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terça-feira, 14 de abril de 2015

Infinitos tons

(caio silveira ramos)

“Caso do vestido” sempre foi para mim um belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade.  Ou, quando muito, me fazia lembrar o imbróglio em que se meteu o presidente americano Bill Clinton, na década de 1990. Mas se você está lendo esta crônica no futuro, talvez vá se lembrar da foto de um vestido listado que circulou pela internet e causou discussões no final de fevereiro de 2015.
A foto foi tirada na Inglaterra e rapidamente ganhou o mundo: alguns diziam que enxergaram o vestido com as cores branca e dourada. Outros, azul e preta. Psiquiatras e neurocientistas rapidamente explicaram que as diferenças de percepção das cores se davam por causa da maneira como o cérebro tenta compensar a variação da luz que entra pelos olhos. 
Humildemente penso em causas que também colaboraram para as “miragens”: além do ângulo em que foi tirada a foto e a consequente incidência da luz – em foto posterior, tirada de outro ângulo, o vestido se mostrou de forma inequívoca como preto e azul -, as diferentes qualidades das telas dos diversos aparelhos eletrônicos em que as imagens foram visualizadas e até a distância e a posição (frontal ou “meio de lado”) que as pessoas olharam para a foto em seus celulares, tablets, computadores e TVs, levaram às diferentes visões.  Isso sem contar que muitas vezes, na mesma página de um “site”, a “foto original” foi apresentada no início da matéria de um jeito e, já no meio, de outro (às vezes mais escura, às vezes mais clara). E o que é pior: diante de matérias que apresentaram simulações (muitas vezes sem legenda) que aumentavam as saturações das cores (deixando as existentes mais fortes) e revelaram três fotos (uma com a cor original e as outras duas “pendendo”, uma para o dourado, e a outra para o azul), as pessoas ficaram ainda mais confusas. Teve quem se perguntou: “mas como? Agora são três os vestidos?”...
 A curiosidade é, na maioria das vezes, uma qualidade humana.  E é até louvável quando leva à busca por explicações científicas. Mas a repercussão da foto do tal vestido me surpreendeu por dois motivos: o primeiro, é que sou daltônico e sempre enxerguei as cores de maneira diferente da maioria das pessoas.  O que haveria de novo nisso? De certa forma, o espanto resgatou um pouco da dignidade dos daltônicos do mundo inteiro, que tantas vezes foram caçoados por não conseguirem enxergar um simples arco-íris ou os efeitos 3D de um filme de aventuras.
A segunda razão da minha surpresa é que, na mesma semana em que o tal vestido ganhou o mundo e as conversas, outras imagens caminharam pelos olhos dos povos, mas com menor interesse, bem menos alarde e sem a avidez e o espanto causados pelas cores mutantes.
Artefatos históricos (principalmente estátuas datadas do séc. VII a.C.), abrigados por um museu em Mossul (Iraque), foram destruídos a golpes de marreta e outros instrumentos por integrantes do grupo fundamentalista “Estado Islâmico”. Mas as imagens da destruição foram vistas com tal naturalidade pelo mundo, que constatei que o “daltonismo” humano insiste em enxergar o ignóbil com as cores mornas da banalidade.  Sob alegação de idolatria e adoração, os militantes do grupo – que na semana anterior tinham queimado 8 mil livros e manuscritos (alguns datados de até 5.000 a.C.) da biblioteca pública de Mossul,  e que comumente se orgulham em exibir vídeos com as decapitações daqueles que não compartilham suas ideias -, destroem parte da História humana baseados na intolerância.
Enquanto o mundo se espanta com as cores de um vestido.

