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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Breve acalanto para os dias de incertezas


(caio silveira ramos)

Imagine uma típica avozinha de livro de histórias: sorriso sereno, cabelinho curto e olhos doces embalados por óculos de aros dourados. Ela ainda tem que usar uma blusinha de lã com botões discretos, deve gostar de bichos e plantas, e ser apaixonada por suas netinhas, por suas duas filhas e por seu marido, que por gostar muito de doces (entre os quais ela se destaca), tem o carinhoso apelido de Formigão.  Pois se Dona Zélia se enquadra em todos esses requisitos, ela tem pelo menos uma característica que a diferencia de outras vovós de livros de história: Dona Zélia adora futebol.
Pois não é que ela sabe escalações, a tabela de jogos e, se bobear, discute até se é melhor o esquema 4-3-3 ou o 4-1-4-1?  E tudo isso com a serenidade de quem faz uma toalhinha de crochê durante a novela.
Dona Zélia cresceu, no meio de sua numerosa família, em uma grande casa com um assoalho de madeira que tremia quando a criançada corria pela sala.  E nessa sala, seu pai, sentado na sua poltrona, curvado, cotovelo apoiado num dos joelhos, mão no queixo, ouvido quase grudado no grande rádio, escutava os jogos do seu Palestra.  Sempre desse jeito, quieto, atento, pedindo com o olhar que as crianças fizessem silêncio durante as partidas.
A menina Zélia se perguntava por que o pai não colocava o rádio mais alto e se endireitava na poltrona para escutar as partidas com mais conforto. Mas, na verdade, era só o jeito dele, mania, simpatia ou simplesmente sua forma de se concentrar e torcer contido.
Mas por mais baixo que ele ouvisse, a voz do locutor, a tensão do pai e a empolgação da torcida invadiam a casa, e as crianças paravam de correr pela sala para o piso não tremer e atrapalhar o jogo. E ali perto, quietinha, sem se fazer perceber, a menina Zélia acompanhava a partida e vibrava para ver seu time ganhar e seu pai ficar mais feliz.
Um dia o pai se foi e a menina Zélia, durante muito tempo, nos dias de jogo, continuava entrando em casa pisando suave sobre o piso da sala. E por um segundo ela tinha a impressão de ver o pai junto ao rádio ouvindo mais uma partida do Palestra.
E nas noites tormentosas, com seus trovões, ventos e temores, ela procurava sentir a presença do pai, protegendo, de sua poltrona, a casa e a família.  Nos dias de tristeza e saudade, vindo da rua, a moça Zélia ligava o rádio e, enquanto o locutor narrava uma partida nervosa, ela aquietava o coração: parecia que o próprio pai vinha em seu consolo, tomando-a pela mão para abrigá-la no seu colo.
Assim, pela vida afora, quando os medos pareciam engolir o mundo, Dona Zélia escutava futebol pelo rádio para se serenar segura, como se ouvisse um breve acalanto para abrandar os dias de incertezas.
E até hoje, quando as amarguras do futuro e a violência da vida de fora parecem fazer tremer o mundo como o piso da velha casa que não existe mais, Dona Zélia deixa por um instante as netas brincando tranquilas na sala e liga o radinho na bancada da cozinha para ouvir um jogo de futebol qualquer.  Enquanto, em outros cantos da cidade, pessoas roem as unhas, gritam agitadas e explodem seus corações, Dona Zélia sente a calma invadindo a alma e o corpo. 
Quem sabe ela veja seu pai se achegando, apoiando o cotovelo na bancada, descansando o queixo numa das mãos para escutar o jogo com ela.  Mas já não importa a partida, o placar e o grito da torcida. Dona Zélia sorri para o pai sabendo que seu mundo, o mesmo mundo de suas filhas, de suas netas, de seu amado Formigão, está naquele momento protegido.
Então tudo fica em paz.


Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 19/8/2018



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Pedra e paixão

(caio silveira ramos)

Tinha uma pedra de dois milímetros no meio do caminho.
Fui parar no hospital, tomei soro, fiquei de molho e meu João foi passar uns tempos na casa dos avós.  No segundo dia, não por culpa deles, mas talvez da saudade, e contrariando seu estado habitual, ele estava amuado, sem apetite, com enjoos. E com febre.  
Em situações extremas, ele incorpora Edgar Allan Poe e dramaticamente brada: “nunca mais!”.  Dessa vez, porém, depois de surpreendentemente recusar um belo frango empanado, ele cabisbaixo apenas sussurrou para sua tia: “acho que nunca mais eu serei feliz”.
Mas já na quarta-feira à noite, depois de nos encontrarmos, ele foi tomar um banho e o corvo poerento voou para longe: feliz, debaixo do chuveiro, João Pedro cantou o hino do nosso time com todos os seus vinte pulmões, certo da vitória na final do campeonato que iria começar dali a vinte minutos.
Depois de vê-lo com os olhos embaçados durante um tenso jogo anterior, tinha prometido para mim mesmo que iria acompanhar as partidas do nosso time com a indiferença de uma madame assistindo, durante o chá, uma partida de golfe no Nepal.  Mas depois daqueles dias difíceis, deixei que João Pedro acompanhasse à partida com todas as emoções que tinha direito.
Antes da disputa de pênaltis decisiva, ele segurou minha cabeça com doçura e firmeza, encostou sua testa na minha e olhando fundo nos meus olhos disse: “nessa hora eles têm que ter paixão. Têm que ter paixão.” Eu só repeti baixinho: “paixão.”.
Depois de rolarmos no tapete da sala comemorando o título, e já com os ânimos mais serenos, eu disse que achava que o time tinha atendido seu pedido. Ele, aliviadamente esquecido, me olhou intrigado, e eu devolvi: “você se lembra do que disse que o time precisava na hora dos pênaltis?”
“Gols?”
“Sim, mas não foi isso que você disse.”
“Defesas?”
“Também não.”
“Colocar a bola onde a coruja faz o ninho?”
“Não. O que é fundamental na vida, filho? Paaaaaaaai...”
“Pai e mãe.”
Ri gostosamente e lembrei a ele que tinha dito “paixão”.
Ele gargalhou feliz, disse um “ah, é!” e, cantando e vibrando, foi comemorar nos braços da torcida.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13/12/2015

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Algemirando 4: pai e bola (e outras paixões)

(caio silveira ramos)

