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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Eucaliptos e bolachas

(caio silveira ramos)

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
Acordei vindo de um sonho bom: cinco anos, do pré-primário à 4ª série, em que as professoras amadas só faltavam me carregar no colo.  Não que as novas professoras e professores me negassem a acolhida. Mas a escola era outra, os colegas eram novos e a partir daquele momento cada matéria teria um professor diferente. E às vezes mais que um.
Da escola antiga só veio comigo o Paulo Henrique Ferreira.  Mas o Paulinho desde pequeno já era descolado e não teve problemas em se adaptar. Já eu era tímido, quietinho e encabulado. E agora teria meu pai como professor de Língua Portuguesa.
Isso logicamente era um privilégio: o professor Algemiro Coelho Ramos era um mestre fabuloso. Muitas e muitas vezes eu era parado na rua por algum aluno que agradecia pelos profundos ensinamentos que recebera de meu pai, não só de Língua Portuguesa, mas de dignidade, honestidade e de amor pelo conhecimento. Alunos, principalmente da escola pública, que ele, por meio das aulas ou de simples conversas nos intervalos, nas ruas e mesmo em nossa casa, conseguira arrancar do limbo da exclusão e do abandono, lhes ofertando oportunidades, amor-próprio e uma vida mais digna.
Mas ser apontado como “o filho do mestre” não é coisa fácil. Mesmo que ali no colégio eu procurasse encará-lo “apenas” como professor e não como pai (e ele também, para afastar qualquer ideia de privilégio, não me tratasse como filho, embora, no fundo, tomasse como filhos todos os seus alunos), no fundo, imaginava o seguinte: se me saísse bem, alguém diria “Ah! Filho de professor deve até receber as questões da prova antes!”.  Mas se fosse mal, esse mesmo alguém poderia dizer: “Caramba! Filho de professor indo mal? Que vergonha...”.  Então, além de ter que me comportar, ser e parecer honesto, eu tinha uma responsabilidade extra: me esforçar não apenas no estudo da Língua Portuguesa, mas também no das outras matérias.
De manhãzinha, o famoso bosque de eucaliptos da escola estava coberto pela neblina fria e o cheiro das árvores se espalhava pelo colégio.  Tendo meu pai que dar aulas em outra escola ainda de manhã, os dois primeiros horários no colégio eram dele. Daí porque a Língua Portuguesa passou a ter pra mim o aroma de eucalipto.  E nas redações das terças-feiras os meus encontros amorosos com as ideias (“mais que gramática, o importante é o conteúdo”, dizia sempre aquele meu professor de Português), sujeitos, predicados, orações e verbos se deparavam sempre com a minha alma já perfumada.
Por outro lado, as duas últimas aulas eram de Matemática, com o professor Douglas Simões, justamente quando a fábrica de bolachas vizinha ao colégio liberava todos os seus cheiros numa dança que misturava maisena, infinitude dos números, leite e fome antes do almoço.  De qualquer forma, não sei se foi a entrada na pré-adolescência ou a mudança de escola (ou até mesmo a saudade do colo das antigas professoras), mas pela primeira vez na minha vida escolar me estranhei com elementos que sempre tinham se mostrado tão amigáveis. E me vi um tanto perdido entre chaves, colchetes e parêntesis.
Assim, quando o professor de Matemática se virava de repente para classe e exclamava “arranquem uma folha, ponham nome, número, série e data”, anunciando mais uma prova surpresa, eu sentia um terrível frio na espinha e me vinha a certeza de que o cheiro de bolacha misturado ao do eucalipto iria me embrulhar o estômago vazio.
Mais que isso: eu começava a perceber que a vida não seria tão fácil quanto imaginava que fosse.

***

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
De repente eu estava longe dos meus amigos Rogério Nakamura, Nando Boscariol, Rogério Canale, Mauricio Roque, Alexandre Vale e tantos outros.
Mas de repente também, descobri que não estava sozinho: para afastar qualquer abandono, no colégio novo rapidamente apareceram André Komatsu, Renato Ferracciu e Marcelo Pedroso, que me estenderam a mão e deixaram suas casas e quintais sempre abertos para mim.
Naquela escola também me esperavam mentes desafiadoras que logo, logo foram se achegando: as inteligências de Caroline Kageyama, Ana Helena Petrin e Eliana Veras matavam a saudade das minhas antigas colegas do Sud Mennucci, Ana Paula, Rosiede, Luciane, Luciana, Graziela, Fernanda e outras meninas brilhantes que tanto domavam os segredos dos números quanto eram capazes de contar para a classe a história inteira de Rumpelstiltskin. 
Entre os meninos do colégio também havia amigos novos para instigar o espírito: Gunnar, com sua facilidade espantosa com a Matemática e todas as demais matérias: os olhos vibrando de curiosidade e da vontade infinita de conhecer cada detalhe do mundo. E Alexandre Paulino, que não só parecia já saber tudo sobre Ciências, História e Língua Portuguesa, como também tinha um estilo próprio até para erguer a mão ao fazer suas perguntas: ele estendia o braço, erguendo somente os dedos indicador e médio. E se estivesse sentado na lateral da sala, ainda apoiava os dedos na parede, o que dava ao gesto um ar ainda mais irônico e desafiador. 
E da 5ª à 7ª série, outras meninas e meninos foram também se aproximando para afastar de vez o meu medo do novo, permitindo que eu me embriagasse sem temores com o cheiro do eucalipto misturado ao da bolacha: Eliane Yamauti, Erica Bozola, Ricardo Ré, Wagner, Ivan, Eric, Otávio, Felipe, Clerton, Luciana, Christian, Valéria, Cláudio Cordeiro, Marco, Mauro, Ana e Gustavo Bettin, Fernando Guena, Berreta, Júlio, Natanael, Hermes, Orlandinho, Elisa, Gleidenis, Clara, Atílio, Ribas e tantos outros. Como não me comover com a alegria e a camaradagem de Eduardo Freire e do querido Fábio Shimabukuro? Ou com o jeito intrépido de Fabiana Santelli, irmã do Ricardo? Ou com a delicada meiguice de Érika Bonatto?

