Mostrando postagens com marcador Ruth. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ruth. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Manhas e missões


(caio silveira ramos)

Eu ainda brincava descalço no pátio de casa, mas minhas pequenas tarefas eu cumpria com indisfarçável orgulho.
Quando a campainha tocava, era eu que corria em disparada para ver quem estava chamando. Descia a escada e abria a janelinha da porta que dava para a rua (ou, se era de noite, espiava do alto, lá da janela do escritório): se era alguém conhecido, fazia a pessoa entrar.  Caso contrário, ia voando avisar um adulto.  Mas em casa, a maioria das pessoas que chegava era conhecida: meus pais sempre receberam muita gente.  Gente que vinha para conversar, pedir ajuda, um conselho, um colo, dar um abraço, trazer um doce, um bolo, uma travessa de macarrão caseiro, uma sacola de frutas trazidas de um sítio.  Gente que vinha sem dizer nada, só procurar um abrigo para o olhar perdido.  Um apoio para as desesperanças da vida.
O telefone também era eu quem corria para atender: tanta gente também querendo falar com meus pais, ouvir suas vozes, matar as saudades, dar um alô. Ou eram as amigas da Ruth, cheias de novidades para contar. Ou para ouvir outras tantas. 
Eu também voava para abrir as portas quando alguém carregava a pesada lata de lixo avisando “rápido, que o caminhão da limpeza está chegando!!”. E ainda ajudava a enxugar a louça quando chegava domingo. Mas aí a tarefa era alegre, já que todo mundo também fazia alguma atividade sempre conversando, cantando ou rindo de alguma besteira dita. Também era muito divertido passar a enceradeira na sala durante muitas tardes de sábado, quando a casa cheirava ainda mais limpeza e bolo de leite fervendo.
E cabia a mim fechar a garagem quando meu pai saía com o carro, o que demandava não só meu impulso para trazer o portão para baixo, como também certa arte para dar um leve tranco nele, fazendo-o se encaixar no fecho com precisão.
Mas minha missão preferida, aquela de que eu mais me orgulhava, era a de ligar a televisão.  Como uma tarefa tão simples quanto apertar o botão de um controle remoto pode provocar orgulho em alguém?
Aparentemente simples, a tarefa envolvia os mais profundos mistérios.  É que lá pela década  de 1970, não havia controle remoto e para se “acender” uma televisão não bastava um clique.
A primeira etapa era “ligar a tomada”: o fio saía do transformador conectado (fisicamente) à TV, caminhava pelo rodapé, contornava o batente da porta que dava para o pátio e estacionava seu plugue num preguinho em forma de gancho perto da entrada elétrica que ficava na parede a poucos centímetros do assoalho.  Então, eu desenganchava o tal plugue e ajeitava seus pinos nos buracos do “espelho”.  Simples, não? Seria se os encaixes daquelas tomadas fossem firmes como são hoje.  Naqueles dias, o plugue ficava meio bambo: era preciso achar o ponto certo (com muita arte) para que a tomada não acabasse perdendo o contato elétrico, o que desligaria a TV justamente na melhor parte do programa. Mas eu sabia achar o ponto com precisão.
Tudo certo, tudo resolvido, então era partir para a segunda etapa: ligar o transformador de voltagem. 
O transformador era uma caixa quadrada de ferro pesadíssima (com uma grossa alça de plástico em cima), que tinha na parte da frente um botão giratório e um painelzinho em forma de meia lua onde se via uma seta descansando e alguns números desenhados.   Era preciso girar cuidadosamente o botão no sentido horário até dar um clique. Acesa a luz do painel, movia-se novamente o botão dando mais dois cliques para a seta se mexer. Então vinha o pulo do gato: eu tinha que dar um leve tapa na parte de cima do transformador para seta voltar um pouco e chegar ao ponto certo. Oba, agora sim eu podia ligar a TV.
Naquelas velhas televisões de tubo, com a imagem ainda apenas em preto e branco, a tela era emoldurada por uma robusta caixa de madeira. No lado direito, se mostravam uma saída de som, um grande botão seletor e três botões giratórios menores: dois para a imagem (brilho e fixação: as imagens às vezes corriam de cima pra baixo na tela...) e um para ligar e controlar o volume.
Girado o tal botão e controlado o volume, a televisão começava a esquentar e a imagem ia lentamente aparecendo.    Se o programa fosse na TV Globo, como a emissora “pegava direto”, não era preciso fazer mais muita coisa, a não ser, às vezes, dar uma leve girada no botão seletor (mas sem chegar a fazer “clique”: muita manha nessa hora, hein?). Porém, se o programa passasse em outro canal, quem morava no interior, como eu e minha família, precisava girar o seletor (fazendo um teque-teque-teque-teque) até o número “3 e um pouquinho”.  Então, enquanto a TV “chuviscava ferozmente”, se ligava o “conversor de UHF”, uma grande caixa de madeira retangular que reinava sobre a televisão (depois arranjamos um modelo compacto e de plástico) com dois botões e um visor como os de rádio para enxergar a sintonia dos canais.  Aí, era preciso profunda arte e destreza: enquanto se girava cuidadosamente com a ponta dos dedos da mão esquerda (com uma sutileza que beirava a telecinesia) um dos botões do conversor, com a mão direita era necessário balançar ou torcer os dois longos fios achatados da antena que pendiam do teto e corriam soltos pela parede até se conectarem com a parte de trás do aparelho.  Mas esses movimentos tinham que ser muito bem calculados, precisos e firmes, feitos, logicamente, com uma quase ternura, porque a qualquer momento os fios podiam se desconectar do conversor e tudo ficaria mais difícil.
Enfim, encontrados o canal (se ele estivesse “pegando” naquele dia) e o programa desejados, mesmo que às vezes a imagem tivesse certo chuvisco, alguns “fantasmas” e um e outro tremor, eu me virava para os telespectadores caseiros para receber os aplausos.  Mas então já não era a minha arte que a plateia queria aplaudir.
E esquecido de mim, eu me juntava àquele “respeitável público telespectador” para ver o mundo entrando pela janela da sala.



