sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Não sou de briga

(caio silveira ramos)

Detesto violência. Abomino a tortura, o tapa, o grito. O ganhar no berro ou no muque. O convencimento pela brutalidade.
Certo que na infância brinquei de mocinho e bandido.  Fui Robin Hood com arco de cabide e flecha com ventosa de borracha na ponta. Zorro de espada de plástico. James West com revólver de espoleta de rolinho. Batman com punhos que faziam sock, crash, splatt. zlopp e pow! Também derrubei os muros de madeira do Forte-Apache e, fantasiado de Tarzan com shorts de elástico na cintura, me atraquei com os mais famintos crocodilos. Brinquei, sonhei e tornei a brincar. Mas as brincadeiras e os sonhos não me tornaram violento nem defensor de truculências. Muito pelo contrário: as “lutas” da infância me ajudaram a discernir o certo do errado. O bom do mau.  O Thor do Loki. E me ensinaram muitas vezes a encontrar a justiça e não a brutalidade. 
Confesso que tive sorte de não ter sofrido a violência do bullying e nem mesmo ouvido um ameaçador “me espere na esquina”.  Mas nunca fugi dos bons combates, mesmo que esses tenham ficado apenas no campo das ideias e das palavras.
Desconfio, porém, que assim como Clarice Lispector em “A mulher que matou os peixes” contei toda essa história de menino comportado e pacífico para tentar marotamente me justificar por dois terríveis atos de violência física que pratiquei contra – e isso é o mais assustador – dois queridos amigos.
O último caso aconteceu em 1988, num intervalo das aulas do 3º colegial.  Atribulados pelas provas finais e pelo vestibular que se aproximava ameaçadoramente, aproveitávamos o pouco tempo de folga para jogar conversa fora ou alguma bola pra dentro da rede.
Foi num desses intervalos que, ao pular para fazer o arremesso em direção à cesta de basquete, meu joelho bateu forte no queixo do Chicão Totti, que justamente tentava se erguer após perder o equilíbrio durante a disputa da bola.  Não sei se consegui fazer o ponto: só ouvi um “creque” e vi o colega colocar a mão na frente boca. Fui socorrer o Chicão e percebi que ele tinha quebrado parte de um dos dentes da frente.  Fomos até a enfermaria e a escola o encaminhou para um dentista.
Enquanto, desolado, eu esperava sua volta, correu o zum-zum-zum pelo colégio:       “briga-feia-Caio-e-Chicão-mas-eram-tão-amigos-deve-ter-mulher-no-meio-quebrou-dois-dentes-tem-certeza-que-foi-ele?-tenho-eu-vi-tudo-parece-que-a-joelhada-deslocou-o-queixo-também-mas-ele-é-tão-calmo-que-nada!-nervoso-bravo-já-brigou-com-professor-mentira!-que-nada-eu-vi-viu-nada-que-foi?-tá-me-chamando-de-mentiroso?-vou-dar-uma-de-Caio-e-quebrar-sua-boca-também!” E por aí a coisa cresceu.
Acho que foi o Xandão – justo o Xandão, amigo do peito, mas piadista em tempo integral –, quem começou a me chamar de “Sawamu, o Demolidor”, dizendo que eu tinha utilizado contra o Chicão o “salto (ou chute) no vácuo com joelhada”, invencível golpe do então famoso personagem de mangá e “anime” inspirado no lutador de “boxe-tailandês” Tadashi Sawamura.  De qualquer forma, só ficou a piada e não o apelido, embora o Xandão, sentado ao meu lado, continuasse cantando baixinho e risonho, durante as aulas, o esdrúxulo tema de abertura daquele desenho animado: “e os insetos que vagam pelos charcos/têm poucas chances de alcançar o oceano...”.
No final da manhã, o Chicão já estava de volta ao colégio pronto para rir com todos os dentes (inteiros) da história do “Sawamu, o Demolidor”.
Mas no meu canto, deprimido, eu me sentia como um daqueles insetos vagando pelos charcos.


***

Se em 1988, eu (involuntariamente, involuntariamente!!) quebrei com uma joelhada um pedaço do dente do valente Chicão e passei o resto do ano me desculpando (e acho que ainda hoje, se encontrar com ele na rua, vou pedir desculpas de novo. E de novo. E de novo.), dez anos antes também cometi um ato de violência contra um amigo. E o pedido de perdão, ainda que igualmente sincero, não deixou de vir acompanhado de profundas dúvidas.
1978: eu, com seis ou sete anos, como em muitas outras vezes, fui brincar na casa do meu grande amigo Rogério Nakamura. Naquele dia, tivemos a companhia de outro colega do 1º ano, o Fracetto. A tarde foi ótima: jogamos bola, brincamos com dezenas de bonequinhos de personagens de TV, apostamos corridas com carrinhos de ferro em miniatura e inventamos lutas do Super-Homem e de heróis japoneses contra os mais terríveis monstros do Universo. Tudo num clima de paz e amizade.  E sempre acompanhados por um dos irmãos do Rogério, o engraçadíssimo Mauro, que era quatro anos mais velho que a gente.
Na hora da janta, enquanto esperávamos os últimos preparativos da sensacional comida da Dona Marta, fomos brincar na saleta de visita.  Empolgados com as histórias que o Rogério contava sobre o herói da série de TV Spectreman, simulamos lutas contra monstros ferozes e gigantescos que estavam sempre prontos para poluir o planeta. As almofadas das poltronas e do sofá voaram várias vezes.  Nós voamos várias vezes. E de repente, enquanto estávamos lá naquele pacífico bate-não-bate, o Mauro gritou um “agora é pra valer”, talvez temendo uma possível vitória das criaturas de lixo do Dr.Goria.
Mas justamente naquele momento, ainda que sem querer, acertei um poderoso cruzado de direita no rosto do Fracetto. Que abriu o berreiro. E botou a boca no mundo.
Imediatamente, enquanto eu tentava socorrer meu amigo e pedia desculpas desencontradas, apareceram assustados na sala, o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos do Rogério, o Maurício e a Selma:
“Que é que tá acontecendo aqui?”
E o Fracetto chorando alto:
“O Caio me deu um soco e tá doendo!”
“O Caio?!!!”
E o Fracetto chorando mais alto:
“Foi, mas a culpa não é dele! A culpa é do Mauro, que disse ‘agora é pra valer’!”
O Mauro pulou:
“Minha? Eu não fiz nada!!!”
O Rogério botou lenha:
“Foi culpa sua sim, Mauro! Tava tudo tranquilo até que você mandou bater pra valer!”
Dona Marta fechou a questão:
“Mauro, você é o mais velho, tinha que ter mais responsabilidade! Fracetto, vamos lavar esse rosto, olha aí, nem tá vermelho. Depois o pai leva cada um pra sua casa. Isso, já passou, não é? Vamos jantar agora. Mauro, você tá de castigo”.
Naquela noite, enquanto voltava pra casa no banco de trás do opalão vermelho dos Nakamura ao lado do Fracetto (que já parecia perfeitamente recuperado: franzino como era, ele tinha comido quatro pedaços de pizza), eu pensava como minha tarde tão feliz tinha terminado de forma tão amarga. Em poucos minutos, eu tinha ferido dois amigos de forma profundamente diferente: um, com um sonoro soco de Spectreman.
O outro, com uma gritante omissão disfarçada de silêncio.









