passar suas camisas.
Mas a diabete não deu tréguas a sua doçura. Castigou seus pés e seus olhos, obrigando a aposentadoria do serviço, de suas criações e de suas novelas.  O tratamento da saúde ocular, deficiente e espaçado, roubou-lhe quase toda a vista e a atenção para seus outros males. 
Num dia 18, disse que apenas ligava para cumprimentar seu “amado netinho João Pedro pelos tantos anos e tantos meses” porque não enxergava direito para também mandar uma mensagem pelo “Whatsapp”.  Num outro dia 18, falou pelo telefone fixo, pois não conseguia mais ligar pelo celular. Dessa vez ela não conversou diretamente com ele: “por favor, dê, ao meu querido netinho João Pedro, parabéns pelos seus 9 anos e 3 meses. Diga também que vovó Marisinha o ama muito. Beijo, beijo, beijo”.
No 18 seguinte, ela não pôde ligar. No outro, também não.
E em 2018, no dia 11 de janeiro – data para mim de alegria e dor -, a borboleta voou, voou, voou até desaparecer em toda a sua delicadeza.
E a cada dia 18 – outra data de paixão e tristeza –, eu e João Pedro nos lembraremos especialmente dela.   Voando, voando, bulindo com nossa memória.
Floreando nosso caminho.

Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 21 e 28/1/2018



A cabra na sala


(caio silveira ramos)

Certo dia, o Vô Sylvio apareceu com uma cabritinha branca lá na casa da rua Prudente.  Quem deu falou que era para a ceia do Natal.   Mas a criançada se afeiçoou de tal forma à bichinha, que quando o Natal chegou ninguém teve coragem de mandar abater a cabrita. A Jandyrinha, que era quem mais gostava de planta e de bicho, quando soube que o presente não era de estimação, mas para refeição, abriu um berreiro tão grande que a dona Dedé, que morava na esquina, deu permissão à menina para entrar todo dia no seu quintal e cortar capim para alimentar a cabritinha. Desde então, Jandyrinha e Branquinha se tornaram inseparáveis companheiras de brinquedos e confidências. 

Sobrevivendo às festas do fim de ano, a cabrita se sentiu em casa de tal forma que, quando o Vô Sylvio chegava do trabalho e se sentava em sua poltrona em frente ao rádio grande da sala para ouvir notícias e novelas, ela empurrava a porta da cozinha, atravessava a casa e se espichava no chão ao lado dele até a hora do jantar. Dizem que se interessava particularmente pelas novelas de amor e mistério, mas isso pode ser lenda.
O que não é lenda é que Branquinha cresceu, virou uma beleza de cabra mocha e durante um bom tempo, ordenhada pela própria Vó Jandyra, forneceu leite para a família.   Senhora do quintal (mas sempre longe das roupas penduradas na corda), Branquinha se entrosou perfeitamente bem com os outros bichos da casa: Meg, uma destemida fox-terrier de pelo duro, presente de um casal inglês que tinha morado em frente; Dunga, um fox meio vira-lata que apareceu para ficar durante a viagem de uns vizinhos, mas que depois não quis mais ir embora. E, lógico, os muitos pintinhos que passeavam fora do galinheiro.  Com esses Branquinha era especialmente maternal: cuidadosa, ela se deitava de bruços para que os bichinhos se instalassem em suas costas e, quando tinha certeza que todos estavam bem seguros, saía pelo quintal desfilando feito trenzinho de passeio.
O Hélio, que por esse tempo já na namorava a Lia, achava tanta graça na Jandyrinha brincando descalça no quintal com a cabrita e os outros bichos, que arranjou um porquinho muito do danado para a menina.  Ela se encantou com o novo companheiro que, como a Branquinha, tomava banho de regador.   Parece que os dois bichos se deram até bem (inclusive ele também deu para passear com os pintinhos nas costas), mas só a cabritinha continuava com autorização para assistir ao rádio na sala.  E ainda era a preferida da Jandyrinha.
Até que Vô Sylvio e Vó Jandyra tiveram que se mudar para uma casa sem quintal na rua Treze.   Não se sabe ao certo que destino tiveram os pintinhos, Meg, Dunga, Branquinha e o porquinho (que nos últimos tempos já tinha virado um cachaço bonachão). 
Talvez, saídos de uma casa sempre tão cheia de melodias, desfilem por aí, feitos os Músicos de Bremen.  Na frente vai Branquinha, altiva, cheia de orgulho, com os pintinhos aboletados em suas costas assobiando felizes uma antiga canção de rádio-novela.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7/1/2018