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Meninas

(caio silveira ramos)

Do pessoal lá de casa, a Ruth talvez tivesse o maior número de amigas. Amigas desde cedo, amigas por muito tempo, amigas para todo o sempre. Amigas de vir em casa, amigas de visitar. Amigas de escrevinhar nos cadernos advinhas enigmáticas de letras e números para revelar nomes dos pretendentes ou dos apaixonados.  Amigas de falar por horas baixinho no telefone, amigas de rir alto e sem motivo aparente, amigas de chorar de mãos dadas, amigas de sair junto. 
E eram tantas e tantas, que os sorrisos às vezes se confundem nos meus olhos para talvez moldar o sorriso só dela, Ruth: Mônica, Adriana, Valéria, Cibele, Idamis, Monique, Lucy, Anete, Sandra, Eda, Cleide, Zuleica, Denise, outra Valéria, Cidinha, Adneia, Bia, Telma, Soninha e, claro, Aninês. E outras. Muitas outras.
Ruth gostava de festa, de praia, de piscina e de chocolate. De fazer bolo. De acordar cantando no sábado de manhã. E de dançar. E de se arrumar para sair sábado à noite, de brincar o Carnaval, de tomar sol. De chorar sentido e de rir sem freios. De falar besteirinhas. De escrever inspirados poemas românticos nas últimas folhas dos cadernos. De tocar piano apaixonadamente.
E quando contava piadas ou episódios mais desbocadinhos (ou quando descobria cacófatos marotos ao juntar os sobrenomes das amigas com os de alguns pretendentes), minha mãe brincava: “ih! Soltaram o tio Sebastião”, lembrando um tio querido que se deliciava ao contar piadas um pouco mais apimentadas.
Aos sábados, os preparativos para a noite começavam logo após o almoço e, enquanto trocava infindáveis telefonemas com as amigas, ela se esmerava em cuidar dos cabelos longos e crespos.  E à noite, a bordo do carro da Telma, um Chevette muito cuidadinho conhecido graciosamente como “Mini-Monza”, lá ia ela se divertir com as meninas nos barzinhos e danceterias da cidade.
Às vezes, no meio do dia, me deparo com sons e imagens soltas daquelas meninas, talvez para me lembrar mais um pouco dela. E chegam num relance o sorriso da Lucy, os olhos da Bia, um samba do Almir Guineto trazido pela Soninha, o riso da Eda, a discrição serena da Telma, a flor no cabelo moreno da Cleide, o liso do cabelo loiro da Sandra. E, claro, a alegria da Aninês.
Aninês, a quarta irmã que morava numa casa querida na rua Gomes Carneiro, casa de Dona Ondina (“Madrinha”, para Ruth), de Seu Antonio Carlos e do Ju.  Aninês, que estava sempre tão perto, rindo com a gente. Vivendo ali com a gente.  Aninês, tão diferente da Ruth no temperamento e no jeito, mas no sentimento tão igual. Tanto, que as duas pareciam transcender a fraternidade para quase sempre parecerem uma só.
Hoje, nos sábados à tarde, aquelas meninas por um segundo pensam em se preparar para sair. E nesse segundo, testam suas roupas na frente do espelho, fazem touca no cabelo, capricham na maquiagem, falam ao telefone e combinam de sair todas juntas a bordo do “Mini-Monza” da Telma.
E todas juntas sonham que a alegria da amiga Ruth se espalhará pela noite de sábado.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 26 de fevereiro de 2017