Na 6ª série ainda apareceu a Adriana Juabre, com tal boniteza e ar tão nobre, que fez meu sono se esquecer das manhãs e minha timidez se espreguiçar feliz e distraída pelo canto dos olhos. Mais uma vez pensei que iria me atrapalhar com os números, dessa vez regidos pela Professora Maria Izabel. Mas justamente para não dar vexame (ou para chamar alguma atenção) eu me desdobrei na Matemática e nas redações, tentando desvendar e criar mistérios.
E no final do ano, no último dia de aula, seria a revelação do “amigo secreto”, mas fiquei doente e tive que faltar. E justamente aquela menina com seus longos cabelos encaracolados, tão doce, que poucas vezes eu tivera a chance (ou a coragem) de conversar, tinha me sorteado.  Me deixou de presente uma caixinha do jogo “Super Trunfo” e um bilhete: “o seu silêncio é muito bonito”.
No ano seguinte, nem consegui agradecer: ela mudou de escola e jamais retornou.
E meu silêncio nunca mais foi o mesmo.

***

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
Certo, certo: na 8ª houve uma revolução: chegaram alunos incríveis vindos de várias escolas, de várias cidades como Iracemápolis, Rio Claro, Capivari e Limeira. Além de novos amigos e ainda mais gente boa chegando de Santa Bárbara d’Oeste e Americana. Mas isso é outra história.
 No 1º Colegial, além de matérias diferentes, matérias “de gente grande” como Física, Química e Biologia, novos alunos vieram de outras escolas de Piracicaba ou de cidades vizinhas, como Cerquilho e Santa Maria da Serra. Ônibus cheios continuaram a chegar de Santa Bárbara e Americana.  Alexandres, mais que dez, todos grandes amigos. Além de outros, com outros nomes, ideias e vontades. Isso sem falar na certeza de que para minha turma tinham vindo as meninas mais bonitas do mundo.  Mas essa também é outra história.
Pois, de repente, eu estava era mesmo na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz, antes ainda de conhecer o talento musical da Eliane Tokeshi.  Eu estava na 5ª série, mais precisamente no primeiro dia de aula. O cheiro de eucalipto. O frio na barriga. 
Tentei me sentar quase na frente para que minha visão pouca não se perdesse na lousa e no medo. Fiquei um pouco atrás de duas meninas, que rapidamente fizeram amizade e passaram a conversar.  Logo fiquei sabendo que se chamavam Claudine Beduschi e Daniela Marquez.
Claudine tinha o cabelo liso e loiro, os olhos claros serenos e muito atentos. Devia ter a minha idade, 10 anos, mas, assim como as outras meninas, parecia muito mais madura.  E não era só maturidade: pelo menos para mim, ainda que pouco tenha conversado com ela, Claudine revelava um jeito protetor que muitas vezes me socorreu.
Naquele começo de escola nova, muita coisa parecia querer me atrapalhar: da saudade à dificuldade de ser filho de professor.  Dos verbos em inglês às operações com números negativos.  Então me vinha um nó na garganta que minha discrição encabulada impedia que qualquer colega percebesse. Menos Claudine, que mesmo sem bisbilhotice ou qualquer outro interesse parecia sempre perceber meu aborrecimento. Os olhos dela sempre estavam por ali, com sua vigilância serena e solidária. E tudo parecia clarear.
Certo dia, após uma prova qualquer, achei que meu desempenho tinha sido desastroso. O recreio já tinha esvaziado a sala e eu disfarçava minha tristeza (e o brio ferido) fingindo arrumar o material dentro da mochila. Foi então que percebi Claudine, em pé, na minha frente. Tentei desenvidraçar os olhos, mas ela foi mais rápida: “não fica triste, não. Eu também não fui muito bem, mas depois a gente recupera”. Agradeci encabulado e quando ela já saía para o intervalo, se virou e, me emprestando seu melhor sorriso, ainda acalentou: “e quer saber? Acho que você não foi tão mal quanto pensa”.  Eu vesti meu rosto com aquele sorriso e o dia se desanuviou inteiro.

Daniela também tinha olhos claros, mas eles eram tecidos de marotagem e ousadia. Desde que entrou na sala, ela danou-se a falar pelos cotovelos, mas com uma graça tão desnorteante que alegrou a sala, os corredores e até o bosque de eucaliptos.  Parecia que, de repente, alguém tinha lançado uma bola de tênis que sapecava nas paredes, no teto, na lousa, no chão, se embaralhava nos ventiladores, saía pela janela e depois voltava, bulindo na cabeça de cada aluno.
Antes mesmo de a aula começar, minha irmã Raquel e sua inseparável amiga Deise, que estavam no 1º Colegial, chegaram até a porta da minha sala: queriam ver se estava tudo bem comigo.  Acenaram com as mãos e os olhos, e eu respondi com um sorriso encabulado, enquanto Daniela já dava para elas um “oi, tudo bem?”. Minha irmã perguntou como se chamava e ela devolveu, desinibida, seu nome completo.
Naquela tarde, em casa, Raquel se disse encantada com minha colega de classe e completou: “ela é pequetita, tão bonitinha, tão engraçadinha, parece uma bonequinha”.
Foi então que percebi por que eu tinha gostado tanto da minha colega: ela parecia uma boneca mesmo, mas para mim, não aquela que minha irmã via.  Ela era outra boneca, minha amiga há tanto tempo. A amiga que me inspirava destemor, atrevimento e a necessidade de liberdade, de contestação, de provocação.  Saída do conforto das minhas leituras, a boneca Emília parecia ter encontrado seu corpo de carne e osso. Daniela tomara a pílula do Doutor Caramujo e tinha até “Marquez” em seu nome.
E envolto em proteção e alegria, percebi que mesmo não sendo a vida tão fácil quanto eu imaginava, ela valia muito a pena.
E eu estava pronto para ela.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/5 e 3/6/2017