***

Depois de alguns dias me acertei com o Mauro e pedi desculpas por ele ter ficado de castigo por causa do meu soco no Fracetto.   Se bem que ele me confessou que o “agora é pra valer” significava aquilo mesmo: “agora bate de verdade... Mas de brincadeira, entendeu?”
Entendi mais ou menos. De qualquer forma, aceitei (quem sabe se por remorso?) a proposta do Mauro de trocar meu time de botão do São Paulo pelo que ele tinha do Atlético Mineiro. Me arrependi muito depois: não que eu gostasse do São Paulo, mas os botões vermelhos vinham com a cara de cada um dos jogadores colada. Tinha até o Pedro Rocha, assim como meu Palmeiras vinha com o rosto do Ademir da Guia e de toda a Segunda Academia. Já o time do Atlético Mineiro do Mauro tinha uma parte encaixada que prendia o distintivo de papel no botão de acrílico. Mas a cada chute, aquilo desmontava e a gente perdia o lance todo.  Isso sem contar que meu pai e o Nando gostavam de jogar com aquele São Paulo. Me arrependi, mas troca era troca. E depois, arrependimento por arrependimento, sentia mais pelo castigo do amigo do que ter perdido o botão com a cara do Forlan.
Tudo acertado com o Mauro, agora eu precisava resolver de vez as coisas com minha outra vítima.  Era tempo de férias e eu e meu pai combinamos de ir até a casa do Fracetto para pedir desculpas pelo soco que eu tinha dado no rosto dele durante a tal brincadeira “de mão” que, como a mãe da gente fala, “nunca dá certo”.   O Fracetto já tinha dito que estava tudo bem, mas meu pai queria pedir desculpas pra mãe dele, olho no olho, bem daquele jeito do seu Miro.
Não sei se foi minha a ideia de levar um carrinho de ferro de presente. Acho que foi.  Mas não era só para reforçar as desculpas: a verdade é que eu achava bonito quando via alguém que, visitando outra pessoa, levava alguma lembrança, uma flor, um bombom ou um bolo feito no capricho.  Dona Eva vivia me presenteando com bolinhos de chuva e macarronada.  Tio Amador, toda vez que vinha do Rio, trazia Bala Chita ou Dadinho. Meu padrinho, seu Arlindo, aparecia sempre com um brinquedinho ou um pacote de bolacha. Minha mãe ia além: ela quem dava lembrança pra visita, fosse um livro, um pão feito na hora, um brinquedo que achava que a gente não usava mais. Então, eu é que não podia fugir à regra: já que eu visitar um amigo, uma visita, assim, oficial, com conversa de pai com mãe, sim senhor, sim senhora, precisava também levar uma lembrança.
Eu tinha acabado de ganhar dois carrinhos Matchbox e estava exultante: além de incríveis, aqueles carrinhos de ferro não eram baratos e se você ganhasse qualquer um deles no aniversário podia sair comemorando. E eu tinha recebido dois!
Estávamos ainda na fase de namoro: eles ainda não tinham se misturado com os outros brinquedos e eu não ousava nem sujar suas rodinhas no chão da sala. Passeavam um pouco na palma da minha mão e depois voltavam para suas caixinhas individuais feitas de papel duro.  Assim, novos em folha e ainda embalados, qualquer um deles estava pronto para ser dado de presente para o Fracetto.  Mas qual?
Um era o jipe verde. Na parte de trás ele tinha uma espécie de bazuca de plástico que subia e descia e ainda girava 360 graus. Os banquinhos eram pretos e a armação do retrovisor, feita de ferro fininho, era caprichosamente dividida no meio.
O outro era um carro de bombeiros. Bem mais robusto que o jipe, ele era de um vermelho vivo, com detalhes prateados e uma escada giratória amarela. De cara, escolhi esse para ficar comigo. Mas depois mudei de ideia. E mudei de novo. De novo. De novo.  Uma hora me via com meu jipe verde em mil e um combates contra os mais terríveis tiranos da Terra. Noutra, me arriscava com meu super carro de bombeiros em incêndios medonhos para salvar crianças indefesas.  E de quarta até sábado fiquei naquela indecisão terrível. Já não pensava direito nas desculpas, no almoço, nos outros brinquedos: dia e noite era só aquela matutação sem fim.
Lá pelas tantas me arrependi daquela minha ideia de presente. Poderia fazer simplesmente assim: eu iria lá na casa do Fracetto, meu pai falaria com a mãe dele, desculpas, desculpas, tchau e bença.  Depois podia até convidar o amigo pra brincar em casa com os carrinhos, mas abrir mão dos meus brinquedos tão bacanas... Não, não podia fazer aquilo, já tinha falado com meus pais, que gostaram da ideia. E o Fracetto era um amigo muito legal, merecia o presente. Acho até que ele nem tinha um carrinho de ferro.
E sábado de manhã, lá fui eu com meu pai na casa do amigo. A conversa foi boa, a mãe dele agradeceu, mas disse a meu pai que ele não precisava ter se preocupado: ela me conhecia etc e tal. Já o Fracetto e seu irmãozinho pularam de alegria quando viram o carro de bombeiros com seu vermelho vivo, seus detalhes prateados e sua escada giratória amarela. 
Presente era presente: achei que devia dar o mais bonito.
Ou no fundo, no fundo, a opção revela toda a verdade: eu não passava de um violento brigão que tinha escolhido um jipe com uma bazuca que subia e descia e girava 360 graus. Um jipe de guerra para um espírito mirim belicoso.
Pode ser, pode ser.
Mas de vez em quando eu ainda sonho com aquele carrinho de bombeiros.




Ilustrações de Anderson Diniz e Maria Luziano - cedidas pelo Jornal de Piracicaba 
Publicado no Jornal de Piracicaba em 2, 16 e 30/7/2017

A glória de um farol

(caio silveira ramos)