Aqueles que foram alunos do professor Algemiro nas décadas de 1970 e 1980 não tinham dúvidas: ele era palmeirense.   Não que fosse fanático ou algum tipo de torcedor desagradável ou intransigente.  Longe disso.   Suas provocações risonhas, seus comentários graciosos no início das aulas, os exemplos que explicitavam as lições de gramática e as amistosas conversas com os alunos durante os intervalos (ou até mesmo na rua, em um encontro causal) tinham a finalidade de entreter e principalmente tornar mais fáceis e inesquecíveis os intrincados caminhos da Língua Portuguesa.  Mas o que quase ninguém sabe é que o professor Algemiro era palmeirense apenas por causa do seu filho mais novo.   Se é que de fato torceu pelo Palmeiras algum dia.
Durante nossas intermináveis conversas ele dizia que, quando menino, tinha sido são-paulino, muito provavelmente porque na década de 1940, Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, jogara no São Paulo e fora cinco vezes campeão paulista.  Para um garoto criado em Itu, mas que tinha passado boa parte da infância e da adolescência confinado no Seminário de Pirapora do Bom Jesus, as bicicletas vitoriosas de Leônidas deviam ser irresistíveis.  E faziam o pensamento voar mais alto que as pipas empinadas nos intervalos dos estudos.
Quando migrou para Capital (e assim que a fome diminuiu um pouco graças ao trabalho de bancário), entre os campeonatos de futebol de várzea, a Faculdade de Letras (e por um período também a de Direito) e os estudos profundos nos finais de semana na Biblioteca Mário de Andrade, o jovem Miro foi convidado para treinar e disputar corridas de longa distância justamente pelo São Paulo F.C., que nessa época tinha o Canindé como estádio.
Acontece que Miro não era de briga (pelo menos das brigas que não valiam a pena) e nunca se tornou um torcedor fanático: o que ele gostava era de futebol, qualquer que fosse o time ou o jogo.
Durante nossos passeios a pé, sempre longos e cheios de conversa, ele quase sempre parava à beira de um campinho qualquer e ficava olhando o jogo por um bom tempo.  Se tivesse um alambrado (como no campo em frente à ESALQ), ele apoiava os dedos na grade e comentava comigo as jogadas, mesmo que fosse uma pelada de “os com camisa” contra “os sem camisa”.  Talvez se imaginasse jogando, relembrando seus tempos de goleiro no terrão do seminário ou nos campos de várzea do campeonato bancário.
Ele não torcia: gostava de ver os gols, as defesas, os dribles.   Em época de Copa do Mundo, se já estivesse em férias, assistia a todas as partidas possíveis, alegrando-se com os times que tivessem um grande goleiro ou jogassem bonito, sem violência e ofensivamente.  Mas ele não sofria, não gritava, nem se deixava entusiasmar muito pela Seleção Brasileira: consciente dos danos irreversíveis da ditadura militar, temia o ufanismo inconsequente e vazio.  Da várzea ao Maracanã, a vitória não importava. Importava era a beleza daquele bailado todo.
E contra qualquer ditadura, ele subverteu a “ordem” que determina que os filhos devem torcer pelo clube de seus pais: pelo filho caçula, passou a se dizer torcedor do time que um garoto de quatro anos escolheu (e se apaixonou) livremente. Sem despertar qualquer suspeita do motivo, para os das ruas, das escolas, para o mundo, ele torcia para o Palmeiras, justamente no período em que o time ficou mais de dezesseis anos sem título.  Para que o filho caçula não sofresse sozinho, ele se fez palmeirense até quase acreditar que torcia de fato.
Pelo filho mais novo, ele vestiu o coração de verde e branco e o expôs ternamente fora do peito.