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Algemirando 4: pai e bola (e outras paixões)

(caio silveira ramos)

Aqueles que foram alunos do professor Algemiro nas décadas de 1970 e 1980 não tinham dúvidas: ele era palmeirense.   Não que fosse fanático ou algum tipo de torcedor desagradável ou intransigente.  Longe disso.   Suas provocações risonhas, seus comentários graciosos no início das aulas, os exemplos que explicitavam as lições de gramática e as amistosas conversas com os alunos durante os intervalos (ou até mesmo na rua, em um encontro causal) tinham a finalidade de entreter e principalmente tornar mais fáceis e inesquecíveis os intrincados caminhos da Língua Portuguesa.  Mas o que quase ninguém sabe é que o professor Algemiro era palmeirense apenas por causa do seu filho mais novo.   Se é que de fato torceu pelo Palmeiras algum dia.
Durante nossas intermináveis conversas ele dizia que, quando menino, tinha sido são-paulino, muito provavelmente porque na década de 1940, Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, jogara no São Paulo e fora cinco vezes campeão paulista.  Para um garoto criado em Itu, mas que tinha passado boa parte da infância e da adolescência confinado no Seminário de Pirapora do Bom Jesus, as bicicletas vitoriosas de Leônidas deviam ser irresistíveis.  E faziam o pensamento voar mais alto que as pipas empinadas nos intervalos dos estudos.
Quando migrou para Capital (e assim que a fome diminuiu um pouco graças ao trabalho de bancário), entre os campeonatos de futebol de várzea, a Faculdade de Letras (e por um período também a de Direito) e os estudos profundos nos finais de semana na Biblioteca Mário de Andrade, o jovem Miro foi convidado para treinar e disputar corridas de longa distância justamente pelo São Paulo F.C., que nessa época tinha o Canindé como estádio.
Acontece que Miro não era de briga (pelo menos das brigas que não valiam a pena) e nunca se tornou um torcedor fanático: o que ele gostava era de futebol, qualquer que fosse o time ou o jogo.
Durante nossos passeios a pé, sempre longos e cheios de conversa, ele quase sempre parava à beira de um campinho qualquer e ficava olhando o jogo por um bom tempo.  Se tivesse um alambrado (como no campo em frente à ESALQ), ele apoiava os dedos na grade e comentava comigo as jogadas, mesmo que fosse uma pelada de “os com camisa” contra “os sem camisa”.  Talvez se imaginasse jogando, relembrando seus tempos de goleiro no terrão do seminário ou nos campos de várzea do campeonato bancário.
Ele não torcia: gostava de ver os gols, as defesas, os dribles.   Em época de Copa do Mundo, se já estivesse em férias, assistia a todas as partidas possíveis, alegrando-se com os times que tivessem um grande goleiro ou jogassem bonito, sem violência e ofensivamente.  Mas ele não sofria, não gritava, nem se deixava entusiasmar muito pela Seleção Brasileira: consciente dos danos irreversíveis da ditadura militar, temia o ufanismo inconsequente e vazio.  Da várzea ao Maracanã, a vitória não importava. Importava era a beleza daquele bailado todo.
E contra qualquer ditadura, ele subverteu a “ordem” que determina que os filhos devem torcer pelo clube de seus pais: pelo filho caçula, passou a se dizer torcedor do time que um garoto de quatro anos escolheu (e se apaixonou) livremente. Sem despertar qualquer suspeita do motivo, para os das ruas, das escolas, para o mundo, ele torcia para o Palmeiras, justamente no período em que o time ficou mais de dezesseis anos sem título.  Para que o filho caçula não sofresse sozinho, ele se fez palmeirense até quase acreditar que torcia de fato.
Pelo filho mais novo, ele vestiu o coração de verde e branco e o expôs ternamente fora do peito.

***

Mas em casa, a história era outra: o Palmeiras do filho não entusiasmava o pai, que preferia optar pelo belo e pela alegria.   No final da década de 1970 e começo da de 1980, foi o Corinthians da Democracia, comandado pelo doutor Sócrates, quem encheu os olhos do Miro.  Não eram apenas a criatividade do time em campo e o toque mágico de calcanhar de Sócrates: o que fascinava era a postura sábia daquele jogador formado em uma das maiores faculdades de Medicina do País, que discutia sem dificuldade sobre qualquer assunto – inclusive sobre leituras diversas –, se posicionava de maneira corajosa politicamente em época de ditadura e ainda dizia, mesmo recebendo ofertas milionárias de times estrangeiros, que se o Brasil voltasse à democracia, ele não aceitaria jogar no exterior.  O filho sabia que o time jogava solto e bonito, e que o médico-jogador além de inteligente era um craque de bola, mas a paixão falava mais alto e o menino preferia torcer contra o maior rival do seu esforçado time.   Ciente de todo o sofrimento do filho, o pai, fora de casa, se revela um anticorintiano irônico, embora não deixasse de enaltecer o talento de Sócrates e sua luta pela democracia.
Como as eleições diretas para Presidente da República demoraram, o “Doutor” foi jogar no Fiorentina da Itália e o olhar de seu Miro só voltou a se encantar com um time quando Telê Santana transformou o São Paulo em uma fabulosa orquestra no começo da década de 1990.  O filho do Miro admirava Telê desde 1979, quando o mestre montou um grande Palmeiras e por isso seguiu para Seleção Brasileira.  E dirigindo a Seleção, mesmo sem títulos, Santana construiu duas inesquecíveis equipes para as Copas do Mundo de 1982 e 1986. 
Muito bom, muito bem, mas daí a torcer para o São Paulo anos depois já era outra história.  Mas se isso era impossível para o filho, para o Miro não era nenhum problema, já que no São Paulo, Telê encontrou os títulos que lhe faltavam e brindou o time com um futebol vistoso, ofensivo, alegre, que deixava a violência de lado.  Seu Miro, que já tinha um passado tricolor, mais uma vez se encantou, principalmente quando soube que Telê Santana tinha o mesmo cuidado com os times da base do São Paulo.  E ainda exigia que os meninos se esforçassem na escola, se aprontando para um mundo maior que o do futebol. Telê preparava times para a vida e para beleza.
Mas nem só a beleza do jogo enchia os olhos do Miro.  Os simples encantos de uma partida singela o recheavam de alegria.  Por isso, eu e ele subimos tantas vezes a rua Moraes Barros para ver o XV jogar no Barão de Serra Negra.   Não íamos apenas para ver o jogo (mesmo porque durante um bom tempo o Nhô Quim não apresentava um futebol nada vistoso): nosso prazer era a conversa no caminho, a sensação de entrar no estádio, sentar na geral, tomar sorvete e compartilhar um cone de jornal cheio de “casulos” de amendoim.  Ele “estendia” o cone e sob nossos pés espalhava as vagens todas em cima da toalha improvisada. Depois ia descascando uma a uma, comendo sem tirar os olhos do jogo ou me dando os “casulinhos” já abertos para que eu não perdesse um lance no campo ou um amendoim torrado na boca. 
Até hoje, só fechando os olhos, consigo sentir novamente o arrepio emocionado de entrar em um estádio à noite e ver surgir de repente a grama iluminada, resplandecendo todos os verdes possíveis e inimaginados.
E ainda de olhos fechados, sentir o arrepio de reencontrar os olhos do pai resplandecendo todos os seus verdes.  E iluminando a escuridão.