Para Tita

Por que, de repente, os olhos verdes se encheram de tristeza?
Não que os olhos verdes não tenham o direito de se entristecer: estamos em dias difíceis, de desilusão e de lutas aparentemente perdidas.
Mas justamente por lutarem tanto a vida inteira que ainda esperamos que os olhos verdes retomem sua alegria.  Onde estarão guardadas tantas batalhas, perdidas, vencidas, mas bem combatidas?  Onde estarão recolhidas suas visões de presente e futuro?  Será que os olhos verdes se anuviaram justamente porque deixaram de ver o que virá? Ou será que é justamente uma antevisão assustadora que os amedronta?
E nós, temos o direito de pedir a ressurreição de sua alegria? Estaríamos sendo egoístas por que precisamos dessa alegria e simplesmente não conseguimos viver sem a força que dela brota?
Os olhos verdes estão tristes. E talvez, sabendo do desalento que sua tristeza provoca em nossa vida, se sintam ainda mais desgostosos: tal responsabilidade deve pesar infinitamente sobre suas pálpebras.
Os olhos verdes se dizem fracos. E por se sentirem fracos, têm medo de andar pelas ruas sozinhos e precisam de outros olhos fraternos (e eles são muitos) para conduzi-los.  Outros olhos que ainda se alimentam da força avassaladora que os olhos verdes emanaram a vida inteira.
Mas eu sinceramente acho que os olhos verdes não estão fracos: estão apenas com um pouco de medo. Pois a chama e a inquietude dos olhos verdes não se apagaram: continuam lá, instigando, provocando, se digladiando com a apreensão que tenta arrancar suas forças. 
Há de haver colírios que derramem a tristeza para fora dos olhos. Colírios desenvolvidos pela mais avançada medicina para afastar depressões profundas ou amarguras superficiais. Ou mesmo devem existir terapias, mandingas, exercícios e luzeiros extraídos de filosofias heterodoxas que afastem fantasmas e sombras. E a cura virá.
Egoísmo nosso ou não, precisamos que os olhos verdes retomem sua alegria, mesmo que haja o risco de que essa responsabilidade lhe pese ainda mais sobre as pálpebras: que nossa necessidade não seja peso, mas sustentação que mantenha os olhos verdes acesos: que sua luminosidade seja nosso farol.
Farol verde que nos abre passagem e nos serve de guia no mar revolto e nas noites de tormenta.
Que seu brilho nos preencha com sua glória.

Ilustração de Anderson Diniz - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 18 de junho de 2017


Eucaliptos e bolachas

(caio silveira ramos)

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
Acordei vindo de um sonho bom: cinco anos, do pré-primário à 4ª série, em que as professoras amadas só faltavam me carregar no colo.  Não que as novas professoras e professores me negassem a acolhida. Mas a escola era outra, os colegas eram novos e a partir daquele momento cada matéria teria um professor diferente. E às vezes mais que um.
Da escola antiga só veio comigo o Paulo Henrique Ferreira.  Mas o Paulinho desde pequeno já era descolado e não teve problemas em se adaptar. Já eu era tímido, quietinho e encabulado. E agora teria meu pai como professor de Língua Portuguesa.
Isso logicamente era um privilégio: o professor Algemiro Coelho Ramos era um mestre fabuloso. Muitas e muitas vezes eu era parado na rua por algum aluno que agradecia pelos profundos ensinamentos que recebera de meu pai, não só de Língua Portuguesa, mas de dignidade, honestidade e de amor pelo conhecimento. Alunos, principalmente da escola pública, que ele, por meio das aulas ou de simples conversas nos intervalos, nas ruas e mesmo em nossa casa, conseguira arrancar do limbo da exclusão e do abandono, lhes ofertando oportunidades, amor-próprio e uma vida mais digna.
Mas ser apontado como “o filho do mestre” não é coisa fácil. Mesmo que ali no colégio eu procurasse encará-lo “apenas” como professor e não como pai (e ele também, para afastar qualquer ideia de privilégio, não me tratasse como filho, embora, no fundo, tomasse como filhos todos os seus alunos), no fundo, imaginava o seguinte: se me saísse bem, alguém diria “Ah! Filho de professor deve até receber as questões da prova antes!”.  Mas se fosse mal, esse mesmo alguém poderia dizer: “Caramba! Filho de professor indo mal? Que vergonha...”.  Então, além de ter que me comportar, ser e parecer honesto, eu tinha uma responsabilidade extra: me esforçar não apenas no estudo da Língua Portuguesa, mas também no das outras matérias.
De manhãzinha, o famoso bosque de eucaliptos da escola estava coberto pela neblina fria e o cheiro das árvores se espalhava pelo colégio.  Tendo meu pai que dar aulas em outra escola ainda de manhã, os dois primeiros horários no colégio eram dele. Daí porque a Língua Portuguesa passou a ter pra mim o aroma de eucalipto.  E nas redações das terças-feiras os meus encontros amorosos com as ideias (“mais que gramática, o importante é o conteúdo”, dizia sempre aquele meu professor de Português), sujeitos, predicados, orações e verbos se deparavam sempre com a minha alma já perfumada.
Por outro lado, as duas últimas aulas eram de Matemática, com o professor Douglas Simões, justamente quando a fábrica de bolachas vizinha ao colégio liberava todos os seus cheiros numa dança que misturava maisena, infinitude dos números, leite e fome antes do almoço.  De qualquer forma, não sei se foi a entrada na pré-adolescência ou a mudança de escola (ou até mesmo a saudade do colo das antigas professoras), mas pela primeira vez na minha vida escolar me estranhei com elementos que sempre tinham se mostrado tão amigáveis. E me vi um tanto perdido entre chaves, colchetes e parêntesis.
Assim, quando o professor de Matemática se virava de repente para classe e exclamava “arranquem uma folha, ponham nome, número, série e data”, anunciando mais uma prova surpresa, eu sentia um terrível frio na espinha e me vinha a certeza de que o cheiro de bolacha misturado ao do eucalipto iria me embrulhar o estômago vazio.
Mais que isso: eu começava a perceber que a vida não seria tão fácil quanto imaginava que fosse.

***

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
De repente eu estava longe dos meus amigos Rogério Nakamura, Nando Boscariol, Rogério Canale, Mauricio Roque, Alexandre Vale e tantos outros.
Mas de repente também, descobri que não estava sozinho: para afastar qualquer abandono, no colégio novo rapidamente apareceram André Komatsu, Renato Ferracciu e Marcelo Pedroso, que me estenderam a mão e deixaram suas casas e quintais sempre abertos para mim.
Naquela escola também me esperavam mentes desafiadoras que logo, logo foram se achegando: as inteligências de Caroline Kageyama, Ana Helena Petrin e Eliana Veras matavam a saudade das minhas antigas colegas do Sud Mennucci, Ana Paula, Rosiede, Luciane, Luciana, Graziela, Fernanda e outras meninas brilhantes que tanto domavam os segredos dos números quanto eram capazes de contar para a classe a história inteira de Rumpelstiltskin. 
Entre os meninos do colégio também havia amigos novos para instigar o espírito: Gunnar, com sua facilidade espantosa com a Matemática e todas as demais matérias: os olhos vibrando de curiosidade e da vontade infinita de conhecer cada detalhe do mundo. E Alexandre Paulino, que não só parecia já saber tudo sobre Ciências, História e Língua Portuguesa, como também tinha um estilo próprio até para erguer a mão ao fazer suas perguntas: ele estendia o braço, erguendo somente os dedos indicador e médio. E se estivesse sentado na lateral da sala, ainda apoiava os dedos na parede, o que dava ao gesto um ar ainda mais irônico e desafiador. 
E da 5ª à 7ª série, outras meninas e meninos foram também se aproximando para afastar de vez o meu medo do novo, permitindo que eu me embriagasse sem temores com o cheiro do eucalipto misturado ao da bolacha: Eliane Yamauti, Erica Bozola, Ricardo Ré, Wagner, Ivan, Eric, Otávio, Felipe, Clerton, Luciana, Christian, Valéria, Cláudio Cordeiro, Marco, Mauro, Ana e Gustavo Bettin, Fernando Guena, Berreta, Júlio, Natanael, Hermes, Orlandinho, Elisa, Gleidenis, Clara, Atílio, Ribas e tantos outros. Como não me comover com a alegria e a camaradagem de Eduardo Freire e do querido Fábio Shimabukuro? Ou com o jeito intrépido de Fabiana Santelli, irmã do Ricardo? Ou com a delicada meiguice de Érika Bonatto?