terça-feira, 27 de outubro de 2015

O homem do cata-vento

(caio silveira ramos)

Sabe a Deise? É, a Deise, amiga inseparável da minha irmã Raquel. Isso mesmo, as duas sempre juntas, sempre falando-rindo-falando, felizes da vida: a falta de assunto nunca apareceu para elas. Isso, conhece? Pois é, foi ela quem contou que tinha um professor de Inglês que dava aulas individuais ou no máximo para duas pessoas. A Deise tinha aulas com ele uma vez por semana e comentou sobre o irmãozinho assim-assado da melhor amiga: “o senhor precisa ver!”.  Depois disso, a Deise, sempre risonha e generosa, falou pra mim: “Dr. Ruben quer conhecer você. Disse para levar o boletim.”
E eu fui com minha mãe, numa noite de quarta-feira, até a rua Alferes, quase esquina com a Dom Pedro II. Ali era a casa do Dr. Ruben Carvalho, pesquisador internacionalmente reconhecido e Professor Catedrático de Fitopatologia e Microbiologia Agrícola da ESALQ, aposentado fazia muitos anos.  Mas naquela noite ele disse, apenas, “aposentado”.  E também que seu médico recomendara que, aos 77 anos, deveria fazer alguma atividade para exercitar a mente.  Por isso ele tinha resolvido dar aulas de Inglês para alguns alunos recomendados por pessoas conhecidas.  
Naquele primeiro contato tive um pouco de medo: Dr. Ruben era um homem grande, de rosto redondo e nenhum fio de cabelo na cabeça. Usava óculos de aro grosso, escuro e quadrado, e fumava um cigarro longo. E parecia muito sério e educado. Olhou meu boletim com atenção e perguntou se eu poderia vir às quartas-feiras, às três horas da tarde, para começar as aulas.  Minha mãe, pedindo desculpas, indagou sobre o preço e ele serenamente disse que não cobrava nada. E emendou: “é ele quem está me fazendo o favor: as aulas fazem bem para mim”.
Logo no primeiro dia, todos os meus medos se perderam pelo ar e não foram nunca mais vistos.  Nem mesmo pelo galinho-cata-vento que o próprio Dr. Ruben tinha construído para enfeitar o quintal em declive, e que girava bem perto da edícula de teto baixo dividida em dois cômodos, ambos com grandes janelas.
O primeiro cômodo abrigava uma mesinha que servia para passar roupas, mas que muitas vezes foi utilizada para os estudos da minha irmã Ruth, que me fazia companhia nas idas e vindas para as aulas. O segundo – que já tinha sido uma oficina de marcenaria para os trabalhos manuais e artísticos do professor –, agora era usado como sala de aula, decorado apenas com uma mesa de madeira (provavelmente feita por ele mesmo) e uma lousa pendurada na parede caiada. Nós nos sentávamos frente a frente, e eu, depois de descobrir seus títulos acadêmicos e sua importância nos meios científicos, ficava me perguntando como um homem tão importante, que tinha dado aulas e conferências em tantos outros países, e ainda tivera como mentor o grande pesquisador americano Edwin E. Honey, podia tratar com tamanha deferência um menino que ainda usava shorts
Um menino a quem o Professor Doutor dava aulas de Inglês.
Um menino a quem o Professor Doutor chamava simplesmente de Cainho.