***

Mas se não era por causa do pai, por que o filho se tornou palmeirense?
Meu grande amigo Nando Boscariol foi quem fortaleceu meu sangue alviverde: ainda muito pequenos, brincávamos de “gol a gol” e, como ele era são-paulino, para haver alguma disputa, eu me tornei um palmeirense doente.  Depois, quando o próprio Nando rejeitou um pôster do “Palmeiras Campeão Paulista de 1976”, que veio como prêmio de um álbum de figurinhas da “Copa Brasil”, eu grudei o time na parede, decorei como tabuada a escalação e passei a acompanhar os jogos pelo rádio.
Mas antes, antes disso, eu já torcia pelo Palmeiras e aí é que está o mistério: muito pequeno, quando dei por mim, eu já era palmeirense, sem que houvesse ninguém na família que torcesse ou procurasse fazer a minha cabeça.  O que sei é que quando eu e meu pai escolhemos os nossos times de futebol de botão, ele optou pelo São Paulo e eu, pelo Palmeiras.
Na escalação dos meus botões pode estar a solução do mistério: eles já vinham com o rosto e o nome dos jogadores do Palmeiras da época, um time tão fabuloso  que, por dar uma verdadeira aula de futebol, era chamado de “Segunda Academia” em homenagem à “Primeira Academia” (apelido  do vitorioso Palmeiras da década de 1960).

A minha escolha por aquele time de botão revela que enquanto eu arriscava minhas primeiras engatinhadas, a “Segunda Academia” deitava e rolava pelos campos do País, e sua escalação, que incluía Leão, Luís Pereira, Leivinha e Ademir da Guia, de tanto pular de boca em boca (até na dos não torcedores do time) acabou se abrigando amorosamente dentro da minha cabeça.   O problema é que o Palmeiras, depois de sua fase acadêmica, ficou sem títulos de 1977 até o segundo semestre de 1993. Ou seja: durante toda minha vida escolar – do pré-primário até o último ano da faculdade –, meu time só foi campeão no final do último período.   Durante muitos daqueles anos, o camisa 7 Jorginho Putinatti, com suas jogadas inacreditáveis – que incluem vários gols olímpicos e um inesquecível gol “tabelado” com o árbitro José de Assis Aragão –, manteve acesa uma chama verde e alegre que nunca permitiu que eu sequer imaginasse abandonar meu time.  E também, durante todos aqueles anos, em meus sonhos, transformei Ademir da Guia, que já era Divino, em um Dom Sebastião de armadura verde, que viria com seu ritmo líquido (revelado por João Cabral de Mello Neto na mais bela poesia sobre futebol já escrita) para resgatar todas as glórias do meu time e afastar qualquer tristeza. Mas Ademir nunca mais voltou a jogar.
Para não me deixar sozinho durante essa dura fase, meu pai se dizia palmeirense.    Solidário-fingidor, ele dividia comigo, pelo menos em público, as frustrações, as amarguras e as gozações. E como grande goleiro que era, rebatia todas elas com bom-humor e muita graça.
Anos depois, quando ele já havia partido, comecei a me lembrar de algumas de suas conversas sobre futebol e fui rever suas fotos antigas: na infância ou na juventude, lá estava ele de goleiro.   Seus uniformes, suas defesas, suas poses nos retratos dos times “em posição” (as famosas fotografias dos “em pé e agachados”) foram revelando o segredo que me acompanha.  

