sexta-feira, 13 de julho de 2018

O filho que ele quer ter


(caio silveira ramos)

Abriram perto de casa um parque coberto, que tem como atrações trampolins, redes elásticas, paredes acolchoadas, piscinas de espumas sintéticas, tabelas de basquete para “enterradas” depois de saltos fantásticos e até muros escaláveis.  Embora haja um setor exclusivo para adultos, é a parte infantil que mais atrai o público: mães e pais ficam esperando tranquilos (ou fotografando alucinadamente) enquanto suas crianças pulam felizes, parecendo voar como passarinhos.
Pois Joãozinho também foi voar com os amigos. E tudo ia às mil maravilhas quando o Lolô chegou esbaforido dizendo que o João tinha se machucado. Assustada, a mãe do acidentado saiu correndo e o encontrou num canto, com os olhos assustados e as mãozinhas entre as pernas, tossindo, quase sem fôlego, mas sem chorar. Ao seu lado, alguns monitores tentavam lhe dar um copo d’água, enquanto outros explicavam à mãe do pequeno que ele tinha caído, com as pernas abertas, na borda de uma piscina cheias de cubos de espuma. E que, mesmo acolchoada, a tal borda acabara ferindo o Joãozinho em uma região muito sensível.
A mãe levou o menino ao banheiro, examinou-o rapidamente e quando percebeu que ele tinha ficado mais calmo, perguntou se estava tudo bem.  E o Joãozinho, com os olhos molhados e profundamente tristes, encarou a mãe, segurou o choro e disse grave:
“Mamãe... eu... não vou poder mais ter filhos!”
A mãe do Joãozinho já esboçava um riso quando percebeu que o pequeno falava sério e sentido.   Então o tranquilizou dizendo que ele estava só assustado e dolorido, mas tudo ficaria bem. E um dia poderia ter quantos filhos sonhasse.
“E a dor, passou?”
“Tá passando. Só está um tiquinho.”
“Quer voltar a brincar?”
“Não quero, não.”
“Então tá bem.”
Mas faltando uns dez minutos para acabar o tempo de acesso aos brinquedos, ele esqueceu a dor e os temores, e aceitou o chamado dos amigos para voltar a voar.
Quando cheguei do trabalho, já sabendo da aventura, perguntei para ele se tudo estava bem. E se ele ainda estava com dor.
“Na hora doeu muito, mas agora já passou tudo. Papai, você viu o gol do Messi no jogo de hoje à tarde?”
Eu disse que não tinha visto, mas que tentaria ver.   Só que mais do que o belo gol do Messi, ficou passeando na minha cabeça a preocupação embutida na frase que o pequeno tinha dito a sua mãe naquela tarde. 
No serviço, contei aos colegas.  Todos acharam muita graça e se espantaram com uma suposta precocidade do Joãozinho.  Perguntaram de onde viria aquela ideia dele sobre a paternidade e suas origens. Respondi que talvez viesse de uma conversa qualquer comigo ou com sua mãe. Ou talvez, da advertência cuidadosa do professor ao orientar os meninos para se protegerem da bola na formação de uma barreira no futebol.  Uma amiga, rindo também, observou:
“Ele é canceriano mesmo: tem pendores dramáticos e é profundamente ligado à família!”
Eu que desconheço o caminho dos signos, mas me perco perseguindo a poesia, sorri-devaneando com os sonhos do filho. 
Não, não me empavonei por imaginar orgulhosas e numerosas descendências.  Mas sorri por João perceber, na sua ainda curta existência, que a paternidade pode ser uma experiência prazerosa. E, ao que parece pelo tamanho do seu temor de não conseguir conhecê-la um dia, entender que é algo que comporta mais do que a simples capacidade de ajudar a criar outro ser.
É algo que tem a real e bem-aventurada possibilidade de tentar fazer esse outro ser mais feliz.









Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 11/2/2018

O voo da borboleta


(caio silveira ramos)