***
Foi num fim de tarde. Num fim de aula. Na pré-escola:
Eu me descobri daltônico.
Já tinha desconfiado de algo estranho ao pintar uma árvore: mas afinal, com qual daqueles lápis eu deveria pintar o tronco? E a copa?  Eu sabia que a copa deveria ser verde e o tronco marrom: mas qual era o verde? O que era afinal “marrom”?  Achava que não tinha aprendido as cores direito: eu ficava entre dois ou três lápis, mas para mim eram praticamente iguais. E o que é pior (embora não soubesse expressar isso): meu cérebro, meus olhos não conseguiam encontrar as próprias definições daquelas cores.  No fundo eu sabia que aqueles lápis não eram amarelos ou azuis: eles pareciam ser verdes. Ou marrons. Eu também sabia que estava chegando perto: mas parava por aí. Distinguir entre as duas cores eu não conseguia.
Então, naquele final de tarde chuvoso da pré-escola, se desenhou um arco-íris. Não no céu, mas na folha em branco que estava sobre a minha mesa.  Mas além de desenhar, era necessário pintar o arco-íris.  E as cores foram fugindo dos meus olhos, escapando das minhas mãos. E começaram a se estranhar no papel.  Azul ou roxo? Laranja ou verde claro? Verde escuro ou marrom? Olhei para o resultado: seria aquilo? Não devia ser (pelo menos era o que revelava o silêncio intrigado dos meus coleguinhas de mesa). Um doloroso nó colorido nasceu na minha garganta.  A aula terminou, entreguei o trabalho para a professora e quando vi minha irmã Ester me esperando no corredor em frente à porta da sala, a chuva lá de fora escorregou para dentro e desmanchou o colorido do nó. Que mesmo assim teimou em escorrer transparente pelo meu rosto.
No caminho de volta, Ester – sábia já nessa época - me aconselhou a não me preocupar: a professora saberia enxergar meu arco-íris com outros olhos. Mais ou menos como eu tinha acabado de fazer.
Descobri naquele dia que meu problema não era de aprendizado, mas sim um distúrbio de origem genética chamado daltonismo.  E que alguns dos meus primos do lado materno também eram daltônicos. E que provavelmente também tinha sido daltônico meu avô. E também meu trisavô (que talvez por isso não variasse muito as cores do terno).
Exceto por aquelas primeiras experiências na pré-escola, nunca tive grandes problemas por causa da minha confusão com as cores.  De quando em vez, a não percepção de diferenças cromáticas em mapas, quadros, textos grifados e até em roupas me colocou em situações apenas curiosas.  Mas nada disso me atrapalhou de fato e realmente penso que não me embaraçará.  A não ser que eu ainda queira ser piloto de aviões - que deve lidar com inúmeros botões coloridos – ou talvez um espião internacional que, para salvar o mundo de uma catástrofe sem precedentes, terá que optar entre cortar um fio verde ou um marrom. Ou entre um azul-marinho ou um roxo.
Por esses dias, recebi a notícia de que o engenheiro americano Don McPherson, especializado em pesquisa de lentes, teria desenvolvido uns óculos que corrigiriam as distorções do daltonismo.  Achei muito interessante e assim que tiver oportunidade vou querer experimentar os tais óculos.   Mas não irei muito além de uma única experiência.
O daltonismo marca minha visão como um eterno lembrete, uma tatuagem que não me deixa esquecer que, assim como existem diferentes maneiras de ver as cores, há diferentes formas de entender o mundo, de interpretá-lo: e não estão aí justamente algumas das razões e dos muitos sentidos da arte?
   E se não bastasse esse encontro com a arte, a percepção constante da existência das diferentes visões de mundo revelada pelo daltonismo me prepara para respeitar as diferentes ideias, refletir sobre elas e até modificar as minhas próprias.  Assim, mesmo discordando da ideia alheia, sei da impossibilidade de qualquer tipo de imposição da minha vontade, porque é justamente a simples existência de pensamentos contrários e livres que garante a sobrevivência dos meus pensamentos.  E a liberdade de expressá-los.
Quase paradoxalmente, o daltonismo me encara todos os dias para me fazer abominar qualquer tipo de preconceito, pois mostra ser às vezes tão tênue (e tão sem importância) a diferença entre as cores. Entre as escolhas. Entre as identidades. Entre as próprias diferenças.
Pensando assim, talvez o daltonismo me faça mais livre, mesmo que eu continue sem saber como pintar um arco-íris. 
Porque nessas horas, meu filho me pega pela mão e me entrega o lápis certo.
E sorrindo, me ensina o caminho.


Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/3/2015 e republicado em 10/4/2015



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Algemirando (1): sobre muros e livros

(caio silveira ramos)
Para Dona Janda

Inicia-se aqui uma série de pequenas histórias sobre o Professor Algemiro Coelho Ramos.   Além das minhas próprias lembranças, as memórias de alunos, amigos e demais familiares também ajudarão a tecer outros relatos sobre esse homem simples e fundamental. 
O termo “Algemirando” remete a vários títulos de um dos gêneros musicais preferidos de seu Miro (o que já revela muito sobre ele): o Choro. Só para lembrar alguns clássicos, temos “Murmurando”, “Cochichando”, “Escorregando”, “Chorando baixinho”, “Vou vivendo”... Por que não, Algemirando?
A palavra também me lembra de uma história ocorrida há alguns anos: M. Dupont White, senhor dos mil gatos, exclamou ao me encontrar no Centro de São Paulo: “rapaz, você está se algemirrrando”.  Dupont White passava horas conversando com meu pai sobre política, geografia e literatura, e ficou surpreso ao notar como eu, que sempre me assemelhara ao lado materno da família, com o passar dos anos tinha me tornado tão parecido com seu Miro. 
“Algemirando” pretende dar a ideia de algo que está em curso, algo que está presente em nós e influencia nosso dia a dia.
 E modifica nossa vida. 
***
Quando o chamado “Muro da Vergonha” foi derrubado na Alemanha, no final de 1989, uma cena em particular me chamou a atenção: com livros nas mãos, dezenas e dezenas de moradores de Berlim Oriental correram pelas ruas a caminho da Biblioteca da parte Ocidental da cidade para devolver as obras emprestadas havia quase três décadas.  Finalmente aquelas pessoas podiam cumprir um dever que as inquietava desde a construção relâmpago daquele Muro que cerceava encontros entre amigos e parentes, e até a simples liberdade de devolver um livro à Biblioteca.  Alguns ali corriam com uma responsabilidade ainda maior: levavam nas mãos o compromisso de avós, pais, esposas e maridos falecidos, que, durante a vida ou antes da morte, fizeram seus parentes prometerem a devolução dos livros no dia em que caísse o Muro. E pela TV, eu pude ver a alegria daqueles alemães, que finalmente podiam cumprir suas promessas, enquanto voavam pela cidade unida.
Anos antes da queda do Muro, meu pai fez algo semelhante: visitando um antigo sebo piracicabano, deparou-se com um livro que o interessou muito.  Porém, quando folheou a obra, encontrou, pregado na contracapa, um pequeno envelope com uma ficha de empréstimo.  Surpreso, verificou, no restante do livro, os carimbos da biblioteca – não me lembro se do Departamento de História ou do de Letras –, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, Campus de Assis.  Indignado com aquela situação e com o autor desconhecido daquele verdadeiro crime contra o patrimônio público (e principalmente contra a busca pelo conhecimento por parte de um aluno ou professor), ele não teve dúvidas: comprou o livro, redigiu uma pequena carta e enviou tudo pelo correio, ainda naquele dia, para o respectivo Departamento.  Ele até recebeu uma singela resposta de agradecimento, mas não estava preocupado com isso.
Tenho certeza que se morasse na Alemanha Oriental naquele fim de 1989, ele seria um daqueles que correria feliz pelas ruas para devolver finalmente um livro emprestado, mas que não fora restituído à Biblioteca durante três décadas por causa do Muro de Berlim.    Não, talvez não.  Destemido como era, talvez ele não tivesse esperado a queda do Muro: antes disso, ainda que acreditasse em um mundo mais justo e menos desigual – e, portanto, cresse nos mesmos sonhos de muitos daqueles que fizeram tantas revoluções na Europa do século XX –, ele teria enfrentado, com o livro debaixo do braço, o cimento, o aço, os guardas, as balas e até a morte.
E em paz com sua consciência, vivo ou morto, ele daria mais uma vez a prova de sua fé inabalável no ser humano e na necessidade de espalhar sua sede de conhecimento ao mundo todo. 