***

É difícil tentar descobrir como um menino “nasce” torcendo por um time que não é o de seu pai. E como um pai passa a torcer (ou finge torcer) pelo time escolhido por seu filho só para que seu menino não sofra sozinho nas derrotas e nos tempos difíceis.  Será que o meu “solidário fingidor”, tal qual o poeta Pessoa, fingia tão completamente que chegava a fingir ser palmeirense o palmeirense que de fato era? 
Quando literalmente comecei a dar tratos à bola, fiquei fascinado por saber que meu pai tinha sido goleiro: lá pelas décadas de 1940 e 1950, tanto no seminário, quanto nos campeonatos bancários da várzea, ele fechava o gol.   Diante da minha decisão de tentar fechar o gol também, seu Miro me arranjou joelheiras.    Como eu nunca tinha visto Emerson Leão com aquele acessório, achei engraçado, mas meu pai explicou que além do piso do pátio de casa ser feito de um duro mosaico de pedras vermelhas (salpicado de amarelas e azuis), um antigo goleiro do meu Palmeiras, chamado Oberdan Cattani, usava joelheiras.  E com a ajuda delas, ele voava no ar sem medo e podia fazer defesas inacreditáveis com suas mãos gigantescas.
E Oberdan fechava o gol mais que qualquer um.   E Oberdan nem despenteava o cabelo, como um super-herói de cinema.  E Oberdan surgia triunfal no meio do ataque adversário para defender as bolas mais perigosas com apenas uma das mãos.
Passei a usar as joelheiras nos “nossos treinos”.  Quando meu pai chutava uma inesquecível bola de capotão verde e branca número 4, eu me atirava no ar sem medo como Oberdan Cattani. 
Muitas e muitas vezes meu pai falou do velho goleiro com admiração. E muitas e muitas vezes, olhando as fotos antigas de seu Miro, comecei a perceber que as defesas de Oberdan Cattani guardavam a verdadeira razão de meu pai ter ido parar (e saltar) debaixo das traves: exceto pela estatura e pela ausência do bigode (que por causa do seminário ele nunca usou), nas suas poses de goleiro, nas suas defesas, nos seus uniformes e nas suas joelheiras, meu pai se espelhava no seu super-herói que tinha um “P” estampado no centro do peito e que voava sem despentear o cabelo nas fotografias de jornais e revistas, nas figurinhas de bala ou nas transmissões apaixonadas do rádio.  
E se meu pai se tornou são-paulino por causa dos títulos nascidos das bicicletas de Leônidas da Silva, era no invencível “Muralha Verde” que ele se transformava para defender as traves infinitas.   Talvez uma bola espalmada corajosamente lá no campo do seminário tenha se transformado em sonho e, atravessando gramados, cidades e tempos, acabou mergulhando no sono tranquilo do menino adormecido em um berço com colchão de palha.  Talvez seja isso: mais do que ter nascido durante o reinado da “Segunda Academia”, acho que me tornei palmeirense devido a um sonho compartilhado entre dois garotos de tempos diferentes. 
E por causa daquele sonho, em 2010, decidi conhecer Oberdan Cattani. Descobri o número do seu telefone e conversei com o próprio, que me indicou os caminhos caso eu fosse de carro ou de ônibus.  E numa manhã nublada de sábado, de mãos dadas com meu filho ainda tão pequeno, fui recebido por aquele homem de 91 anos em uma casa verde e branca no Bairro da Pompéia.   Percebi que Oberdan devia receber muitas daquelas visitas, principalmente de filhos já barbados levando pela mão seus velhos pais palestrinos, todos fãs do “Muralha”. E todos mais novos que ele.   
E casa adentro, Oberdan nos levou a uma sala repleta de troféus, camisas, flâmulas, fotos, revistas, recortes de jornal, diplomas e honrarias.   E contou histórias. E falou sobre times, amigos, adversários, injustiças e defesas. E falou sobre seu amor pelo Palestra Itália e pelo Palmeiras, na verdade um só time que a guerra fez mudar de nome e a dureza do prélio o tornou campeão no dia em que Oberdan e seus companheiros surgiram imponentes no Pacaembu carregando a bandeira do Brasil.  Mas mudando o caminho da visita, o goleiro abriu o coração e o guarda-roupa do seu quarto para mostrar um singelo memorial com retratos e outras lembranças da esposa desesperadamente amada.  Definitivamente, Oberdan era um homem apaixonado.
Antes de partir, tiramos fotos, ele abençoou meu filho pela vida e pelos campos, e espalmou suas mãos de colosso para que o pequeno comparasse com as suas.  E quando as mãos espalmadas do gigante e do menino se encontraram, o milagre se fez: através do meu filho, meu pai finalmente conheceu seu ídolo de infância.  Pelo super-herói que inspirou os voos de meu pai, meu filho conheceu um pouco de seu avô.

Deixamos Oberdan, sua casa e suas paixões, e saímos pela manhã nublada de sábado: meu filho saltitando na calçada, “treinando quedas de goleiro” (como ele mesmo diz), se jogando no ar para defender bolas imaginárias.  Numa dessas defesas, a barreira de nuvens falhou e ele (ou terá sido meu pai-menino lá no Seminário de Pirapora?) espalmou corajosamente o sol, que subiu, subiu, e foi se perder no escanteio do céu.
E a manhã de sábado enfim se ensolarou.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/2 e 7 e 21/3/2014


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Algemirando (3): sobre a arte de contar a história (e de coçar as costas)

(caio silveira ramos)