Conheci Marisa Pimentel quando ela trabalhava no protocolo do setor de administração de recursos humanos.  Marisa era muito gentil no atendimento, mas só trocávamos um “boa-tarde-obrigado”.  Foi então que a Olívia Gurjão, que sempre incentivou minhas palavras, me disse que a Marisinha escrevia poemas. E na vez seguinte em que fui protocolizar alguns documentos, saí da sala com um livro escrito por ela: “Poetrix e Sentimentos”.
Fiquei sabendo que “Poetrix” era um gênero de “poema com um máximo de trinta sílabas métricas, distribuídas em apenas uma estrofe, com três versos (terceto) e título” (http://www.goulartgomes.com/visualizar.php?idt=1402080) criado pelo poeta baiano Goulart Gomes.    O livro de Marisinha tinha versos muito inspirados, mas fiquei mesmo admirado com a qualidade e a intensidade de outros “Poetrix” que não estavam em sua obra e que ela foi aos poucos me mostrando.  E pela poesia, ficamos amigos.
Mas nossa amizade ultrapassou a poesia quando João Pedro nasceu em 2008: Marisinha se apaixonou por meu filho de tal forma que se autoproclamou “a terceira avó”.  Talvez aquele “título” procurasse subentender o profundo carinho que tinha por mim e que agora se materializava naquele parentesco ainda que postiço. Mas o fato é que ela nunca se cansou de me pedir fotos novas do pequeno. Com elas, estampou uma caixa de madeira (que nos presenteou para guardarmos fotos novas impressas) e preencheu a tela inicial de seu computador do serviço.  E pra quem chegasse para pedir orientações ou protocolizar algum papel, ela virava a tela e falava: “meu neto não é lindo?”, “olha como ele cresceu!”, “não tá a cara da avó?”, “que olhar inteligente!”, “fala a verdade, mas ele não é lindo demais?”. 
João Pedro foi crescendo e as fotos na tela foram acompanhando cada uma de suas fases.   As pessoas já até perguntavam se ela tinha fotos novas, como estava passando seu netinho, se ele já estava na escola, coisas assim.  Quem me encontrava, dizia: “você que é o pai do neto da Marisinha?”.  “Nossa, vi seu filho: como está bonito!”.  “Seu filhinho já está andando, que graça!”.  O melhor foi um taxista do ponto em frente ao serviço: “não sabia que a Dona Marisa era sua sogra...”
Todo dia 18 de cada mês, era infalível: ela ligava ou mandava mensagens: “João Pedro, meu querido netinho. Parabéns pelos seus tantos anos e tantos meses. Vovó Marisinha te ama muito. Beijos, beijos, beijos”.    E ela nunca errava a data e o número de meses.   Muitas vezes encaminhava também um chocolatinho, um adesivo bonito, uma revista de palavras-cruzadas ou um brinquedinho singelo.  Num dos aniversários do pequeno, a corintianíssima Marisa chegou a presenteá-lo com uma camisa “retrô” do Palmeiras com o nome do pequeno estampado nas costas. E mesmo dizendo que a compra tinha deixado nela uma coceira alérgica, pediu: “depois me manda uma fotinho dele com a camisa nova?”.
E para ele, e para mim, e para as pessoas que eu queria bem, ela mandava cartinhas carinhosas ou presentinhos. Pequenas lembranças abrigadas em embrulhos caprichados e sempre enfeitados com sua indefectível marca: o adesivo de uma borboleta delicada.
De tal delicadeza que parecia se desmanchar durante o voo.

***
Marisa era tão delicada quanto as borboletas em forma de adesivo que ela usava para enfeitar seus embrulhos de presente, suas cartas e seus recados.  Uma borboleta passeando num pântano povoado por monstros não tão gentis.
Em suas fotos antigas, ela, menina, parecia ter um olhar frágil e desamparado. Quase triste. E assim penso que foi a vida toda. Mas ao mesmo tempo, seus poemas, seus bilhetes, sua história de paixão e dor, sua necessidade de amar e ser querida revelavam a ânsia de viver com intensidade. O que muitas vezes a fazia sofrer e se ferir.
E a sensibilidade da alma se irradiava pelo corpo: Marisinha tinha uma saúde frágil. O coração necessitado de cuidado.   A diabete violenta incomodando seu apetite quase maroto por bolos e docinhos.
Do coração, por temores, se descuidou.  Da diabete, por doçura, se deixou levar.  O que importava era a ternura incontornável que tantas vezes sua vida parecia testar.  Um dia partiu uma paixão. Em outro, o amado irmão Paulinho.  Também partiu a mais querida das tias, Ione, que tinha se ausentado muito antes, carregada pelo Alzheimer, mal que Marisinha poeticamente dizia que provocava “saudade de quem não se foi”.
Para evitar novas dores, foi morar sozinha num apartamento pequeno, que ela decorou com todo seu capricho.   Com habilidade, bom gosto e orçamento apertado, deu para criar faixas para cabelo, tiaras, colarzinhos, cachecóis e cintas feitas de tecidos e lãs, que ela vendia por preço muito inferior ao tamanho da arte. Ou simplesmente dava de presente a quem lhe ofertasse um simples sorriso.   Mas Marisinha não ficou sozinha por muito tempo: com ela foram morar, em períodos diferentes, dois sobrinhos que ela cuidava com ternura de mãe zelosa, chegando a dizer que se divertia ao passar suas camisas.
Mas a diabete não deu tréguas a sua doçura. Castigou seus pés e seus olhos, obrigando a aposentadoria do serviço, de suas criações e de suas novelas.  O tratamento da saúde ocular, deficiente e espaçado, roubou-lhe quase toda a vista e a atenção para seus outros males. 
Num dia 18, disse que apenas ligava para cumprimentar seu “amado netinho João Pedro pelos tantos anos e tantos meses” porque não enxergava direito para também mandar uma mensagem pelo “Whatsapp”.  Num outro dia 18, falou pelo telefone fixo, pois não conseguia mais ligar pelo celular. Dessa vez ela não conversou diretamente com ele: “por favor, dê, ao meu querido netinho João Pedro, parabéns pelos seus 9 anos e 3 meses. Diga também que vovó Marisinha o ama muito. Beijo, beijo, beijo”.
No 18 seguinte, ela não pôde ligar. No outro, também não.
E em 2018, no dia 11 de janeiro – data para mim de alegria e dor -, a borboleta voou, voou, voou até desaparecer em toda a sua delicadeza.
E a cada dia 18 – outra data de paixão e tristeza –, eu e João Pedro nos lembraremos especialmente dela.   Voando, voando, bulindo com nossa memória.
Floreando nosso caminho.

Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 21 e 28/1/2018



A cabra na sala


(caio silveira ramos)

Certo dia, o Vô Sylvio apareceu com uma cabritinha branca lá na casa da rua Prudente.  Quem deu falou que era para a ceia do Natal.   Mas a criançada se afeiçoou de tal forma à bichinha, que quando o Natal chegou ninguém teve coragem de mandar abater a cabrita. A Jandyrinha, que era quem mais gostava de planta e de bicho, quando soube que o presente não era de estimação, mas para refeição, abriu um berreiro tão grande que a dona Dedé, que morava na esquina, deu permissão à menina para entrar todo dia no seu quintal e cortar capim para alimentar a cabritinha. Desde então, Jandyrinha e Branquinha se tornaram inseparáveis companheiras de brinquedos e confidências. 

Sobrevivendo às festas do fim de ano, a cabrita se sentiu em casa de tal forma que, quando o Vô Sylvio chegava do trabalho e se sentava em sua poltrona em frente ao rádio grande da sala para ouvir notícias e novelas, ela empurrava a porta da cozinha, atravessava a casa e se espichava no chão ao lado dele até a hora do jantar. Dizem que se interessava particularmente pelas novelas de amor e mistério, mas isso pode ser lenda.
O que não é lenda é que Branquinha cresceu, virou uma beleza de cabra mocha e durante um bom tempo, ordenhada pela própria Vó Jandyra, forneceu leite para a família.   Senhora do quintal (mas sempre longe das roupas penduradas na corda), Branquinha se entrosou perfeitamente bem com os outros bichos da casa: Meg, uma destemida fox-terrier de pelo duro, presente de um casal inglês que tinha morado em frente; Dunga, um fox meio vira-lata que apareceu para ficar durante a viagem de uns vizinhos, mas que depois não quis mais ir embora. E, lógico, os muitos pintinhos que passeavam fora do galinheiro.  Com esses Branquinha era especialmente maternal: cuidadosa, ela se deitava de bruços para que os bichinhos se instalassem em suas costas e, quando tinha certeza que todos estavam bem seguros, saía pelo quintal desfilando feito trenzinho de passeio.
O Hélio, que por esse tempo já na namorava a Lia, achava tanta graça na Jandyrinha brincando descalça no quintal com a cabrita e os outros bichos, que arranjou um porquinho muito do danado para a menina.  Ela se encantou com o novo companheiro que, como a Branquinha, tomava banho de regador.   Parece que os dois bichos se deram até bem (inclusive ele também deu para passear com os pintinhos nas costas), mas só a cabritinha continuava com autorização para assistir ao rádio na sala.  E ainda era a preferida da Jandyrinha.
Até que Vô Sylvio e Vó Jandyra tiveram que se mudar para uma casa sem quintal na rua Treze.   Não se sabe ao certo que destino tiveram os pintinhos, Meg, Dunga, Branquinha e o porquinho (que nos últimos tempos já tinha virado um cachaço bonachão). 
Talvez, saídos de uma casa sempre tão cheia de melodias, desfilem por aí, feitos os Músicos de Bremen.  Na frente vai Branquinha, altiva, cheia de orgulho, com os pintinhos aboletados em suas costas assobiando felizes uma antiga canção de rádio-novela.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7/1/2018

Natais presentes


(caio silveira ramos)

As manhãs ansiosas acordadas muito cedo desde o começo de dezembro.
Um pião colorido de ferro acionado por uma haste espiralada.
As músicas da mãe.
Uma carriolinha vermelha de braços amarelos e rodinha preta.
Os presépios do pai.
Uma escova de cabelo com uma zebrinha pintada.
A mesa decorada pelas irmãs.
Um urso de plástico com talco cheiroso dentro.
A bandeja de frutas (ameixas, pêssegos e uvas) sobre o baú da máquina de costura “disfarçado” pela toalhinha de renda.
Uma caixa “Ao bom menino” de ferramentas “de verdade” para crianças.
A cesta - de vime, retangular, grande, com a tampa presa com dobradiças e fecho de metal, usada depois como guarda-brinquedo e até como base de um presépio pequeno - trazida pelo tio Samy naquele Natal arrumado lá no “Quartão”, com a família toda reunida.
Uma clarineta vermelha de plástico, com chaves coloridas para acompanhar a partitura escrita com bolinhas pintadas.
A alegria das irmãs.
Uma caixinha registradora amarela que, apertado o botão vermelho, toca uma campainha e tem aberta a gaveta com o dinheiro para o troco.
O riso sacudidinho da tia Mocinha.
Uma escavadeira de plástico, com base giratória, esteira de borracha e uma manivela lateral para mover o braço da pá.
A farofa com pedacinhos de maçã preparada pela mãe
Uma caixa pequena de isopor cheia de peças coloridas e dois pares de rodinhas de borracha para montar figuras e carrinhos.
O peru perfumando a casa.
Um carrinho de plástico (especial porque não esperado).
Os pratos especiais com flores no fundo (presente de casamento dos pais).
Um trenzinho movido à pilha.
A meia-noite do dia 24 de dezembro, hora de a família distribuir os presentes, depois do nascimento do Menino-Jesus no presépio.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para despertar os brinquedos que dormiram no pé da cama.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para sonhar com o Natal do ano que virá.
Publicado no Jornal de Piracicaba em 24/12/2017