***
Nos dias de chuva, me lembro do Dr. Ruben Carvalho e seu sorriso aberto junto com o portão. E de seu guarda-chuva enorme me protegendo enquanto desviávamos dos canteiros incrustados no pátio de pedras lisas. E depois, quando passávamos pelo portão alto, descíamos pela rampa do quintal sob os giros molhados do galinho-cata-vento e chegávamos à edícula onde ficava a sala de aula.   Eu via pelo janelão os verbos irregulares se misturando à chuva grossa, até que chegavam, numa bandeja de prata, uma garrafa de Guaraná Antárctica e bombons de chocolate. E os verbos irregulares saiam da chuva.
Me lembro dele também ao me encontrar num porta-retrato morando na casa materna: a foto tirada por ele, o sorriso tímido dos doze anos, as lentes dos óculos escurecidas pela claridade, a pastinha, com o caderno e as apostilas datilografadas, abrigada em frente ao peito.
Me lembro do Dr. Ruben Carvalho quando alguém abre uma garrafa de vinho do Porto. Me acho de novo nas visitas das férias, eu e minha mãe levando lembranças de agradecimento e flores para dona Maria da Glória. Na sala, eu sem jeito nas poltronas elegantes, as mãos sem saber aonde ir, a voz sem saber o que falar. Então era servido um calicezinho de vinho e bombons recheados de licor. Eu comendo devagar, mordendo uma pontinha todo educado, o licor escorrendo pelos dedos e querendo escapar pelo canto da boca. As mãos ainda mais perdidas, o que fazer, o que fazer?, um lenço saindo do bolso, o licor secando nos dedos. Na hora da despedida, tudo certo: o licor era tão encantado que as mãos já estavam limpas para os cumprimentos.
Penso no meu avô ao me lembrar do Dr. Ruben Carvalho: depois de dois anos, o mesmo médico que disse para ele dar aulas, recomendou que era hora de parar.  Nos despedimos cheios de tristeza e os verbos irregulares se perderam na enxurrada.  Mas, três anos depois, quando passei no vestibular, ele veio me fazer uma visita.  Elegante como sempre. E ainda mais. Assim como tinha sido meu avô, mesmo nos tempos mais difíceis: chapéu de feltro, paletó, gravata-borboleta e uma bela bengala.  E Dr. Rubens trouxe flores para minha mãe, conversas para meu pai, bombons para a família e um cartão para mim, que guardo até hoje e releio sempre que posso.
A lembrança do Dr. Ruben de Souza Carvalho, pesquisador brilhante e antigo Professor Catedrático de Fitopatologia e Microbiologia Agrícola da ESALQ, se despedaça pelas ruas da cidade: nenhuma delas lhe faz uma homenagem. Mas não importa, pois se as ruas guardam os nomes, também perdem rapidamente a memória.
 Passeio com os dedos pelo cartão e as palavras escritas à caneta pelo meu velho professor de Inglês, feito o licor numa tarde de férias, escorrem pela minha mão.  
Não preciso de lenços nem da água da chuva: gentis como sempre foram, Dr. Ruben e suas palavras já se descolaram da minha pele.
E sem pressa, escapam para dentro do meu peito.


Ilustração; Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  11 e 25/10/2015


terça-feira, 3 de março de 2015

A viola e o espantalho

(caio silveira ramos)