       Em 1986, quando o sociólogo e professor de História Geral Luis Fernando Amstalden terminou sua primeira aula para minha turma do 1º ano do ensino médio, no Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), eu já o admirava. Até o final daquele ano, passaria a admirá-lo ainda mais, principalmente pela clareza de suas exposições, pelo estímulo à reflexão e pela maneira inovadora e crítica de abordar a História Antiga sempre com os pés mergulhados no presente e no futuro.  Mas quando ele entrou na sala para aquela aula inaugural, não posso negar que fiquei bastante contrariado.Durante os vinte e quatros anos em que convivi com meu pai, fui testemunha das inúmeras visitas de pessoas que o procuravam quase que diariamente para pedir orientações, conselhos ou simplesmente para conversar. Para aprender com ele.  Fosse nos intervalos das aulas – quantas vezes perdeu o almoço ou o jantar atendendo algum aluno –, ou nas tardes de sábado, ele recebia com toda atenção qualquer pessoa que o procurasse.  E a atenção era redobrada se tal pessoa tivesse fome de conhecimento.  Muitas e muitas vezes eu o vi preparar, graciosamente, estudantes para concursos ou para entrevistas de emprego. Outras tantas, estava ele lá, apresentando novos exemplos para lições mais difíceis a alunos com maiores dificuldades.
Quando eu disse “qualquer pessoa”, não estava exagerando: eram alunos, ex-alunos, parentes, colegas, amigos, vizinhos ou simplesmente alguém que conhecia sua generosidade, sua biblioteca e seu conhecimento.   Muitos eram carentes de recurso e até de afeto; alguns até com profundos problemas psicológicos, que ele recebia e ouvia com o mesmo respeito e a eterna paciência.   Me lembro que eu atendia à campainha, conduzia a pessoa até a porta do seu escritório, que ficava bem próximo da entrada de casa, e colocava uma cadeira ao lado de sua mesa de trabalho – em frente ficavam as estantes com seus livros –, para que o “convidado” se sentasse.   E lá ficava meu pai durante horas nas tardes de sábado: depois de cumprimentar a pessoa, deixava sua cadeira virada um pouco de lado, puxava a prancheta embutida sobre as gavetas para apoiar o braço esquerdo e, aninhado por sua escrivaninha, ouvia, explicava, argumentava, contrariava.  Conversava.
Daqueles que vinham simplesmente para uma longa e boa conversa, me lembro nitidamente de dois.   O primeiro era o hoje premiado repórter Roberto Cabrini, que frequentava o escritório do meu pai desde os tempos do colégio.   Durante anos, mesmo depois da fama, Cabrini sempre encontrava um jeito, em esporádicos finais de tarde de sábado, para conversar com seu antigo professor.   Na década de 1990, quando cobria o campeonato de Fórmula 1, Cabrini telefonou do escritório da Rede Globo, em Londres, para perguntar a opinião do seu velho mestre sobre uma frase que ele pretendia usar em uma reportagem. Meu pai deu uma resposta fundamentada, com a placidez de sempre, mas minutos depois ligou de volta, trazendo ao repórter as lições de autores que confirmavam a resposta inicial. E assim, em sua matéria no telejornal daquela noite, Roberto Cabrini pôde usar sua frase com tranquila segurança.
O segundo memorável frequentador das conversas do meu pai nas tardes de sábado era um menino que viria a ser aquele professor mencionado no início deste Mirante.    Por enquanto, porém, o tal garoto terá que esperar em alguma dobra do tempo para que eu, ainda mais menino que ele, desça as escadas de casa, abra a porta e o conduza até o antigo escritório.

***



Quando a campainha tocava em algumas tardes de sábado da minha infância, eu já desconfiava.   E se via a silhueta pela vidraça, engolia em seco.   Mas ao abrir a porta, recebia direitinho, encabulava e conduzia aquele adolescente falante e irrequieto (um pouco mais velho que minhas irmãs) para o escritório onde meu pai trabalhava em sua escrivaninha.   Eu abria a porta lateral e anunciava: “o Luis Fernando Amstalden chegou...”.     Enquanto eles se cumprimentavam, eu colocava uma cadeira ao lado da escrivaninha para a visita se sentar e depois saía quieto pela porta que dava para o quarto dos meus pais.  De lá, pela fresta, ficava espiando a conversa dos dois amigos.   Depois andava pela casa, brincava um pouco sozinho e voltava a espiar. Lia alguma coisa, assistia à TV e retornava para a fresta. E a conversa parecia não ter fim. Até que no começo da noite, meu rival partia. Mas aí já era tarde.
Naqueles sábados, eu queria meu pai só para mim.   Queria com ele bater bola no pátio, brincar de gol a gol, catar a danada de capotão fazendo pose de goleiro.   Queria jogar futebol de botão no campo improvisado no verso da lousa grande acomodada sobre a mesa da copa.  E se por acaso meu pai precisasse ficar no escritório, que não desse trela pra quem chegasse: ficasse lendo ou corrigindo provas, que eu também ficaria por lá com meus livros ou inventando histórias na minha escrivaninha miúda colocada ao lado da sua.
As tardes de sábado existiam para meu pai estourar pipoca pra gente saborear junto com café que ele fazia usando coador de pano.    As tardes de sábado eram feitas pra gente assistir futebol na TV ou simplesmente deitar na cama para ler histórias. Ou para ele cochilar enquanto eu despenteava seu cabelo com sua escova grande.    Ou para que, deitado de bruços, me desse orientações de como coçar suas costas – coincidentemente, orientações idênticas às que meu filho, mesmo sem ter conhecido o avô ou essas histórias, me dá carinhosamente antes de dormir: “mais pra esquerda, por favor? Mais pra direita, sobe, sobe, mais pra direita, desce muitomuitomuitomuitomuito pouco. Aí!” –, e que me fizeram desenvolver técnicas avançadíssimas de coçações dorsais, como “o chafariz infinito”,  “o ziguezague atômico” ou “as ondas aleatórias”.
Mas quando meu rival aparecia, as tardes de sábado se dissolviam e acabavam misturadas com o cheiro da cera passada no assoalho da sala ou com o do bolo de leite fervendo. E eu ficava lá, olhando pela fresta da porta, vendo meu pai conversar por horas com aquele rapaz que parecia falar pelos cotovelos. E o que é pior: meu pai parecia gostar daquelas conversas.
Assim, eu fiquei visivelmente contrariado quando, em 1986, reconheci meu antigo rival naquele sociólogo e professor de História Geral, que entrou para dar a primeira aula para a minha turma do 1º ano do ensino médio, no Colégio Luiz de Queiroz (CLQ).  
No entanto, já no final daquela aula (e durante o ano todo), eu entendi porque meu pai ficava feliz naquelas tardes de sábado de longas conversas.  Entendi também como elas tinham sido fundamentais para o jovem Luis Fernando Amstalden: assim como a professora Esther Silvestre tinha me inspirado com suas aulas de História do Brasil no ginásio, as aulas de Amstalden instigaram meu pensamento e me fizeram refletir sobre a História Antiga e todas as suas consequências.     Desvendando Egitos, Grécias e Romas – às vezes por meio de canções, como quando pediu a interpretação de “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque e Augusto Boal –, ele me fez entender o tempo em que eu vivia.  Me fez entender o mundo que se preparava para mim.
E assim, contando histórias, ele me devolveu aquelas antigas tardes de sábado.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicados no Jornal de Piracicaba em 31/5/2013 e 14/6/2013 