***

Mas em casa, a história era outra: o Palmeiras do filho não entusiasmava o pai, que preferia optar pelo belo e pela alegria.   No final da década de 1970 e começo da de 1980, foi o Corinthians da Democracia, comandado pelo doutor Sócrates, quem encheu os olhos do Miro.  Não eram apenas a criatividade do time em campo e o toque mágico de calcanhar de Sócrates: o que fascinava era a postura sábia daquele jogador formado em uma das maiores faculdades de Medicina do País, que discutia sem dificuldade sobre qualquer assunto – inclusive sobre leituras diversas –, se posicionava de maneira corajosa politicamente em época de ditadura e ainda dizia, mesmo recebendo ofertas milionárias de times estrangeiros, que se o Brasil voltasse à democracia, ele não aceitaria jogar no exterior.  O filho sabia que o time jogava solto e bonito, e que o médico-jogador além de inteligente era um craque de bola, mas a paixão falava mais alto e o menino preferia torcer contra o maior rival do seu esforçado time.   Ciente de todo o sofrimento do filho, o pai, fora de casa, se revela um anticorintiano irônico, embora não deixasse de enaltecer o talento de Sócrates e sua luta pela democracia.
Como as eleições diretas para Presidente da República demoraram, o “Doutor” foi jogar no Fiorentina da Itália e o olhar de seu Miro só voltou a se encantar com um time quando Telê Santana transformou o São Paulo em uma fabulosa orquestra no começo da década de 1990.  O filho do Miro admirava Telê desde 1979, quando o mestre montou um grande Palmeiras e por isso seguiu para Seleção Brasileira.  E dirigindo a Seleção, mesmo sem títulos, Santana construiu duas inesquecíveis equipes para as Copas do Mundo de 1982 e 1986. 
Muito bom, muito bem, mas daí a torcer para o São Paulo anos depois já era outra história.  Mas se isso era impossível para o filho, para o Miro não era nenhum problema, já que no São Paulo, Telê encontrou os títulos que lhe faltavam e brindou o time com um futebol vistoso, ofensivo, alegre, que deixava a violência de lado.  Seu Miro, que já tinha um passado tricolor, mais uma vez se encantou, principalmente quando soube que Telê Santana tinha o mesmo cuidado com os times da base do São Paulo.  E ainda exigia que os meninos se esforçassem na escola, se aprontando para um mundo maior que o do futebol. Telê preparava times para a vida e para beleza.
Mas nem só a beleza do jogo enchia os olhos do Miro.  Os simples encantos de uma partida singela o recheavam de alegria.  Por isso, eu e ele subimos tantas vezes a rua Moraes Barros para ver o XV jogar no Barão de Serra Negra.   Não íamos apenas para ver o jogo (mesmo porque durante um bom tempo o Nhô Quim não apresentava um futebol nada vistoso): nosso prazer era a conversa no caminho, a sensação de entrar no estádio, sentar na geral, tomar sorvete e compartilhar um cone de jornal cheio de “casulos” de amendoim.  Ele “estendia” o cone e sob nossos pés espalhava as vagens todas em cima da toalha improvisada. Depois ia descascando uma a uma, comendo sem tirar os olhos do jogo ou me dando os “casulinhos” já abertos para que eu não perdesse um lance no campo ou um amendoim torrado na boca. 
Até hoje, só fechando os olhos, consigo sentir novamente o arrepio emocionado de entrar em um estádio à noite e ver surgir de repente a grama iluminada, resplandecendo todos os verdes possíveis e inimaginados.
E ainda de olhos fechados, sentir o arrepio de reencontrar os olhos do pai resplandecendo todos os seus verdes.  E iluminando a escuridão.