Na 6ª série ainda apareceu a Adriana Juabre, com tal boniteza e ar tão nobre, que fez meu sono se esquecer das manhãs e minha timidez se espreguiçar feliz e distraída pelo canto dos olhos. Mais uma vez pensei que iria me atrapalhar com os números, dessa vez regidos pela Professora Maria Izabel. Mas justamente para não dar vexame (ou para chamar alguma atenção) eu me desdobrei na Matemática e nas redações, tentando desvendar e criar mistérios.
E no final do ano, no último dia de aula, seria a revelação do “amigo secreto”, mas fiquei doente e tive que faltar. E justamente aquela menina com seus longos cabelos encaracolados, tão doce, que poucas vezes eu tivera a chance (ou a coragem) de conversar, tinha me sorteado.  Me deixou de presente uma caixinha do jogo “Super Trunfo” e um bilhete: “o seu silêncio é muito bonito”.
No ano seguinte, nem consegui agradecer: ela mudou de escola e jamais retornou.
E meu silêncio nunca mais foi o mesmo.

***

De repente eu estava na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz.
Certo, certo: na 8ª houve uma revolução: chegaram alunos incríveis vindos de várias escolas, de várias cidades como Iracemápolis, Rio Claro, Capivari e Limeira. Além de novos amigos e ainda mais gente boa chegando de Santa Bárbara d’Oeste e Americana. Mas isso é outra história.
 No 1º Colegial, além de matérias diferentes, matérias “de gente grande” como Física, Química e Biologia, novos alunos vieram de outras escolas de Piracicaba ou de cidades vizinhas, como Cerquilho e Santa Maria da Serra. Ônibus cheios continuaram a chegar de Santa Bárbara e Americana.  Alexandres, mais que dez, todos grandes amigos. Além de outros, com outros nomes, ideias e vontades. Isso sem falar na certeza de que para minha turma tinham vindo as meninas mais bonitas do mundo.  Mas essa também é outra história.
Pois, de repente, eu estava era mesmo na 5ª série do Colégio Luiz de Queiroz, antes ainda de conhecer o talento musical da Eliane Tokeshi.  Eu estava na 5ª série, mais precisamente no primeiro dia de aula. O cheiro de eucalipto. O frio na barriga. 
Tentei me sentar quase na frente para que minha visão pouca não se perdesse na lousa e no medo. Fiquei um pouco atrás de duas meninas, que rapidamente fizeram amizade e passaram a conversar.  Logo fiquei sabendo que se chamavam Claudine Beduschi e Daniela Marquez.
Claudine tinha o cabelo liso e loiro, os olhos claros serenos e muito atentos. Devia ter a minha idade, 10 anos, mas, assim como as outras meninas, parecia muito mais madura.  E não era só maturidade: pelo menos para mim, ainda que pouco tenha conversado com ela, Claudine revelava um jeito protetor que muitas vezes me socorreu.
Naquele começo de escola nova, muita coisa parecia querer me atrapalhar: da saudade à dificuldade de ser filho de professor.  Dos verbos em inglês às operações com números negativos.  Então me vinha um nó na garganta que minha discrição encabulada impedia que qualquer colega percebesse. Menos Claudine, que mesmo sem bisbilhotice ou qualquer outro interesse parecia sempre perceber meu aborrecimento. Os olhos dela sempre estavam por ali, com sua vigilância serena e solidária. E tudo parecia clarear.
Certo dia, após uma prova qualquer, achei que meu desempenho tinha sido desastroso. O recreio já tinha esvaziado a sala e eu disfarçava minha tristeza (e o brio ferido) fingindo arrumar o material dentro da mochila. Foi então que percebi Claudine, em pé, na minha frente. Tentei desenvidraçar os olhos, mas ela foi mais rápida: “não fica triste, não. Eu também não fui muito bem, mas depois a gente recupera”. Agradeci encabulado e quando ela já saía para o intervalo, se virou e, me emprestando seu melhor sorriso, ainda acalentou: “e quer saber? Acho que você não foi tão mal quanto pensa”.  Eu vesti meu rosto com aquele sorriso e o dia se desanuviou inteiro.

Daniela também tinha olhos claros, mas eles eram tecidos de marotagem e ousadia. Desde que entrou na sala, ela danou-se a falar pelos cotovelos, mas com uma graça tão desnorteante que alegrou a sala, os corredores e até o bosque de eucaliptos.  Parecia que, de repente, alguém tinha lançado uma bola de tênis que sapecava nas paredes, no teto, na lousa, no chão, se embaralhava nos ventiladores, saía pela janela e depois voltava, bulindo na cabeça de cada aluno.
Antes mesmo de a aula começar, minha irmã Raquel e sua inseparável amiga Deise, que estavam no 1º Colegial, chegaram até a porta da minha sala: queriam ver se estava tudo bem comigo.  Acenaram com as mãos e os olhos, e eu respondi com um sorriso encabulado, enquanto Daniela já dava para elas um “oi, tudo bem?”. Minha irmã perguntou como se chamava e ela devolveu, desinibida, seu nome completo.
Naquela tarde, em casa, Raquel se disse encantada com minha colega de classe e completou: “ela é pequetita, tão bonitinha, tão engraçadinha, parece uma bonequinha”.
Foi então que percebi por que eu tinha gostado tanto da minha colega: ela parecia uma boneca mesmo, mas para mim, não aquela que minha irmã via.  Ela era outra boneca, minha amiga há tanto tempo. A amiga que me inspirava destemor, atrevimento e a necessidade de liberdade, de contestação, de provocação.  Saída do conforto das minhas leituras, a boneca Emília parecia ter encontrado seu corpo de carne e osso. Daniela tomara a pílula do Doutor Caramujo e tinha até “Marquez” em seu nome.
E envolto em proteção e alegria, percebi que mesmo não sendo a vida tão fácil quanto eu imaginava, ela valia muito a pena.
E eu estava pronto para ela.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/5 e 3/6/2017

Entendimentos

(caio silveira ramos)