Natais presentes


(caio silveira ramos)

As manhãs ansiosas acordadas muito cedo desde o começo de dezembro.
Um pião colorido de ferro acionado por uma haste espiralada.
As músicas da mãe.
Uma carriolinha vermelha de braços amarelos e rodinha preta.
Os presépios do pai.
Uma escova de cabelo com uma zebrinha pintada.
A mesa decorada pelas irmãs.
Um urso de plástico com talco cheiroso dentro.
A bandeja de frutas (ameixas, pêssegos e uvas) sobre o baú da máquina de costura “disfarçado” pela toalhinha de renda.
Uma caixa “Ao bom menino” de ferramentas “de verdade” para crianças.
A cesta - de vime, retangular, grande, com a tampa presa com dobradiças e fecho de metal, usada depois como guarda-brinquedo e até como base de um presépio pequeno - trazida pelo tio Samy naquele Natal arrumado lá no “Quartão”, com a família toda reunida.
Uma clarineta vermelha de plástico, com chaves coloridas para acompanhar a partitura escrita com bolinhas pintadas.
A alegria das irmãs.
Uma caixinha registradora amarela que, apertado o botão vermelho, toca uma campainha e tem aberta a gaveta com o dinheiro para o troco.
O riso sacudidinho da tia Mocinha.
Uma escavadeira de plástico, com base giratória, esteira de borracha e uma manivela lateral para mover o braço da pá.
A farofa com pedacinhos de maçã preparada pela mãe
Uma caixa pequena de isopor cheia de peças coloridas e dois pares de rodinhas de borracha para montar figuras e carrinhos.
O peru perfumando a casa.
Um carrinho de plástico (especial porque não esperado).
Os pratos especiais com flores no fundo (presente de casamento dos pais).
Um trenzinho movido à pilha.
A meia-noite do dia 24 de dezembro, hora de a família distribuir os presentes, depois do nascimento do Menino-Jesus no presépio.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para despertar os brinquedos que dormiram no pé da cama.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para sonhar com o Natal do ano que virá.
Publicado no Jornal de Piracicaba em 24/12/2017

Quando chega a melodia


(caio silveira ramos)

Para Fernado Szegeri

Ela vinha sempre na volta pra casa, no último dia de aula, assim que eu descia do ônibus no ponto da rua XV de Novembro, quase esquina com a São João.
Durante o ano, ela desaparecia, dessonhava, devia viver em algum canto esperando seu momento: eu não me lembrava dela e ela se esquecia de mim. Nem mesmo nas férias de julho ela se manifestava. Só mesmo no último dia, ali, pelo final de novembro, começo de dezembro. Era botar o pé pra fora do ônibus e a sensação de liberdade, a perspectiva de liberdade e a própria liberdade me traziam o nananã de uma melodia que eu não conseguia decifrar, segurar pelos cabelos, fixar na memória. E eu ia flutuando, flutuando, cantarolando aquela música que crescia exultante, me levando pro alto, me fazendo voar mesmo sem letra até a porta de casa, onde de fato as férias começavam. Onde as férias incitavam aquele som de liberdade a me preencher a alma.  Som que seria retirado novamente de dentro do meu peito apenas um ano depois.
De onde viria aquela melodia de liberdade e de alegria incontida? Minha não era: não tinha vindo de um sonho. Talvez tivesse surgido de dentro de um rádio que vivesse estacionado na cozinha de casa ou de outro que gostasse de espalhar seus sons pela rua. Talvez da TV, de uma trilha sonora de uma novela que esperava o jornal das 8 ou que se propagandiava durante os intervalos da Sessão da Tarde.   Só sei que durante os quatro anos do ginásio e os três do colegial, a melodia me encontrava no lugar e no dia certos. Sempre. Mas eu, naqueles tempos pré-internéticos, nunca consegui encontrar sua origem e seu caminho.
Entrei na Faculdade e durante os cinco anos, por capricho, sempre no último dia de aula, voltando de São Paulo, só para encontrar a melodia que marcava o início das minhas férias (e da minha liberdade), eu deixava de desembarcar na rodoviária para saltar do ônibus na esquina da Moraes com a Independência. Ia descendo a pé, desviava do meu caminho, entrava na rua Bom Jesus e por fim dobrava a XV só para passar de propósito pelo velho ponto de ônibus quase na esquina com a São João. E milagrosamente a melodia vinha. Solta. Sem letra, sem nome, sem autoria.
E me preenchia de liberdade.