***

Mas se não era por causa do pai, por que o filho se tornou palmeirense?
Meu grande amigo Nando Boscariol foi quem fortaleceu meu sangue alviverde: ainda muito pequenos, brincávamos de “gol a gol” e, como ele era são-paulino, para haver alguma disputa, eu me tornei um palmeirense doente.  Depois, quando o próprio Nando rejeitou um pôster do “Palmeiras Campeão Paulista de 1976”, que veio como prêmio de um álbum de figurinhas da “Copa Brasil”, eu grudei o time na parede, decorei como tabuada a escalação e passei a acompanhar os jogos pelo rádio.
Mas antes, antes disso, eu já torcia pelo Palmeiras e aí é que está o mistério: muito pequeno, quando dei por mim, eu já era palmeirense, sem que houvesse ninguém na família que torcesse ou procurasse fazer a minha cabeça.  O que sei é que quando eu e meu pai escolhemos os nossos times de futebol de botão, ele optou pelo São Paulo e eu, pelo Palmeiras.
Na escalação dos meus botões pode estar a solução do mistério: eles já vinham com o rosto e o nome dos jogadores do Palmeiras da época, um time tão fabuloso  que, por dar uma verdadeira aula de futebol, era chamado de “Segunda Academia” em homenagem à “Primeira Academia” (apelido  do vitorioso Palmeiras da década de 1960).