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Algemirando (2): enxada, giz e destemor

(caio silveira ramos)


A crônica Algemirando (I) do Caio inspirou-me a escrever algumas lembranças daquele tempo tão bom em que, minha família e eu, passamos boa parte das nossas vidas, num casarão antigo, situado na movimentadíssima região central de Piracicaba.
Meus filhos Gustavo, Guilherme, Nice e eu, fomos vizinhos do professor Algemiro, da queridíssima Jandyra e seus filhos, quando morávamos e tínhamos escritório de advocacia à Rua Morais Barros durante a década de 1980.
Eu mantinha a banca, onde atendia clientes, elaborava as peças processuais, lia jornais e ouvia rádio, na sala da frente da casa. Era equipadíssimo o escritório; entretanto o estado de conservação do quintal não deixava de ser um caracterizador da vergonhosa omissão.
Eu não cuidava daquele trecho, e Nice, apesar de se desdobrar na higienização da casa, no cuidado com os meninos, na alimentação e tudo o mais, também não podia fazer nada, com aquela espécie de ‘selva amazônica’ particular.
Numa ocasião o professor Algemiro, conversando com Nice e os meninos, propôs-lhes a feitura de um campinho de futebol no local.
A molecada vibrou com a ideia, Nice ficou na expectativa e eu, quando me falaram, não opus embargo.
Então o saudoso professor, usando habilmente uma escada apareceu e, transpondo corajosamente o muro, pôs-se a erradicar a erva daninha, aplainando depois o terreno.
Em seguida, usando meia dúzia de sarrafos, ele construiu as traves dando por encerrado, para a alegria incontida dos pimpolhos, os trabalhos daquela espécie de ‘Itaquerão’ do centro.
Gustavo e Guilherme, hoje na faixa dos 30 anos, lembram-se com muita alegria, dos momentos em que passavam horas e horas na casa dos professores Algemiro e Jandyra conversando, ouvindo histórias e aprendendo a jogar xadrez.”

Muitas lembranças retornam com essa história, mas Fernando Zocca parece me fazer recordar algumas faces de meu pai: um homem que não discriminava pessoas e trabalhos, quaisquer que fossem suas naturezas ou origens.  Fosse a enxada e o martelo, a caneta e o giz, com o mesmo capricho e destreza ele domava todos os instrumentos. E com o mesmo amor que arava a terra, encantava a mente dos alunos.
A crônica de Fernando Zocca também revela que o Professor Algemiro era um homem destemido. Não me lembro nem da palavra “medo” saindo de sua boca ou de qualquer gesto que indicasse um titubeio diante do perigo. Mas diferente daqueles que são destemidos por irresponsabilidade, psicopatia ou desamor pela própria existência, sua ausência de medo se destacava justamente na sua paixão pelo outro, pela vida. Pela generosidade de sua alma de portas abertas.
Por fim, Dr. Zocca  deixa nas entrelinhas o que ninguém duvida: o Professor Algemiro tinha ao seu lado a companheira certa, que sempre estendeu sua mão com a mesma generosidade (e com o mesmo destemor) de quem ama a terra e o papel. Papel onde também moram letras e notas musicais.
E ela estendeu sua mão para que a alma dele voasse sem freios.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 5/4/2013

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Algemirando (1): sobre muros e livros

(caio silveira ramos)
Para Dona Janda

Inicia-se aqui uma série de pequenas histórias sobre o Professor Algemiro Coelho Ramos.   Além das minhas próprias lembranças, as memórias de alunos, amigos e demais familiares também ajudarão a tecer outros relatos sobre esse homem simples e fundamental. 
O termo “Algemirando” remete a vários títulos de um dos gêneros musicais preferidos de seu Miro (o que já revela muito sobre ele): o Choro. Só para lembrar alguns clássicos, temos “Murmurando”, “Cochichando”, “Escorregando”, “Chorando baixinho”, “Vou vivendo”... Por que não, Algemirando?
A palavra também me lembra de uma história ocorrida há alguns anos: M. Dupont White, senhor dos mil gatos, exclamou ao me encontrar no Centro de São Paulo: “rapaz, você está se algemirrrando”.  Dupont White passava horas conversando com meu pai sobre política, geografia e literatura, e ficou surpreso ao notar como eu, que sempre me assemelhara ao lado materno da família, com o passar dos anos tinha me tornado tão parecido com seu Miro. 
“Algemirando” pretende dar a ideia de algo que está em curso, algo que está presente em nós e influencia nosso dia a dia.
 E modifica nossa vida. 
***
Quando o chamado “Muro da Vergonha” foi derrubado na Alemanha, no final de 1989, uma cena em particular me chamou a atenção: com livros nas mãos, dezenas e dezenas de moradores de Berlim Oriental correram pelas ruas a caminho da Biblioteca da parte Ocidental da cidade para devolver as obras emprestadas havia quase três décadas.  Finalmente aquelas pessoas podiam cumprir um dever que as inquietava desde a construção relâmpago daquele Muro que cerceava encontros entre amigos e parentes, e até a simples liberdade de devolver um livro à Biblioteca.  Alguns ali corriam com uma responsabilidade ainda maior: levavam nas mãos o compromisso de avós, pais, esposas e maridos falecidos, que, durante a vida ou antes da morte, fizeram seus parentes prometerem a devolução dos livros no dia em que caísse o Muro. E pela TV, eu pude ver a alegria daqueles alemães, que finalmente podiam cumprir suas promessas, enquanto voavam pela cidade unida.
Anos antes da queda do Muro, meu pai fez algo semelhante: visitando um antigo sebo piracicabano, deparou-se com um livro que o interessou muito.  Porém, quando folheou a obra, encontrou, pregado na contracapa, um pequeno envelope com uma ficha de empréstimo.  Surpreso, verificou, no restante do livro, os carimbos da biblioteca – não me lembro se do Departamento de História ou do de Letras –, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, Campus de Assis.  Indignado com aquela situação e com o autor desconhecido daquele verdadeiro crime contra o patrimônio público (e principalmente contra a busca pelo conhecimento por parte de um aluno ou professor), ele não teve dúvidas: comprou o livro, redigiu uma pequena carta e enviou tudo pelo correio, ainda naquele dia, para o respectivo Departamento.  Ele até recebeu uma singela resposta de agradecimento, mas não estava preocupado com isso.
Tenho certeza que se morasse na Alemanha Oriental naquele fim de 1989, ele seria um daqueles que correria feliz pelas ruas para devolver finalmente um livro emprestado, mas que não fora restituído à Biblioteca durante três décadas por causa do Muro de Berlim.    Não, talvez não.  Destemido como era, talvez ele não tivesse esperado a queda do Muro: antes disso, ainda que acreditasse em um mundo mais justo e menos desigual – e, portanto, cresse nos mesmos sonhos de muitos daqueles que fizeram tantas revoluções na Europa do século XX –, ele teria enfrentado, com o livro debaixo do braço, o cimento, o aço, os guardas, as balas e até a morte.
E em paz com sua consciência, vivo ou morto, ele daria mais uma vez a prova de sua fé inabalável no ser humano e na necessidade de espalhar sua sede de conhecimento ao mundo todo. 