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 25/1/2013

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre livros e amores

(caio silveira ramos)

Lá vai meu filho, do alto dos seus quatro anos, se divertir com um tablet: o pequeno, que brinca de brincar com os números e com os movimentos das peças do xadrez, tem na ponta dos dedos – ágeis como seus olhos –, as coisas que gosta.   Logicamente não é sua única diversão: ele se esbalda com os amigos da escola, desenha, faz suas artes e entre turras e ternuras com sua inseparável amiga Fezoca, tenta decifrar as mulheres. E também joga bola, brinca com seus carrinhos, joga bola com seus carrinhos – inventou um curioso jogo em que substitui os “botões” pelos pequenos possantes –, corre por seus mundos imaginários, vê desenho e futebol pela TV, canta (e improvisa) como se sua vida tivesse um fundo musical e lê seus primeiros livros de pano, borracha e papel.   Mas a tranquilidade com que esse menino, fascinado pelo tempo revelado pelos relógios, transita entre as letras impressas e as eletrônicas, aponta para o meu futuro inevitável.
Ler na tela do computador nunca me pareceu muito confortável, mas com a chegada dos tablets, a situação começa a melhorar: além de se poder aproximá-los dos olhos – uma oftalmologista, comentando sobre minha visão, me consolou: “Deus te deu outros dons, meu filho” –, também (e com facilidade) já é possível virar páginas em suas telas sensíveis ao toque, colocar marcadores de leitura, localizar trechos específicos e poupar árvores e vastos espaços em nossas estantes.   Os aparelhos exclusivos para leitura de livros digitais (os e-Readers) têm uma vantagem sobre a maioria dos tablets com telas de cristal líquido: eles não têm iluminação interna, o que torna a compulsação (e porque não, a compulsão) confortável até debaixo do sol. Por outro lado, o acesso a outras mídias por meio dos tablets convencionais ainda inibe a venda dos e-Readers. De qualquer forma, se o número de livros eletrônicos em Língua Portuguesa ainda é tímido (até pelo seu preço abusivo), a leitura de jornais e revistas por meio dos tablets já ganha espaço e não assusta quase mais ninguém. A não ser, também, pelo seu (ainda) alto preço.
“Os livros são objetos transcendentes/Mas podemos amá-los do amor táctil/Que votamos aos maços de cigarro”: certo, você pode detestar cigarros, maços e até o autor do verso, Caetano Veloso, mas é impossível ignorar sua iluminação poética ao nos expor esse amor tátil (e em alguns casos até olfativo) que o tal objeto transcendente chamado livro tem.
Minha vida é repleta de livros desde a infância: o escritório do meu pai com suas prateleiras de metal e madeira (algumas ampliadas artesanalmente por ele próprio) cheias de livros ao alcance da mão como cachos de uvas; as estantes abarrotadas de Direito e fantasia que lotavam meu quarto de estudante; as paredes do fundo da minha sala recheadas com tantos volumes que chego a pensar que, enquanto durmo, eles se reproduzem e começam a contar suas próprias e inéditas histórias.    Porém, apesar de tantos livros gravitando em minha vida, não sou um bibliófilo, tecnicamente falando, isto é, um colecionador de livros raros e preciosos.   Se sou um amante de livros, meu amor é moldado muito mais pelo encanto de seus conteúdos, de suas histórias e sons, que pelo prazer tátil, olfativo e contemplativo.  Por isso, em meu futuro inevitável eu prevejo os livros eletrônicos sem desprazer e medo: mais valem mil histórias voando que uma rara primeira edição na mão.
Porém, quando vejo meu filho, com as mãozinhas postas para trás, diante das paredes do fundo da sala, com suas estantes de alto a baixo repletas dos sonhos de seu avô, dos meus (muitas vezes morando também dentro daqueles sonhos) e dos seus próprios sonhos (esses despretensiosamente brincando nas prateleiras mais baixas, afinal, as uvas, para continuar alimentando, precisam permanecer ao alcance das mãos), entendo que os livros de papel resistirão por muito tempo.  Fascinado pelos velhos livros da estante, meu filho sabe que os sonhos de seu avô e de seu pai estão ali esperando seus olhos e seu abraço.   
Esperando que os sonhos do menino cresçam a tal ponto que não apenas consigam engolir os sonhos mais velhos e tomá-los como seus.  Mas que possam também se multiplicar tanto, tanto, que consigam criar novos sonhos em almas alheias.