Quando chega a melodia


(caio silveira ramos)

Para Fernado Szegeri

Ela vinha sempre na volta pra casa, no último dia de aula, assim que eu descia do ônibus no ponto da rua XV de Novembro, quase esquina com a São João.
Durante o ano, ela desaparecia, dessonhava, devia viver em algum canto esperando seu momento: eu não me lembrava dela e ela se esquecia de mim. Nem mesmo nas férias de julho ela se manifestava. Só mesmo no último dia, ali, pelo final de novembro, começo de dezembro. Era botar o pé pra fora do ônibus e a sensação de liberdade, a perspectiva de liberdade e a própria liberdade me traziam o nananã de uma melodia que eu não conseguia decifrar, segurar pelos cabelos, fixar na memória. E eu ia flutuando, flutuando, cantarolando aquela música que crescia exultante, me levando pro alto, me fazendo voar mesmo sem letra até a porta de casa, onde de fato as férias começavam. Onde as férias incitavam aquele som de liberdade a me preencher a alma.  Som que seria retirado novamente de dentro do meu peito apenas um ano depois.
De onde viria aquela melodia de liberdade e de alegria incontida? Minha não era: não tinha vindo de um sonho. Talvez tivesse surgido de dentro de um rádio que vivesse estacionado na cozinha de casa ou de outro que gostasse de espalhar seus sons pela rua. Talvez da TV, de uma trilha sonora de uma novela que esperava o jornal das 8 ou que se propagandiava durante os intervalos da Sessão da Tarde.   Só sei que durante os quatro anos do ginásio e os três do colegial, a melodia me encontrava no lugar e no dia certos. Sempre. Mas eu, naqueles tempos pré-internéticos, nunca consegui encontrar sua origem e seu caminho.
Entrei na Faculdade e durante os cinco anos, por capricho, sempre no último dia de aula, voltando de São Paulo, só para encontrar a melodia que marcava o início das minhas férias (e da minha liberdade), eu deixava de desembarcar na rodoviária para saltar do ônibus na esquina da Moraes com a Independência. Ia descendo a pé, desviava do meu caminho, entrava na rua Bom Jesus e por fim dobrava a XV só para passar de propósito pelo velho ponto de ônibus quase na esquina com a São João. E milagrosamente a melodia vinha. Solta. Sem letra, sem nome, sem autoria.
E me preenchia de liberdade.

***

Num final de semana em Ribeirão Preto, na casa da minha irmã, ouvi, vindo pela janela, a melodia sonhada. A melodia que me aparecia sempre no último dia de aula e que marcava misteriosamente, desde a infância, o início das minhas férias. 
A música começou com um “deixa estar...”, mas depois não consegui decifrar mais nada: alguém abaixou o som do rádio, trocou de canal, desligou o mundo. Mas como nessa época eu já tinha sido completamente envolvido pelo samba, ainda consegui apreender a voz do cantor: sem dúvida nenhuma, era uma composição interpretada por João Nogueira.
Com a ajuda da internet, encontrei a listagem completa dos seus discos e músicas, mas entre os diversos títulos, não aparecia nada que fizesse qualquer referência às palavras mágicas “deixa estar”.
Passei a vasculhar lojas de discos, sebos e estantes de casas de amigos atrás dos sambas daquele João.  E fui ouvindo, descobrindo, redescobrindo a beleza gingada de seu canto. A força transformadora do seu poder de criação.  Seu e de parceiros como o grande poeta Paulo César Pinheiro. E assim, me embriaguei de “Espelho”, “Além do espelho”, “Súplica”, “Minha Missão”, “E lá vou eu”, “Nó na Madeira”, “Mineira”, “Se segura, segurança”, “Batendo a porta”, “Eu, hein, Rosa!” e tantos outros.
Topei então com o LP “Boca do Povo”, de 1980. E como sempre fazia a cada audição de um disco do João, para saborear ainda mais minha busca e meu sonhado encontro, fui colocando o comecinho de cada faixa, uma a uma. E assim foram brotando sambas como “Poder da Criação”, “Mulher valente é minha mãe” e o clássico de Padeirinho e Ferreira dos Santos, “Linguagem do Morro”.
Então, na 12ª faixa (justamente a última!), após uma introdução feita só pela batida da percussão, começou um samba-amaxixado iniciado pelo esperado “deixa estar” e com a melodia sonhada. Ali estava o samba que me alimentou de liberdade durante tantos anos.
“Bons ventos”, do próprio João Nogueira e de Ivor Lancellotti – compositor que carrega na voz e na criação o som de uma alma enluarada que encantou e encanta intérpretes como Clara Nunes (que, entre outras, gravou “Sem companhia” e “Amor perfeito”, ambas parcerias com Paulo César Pinheiro) e Roberto Carlos (“Abandono”) –, traz a história de alguém que anseia desistir de um amor para, aos poucos, reabrir o coração.  De qualquer forma, a letra trata da esperança de “um novo amanhecer”, o que rima com a inspiração de liberdade que a música há tanto tempo já me oferecia.
Recentemente, descobri que a composição tinha figurado como uma das faixas da trilha sonora de uma novela das 18 horas da Rede Globo, “As Três Marias”, baseada no romance homônimo de Rachel de Queiroz e exibida de novembro de 1980 a maio de 1981.  Não me lembro de ter assistido à novela – embora me recorde das atrizes protagonistas -, mas foi naquele período que o bendito samba me enfeitiçou.
Observo agora a foto da capa do tal LP “Boca do Povo”: nela, João Nogueira sorri feliz enquanto ouve um radinho de pilha. Se não fosse a impossibilidade do tempo, alguém poderia dizer que ele fala com alguém ao celular.
Gosto de sonhar assim: João, de fato, atravessa o tempo e fala comigo: depois de mandar um abraço do parceiro Ivor Lancellotti, pergunta se eu continuo andando por aí, cantarolando seu samba.
Emocionado, mesmo sem conseguir responder ao poeta, “devagar, vou abrindo meu coração” com a certeza de que “o amor vai sobreviver”.
E lalariando a melodia pelas ruas, vou me perder pelo tempo.


Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 e 17/12/2017


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Chocolate afetivo

(caio silveira ramos)


Meu pai resolveu fazer um curso em Campinas aos sábados. Acho que era algo relacionado a uma de suas paixões, a Linguística.  Mas saía tão cedo de casa para ir para a rodoviária que, quando eu acordava, ele já tinha partido.
No final do dia, meu pai chegava cansado, mas profundamente feliz.  Ria, contava histórias, enquanto mergulhava um pedaço de pão com um pouco de margarina ou mel na sua xícara de café com leite.
Mas antes, bem antes, assim que eu abria a porta atendendo ao seu famoso assobio, ele me dava uma caixinha de cigarrinhos de chocolate. Ou um tubo de papelão (azul ou vermelho, dependendo da marca), com tampa de plástico, cheio até a boca de pastilhas (também de chocolate) embaladas cada uma em papel alumínio.  Eu dividia os chocolates com minhas irmãs e até guardava alguma coisa para comer mais tarde. E sobrava o tubo que servia para armazenar pequenas coisas. Ou, arrancados o fundo e a tampa, aquele canudo de papelão ainda podia se transformar numa bela luneta pra ver as crateras do lado oculto da lua.
Eu pulava de felicidade: além do chocolate recebido e do próprio tubo de papelão que viraria um brinquedo, me enchia de orgulho e de importância saber que meu pai tinha viajado até Campinas, feito seu curso e, ainda assim, conseguira tempo para pensar em mim durante o dia. A ponto de me trazer uma lembrança de tão longe.
Mas lá pelos meus doze, treze anos, num almoço de domingo, quando recordei saudoso os tubos de pastilhas de chocolate e a alegria sentida ao receber presentes trazido lá de Campinas, meu pai estranhou:
“De Campinas? Não... Eu comprava na “Bomboniere” aqui pertinho de casa, quando voltava a pé da rodoviária no final do dia...”
“Da “Bomboniere” aqui da rua XV? Mas eu tinha certeza que o senhor se lembrava de mim lá em Campinas...”
“Eu lembrava, mas o chocolate era daqui. Tem alguma diferença? O chocolate não tinha o mesmo gosto?”
“Tinha, mas... Sei lá...”
Eu conhecia muito bem a “Bomboniere” da rua XV de Novembro (pouco abaixo da esquina com a José Pinto de Almeida) e que ficava bem perto da nossa casa: ela era pequena, mas para mim, mais encantada que a Fantástica Fábrica de Chocolate do Sr. Wonka. Não só pelos doces, mas também porque tinha no alto um balcão ondulado, que eu não sabia aonde ia dar e o que escondia. Mesmo ali, no piso inferior, tudo era uma festa para os olhos e para a boca: prateleiras preenchidas por cubos de vidro repletos de balas, chicletes, dadinhos de amendoim, bombons e chocolates. Espetados em tabuleiros de madeira, pirulitos grandes, embalados em papel colorido estampado com caretas engraçadas, ou aqueles pequenos, retangulares, “do Zorro”. E a loja tinha muito mais: pacotinhos de balas de goma (que meu pai tanto gostava), bonecos de plástico de super-heróis, com tampinhas de plástico na cabeça, recheados de dezenas de bolinhas coloridas e doces. Frascos de plástico transparente (daqueles que precisava cortar a ponta com tesoura para tomar o suco doce e colorido que vinha dentro) em forma de revólver ou carrinho. Latinhas ovaladas cheias de balas...  Isso tudo sem contar as caixas de papelão, cada uma com sua tampa de vidro quadrada com moldura de madeira, onde ficavam os salgadinhos vendidos a granel. Ah, e o baleiro grande e giratório, com balas Soft, Kids e aquelas Kleps que eram vendidas em fitas? E os balcõezinhos com dropes, Mentex, chocolates das mais variadas marcas e bonecos da Disney, que esticando o pescoço, guardavam pastilhas “Pez”? E o ovo de chocolate que vinha numa caixa azul que minha mãe comprava para meu pai na Páscoa?
Pois era dali, justamente dali, pertinho de casa, que meu pai trazia os cigarrinhos ou as pastilhas de chocolate. De lá vinham os aguardados tubos de papelão que viravam lunetas.
Às vezes, em nossas conversas, eu fingia uma falsa e exagerada decepção e meu pai ria, me perguntando se eu preferia que ele não tivesse trazido os chocolates. E eu, risonha e dramaticamente, dizia que seria melhor o amargo da verdade que o gosto doce da mentira. E ríamos os dois.
Preciso de um tubo de papelão daqueles. Pode ser azul, vermelho, da marca que for. Não são necessárias nem as pastilhas de chocolate embaladas em papel alumínio. Preciso só do tubo, para retirar a tampa de plástico e o fundo de papelão. Preciso daquela luneta. Ir para janela do escritório e vasculhar aquele passado. Ver o pai chegando da rodoviária carregando seu cansaço.  Trazendo seus livros, seus cadernos e quem sabe o chocolate comprado na “Bomboniere” a poucos metros da nossa casa.
Preciso daquela luneta fantástica com cheiro de chocolate.
E a visão do riso inconfundível do pai.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pela autora
Publicado no Jornal de Piracicaba em 12/11/2017