Sou um espantalho.
Não daqueles de filmes de terror ou das histórias do Batman.  Se for para me remeter ao cinema, estou mais para o Espantalho do Mágico de Oz. E continuo à procura de um cérebro.
Mas a razão da identidade não é o espanto: é a feitura.
Sou feito de pedaços, pedaços das almas, rostos, corpos, visões e amores de quem vou encontrando pelo caminho.
Desde que nasci fui colecionando pessoas. Não para que elas me pertencessem, mas para que eu fosse remendado por elas.  Durante o dia, durante a noite, na vigília e no sono sonhado, uma multidão desfila sem parar na minha frente, costurando minha pele, escorrendo nas vielas do meu cérebro, se aproveitando da minha incapacidade de desamar: a vendedora de uma loja de brinquedos, o coleguinha da pré escola, a menina bonita fazendo a leitura do dia numa sala de aula da minha infância, o cobrador de ônibus, o motorista do táxi, a copeira do serviço, a professora de inglês, a mãe, o pai, a irmã, a mulher, o filho, a prima, a tia, a vó não conhecida.  Todos, todos, todos, de qualquer tempo, inesquecidos, flutuando, me compondo, me reamando.
Ultimamente, passei a usar tecnologias: na internet, os poemas criados por Maira Garcia passam a morar nas minhas ideias. Outra poeta, Marina Mendes, envia por e-mail suas-minhas dores mais profundas.  A fotógrafa Patricia Ide leva meus olhos para passear pelo mundo e me envia as visões dela-já-também-minhas pelo WhatsApp.  O blog de Brontops Baruq muda os descaminhos dos meus sonhos.
Ainda muito pequeno, a imagem de Pixinguinha na capa do volume número 2 da Coleção “História da Música Popular Brasileira” me chamou a atenção. Folheei o encarte, vi as fotos, encontrei o sorriso. Ouvi o disco, o som da flauta, o som do sax, o som da voz de Orlando Silva se misturando aos instrumentos. As melodias do disco se misturando aos sorrisos das páginas do encarte, o sorriso meu se recriando na boca.  Quando aprendi a ler, entendi emocionado a inscrição ao lado da foto da capa: “Este homem é um poema”. 
E minha alma se amoldou àquela poesia. 

***
Eu já tocava um pouco de violão, quando a voz me veio.  Cantando um samba que eu não sabia de que em era, a voz me veio. Claro, o som que saía de mim era de menino. Nove, dez anos.  Mas havia uma doçura na busca das palavras, uma tentativa de aveludamento do meu timbre agudo de pouco volume.  O ritmo se fez outro.  Um ritmo que às vezes acelerava, como se fugisse tímido. E que impunha ao violão uma cadência que obrigava meus dedos a procurar uma batida que eu desconhecia.   Minha irmã Ruth desvendou:
“Você está parecendo o Paulinho da Viola.”
Então fui conferir o nome e a figura. E percebi que já tinha visto o sambista na TV. E a voz e a imagem se fundiram. 
O som do samba agora saía daquela imagem. E o samba se chamava “Não é assim”.  Fazia parte do caderno de violão da irmã Ruth? Podia ser, mas como eu sabia que o samba tinha que ser cantado com aquele jeito intimidado? Já teria ouvido no rádio? Seria um tema de novela?
“Não é assim” se tornou um dos meus hinos – não cantado em altos brados (que a música pedia justamente o contrário disso) -, mas interpretado com a cadência, com a batida que Paulinho da Viola me ensinava à distância.  E junto caminhava uma doçura humilde, mas altiva, acompanhada da timidez de um fechar de olhos e do encabulamento de um sorriso discreto.  Aquele samba de Paulinho da Viola era uma verdadeira carta de intenções para toda minha vida: a cadência, a batida, a busca da doçura humilde e altiva, a timidez e o encabulamento não seriam dali em diante somente instrumentos do samba.   Seriam os alimentos que passariam a coordenar meus músculos, meu pensamento, minha voz, minha maneira de conceber e entender o amor.
Outros sambas vieram de Paulinho da Viola.   Outros sambistas vieram com outros sambas diversos: sincopados, risonhos, candentes, rasgados: compositores e composições me tecendo, me remediando, me espantando.  Mas aquele jeito embebedado com “Não faz assim” enraizou-se em mim e eu me tornei um pouco aquele samba.
Mais tarde eu descobri que não era apenas Paulinho da Viola que emprestava seu jeito a “Não faz assim” e me contaminava junto.  Havia ali, uma doçura-além que não vinha dele, mas que eu já sentia que viajara para dentro de mim.  Havia entre os versos um contracanto, um lalaialaiá sereno que embalava a canção toda. E aquele voz – eu soube bem depois – era de Dona Ivone Lara.   Então, se no dia a dia meu jeito se afeiçoou a Paulinho da Viola, meus sonhos se abrigaram no colo daquela senhora.
E de viola em viola, de laras em laras, eu continuo me espantalhando.  Não um espantalho de afugentar, mas um que estende os braços e fala com passarinhos, tal qual o personagem cantado pelo próprio Paulinho da Viola em “Vela no breu”, samba composto por ele e por Sérgio Natureza.
E se não é assim que se faz, me perdoem.
É assim que me faço. 

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/2/2015