***

Claro que estantes repletas, organizadas ou não, ainda nos fascinam e nos convidam prazerosamente às delícias da leitura, mas de nada adiantam prateleiras onde os livros ficam quietos, engaiolados como aves raras: os livros precisam voar pelas almas, invadir mentes.   Sejam eletrônicos, flutuando pela rede, ou de papel, circulando por mãos e olhos, os livros carecem viver e gerar vida.
Ainda que muitos livros caminhem para o papel em aparências e cores cada vez mais convidativas, se obras novas vierem em formato eletrônico, que se instalem: quero conteúdos.   Se obras antigas forem acessíveis pela rede, que sejam cada vez mais enredadas.   Não tenho pretensões de colecionador: quero o livro consumido, lido, circulando.   No transgressor “A reforma da natureza”, o gênio de Monteiro Lobato fez sua Emília tornar os livros comestíveis: o “livro-pão” mataria as duas fomes do ser humano e ainda economizaria espaço.  Metáfora ou não, o fato é que o Marquês de Rabicó acaba por deglutir uma obra querida de Dona Benta, o que nos faz pensar que, se não todas, algumas obras de papel se revestem não só do amor tátil cantado por Caetano Veloso, mas do amor olfativo, contemplativo. Sentimental.
Assim, embora eu admita que alguns livros saiam de minha estante e ganhem o mundo, há outros que imagino tê-los ao alcance das mãos e dos olhos por minha vida afora.   Não pela raridade, mas pelos sentidos.    São livros velhos, comprados em sebos, cheios de histórias próprias e recheados com os rastros de seus donos anteriores. Ou são livros já desgastados, mas presentes de infância que trazem a aventura do enredo e o carinho de dedicatórias amorosas: um Júlio Verne com a inscrição afetuosa do pai, lembranças das nossas viagens pelo centro de São Paulo; um Rudyard Kipling com beijos da mãe: ponte entre a infância dela e a minha ou simplesmente um prêmio por uma conquista perdida no tempo.
No meu aniversário, ganhei do meu compadre Carlos Loureiro – um dos maiores e corajosos Defensores Públicos do Brasil – uma linda antologia (“Poesia até agora“ – 1948 – Livraria José Olympio Editora), de Carlos Drummond de Andrade.  Para meu espanto, o livro traz a assinatura original do poeta.    Não sabe, talvez, meu amigo, que o que torna o presente valioso para mim, mais que a letra do escritor, são os próprios poemas avassaladores criados por Drummond aliados à busca trabalhosa e delicadamente fraterna que o padrinho do meu filho deve ter feito para me colocar tal presente nas mãos e no sorriso.  O que me prende ao livro não é sua raridade, mas a poesia plena feita por dois Carlos que têm seus corações maiores que o mundo.