***

Num final de semana em Ribeirão Preto, na casa da minha irmã, ouvi, vindo pela janela, a melodia sonhada. A melodia que me aparecia sempre no último dia de aula e que marcava misteriosamente, desde a infância, o início das minhas férias. 
A música começou com um “deixa estar...”, mas depois não consegui decifrar mais nada: alguém abaixou o som do rádio, trocou de canal, desligou o mundo. Mas como nessa época eu já tinha sido completamente envolvido pelo samba, ainda consegui apreender a voz do cantor: sem dúvida nenhuma, era uma composição interpretada por João Nogueira.
Com a ajuda da internet, encontrei a listagem completa dos seus discos e músicas, mas entre os diversos títulos, não aparecia nada que fizesse qualquer referência às palavras mágicas “deixa estar”.
Passei a vasculhar lojas de discos, sebos e estantes de casas de amigos atrás dos sambas daquele João.  E fui ouvindo, descobrindo, redescobrindo a beleza gingada de seu canto. A força transformadora do seu poder de criação.  Seu e de parceiros como o grande poeta Paulo César Pinheiro. E assim, me embriaguei de “Espelho”, “Além do espelho”, “Súplica”, “Minha Missão”, “E lá vou eu”, “Nó na Madeira”, “Mineira”, “Se segura, segurança”, “Batendo a porta”, “Eu, hein, Rosa!” e tantos outros.
Topei então com o LP “Boca do Povo”, de 1980. E como sempre fazia a cada audição de um disco do João, para saborear ainda mais minha busca e meu sonhado encontro, fui colocando o comecinho de cada faixa, uma a uma. E assim foram brotando sambas como “Poder da Criação”, “Mulher valente é minha mãe” e o clássico de Padeirinho e Ferreira dos Santos, “Linguagem do Morro”.
Então, na 12ª faixa (justamente a última!), após uma introdução feita só pela batida da percussão, começou um samba-amaxixado iniciado pelo esperado “deixa estar” e com a melodia sonhada. Ali estava o samba que me alimentou de liberdade durante tantos anos.
“Bons ventos”, do próprio João Nogueira e de Ivor Lancellotti – compositor que carrega na voz e na criação o som de uma alma enluarada que encantou e encanta intérpretes como Clara Nunes (que, entre outras, gravou “Sem companhia” e “Amor perfeito”, ambas parcerias com Paulo César Pinheiro) e Roberto Carlos (“Abandono”) –, traz a história de alguém que anseia desistir de um amor para, aos poucos, reabrir o coração.  De qualquer forma, a letra trata da esperança de “um novo amanhecer”, o que rima com a inspiração de liberdade que a música há tanto tempo já me oferecia.
Recentemente, descobri que a composição tinha figurado como uma das faixas da trilha sonora de uma novela das 18 horas da Rede Globo, “As Três Marias”, baseada no romance homônimo de Rachel de Queiroz e exibida de novembro de 1980 a maio de 1981.  Não me lembro de ter assistido à novela – embora me recorde das atrizes protagonistas -, mas foi naquele período que o bendito samba me enfeitiçou.
Observo agora a foto da capa do tal LP “Boca do Povo”: nela, João Nogueira sorri feliz enquanto ouve um radinho de pilha. Se não fosse a impossibilidade do tempo, alguém poderia dizer que ele fala com alguém ao celular.
Gosto de sonhar assim: João, de fato, atravessa o tempo e fala comigo: depois de mandar um abraço do parceiro Ivor Lancellotti, pergunta se eu continuo andando por aí, cantarolando seu samba.
Emocionado, mesmo sem conseguir responder ao poeta, “devagar, vou abrindo meu coração” com a certeza de que “o amor vai sobreviver”.
E lalariando a melodia pelas ruas, vou me perder pelo tempo.


Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 e 17/12/2017