A minha escolha por aquele time de botão revela que enquanto eu arriscava minhas primeiras engatinhadas, a “Segunda Academia” deitava e rolava pelos campos do País, e sua escalação, que incluía Leão, Luís Pereira, Leivinha e Ademir da Guia, de tanto pular de boca em boca (até na dos não torcedores do time) acabou se abrigando amorosamente dentro da minha cabeça.   O problema é que o Palmeiras, depois de sua fase acadêmica, ficou sem títulos de 1977 até o segundo semestre de 1993. Ou seja: durante toda minha vida escolar – do pré-primário até o último ano da faculdade –, meu time só foi campeão no final do último período.   Durante muitos daqueles anos, o camisa 7 Jorginho Putinatti, com suas jogadas inacreditáveis – que incluem vários gols olímpicos e um inesquecível gol “tabelado” com o árbitro José de Assis Aragão –, manteve acesa uma chama verde e alegre que nunca permitiu que eu sequer imaginasse abandonar meu time.  E também, durante todos aqueles anos, em meus sonhos, transformei Ademir da Guia, que já era Divino, em um Dom Sebastião de armadura verde, que viria com seu ritmo líquido (revelado por João Cabral de Mello Neto na mais bela poesia sobre futebol já escrita) para resgatar todas as glórias do meu time e afastar qualquer tristeza. Mas Ademir nunca mais voltou a jogar.
Para não me deixar sozinho durante essa dura fase, meu pai se dizia palmeirense.    Solidário-fingidor, ele dividia comigo, pelo menos em público, as frustrações, as amarguras e as gozações. E como grande goleiro que era, rebatia todas elas com bom-humor e muita graça.
Anos depois, quando ele já havia partido, comecei a me lembrar de algumas de suas conversas sobre futebol e fui rever suas fotos antigas: na infância ou na juventude, lá estava ele de goleiro.   Seus uniformes, suas defesas, suas poses nos retratos dos times “em posição” (as famosas fotografias dos “em pé e agachados”) foram revelando o segredo que me acompanha.  

***

É difícil tentar descobrir como um menino “nasce” torcendo por um time que não é o de seu pai. E como um pai passa a torcer (ou finge torcer) pelo time escolhido por seu filho só para que seu menino não sofra sozinho nas derrotas e nos tempos difíceis.  Será que o meu “solidário fingidor”, tal qual o poeta Pessoa, fingia tão completamente que chegava a fingir ser palmeirense o palmeirense que de fato era? 
Quando literalmente comecei a dar tratos à bola, fiquei fascinado por saber que meu pai tinha sido goleiro: lá pelas décadas de 1940 e 1950, tanto no seminário, quanto nos campeonatos bancários da várzea, ele fechava o gol.   Diante da minha decisão de tentar fechar o gol também, seu Miro me arranjou joelheiras.    Como eu nunca tinha visto Emerson Leão com aquele acessório, achei engraçado, mas meu pai explicou que além do piso do pátio de casa ser feito de um duro mosaico de pedras vermelhas (salpicado de amarelas e azuis), um antigo goleiro do meu Palmeiras, chamado Oberdan Cattani, usava joelheiras.  E com a ajuda delas, ele voava no ar sem medo e podia fazer defesas inacreditáveis com suas mãos gigantescas.
E Oberdan fechava o gol mais que qualquer um.   E Oberdan nem despenteava o cabelo, como um super-herói de cinema.  E Oberdan surgia triunfal no meio do ataque adversário para defender as bolas mais perigosas com apenas uma das mãos.
Passei a usar as joelheiras nos “nossos treinos”.  Quando meu pai chutava uma inesquecível bola de capotão verde e branca número 4, eu me atirava no ar sem medo como Oberdan Cattani. 
Muitas e muitas vezes meu pai falou do velho goleiro com admiração. E muitas e muitas vezes, olhando as fotos antigas de seu Miro, comecei a perceber que as defesas de Oberdan Cattani guardavam a verdadeira razão de meu pai ter ido parar (e saltar) debaixo das traves: exceto pela estatura e pela ausência do bigode (que por causa do seminário ele nunca usou), nas suas poses de goleiro, nas suas defesas, nos seus uniformes e nas suas joelheiras, meu pai se espelhava no seu super-herói que tinha um “P” estampado no centro do peito e que voava sem despentear o cabelo nas fotografias de jornais e revistas, nas figurinhas de bala ou nas transmissões apaixonadas do rádio.  
E se meu pai se tornou são-paulino por causa dos títulos nascidos das bicicletas de Leônidas da Silva, era no invencível “Muralha Verde” que ele se transformava para defender as traves infinitas.   Talvez uma bola espalmada corajosamente lá no campo do seminário tenha se transformado em sonho e, atravessando gramados, cidades e tempos, acabou mergulhando no sono tranquilo do menino adormecido em um berço com colchão de palha.  Talvez seja isso: mais do que ter nascido durante o reinado da “Segunda Academia”, acho que me tornei palmeirense devido a um sonho compartilhado entre dois garotos de tempos diferentes. 
E por causa daquele sonho, em 2010, decidi conhecer Oberdan Cattani. Descobri o número do seu telefone e conversei com o próprio, que me indicou os caminhos caso eu fosse de carro ou de ônibus.  E numa manhã nublada de sábado, de mãos dadas com meu filho ainda tão pequeno, fui recebido por aquele homem de 91 anos em uma casa verde e branca no Bairro da Pompéia.   Percebi que Oberdan devia receber muitas daquelas visitas, principalmente de filhos já barbados levando pela mão seus velhos pais palestrinos, todos fãs do “Muralha”. E todos mais novos que ele.   
E casa adentro, Oberdan nos levou a uma sala repleta de troféus, camisas, flâmulas, fotos, revistas, recortes de jornal, diplomas e honrarias.   E contou histórias. E falou sobre times, amigos, adversários, injustiças e defesas. E falou sobre seu amor pelo Palestra Itália e pelo Palmeiras, na verdade um só time que a guerra fez mudar de nome e a dureza do prélio o tornou campeão no dia em que Oberdan e seus companheiros surgiram imponentes no Pacaembu carregando a bandeira do Brasil.  Mas mudando o caminho da visita, o goleiro abriu o coração e o guarda-roupa do seu quarto para mostrar um singelo memorial com retratos e outras lembranças da esposa desesperadamente amada.  Definitivamente, Oberdan era um homem apaixonado.
Antes de partir, tiramos fotos, ele abençoou meu filho pela vida e pelos campos, e espalmou suas mãos de colosso para que o pequeno comparasse com as suas.  E quando as mãos espalmadas do gigante e do menino se encontraram, o milagre se fez: através do meu filho, meu pai finalmente conheceu seu ídolo de infância.  Pelo super-herói que inspirou os voos de meu pai, meu filho conheceu um pouco de seu avô.