Além do Mirante 4: Revirando

O Jornal teve que virar um pouco suas páginas.
Se virar.
Revirar.
Revirar para reviver.

Mas o Mirante segue.




Abandonos

(caio silveira ramos)

Numa tarde de sábado qualquer, fui comer um lanche na padaria com o pequeno.
A tal padaria é daquelas grandes, com vasto balcão para venda dos mais diversos pães e doces.  No lado direito de quem entra, há uma bancada em forma de “u” onde são servidos sucos e refeições rápidas, um bufê com sorvetes “da casa” e um outro com comidas “por quilo”. Por fim, próximas às grandes vidraças, muitas mesas com quatro ou duas cadeiras onde os clientes podem se alimentar calmamente.  E foi nesse setor que nós nos sentamos: ele pediu um misto quente. Eu, um café acompanhado por um pão de queijo na chapa.
O garçom já tinha anotado nosso pedido, quando me lembrei que o pequeno gosta de um suco que fica na geladeira do outro lado do estabelecimento. Avisei que iria buscar seu suco e, tranquilo por conhecer quase todos os funcionários da padaria, o deixei sentadinho esperando seu misto.
Apanhei o suco e me lembrei que Patricia, um pouco indisposta naquele dia, tinha me pedido para levar alguns pãezinhos para casa. Como a fila era pequena e o cheiro do pão avisava que ele tinha acabado de sair do forno, resolvi esperar a minha vez. Só que um pouco antes de chegar ao balcão, uma velhinha muito simpática resolveu puxar conversa com o padeiro, o que fez a compra demorar um tantinho a mais.
Com o pão fumegando no saquinho e o suco do João nas mãos, contornei o bufê e fui em direção a nossa mesa. Chegando perto, percebi que o pequeno, ainda que sentado, estava virado para trás, com certo ar apreensivo.
“Tudo bem, filhinho? Seu misto já chegou... Não precisava ter me esperado. Frio, o sanduíche não fica tão gostoso.”
“Você demorou, papai...”
“Me lembrei que precisava comprar pão pra sua mãe e resolvi não deixar pra saída: vai que a fila aumente...”
“Fiquei pensando, você indo embora, me deixando aqui...Aí chegando em casa, você e mamãe comemorando...”
Então, durante meio segundo, sensações tão opostas se achegaram em mim misturadas, reviradas, sobrepostas: uma vontade de gargalhar do absurdo. Gargalhar por me deparar com o pequeno imaginando uma situação impossível diante de um amor absoluto. Eu queria rir, rir da graça daquela fala inocente, das cenas descabidas em que eu tentava me ver em seu pensamento. Como, como podia sequer passar por sua cabeça que tal disparate pudesse acontecer? Era tudo tão engraçado! Mas de repente, ao mesmo tempo, o riso me escapava e brotava o nó na garganta, a necessidade do choro calado. Pois não tinha, de fato, passado na mente do filho aquilo que para ele não era um disparate? De onde, de onde surgira aquele medo, mais que isso, a ideia irremediável do abandono? De que fato, de que gesto, de que palavra aquela sensação surgira para roubar seu sossego?  E a dor, a dor genuína, sem lágrima, sem grito, cruelmente bordada ainda pela espera infinita?
“De onde você tirou essa ideia maluca? Ah! Tá aqui seu suco...”
Ele repetiu mais ou menos o que já tinha falado: parecia até que a sensação ruim fora esquecida ou perdida no meio do queijo derretido do misto quente:
“Então...ah, sei lá, você indo embora...vocês comemorando...Abre o canudo pra mim, por favor?”
Retirei o canudo de dentro da embalagem plástica que escorregava na sua mão e coloquei dentro da caixinha do suco. Sorri para o jeito todo dele de dizer “por favor” e “obrigado” e provoquei:
“Se passasse mais um tempo e o papai não aparecesse, você iria comer o sanduíche antes de me procurar no outro lado da padaria ou deixaria ele aí?”
“Eu deixaria o sanduíche aqui”.
“E se fosse um “cookie” ou um bolo de chocolate quentinho lá da loja da esquina?”
Ele pegou o suco e, enquanto sugava pelo canudo, olhou para mim. Então, riu, quase se engasgando. Tirou o canudo da boca, engoliu o suco e abriu um sorriso grande, rindo, rindo.
Eu ri também: a alegria estava de volta.
Mas escondido em algum canto sei que dorme um temor desconfiado.
Desconfiado dos abandonos que a vida teimosamente insiste em repetir. 