E o pequeno chegou da escola dizendo que precisava escrever três frases sobre os golfinhos.  A professora tinha dado os endereços de alguns “sites e ele devia pesquisar sozinho.
Quando cheguei à noite, a lição já estava feita. Patricia me chamou de lado e, rindo, apontou: “veja a frase 2”.
No caderno, entre uma informação sobre “ecolocalização” e outra sobre “mamíferos aquáticos”, estava a tal frase:
“Diferente da maioria dos animais, os golfinhos mantêm relações sexuais por prazer”.
Fui até a sala, onde o pequeno brincava. Conversamos sobre a lição e comentamos sobre as outras duas frases. Aproveitei a deixa:
“Essa informação do item 2: você entendeu o que a frase quer dizer?”
“Não, não entendi”.
“Então, por que você escreveu?”.
“Não é uma pesquisa?”.
“Sim”.
“E uma pesquisa não serve pra gente aprender coisas novas?”.
“Sim, mas é importante entender o que se escreve”.
“Então, se você me explicar eu vou entender”.
“Hum...”
“Tenta. Eu vou entender”.
“Tá bem. A frase quer dizer mais ou menos o seguinte: diferente da maioria dos animais, os golfinhos não namoram só para ter filhotes, mas também para ficarem felizes. Da mesma forma que o ser humano. Entendeu?”.
“Viu? Entendi!”.
“O que você entendeu?”.
“Que diferente da maioria dos animais, os golfinhos não namoram só para ter filhotes, mas também para ficarem felizes. Igualzinho aos seres humanos”.
“É, tá certo”.
“Então, posso deixar a frase?”.
“Pode, desde que você escreva com as suas palavras”.
“Bom, a professora pode não entender que eu entendi”.
“Acho até que ela entenderá, sim. E talvez seus colegas até entendam que você entendeu. Mas talvez não entendam muito bem o que frase quer dizer”.
“Hum...Entendi. Vou ver se acho mais alguma coisa sobre os golfinhos: se for mais legal, eu troco a frase”.
E repleto de entendimentos, o menino foi se banhar na sua liberdade.
Da mesma forma que os golfinhos fazem.
Da mesma forma que todo ser humano mereceria fazer.



Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 24 de abril de 2017


Indomável

(caio silveira ramos)

Eu ficava ali observando o pai em frente ao espelho: o cabelo ondulado, ainda umedecido, calmamente penteado pela velha escova.  Uma escova de madeira plana e escura, a parte ovalada abrigando as cerdas de náilon duras e amareladas.  Talvez o tempo e o uso tivessem reinventado as cores da madeira e das cerdas, mas para mim a escova sempre foi daquele jeito. Infinita como o pai.
Fui crescendo e os fios grossos foram modelando minha cabeleira cada vez mais volumosa.  As manhãs encontravam minha cabeça envolta num emaranhado intrincado e rebelde, enredando qualquer pente desavisado que passasse por perto. Até que pedi ao pai que me emprestasse a escova. Que finalmente domou sem dor as manhãs e o cabelo.
Então, nós dois passamos a compartilhar a velha escova. Nos sábados, enquanto ele cochilava leve ou ouvia de olhos fechados um programa de chorinho que passava na TV, eu apanhava a escova, redesenhava seu cabelo e invertia o sentido de suas sobrancelhas, transformando o pai em pai-monstro, pai-brinquedo, pai-riso.  Depois reconstruía seu cabelo e ele podia voltar a ser simplesmente o pai.
Quando fui para a faculdade em São Paulo, deixei nosso tesouro só para ele e tentei domar meu cabelo com pentes e até escovas parecidas. Mas nada funcionou. E as manhãs tornaram a encontrar o voluntarismo de uma cabeça emedusada. 
Novamente o total desprendimento do pai veio em meu socorro: num domingo à noite, desfazendo minha mala já em São Paulo, encontrei a escova protegida pela roupa limpa. Fui até um orelhão, liguei para o pai, que riu seu riso de marotagem e completou: “meu cabelo já está domado. Agora ela é só sua”.
Depois de tantos anos, o presente do pai continua lá, socorrendo minhas manhãs dos nós que se apresentam com o novo dia.  Mas durante as faxinas mais pesadas, sempre há alguém que pergunta: “pode jogar fora essa escova velha?”.  Corro para proteger meu tesouro, falo de sua importância, da qualidade da madeira, da consistência única das cerdas. A pessoa ri e a escova se abriga novamente dentro da gaveta.
Por esses dias, nova faxina pesada. E a antiga pergunta rodopia mais uma vez no ar. Dessa vez, porém, meu filho se antecipa e vem me proteger: “não pode jogar a escova fora: é a única lembrança que o papai tem do pai dele!”.
Agradeço ao pequeno, mas digo a ele que não é a única lembrança: eu tenho os livros, as fotos e outros singelos sinais da presença do pai. E mais importante que isso tudo: mesmo que a escova, os livros, as fotos e todos os sinais se percam, eu terei o pai sempre comigo, nos meus passos, nos meus sentidos, no meu pensamento.
O pequeno me sorri compreendendo.
E enquanto passeio com os dedos pelos fios grossos do seu cabelo cheio, percebo que a velha escova de madeira do pai ainda irá domar muitas outras manhãs.
E todos os nós do dia se desatarão.



Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 9 de abril de 2017


Castorino e a capacidade

(caio silveira ramos)


De 1982 a 1988, fui aluno do Professor Castorino Telles de Souza.   E durante todos esses anos, do ginásio ao colegial, ele me ensinou Ciências, Biologia e até Matemática, provando, ao lado da brilhante aluna Luciana Ducatti, que o Teorema de Pitágoras poderia ser corretamente demonstrado com lápis, papel e... tesoura e cola.   Mas isso é outra história.  Como também é outra história lembrar que o irmão do Professor Telles, o Mestre Roberto, chegou a me dar algumas aulas de xadrez na quinta série, mesmo que eu não tivesse nem a metade do talento que meu filho de oito anos tem diante de um tabuleiro.
O Professor Telles sempre foi de opiniões fortes e francas e, por vezes, causou alguma controvérsia. Eu mesmo devo ter discordado dele algumas voltas, mas isso faz tanto tempo que já nem me lembro em quais assuntos. E provavelmente eu era muito novo para ter alguma razão.
No primeiro ano do Telles como meu professor de Ciências, a meninada não entrava em polêmicas com ele. Pelo contrário. No intervalo, antes das suas aulas, as crianças enchiam a lousa com desenhos engraçados que ele, antes de iniciar a matéria, ia apagando um por um até escolher o favorito do dia.  E o mundo ria com infinitos “tellesfones”, “tellesvisões”, “tellesféricos”, “tellescópios”, todos os objetos devidamente barbados, calvos e munidos dos indefectíveis óculos de aros bem redondos.  Acho que toda classe desenhava, menos eu: mesmo que tivesse milhões de ideias “tellúricas”, era tão tímido que se um desenho meu fosse escolhido, nunca teria coragem de me revelar.
    Entre uma lição e outra, ele - além de tirar do bolso do guarda-pó curto uma caixinha com cravos da índia para ajudá-lo a parar de fumar – arrancava da cachola algumas frases e ideias curiosas.  Eu achava deliciosa sua definição para “oô”: “expressão caipiracicabana de espanto e descrédito”, tudo isso dito sem economizar na pronúncia bem carregada do “an" (de “espanto”), de todas as vogais (principalmente dos “es”) e claro, de todos os “erres” a que tinha direito.  Achava saborosas suas frases que começavam com “quem nunca foi criança que...”  e terminavam com algo como “transformou a bola furada em capacete” ou “fez máquina fotográfica de uma caixinha de fósforos”. Os hinos mais famosos do Brasil para ele eram os “do Corinthians (o que eu discordava), o ‘Virundum’ e o de Piracicaba, porque é quase uma moda de viola”. “Para Casa” virava “Prular”.  E a representação gráfica, sacada por ele e pelo Professor Zé Arthur, de uma árvore com dois galhos – que explicava espertamente a evolução dos protozoários até o homem – era jocosamente apelidada de “Chifre do Zé”.
Mas ele também falava sério. E muito: ficava furioso se alguém arrancava displicentemente uma folha do caderno só porque talvez houvesse um erro simples. Dizia que seu pai lutara com dificuldade para educar os filhos. Filhos que, muitas vezes, tiveram que escrever em papel de embrulhar pão para fazer lições e estudos.
Uma das suas lições mais preciosas foi aquela que nos ensinou os mistérios da palavra mágica “capacidade”.  Nas provas e nas tarefas, ele nos segredou que a tal palavra poderia ser usada para explicar incontáveis fenômenos da Ciência. Se acaso se pretendesse definir “fotossíntese”, lá viria a magia: “é a capacidade que os vegetais têm de etc” .  Porém, mais do que isso: ele nos fez refletir sobre o sentido de nossas próprias respostas em todos os campos de conhecimento. Mesmo sem usar palavras mágicas, ao sermos indagados sobre a definição de algo, deveríamos responder com objetividade e clareza, e não com vagos “é quando” ou “é, por exemplo, (...)”.
Muito além das Ciências, ele nos ajudou a colocar as ideias em ordem. 
A pensar sobre o sublime ato de pensar.