***

E dessa forma segue minha estante: cheia de poesia e estórias (como gostava de grafar Guimarães Rosa) em cada lombada, em cada página, em cada capa. 
Até que esbarro em uma coleção antiga de nove volumes: uma coleção de Machado de Assis, da Editora Cultrix, organizada e anotada por Massaud Moisés.   Retiro o volume que apresenta uma coletânea de contos do Bruxo (ah! Como os bruxos desaprenderam a arte da escrita...): passeio com a mão pela capa verde-rugosa e sinto na ponta dos dedos a pena gravada em dourado no canto direito inferior.  A paz se aproxima e eu abro o livro: primeiro vem o aroma, o aroma inconfundível, antigo, que me traz uma sensação que mistura serenidade e proteção. Em qualquer lugar do mundo conseguiria distinguir aquele cheiro.    Em qualquer momento da vida acho que serei capaz de recriá-lo na memória.   Na palma da mão, as páginas; no fundo dos olhos, as letras cheias de sentidos.  Vou para o começo: a assinatura de meu pai e a data em que leu o livro pela primeira vez quando morava em São Carlos. E logo abaixo, a dedicatória feita anos depois: “para o Caio em Piracicaba – 07/04/83 (12 anos)”.   Uma dedicatória simples, séria, diferente das cheias de graça que ele costumava fazer.  Mas é que, além de ter sido repetida nos nove volumes, ela representava um rito de passagem: naquele momento, me dando de presente sua amada e antiga coleção de Machado, meu pai me ofertava a chave da maturidade da vida e das letras: eu agora podia ler o mundo todo, sem fronteiras ou censuras.   
Em outros volumes da coleção, reencontro a letra miúda de meu pai nas margens das páginas: comentários, anotações de frases, pequenos caminhos que gosto de percorrer como se conversasse com ele novamente.  Mas essa lembrança de conversa, de vozes, me faz voltar aos contos. Lembro-me da tarde de férias em que, deitados em sua cama, ele me leu “Miss Dollar”, “A Cartomante”, “Uns braços” e “Conto de escola”.  Antes de cada leitura, ele me chamava a atenção para beleza daquilo, das construções dos personagens, das frases, dos sentidos.  Depois lia, lia: sua voz grave acariciava o texto e o meu espanto de menino encantado.
É curioso que nos momentos de angústia, tristeza ou medo eu procure aquela coleção para me pacificar.  Intriga-me que a dita ironia pessimista de Machado de Assis tenha o dom de me trazer à tona.  Nas mãos sinto a capa verde-rugosa, a pena gravada em dourado, as páginas amareladas. A letra miúda de meu pai. A dedicatória dele esperando que eu um dia faça idêntica inscrição para meu filho naqueles mesmos volumes: novas pontes.  Vou buscar o cheiro, o cheiro eterno.   O cheiro das páginas, o cheiro do tempo, o cheiro das palavras: vou buscar, no talento do bruxo, a beleza dos sentidos, e esses sentidos me fazem voltar para casa seguro.   Começo a ler e ouço o que ninguém em nossos dias pode ouvir: a voz de Machado.
A voz de Machado é a voz do meu pai naquela tarde de férias.  Ele me lê um conto, dois, um romance inteiro.
Até que, novamente sereno, eu adormeço em seu ombro.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 9/11/2012 e 23/11/2012


                                          

domingo, 21 de setembro de 2014

Voos

(caio silveira ramos)