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 24 de setembro de 2017


Conexões

(caio silveira ramos)

Brontops Baruq é um dos grandes autores brasileiros modernos.  Avesso à fama, ele possui uma identidade secreta como o Bruce Wayne do Batman.  Mas não faz isso por ser enjoado. Faz por modéstia. Mesmo assim, já é famoso nos círculos da literatura de ficção-científica, ainda que se dê bem escrevendo em qualquer gênero. Além de ser um magnífico desenhista.
Conheci Brontops olhando o verso de umas fotos de viagem: para cada imagem captada pela câmera, ele ilustrava a situação que a gerara, a história por trás daquela fotografia, e tudo se tornava ainda mais interessante. Depois ilustrou um continho meu. E enfim, descobri que ele também escrevia e tinha – talvez fruto de uma bagagem de conhecimento profundo, que não excluía nem a “cultura pop” – uma criatividade espantosa.
Não sei o porquê, mas enquanto escrevia uma série de três crônicas intitulada “Não sou de briga”, para o “Mirante dos Infinitos”, pensei em dedicá-la ao Brontops. Estranho isso, porque ele é uma pessoa pacífica, tranquila, avessa a se meter em qualquer polêmica.  Talvez tenha pensando nele porque as crônicas, para ilustrar as situações narradas, fizessem menção a séries e desenhos dos anos 1980, assuntos que Brontops domina também.  Mas provavelmente não era esse o motivo, pois é difícil encontrar algum assunto que Brontops não domine. E sempre sem qualquer pingo de afetação ou pretensão.
A razão da homenagem talvez fosse uma perda recente na vida da identidade secreta de Brontops, mas como a dedicatória não combinaria com o título da série – o que teria a ver “Não sou de briga” com a tristeza de uma partida? – resolvi não fazer nas crônicas qualquer menção ao seu nome.
Mas assim que acabei de enviar ao Jornal a terceira e derradeira parte da série, encaminhei a Brontops as duas primeiras crônicas, revelando minha intenção inicial de dedicar a ele aqueles textos. Brontops achou graça, fez alguns comentários sobre o enredo e acabei me despedindo dizendo que assim que fosse publicada, eu encaminharia a terceira parte por e-mail, para que ele, pelo menos, pudesse apreciar as ilustrações da incrível Maria Luziano.
A última parte enveredava por caminhos estranhos ao enredo das crônicas anteriores e tratava do conflito terrível de um eu-menino que, para reforçar as desculpas de um malfeito contra um amigo, acabava por se desfazer de um querido carrinho de bombeiros, ainda que isso provocasse algum arrependimento.  Publicada a crônica, a encaminhei ao Brontops, que me respondeu: “eu tenho esse brinquedo!”. E alguns dias depois, para comprovar, ele me enviou o tal carrinho de presente.
E ali, diante de mim, estava um brinquedo idêntico ao que eu me obrigara a dar de presente a um amigo-menino, em 1978: um carrinho de bombeiros “de ferro”, da marca Matchbox, vermelho, com detalhes prateados e com uma escada amarela que subia e descia.
A conexão estava feita: estranhamente, seguindo um caminho tortuoso, a crônica que imaginei dedicar (sem saber por qual razão) ao escritor Brontops, revelava enfim suas intenções.  Ela era veículo de uma amizade entre meninos.  Meninos novos, meninos velhos.
Meninos eternos.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 9 de setembro de 2017


Desvaidade

(caio silveira ramos)