***


Talvez nenhuma geração tenha sido tão psicologicamente afetada com o surgimento da AIDS quanto a minha. Estávamos a um pé da adolescência quando as primeiras notícias sobre uma terrível doença que guardava estreita relação com o sexo começaram a se espalhar pelos nossos olhos e ouvidos.  Nem bem começávamos a sonhar, nem bem iniciávamos nossa tentativa de entendimento sobre o que talvez fosse o sexo e o mundo, já nos amedrontava a morte certa, o preconceito e a segregação.  Parecia que quando chegara nossa vez, seríamos tolhidos da possibilidade do desejo.
Foi então que o Professor Telles resolveu fazer, uma vez por mês, uma roda (literalmente: as carteiras eram arrumadas formando um grande círculo), que ele, inspirado pelo título do filme de Woody Allen, chamava de “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”.  Para ninguém ficar constrangido ao expor suas dúvidas, cada aluna ou aluno escrevia sua questão num pedaço de papel que, depois de dobrado, era colocado num saco. Então, o Professor Telles ia retirando nossos medos, dúvidas e angústias e respondendo um a um com leveza e sem meias verdades.
E vieram outras lições: na sexta série foi organizada uma excursão ao Zoológico de São Paulo. Uma das propostas da viagem seria observar as placas informativas colocadas em frente às moradas dos animais para ajudarmos a aprimorar os dados dos bichos do Zoológico de Piracicaba.  Me lembro que levei um caderninho e anotei incansavelmente as características de cada animal e as informações relevantes.  Mas o que muito me chamou a atenção foi uma conversa dentro do ônibus que, por mais que eu tenha me esforçado, não consegui não ouvir.
Na viagem de ida para São Paulo, sentados nos bancos atrás do meu, vinham o Professor Telles e a professora de inglês “Teacher” Elisabeth Nocit.  Acho que o passeio até a Capital reavivou a memória e a saudade dele, que deu para contar entusiasmado, à colega, o período em que viveu em São Paulo quando ainda era estudante.  Lá pelas tantas, lembrou do lugar em que morava: na minha cabeça de criança criou-se um prédio decadente no centro da cidade, recheado de figuras interessantes e misteriosas: malandros, travestis, prostitutas, excluídos de todos os tipos e tamanhos.  Eu não entendia muito bem as histórias, mas aquelas pessoas tão cheias de humanidade se criaram em mim e até hoje tecem muitas das minhas histórias.
Nas aulas, Telles nos convidava a experiências, como aquela que revelou o tipo sanguíneo de cada aluno: trouxemos agulhas descartáveis e ele foi passando de carteira em carteira, fazendo delicados furos nos nossos dedos para que brotassem gotas de sangue que eram pingadas numa lâmina de vidro. O professor colocou seus reagentes e tcharam!, nosso sangue se mostrou com todas as suas letras e sinais.
Das lições de Ciências e Biologia, as que mais grudaram em mim foram aquelas que mostravam os ciclos de doenças como a de Chagas, Esquistossomose, Cisticercose Cerebral, Leishmaniose, Malária, Febre Amarela, Dengue e tantas outras.  Com essas lições – inclusive aquela que me revelou o sentido da palavra “profilaxia”  -  eu abri ainda mais meus olhos para as visões que meus pais me ofertavam já em casa: as de que eu vivia em um mundo que não se preocupava em investir em pesquisa para encontrar a cura de doenças que afetavam os mais pobres. Que eu nascera em um país repleto de desigualdades e por vezes cruel e desatento. 
Um país onde muitos não tinham casa, água ou condições sanitárias mínimas para se ter uma vida digna.
Um país em que tantos não tinham sequer o direito a professores que os ajudassem a enxergar a vida.
                                               


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
               Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 e 26/3/2017

Meninas

(caio silveira ramos)

Do pessoal lá de casa, a Ruth talvez tivesse o maior número de amigas. Amigas desde cedo, amigas por muito tempo, amigas para todo o sempre. Amigas de vir em casa, amigas de visitar. Amigas de escrevinhar nos cadernos advinhas enigmáticas de letras e números para revelar nomes dos pretendentes ou dos apaixonados.  Amigas de falar por horas baixinho no telefone, amigas de rir alto e sem motivo aparente, amigas de chorar de mãos dadas, amigas de sair junto. 
E eram tantas e tantas, que os sorrisos às vezes se confundem nos meus olhos para talvez moldar o sorriso só dela, Ruth: Mônica, Adriana, Valéria, Cibele, Idamis, Monique, Lucy, Anete, Sandra, Eda, Cleide, Zuleica, Denise, outra Valéria, Cidinha, Adneia, Bia, Telma, Soninha e, claro, Aninês. E outras. Muitas outras.
Ruth gostava de festa, de praia, de piscina e de chocolate. De fazer bolo. De acordar cantando no sábado de manhã. E de dançar. E de se arrumar para sair sábado à noite, de brincar o Carnaval, de tomar sol. De chorar sentido e de rir sem freios. De falar besteirinhas. De escrever inspirados poemas românticos nas últimas folhas dos cadernos. De tocar piano apaixonadamente.
E quando contava piadas ou episódios mais desbocadinhos (ou quando descobria cacófatos marotos ao juntar os sobrenomes das amigas com os de alguns pretendentes), minha mãe brincava: “ih! Soltaram o tio Sebastião”, lembrando um tio querido que se deliciava ao contar piadas um pouco mais apimentadas.
Aos sábados, os preparativos para a noite começavam logo após o almoço e, enquanto trocava infindáveis telefonemas com as amigas, ela se esmerava em cuidar dos cabelos longos e crespos.  E à noite, a bordo do carro da Telma, um Chevette muito cuidadinho conhecido graciosamente como “Mini-Monza”, lá ia ela se divertir com as meninas nos barzinhos e danceterias da cidade.
Às vezes, no meio do dia, me deparo com sons e imagens soltas daquelas meninas, talvez para me lembrar mais um pouco dela. E chegam num relance o sorriso da Lucy, os olhos da Bia, um samba do Almir Guineto trazido pela Soninha, o riso da Eda, a discrição serena da Telma, a flor no cabelo moreno da Cleide, o liso do cabelo loiro da Sandra. E, claro, a alegria da Aninês.
Aninês, a quarta irmã que morava numa casa querida na rua Gomes Carneiro, casa de Dona Ondina (“Madrinha”, para Ruth), de Seu Antonio Carlos e do Ju.  Aninês, que estava sempre tão perto, rindo com a gente. Vivendo ali com a gente.  Aninês, tão diferente da Ruth no temperamento e no jeito, mas no sentimento tão igual. Tanto, que as duas pareciam transcender a fraternidade para quase sempre parecerem uma só.
Hoje, nos sábados à tarde, aquelas meninas por um segundo pensam em se preparar para sair. E nesse segundo, testam suas roupas na frente do espelho, fazem touca no cabelo, capricham na maquiagem, falam ao telefone e combinam de sair todas juntas a bordo do “Mini-Monza” da Telma.
E todas juntas sonham que a alegria da amiga Ruth se espalhará pela noite de sábado.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 26 de fevereiro de 2017