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 25/1/2013

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O homem multiplicado

(caio silveira ramos) 
                          

É fácil chegar: com apenas algumas teclas e uns poucos cliques, encontramos no mapa virtual a rua Algemiro Coelho Ramos.  Perdida, longe do centro, uma quadra só.
Mergulhando na tela, a rua sai do mapa e se mostra inteira. É possível passear por seus poucos metros: casas simples, sem cadeiras na calçada e reboco nos muros.  Carros velhos, bicicletas, crianças magrelinhas, uma cerca de tábuas mal-ajambradas, um vira-lata mal-ajambrado. Rabiscado no asfalto esquecido e cheio de remendos, um jogo de amarelinha quase apagado, mas onde ainda dá para ver o céu.  No fim da rua, um terreno desleixado, o mato crescendo sem dó.
Alguém pergunta: por que ele não é nome de avenida grande, cruzando a cidade, rememorado em cada esquina?  Outro já se espanta: mas professor amado como era, amante sem fim que foi da educação pública, por que não denomina escola estadual ou municipal?  Sorrio: talvez ele preferisse aquela rua pequena e humilde longe do centro. Aquele quase beco manuelbanderino, mas com alguma saída. Ainda que nela se perca um terreno baldio.
Não. Na verdade nem isso.  Ele era avesso a esse tipo de homenagem, rapapés vazios, forma sem conteúdo. Do que adiantaria denominar uma avenida, se nas esquinas continuassem a gravitar famílias sem rosto, sem voz e sem identidade? Do que valeria ter seu nome estampado na frente de uma escola, se lá dentro os professores continuassem a se equilibrar sobre os vencimentos mendigados, se despreparando a cada dia? Se a educação não transfigurasse o caminho de alunos sem voz ativa, de sujeitos inexistentes e indeterminados?
No final da década de 70, em uma época em que a democracia se achava em perigo, por ela aceitou o cargo de Coordenador da Ação Cultural sob duas condições: que ficaria apenas por um ano e que teria total liberdade de trabalho, isto é, sem influências de politicagens. E assim foi feito: casa e contas em ordem, a arte aberta aos estudantes, ao povo da rua. O teatro iluminado pela música erudita e pelo cururu, um Salão de Humor glorioso com Henfis e Glaucos: gaiolas abertas.  E mesmo sob o choro de funcionários, artistas e sonhadores, ele cumpriu sua promessa: depois daquele ano inesquecível, pediu exoneração, pegou seu longo guarda-pó branco, sua pasta de anotações de aulas cuidadosamente preparadas e, a pé, retomou seu caminho em direção à escola, em um dos dias mais felizes de sua vida.  Voltou a ser passarinho semeador precioso de sua Língua e, por meio dela, de sonhos de segunda à sexta. De manhã, de tarde e de noite.
Homem tantas vezes mergulhado em profundos silêncios – penso que sofria do desespero da palavra transformadora –, Homem tantas vezes mergulhado em profundos silêncios – penso que sofria do desespero da palavra transformadora –, usava sua voz para ler histórias cheias de ternura que faziam minhas irmãs chorar e os alunos despertar para a vida.  Pois foi isso que ele fez, mas que não se encontra no Google: ele viveu de oferecer vida nova aos seus milhares de alunos dentro das classes e, também fora delas, aos amigos, camaradas, famintos, mendigos, renegados, excluídos (e claro, aos milhares de alunos), que vinham nos intervalos das aulas ou nas tardes e noites de sábado para aprender (ainda mais), conversar, pedir conselhos, emprestar um livro, viajar com ele por revistas de geografia e história. Eles vinham. Vinham aprender a sonhar. 
Pois seu milagre não foi apenas o de, com salário de professor, seu e da amada, formar quatro filhos e dar-lhes o sentido da liberdade.   Ele ensinou, a todos que precisaram, o milagre da multiplicação de sonhos. Milhares de sonhos, milhares de vidas ressuscitadas.
Nem avenidas largas, nem escolas de tijolo e ou de lata: fora do alcance dos sites de busca, mas dentro do peito de milhares, multiplicado, Algemiro Coelho Ramos é simplesmente um atalho.
Pequeno atalho entre o coração e o sonho realizado.

                                             Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                                                                            Publicado no Jornal de Piracicaba em 15/6/2012