Foi então que a cachorra Nina deu para roubar um pé do meu tênis de dentro do armário e sair correndo para se esconder pela sala, cheirando, cheirando o calçado, tirando a palmilha interna, roendo as pontas dos cadarços.  Ela que sempre tivera exclusiva atenção para com os chinelos da sua Escolhida, respirando, mordendo, roendo suas tiras. E assim, por amor, estraçalhou cinco mimosos chinelos: velhos, novos, novíssimos, das mais variadas estampas e cores. Os chinelos da sua Escolhida. Os sabores da sua Escolhida.
Desde pequena, assim que entrou em casa, ela fez a sua escolha. E, daí para frente, o colo mais procurado, o abraço mais aconchegado foram sempre os da Escolhida. E os olhos mais fechados? E a cabeça erguida para oferecer o longo pescoço aos mais doces afagos? Sempre foram para a Escolhida. É pela Escolhida que ela espera sentada tristonha sobre as almofadas da cadeira de balanço. É pela Escolhida que ela se posta companheira ao lado da cama quando alguma dor de cabeça ou resfriado se abriga no corpo da amada. É pela Escolhida que ela late vigilante para o invisível quando qualquer mistério flutua pelo ar. E são da Escolhida os chinelos e sapatos que ela assalta para explorar seus sentidos. 
Para mim ela sempre latiu festiva na minha chegada. E sempre se deitou de barriga para cima com o rabo balançando com força para receber o carinho especial na mancha branca sobre o peito. E alegreassustada rodou pelos quarteirões comigo a levando pela coleira. Em mim, Nina sempre chegou com sua bola e seus outros brinquedos para que eu os atirasse e ela me trouxesse novamente.  E se o jogo da TV tem 90 minutos mais o intervalo, por 90 minutos (e durante o tal intervalo) ela sempre esperou ansiosa que eu arremessasse seus brinquedos. Ou me provocou com a pata, enquanto eu tentava acompanhar o ataque do meu time, pedindo que eu jogasse mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez, a bola, o osso, o urso, o mundo. E ela sempre me trouxe tudo de volta. Se para ela sua Escolhida sempre foi o sol, eu até agora fui um dos seus brinquedos. Eu estava ali, entre a bola de travas de borracha e um pinguim de pelúcia já surrado.
Então, depois das minhas curtas férias, Nina abandonou os chinelos da Escolhida e encontrou meu velho tênis.
Me envaideci todo: a Escolhida podia até ser ainda seu sol.
Mas agora, todo cheio de mim, eu já podia me sentir quase uma lua crescente.

***

Quando a cachorra Nina, depois de abandonar definitivamente os chinelos de sua Escolhida, resolveu se esconder pela casa com um pé do meu velho tênis (usado incansavelmente durante minhas curtas férias), me enchi de vaidades.
A primeira coisa que pensei foi que ela queria me sentir por perto durante minhas ausências. Ela não podia me perder enquanto eu estava no trabalho: precisava sentir minha presença, minha proteção, reter na memória meu carinho, colher nos seus sentidos minha essência.
Depois fui além: na verdade ela assaltava meu tênis como quem vasculha os bolsos da pessoa amada: precisava saber por onde eu andava, com quem falava, por quem eu acelerava o coração.  Estariam minhas mãos se espalhado em mil outros afagos? Estaria eu em caminhos perdidos, acarinhando vira-latas sem conta? Ou mesmo fechando os olhos ronronantes de gatas extraordinárias? Por ciúme (e me envaideci muito mais pensando assim), ela procurava respirar minha vileza, desconstruindo meu velho calçado.
Então, enquanto me preparava para o banho após uma exaustiva jornada de trabalho, me dei conta de que estava totalmente errado. Olhando os sapatos que tinha usado o dia todo, fui invadido pela desvaidade: se Nina procurasse realmente absorver minha presença, se ela se enciumasse por meus supostos descaminhos, ela fugiria com aquele par de sapatos, não com o pé de um tênis usado durantes as férias ou em algum passeio no final de semana.
Nina pouco se importava comigo. Como sempre fizera, ela, generosa, continuava a me emprestar um pouco de seu carinho na minha chegada. Ou sua euforia para um breve passeio noturno em volta do quarteirão. Ou até sua alegria para apanhar a bola que minha exaustão arremessava pela sala.  Meu pé de tênis roubado não servia para que ela se lembrasse de mim. Servia para que ela pudesse alimentar seus sonhos de aventuras.
Ela queria trilhar meus caminhos, mas não por mim, e sim por ela e por sua Escolhida.  Nina queria era descobrir os lugares por onde eu andara nas férias ou nos finais de semana para sonhar com eles: ela queria todos os cheiros, os gostos, os olhares. Queria sentir o perfume do gramado onde eu jogara bola com o João Pedro, a poeira dos parques caminhados, o sabor do filé à parmegiana saboreado em Itu. Talvez até tivesse se enamorado pelo cachorro grande e forte dos meus sobrinhos que moram lá em Vinhedo: meu tênis, o cupido daquele amor canino platônico.
Quem sabe, mais que tudo isso, ela quisesse apenas saber por onde passeara sua Escolhida (que deixara os chinelos em casa durante as férias). Meu tênis seria seu informante. O confidente que revelaria os passeios de sua Escolhida, seus descansos, seus risos, sua alegria.  Meu tênis, que tinha se beneficiado do brilho e calor do sol. Do sol que era a sua Escolhida.
E resignado com o retorno a minha insignificância, feito lua minguante, fui de meias até a sala, onde Nina me esperava para que eu arremessasse sua bola de borracha. 
Eu, apenas mais um de seus brinquedos. 


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/8/2017