O sorvete solitário

(caio silveira ramos)

(para Dona Janda, por gostar de bolo com sorvete)

Há um episódio de “Os Simpsons” em que o personagem Homer abre o freezer e se vê diante de vários potes de sorvete. Ele abre o primeiro pote e se revela um sorvete do tipo “Napolitano” em que as “faixas” de creme e morango estão intactas, enquanto a parte reservada ao chocolate está completamente vazia. Visivelmente decepcionado, ele vai abrindo as outras caixas e em todas a situação é a mesma: creme e morango até a boca dos potes e o espaço do chocolate completamente vazio. Ao abrir o último frasco, inconformado, grita para a esposa: “Margie, precisamos comprar mais sorvete Napolitano!”.
Quando eu era pequeno, não entendia por que as pessoas compravam sorvete “Napolitano” se “todo mundo gostava mesmo era o de chocolate”. Depois ficava aquela disputa feroz e o meu sabor preferido acabava bem antes dos outros tipos de sorvete.
Não passou muito tempo e eu acabei concluindo que o “Napolitano” talvez fosse mais democrático que o exclusivo de chocolate, afinal, sempre tem alguém que não come esse sabor e não seria justo deixar tal pessoa passando vontade.  Ou quem sabe a razão fosse outra: um pote só de chocolate seria mais ou menos como um final de semana dentro das férias: não teria a mesma graça.
E foi justamente durante umas férias no começo da década de 1980 que algo novo me chamou a atenção: eu estava em Peruíbe, na casa da família do meu amigo Rogério Nakamura. Tínhamos acabado de almoçar, o calor era violento e nós dois ficamos como uma vontade absurda de tomar sorvete.  Dona Marta nos deu dinheiro e, debaixo de um sol impiedoso, saímos alucinados de bicicleta atrás da nossa sobremesa.
Devia ser domingo à tarde de um janeiro: quase todos os bares e padarias estavam fechados. E os que estavam abertos não tinham mais nem um picolé pra contar história. Rodamos, rodamos, fomos longe, com o sol castigando sem dó, quando encontramos um armazenzinho perdido no tempo e no espaço. E dentro do freezer de sorvetes se materializou um único e solitário tijolinho de sorvete de morango Kibon. 
Naquela época, os sorvetes de massa para levar para casa ou vinham em embalagens de plástico grandes ou em tijolinhos embalados apenas com papelão. Esses tijolos, quando rasgado o papelão, deviam ser consumidos rapidamente, pois sem embalagem alguma (que nada tinha de térmica) derretiam num instante.
Pois eu e meu amigo Rogério retiramos o tal tijolinho de sorvete de morango de dentro do freezer como quem encontra um tesouro. Pagamos e o dono do armazém colocou a embalagem num saquinho de plástico que rapidamente o Rogério amarrou no guidão da sua bicicleta. E com medo que nossa riqueza derretesse no caminho, voamos até chegar à casa.
Domingo, calor, depois do almoço: a família toda cochilava em algum canto. Pegamos um prato fundo e duas colheres, nos sentamos na soleira da porta da cozinha e rasgamos a embalagem de papelão sobre o prato. O sorvete já estava começando a derreter, então não perdemos tempo: mergulhamos no sorvete com vontade. Cada um com sua colher. Nunca nada parecera tão gostoso: a consistência, a textura, o sabor, o frescor explodindo na boca e descendo pela garganta.  Num segundo, o papelão desmanchado sobre o prato não tinha mais nenhum vestígio de sorvete. E solenes, sabedores da importância daquele momento, jogamos a embalagem no lixo.
Durante todos esses anos, experimentei muitos tipos e sabores de sorvete: receitas simples ou mais elaboradas, algumas sublimes. Mas poucas se aproximaram do prazer proporcionado por aquele tijolo de sorvete de morango.
E hoje, quando me vejo diante de um pote de sorvete “Napolitano”, nunca deixo de pegar algumas colheres do de morango, provavelmente para me lembrar daquele sorvete tomado com tanta satisfação na soleira da porta de uma cozinha estacionada no tempo. E me dou conta de sempre reparar que os grandes prazeres da vida estão nas coisas mais singelas.
Ou simplesmente constato que o sorvete de chocolate ainda é disparado o mais gostoso.


 Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 de fevereiro de 2017 sob o título de Morango rejeitado

Cuidadopaicuidado

(caio silveira ramos)

João Pedro pediu, como pede todos os dias, que eu me deitasse com ele para lermos juntos: precisávamos saber os próximos passos do Bolachão na sua tentativa de desvendar os planos malignos d’“O Gênio do Crime”.  Mas eu tinha trabalhado muito naquela sexta-feira, já era tarde, e disse que teríamos que ajudar o Gordo no dia seguinte, já que, no sábado cedo, duas coisas importantes e inadiáveis nos esperavam: uma compra de Natal e um corte de cabelo:
“Pensei que eram três coisas.”
“Três? Qual é a terceira?”
“Pedir para o tio Carlos se cuidar.”
“Por que ele tem que se cuidar?”
“Porque o pai dele morreu.”
Tio Carlos era o namorado da Dani, tia do João Pedro.  No dia 13 de dezembro, na terça-feira anterior à sexta daquela conversa, de fato, o Carlos tinha perdido seu pai.  Tocado pela preocupação do pequeno, dei-lhe um beijo na testa e resolvi me deitar com ele para lermos nem que fosse só mais uma página do livro do João Carlos Marinho: quem sabe nela seria revelada a identidade do fabricante das figurinhas clandestinas?
Com o pequeno já dormindo, resolvi caminhar um pouco no seu pensamento. E de repente me dei conta que, além do zelo para com o tio, talvez ele se preocupasse também comigo.
Dia 13 de dezembro era também a data de nascimento do Vô Miro. João Pedro sabia disso e sentia a ausência daquele avô que tinha partido sem conhecê-lo.  E mais: percorrendo minhas andanças, minhas dores escondidas ou reveladas, ele entendia (e também sentia) a falta que aquele pai fazia para o seu próprio pai.  E ele tinha razão.
Mas talvez João Pedro, muito justamente, pensasse em si próprio: a perspectiva da dor da perda, da perda do pai, da falta do pai incomodavam o menino também: era preciso que seu pai se cuidasse da dor de uma ausência (e também de outras dores) para que pudesse cuidar dele.  Para que talvez ele, o filho, não precisasse se cuidar tanto por tantas perdas e dores.
E abraçados nos cuidados recíprocos, adormecemos os dois.
E nos esquecemos um pouco de todas as dores do mundo.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 29 de janeiro de 2017