Admiro profundamente artistas que, com pouca ou nenhuma instrução formal, são compositores formidáveis, mestres do som e da palavra: Cartola, Nelson Cavaquinho, Argemiro Patrocínio e João Pacífico são alguns dos elos fundamentais que tecem minha alma.   Deles sou feito.   Assim como sou feito do desespero de conhecer, de me abastecer não só de poesia, mas dos outros, de música, de ideias, de livros que me embriaguem de liberdade.
Por esses dias me deparei com um sujeito que era contra tudo isso: metido a poeta, disse que não gostava de ler e conhecer outros escritores porque temia macular seu próprio estilo.  Falava-se da poesia de Carlos Drummond de Andrade naquele dia e pensei lá comigo como seria bom que o tal sujeito maculasse não apenas sua escrita, mas sua vida com a sombra gauche de seu Carlos.   Mas o pretenso escritor prefere seguir só, ostentando, orgulhoso, sua apologia da ignorância.
Ignorante não é aquele que desconhece, mas aquele que desdenha o conhecimento.  Nos programas de televisão, nas revistas, nos portais da internet se espalham as mais diversas formas de ignorância: “Do que adiantam livros, estudo? O que vale é a fama e o dinheiro que eu tenho na conta” –, disse outro dia uma senhora, representante dessa nova categoria de pessoas conhecida como “personalidade de mídia”.  Os sinais de sucesso na vida são o dinheiro e a fama, e se você não tem nem um nem outro, parabéns, é um fracassado.   E esse pensamento distorcido se espalha pela sociedade afora, alimentando desde a supervalorização nociva de alguns poucos artistas e esportistas até a prepotência do fulano que se desentende com um cobrador de estacionamento no shopping e cospe: “é por isso que eu estou aqui pegando meu carro e fazendo compras, e você está aí atrás desse guichê”.   A apologia da ignorância – ou o que é pior, a glamorização da ignorância – é nefasta para um país como o nosso, cuja principal saída para erradicar a miséria de vez é o investimento maciço na educação, principalmente na educação básica.  
Um governante não precisa ser letrado ou ter títulos acadêmicos: a sensibilidade social, a habilidade política e a honestidade independem do grau de escolaridade.   Vários bacharéis, muitos deles adornados pelo palavrório vazio, governaram o País com os olhos voltados apenas para grupos economicamente já privilegiados e provocaram o aumento das desigualdades sociais. Governos de militares de alta patente arrasaram o ensino público básico.   Mas se a educação formal não deve ser exigida do governante, é imprescindível que ele dê exemplo de sua busca incessante pelo conhecimento, sob pena de alimentarmos a República dos Bacharéis Vazios ou o Estado das Personalidades da Mídia.  Pobres de nós, premiados com governantes que, se não pediram o próprio esquecimento, se esqueceram do que escreveram. E ainda, com outros, os que querem esquecer que alguém já escreveu alguma coisa um dia. E com aqueles que necessitamos esquecer que escreveram, pois seus livros têm piores defeitos que os da velhaca raposa fantasiada de coelho místico.
Penso que minha primeira dor de alma, que deve ter produzido profundos reflexos sobre meu temperamento, apareceu ainda dentro do ventre materno: minha avó Jandyra – de quem minha mãe herdou o nome e o coração – faleceu um mês antes do meu nascimento.   Reconhecida por toda família como a mais inteligente dos doze irmãos, ela, a mais velha deles, cursou apenas até o quarto ano primário, justamente para que os menores pudessem estudar, como, alías, era muito comum naquele início do século XX.  
Mas minha avó era de um feliz inconformismo, com uma sede de conhecimento tão vital e livre, que uma das imagens familiares mais marcantes é a dela lendo enquanto cozinhava: com uma das mãos mexia as panelas, com a outra segurava um livro, fosse um romance ou algum compêndio de botânica ou astronomia.  Não havia desculpa para a falta de tempo. Ela queria ler para conhecer, aprender, questionar. E isso tudo, sem deixar o feijão queimado.
Dentro do ônibus, sentada ao lado da janela, lá vai uma moça na sua elegância discreta (que em Sampa há também), eternamente concentrada em um jornal ou em um livro, quase sempre com uma etiqueta de lombada de alguma biblioteca: um manual de economia ou de inglês, uma gramática ou até mesmo um romance.  Do meu canto, penso que não existe nada mais livre e belo que essa moça com sede de palavras e infinita vontade de degluti-las até transformá-las na sua alma. 
Por enquanto, ela pede licença ao passageiro ao lado, levanta-se com um sorriso e, antes de descer do ônibus, ajeita recatadamente os cachos dos cabelos.
Mas não demorará muito para que sua alma seja tomada por palavras encaracoladas, compostas, inventadas, aladas, que, aproveitando a janela aberta do ônibus, levarão a moça pelos ares da cidade num voo ensolarado em que a fome e a sede de novas palavras e sentidos continuarão desenfreadas.
Lá foi ela.
Voou.

                                                  Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                                  Publicado no Jornal de Piracicaba em 5/10/2012