Deixamos Oberdan, sua casa e suas paixões, e saímos pela manhã nublada de sábado: meu filho saltitando na calçada, “treinando quedas de goleiro” (como ele mesmo diz), se jogando no ar para defender bolas imaginárias.  Numa dessas defesas, a barreira de nuvens falhou e ele (ou terá sido meu pai-menino lá no Seminário de Pirapora?) espalmou corajosamente o sol, que subiu, subiu, e foi se perder no escanteio do céu.
E a manhã de sábado enfim se ensolarou.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/2 e 7 e 21/3/2014


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Doce refúgio

(caio silveira ramos)

Quem andou pelo Bairro Alto entre as décadas de 1970 e 1990 deve ter conhecido uma farmácia na esquina das ruas Moraes Barros e São João.  E se conheceu a farmácia, não se esquece de quem ficou atrás de seu balcão durante todo aquele período e ali teceu a vida de sua família: seu Pedro Boscariol.
Eu, que tantas vezes subi e desci a Moraes Barros, nunca deixei de olhar para os lados da farmácia e saudar aquela figura alta, de cabelos e bigode escuros.   E no sorriso-resposta ao meu aceno, flutuava um abraço tão paternal e certo, que meu passo se encorajava e eu seguia em paz.   Tudo porque o sorriso abrigava não só aquele abraço, mas pessoas, uma casa, uma família toda, que era (e para sempre será) também minha.
Nos meus pesadelos mais terríveis, nos meus desencontros sonhados, se não vislumbro o caminho de casa, vou logo para a rua São João e corro até o portão que dá acesso a uma vila, não muito distante da farmácia.   Lá, percorro um corredor, passo ao lado de um gramado e chego finalmente à última casa. Estranhamente, ela nunca está fechada. E naquela casa, nos pesadelos transformados em sonhos tranquilos, ainda mora meu refúgio e a família de Pedro Boscariol, que me recebe menino e acalenta meu sono até o despertar de um dia sem medo.
Desde que me entendo por gente, faço parte daquela família feita do sorriso mais doce da Jacque, do olhar mais maroto da Ju, da voz amorosa de dona Terezinha (que me aconchega até hoje) e da serenidade do querido e saudoso seu Pedro.  Não sei quando, não sei como tudo começou, mas quando me vi, vivo e risonho, já estava lá naquela casa, brincando com o filho de seu Pedro: Nando, o melhor amigo que minha infância feliz poderia esperar.
Fui tantas vezes àquela casa, na vigília ou nos sonhos, que conheço de olhos fechados todos os seus cômodos, as fotos das crianças na parede, o quadro de São Francisco de Assis, a cozinha, a rede no quintal.    Naquela casa, me escondi atrás do tanque brincando de caubói, planejamos (mas só planejamos) fazer um “z” no espelho como se o próprio Zorro tivesse passado por lá e, no corredor comprido do fundo do quintal, jogamos bola em campeonatos que não terminaram até hoje.   
Muito por causa de Nando Boscariol, me tornei palmeirense.   Como ele e o pai eram torcedores doentes do São Paulo, precisávamos ter times diferentes para que nossos jogos imaginários se estendessem em prorrogações de arrebentar corações desavisados.   Assim, um desprezado (por meu amigo) pôster do “Palmeiras - Campeão Paulista de 1976”, brinde de um álbum de figurinhas da época, foi parar na minha parede e meu sangue virou verde.   Mas se dependesse de mim, meu time nunca mais seria campeão (como de fato não foi por longos 17 anos), pois Nando era o melhor jogador do mundo.  Habilidoso, driblador, valente: com meu “adversário” eu não tinha muita chance, principalmente quando ele apareceu com uma pedalada no ar que pegava a bola de sem pulo e o gol era certeiro.    E mesmo que eu tentasse imitar meu amigo, encontrava pela frente o maior goleiro que nossas traves feitas de bujão de gás ou tijolo podiam encontrar.     Tanto que, anos depois, assisti orgulhoso a um jogo preliminar da equipe júnior do XV e Nando Boscariol foi grande destaque.
Mas se Nando poderia ser hoje goleiro tão famoso quanto Marcos e Rogério Ceni (por coincidência, os mais recentes ídolos de nossos times), ele preferiu ser professor.   Amado (que eu sei) por seus alunos, ele faz o esporte se transformar em caminho seguro para suas crianças.   
Durante as férias, sonhei mais uma vez com aquela casa e aquela família, e resolvi passear com meu filho em frente ao portão da vila na rua São João, que há muitos anos já não é endereço dos Boscariol.  Ficamos olhando o corredor da entrada e de repente vimos Nando e eu, ambos pequenos, jogando bola ali mesmo: um esfolando o dedo no cimento encrespado das paredes, enquanto o outro (ele) marcava mais um gol.   Depois, mesmo sem ultrapassar o portão, eu e meu filho passeamos pela vila e brincamos no gramado onde Nando criou porquinhos-da-índia e me senti como Bandeira.    Por fim, chegando à última casa, encontramos a porta aberta: olhamos as fotos na parede, comemos pão com manteiga preparado por Dona Teresinha e, feito um passarinho, meu pequeno saiu brincando comigo e com um Nando-menino: éramos zorros, sacis e índios, valdir peres e leões. Depois, eu e meu filho dormimos na rede colorida daquele quintal e sonhamos que, em suas aulas, o professor Luís Fernando leva, guardados dentro peito, sua antiga casa, sua família e seu velho amigo de infância.  E ensina para os novos meninos a força da amizade para a vida inteira. 

Talvez à noite ele também sonhe com a minha casa: lá, Nando sobe as escadas, passa pela sala e encontra um eu-menino que o espera ansioso para mais uma partida infinita.  Corremos pelo piso de pedras vermelhas, driblando as azuis e amarelas salpicadas aqui e ali. E, mesmo torcendo por times rivais, sabemos que naquele pátio (ou em seu antigo quintal) nossa amizade nos fez irmãos para sempre.

   Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 3/8/2012