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desmemórias

(caio silveira ramos)

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, foi preso sob a acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  Cabral, que segundo o Ministério Público Federal seria o chefe de uma verdadeira organização criminosa, teria recebido milhões em propina para fechar contratos públicos, como o da reforma do estádio do Maracanã. Isso, sem falar (também de acordo com o MPF) na compra de joias caríssimas (que teriam servido para lavagem de dinheiro) e de sua ligação criminosa com o empreiteiro Fernando Cavendish, que, ao lado de Cabral, de secretários estaduais e de um conselheiro do Tribunal de Contas, participou na Europa da chamada “Farra dos Guardanapos”.
Assim que o ex-governador foi preso, pensei imediatamente em seu pai, o jornalista Sérgio Cabral, fundador e editor do lendário “O Pasquim”. Sempre admirei o velho Cabral por seu espírito bonachão e carioquíssimo. Mas o que de fato me liga a ele é a paixão avassaladora pela música brasileira.  Mais do que isso: muito dessa paixão eu devo a Cabral: por meio de seus artigos, crônicas e livros eu me deixei (e me deixo) embebedar ainda mais de samba e de choro.   Li e reli seus livros sobre Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Almirante, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Nara Leão, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro e, principalmente, me encantei com sua fundamental obra narrando a vida e a arte do meu querido São Pixinguinha.
Logo constatei que a preocupação com Sérgio Cabral pai não era somente minha. O escritor Ignácio de Loyola Brandão escreveu no jornal “O Estado de São Paulo” a crônica “Diante da situação tenebrosa, a notícia ruim é bênção” em que ele se pergunta o quanto o velho Cabral estaria “pensando e sofrendo com este show de horror com que o filho brindou o Brasil”.  Consultando escritores amigos como Antônio Torres e Ruy Castro, Brandão nos informa que há cerca de três anos Sérgio Cabral está doente e que, segundo Ziraldo, “as névoas do Alzheimer se insinuaram, mas provavelmente se acentuaram quando Sérgio sentiu a realidade. Seria uma forma de negá-la? Hoje, ele já não distingue o que é e não é, não identifica quem é. Mergulhou no escuro total, a memória dissolvida”.   Seguindo esse caminho, mas esquecendo-se de qualquer poesia, Maurício Lima escreveu em uma nota crua para o Radar On-Line da Veja.com: “o jornalista Sergio Cabral, pai do ex-governador do Rio, está com Mal de Alzheimer. Quando perguntado sobre o que aconteceu com seu filho, preso na operação Lava-Jato, ele responde que o menino morreu ainda criança”.
O que explicaria um pai enganchar sua desmemória na construção da falsa morte de um filho pequeno?
Pois numa entrevista do velho (mas feliz) ano de 2011, esbarrei nas voltas da memória perdida daquele escritor que se esqueceu de seu mundo e de suas histórias. E acho que encontrei a resposta.

***

Fui atrás do velho Cabral na internet e descobri uma entrevista sua, de 2011, para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Nela, ele diz que considerava seu filho (naquele momento, já no segundo mandato) o melhor governador que o Estado já tivera. Que ele pegara o Rio em frangalhos e rapidamente o transformara na unidade da Federação que mais recebia investimentos. E que a violência estava sendo combatida com muita competência. E que as finanças estavam de tal forma “arrumadíssimas” que o Rio teria sido o primeiro Estado brasileiro a ser reconhecido “por essas agências internacionais que dão nota aí”.  Alguém mais sarcástico poderá dizer hoje: ou o Rio estava bem mesmo e em poucos anos Cabral Filho foi tão corrupto e mau administrador que arrebentou o Estado ou o Alzheimer já em 2011 tentava fazer seu pai não ver a realidade.
Esse alguém também poderá perguntar se o pai não teve influência decisiva sobre o (mau) caráter do filho. De fato, me incomodo um tanto ao descobrir que o velho Cabral se orgulhava de ter nomeado o filho seu chefe de gabinete, quando fora vereador na cidade do Rio, na década de 1980.  Nepotismos à parte, ainda prefiro ver o escritor não como um deformador do caráter do filho (até porque a responsabilidade é pessoal do ex-governador que, cá entre nós, já é bem grandinho), mas como um sério pesquisador e escritor que teve influência decisiva na minha paixão pela música brasileira e pelas palavras ligadas a ela.

Mas continuando a passear naquela entrevista de 2011, me deparo com uma descoberta pungente, que talvez explique o porquê de um pai costurar sua mente na invenção da morte de um filho ainda na infância:
No começo da década de 1970, Sérgio Cabral pai estava hospedado em um hotel, na cidade de Campos, Estado do Rio de Janeiro, quando recebeu um recado de sua mulher: o jornalista devia, urgentemente, entrar em contato com ela. Durante quarenta minutos, enquanto não conseguia telefonar para a esposa, seu pensamento girou desesperado: ele e a família moravam no bairro do Leblon, bem próximo da praia. O dia estava lindo: com certeza um dos seus meninos (um de 5, outro de 6 e o mais velho de 7 anos) teria morrido afogado.  Mas qual deles? Qual deles? Quando finalmente conseguiu falar com sua mulher e ela lhe disse que o Exército tinha invadido “O Pasquim” e estava atrás dele para prendê-lo, Sérgio simplesmente respondeu: “ai, que alívio!”.
Quem sabe, no aqui e ali de sua mente perdida, o velho Cabral se alivie um pouco ao se encontrar de repente com a flauta de Pixinguinha ou com a batida do surdo da Estação Primeira de Mangueira.  Mas fora disso, enquanto vai dizendo adeus ao ano novo, ele talvez insista em existir apenas naqueles quarenta minutos traumáticos de angústia e medo: Serginho, seu amado filho mais velho, morreu naquele dia afogado no mar. Não em um mar de lama. Mas num mar daqueles de Caymmi, feito de poesia, mistério, morte e doçura.
E naquele mar, morrendo junto, ele parte em busca de seu menino.


Ilustração: Maria Luziano– cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º/e 15/1/2017