quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Escritor de orelha

(caio silveira ramos)

De uns tempos para cá, me tornei um escritor de orelha. 
De orelha de livros. Por sorte minha, amigos talentosos (e generosos) me convidaram para fazer pequenas apresentações de suas obras.  E eu, encabulado, mas agradecido (ou desavergonhado?) tentei não atrapalhar a riqueza das palavras alheias.
Em 2012, dois grandes presentes para mim: uma orelha para “Outono do meu tempo” (Scortecci Editora), de Fernando Szegeri – fabuloso cronista da era da internet (mas com o coração fincado na conversa fraterna da mesa de um bar) –, e outra para os contos (principalmente de ficção científica) de “O grito do sol sobre a cabeça” (Editora Terracota), de Brontops Baruq, um dos mais fabulosos escritores contemporâneos.   Por fim, em 2013, a orelha para “O coringa do cinema” (Editora Giostri), de Matheus Trunk, profundo conhecedor dos mistérios da Boca do Lixo paulistana.
Nesses tempos de “ditadura da imagem” (e de lembranças de outras infelizes ditaduras), este Mirante dobra a orelha até 2011 e relembra o texto para o divertido “Gordo de A a Z”, de Gaspar Bissolotti Neto (Scortecci Editora):

Salve o prazer

Poucos têm sofrido tanto preconceito quanto os gordos: padrões de beleza impostos pela mídia e pela moda geram sofrimento para milhões de pessoas (inclusive crianças) que se veem rotuladas como fracas de caráter, pecadoras, doentes e esteticamente prejudicadas...
“Esteticamente prejudicadas”? Francamente: o gordo é taxado de medonho para baixo.  Já vejo aquela madame seca e seu estilista (que faz roupa para cabide e não para gente) comentarem sobre uma linda moça rolicinha, toda feliz com seu pedaço de bolo de chocolate, e sobre o autor Gaspar Bissolotti Neto: “que gente gooorda e hor-ro-ro-sa!”
Pois Bissolotti veio para dar uma tortada na cara (que desperdício!) nesse “bom gostismo” azedo (“doce? Não, obrigado, estou de dieta”) que determina o que é belo, mas se esquece que esqueleto é pra baixo da terra. Com seu verbo afiado, o grande Gaspar (gordo de corpo e alma) esconde por trás do auto-humor, setas certeiras de indignação e de liberdade.
Ele parece dizer: abaixo a “modelo-manequim e atriz” que diz comer de tudo, mas vive com uma barrinha de cereal a cada quinze dias! Abaixo o narciso de academia que se enoja com celulites charmosas.
Soltem os cintos! Quem gosta de osso é cachorro! Saúde sim, patrulhamento calórico jamais!  Salve as baleias e os anjos barrocos. Viva a pança de Sancho, Obelix e as curvas de Druuna! Viva Mônica, Preta Gil e o Marquês de Rabicó. Viva as mulheres que valem por duas e as que passeiam pelos sonhos dos trabalhadores da construção civil! 
Sob as palavras recheadas e suculentas de Gaspar, gordos de todo mundo, uni-vos!
Mas por favor, não de um lado do só do globo que pode provocar o deslocamento do eixo da Terra.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  4/4/2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Algemirando 4: pai e bola (e outras paixões)

(caio silveira ramos)

Aqueles que foram alunos do professor Algemiro nas décadas de 1970 e 1980 não tinham dúvidas: ele era palmeirense.   Não que fosse fanático ou algum tipo de torcedor desagradável ou intransigente.  Longe disso.   Suas provocações risonhas, seus comentários graciosos no início das aulas, os exemplos que explicitavam as lições de gramática e as amistosas conversas com os alunos durante os intervalos (ou até mesmo na rua, em um encontro causal) tinham a finalidade de entreter e principalmente tornar mais fáceis e inesquecíveis os intrincados caminhos da Língua Portuguesa.  Mas o que quase ninguém sabe é que o professor Algemiro era palmeirense apenas por causa do seu filho mais novo.   Se é que de fato torceu pelo Palmeiras algum dia.
Durante nossas intermináveis conversas ele dizia que, quando menino, tinha sido são-paulino, muito provavelmente porque na década de 1940, Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, jogara no São Paulo e fora cinco vezes campeão paulista.  Para um garoto criado em Itu, mas que tinha passado boa parte da infância e da adolescência confinado no Seminário de Pirapora do Bom Jesus, as bicicletas vitoriosas de Leônidas deviam ser irresistíveis.  E faziam o pensamento voar mais alto que as pipas empinadas nos intervalos dos estudos.
Quando migrou para Capital (e assim que a fome diminuiu um pouco graças ao trabalho de bancário), entre os campeonatos de futebol de várzea, a Faculdade de Letras (e por um período também a de Direito) e os estudos profundos nos finais de semana na Biblioteca Mário de Andrade, o jovem Miro foi convidado para treinar e disputar corridas de longa distância justamente pelo São Paulo F.C., que nessa época tinha o Canindé como estádio.
Acontece que Miro não era de briga (pelo menos das brigas que não valiam a pena) e nunca se tornou um torcedor fanático: o que ele gostava era de futebol, qualquer que fosse o time ou o jogo.
Durante nossos passeios a pé, sempre longos e cheios de conversa, ele quase sempre parava à beira de um campinho qualquer e ficava olhando o jogo por um bom tempo.  Se tivesse um alambrado (como no campo em frente à ESALQ), ele apoiava os dedos na grade e comentava comigo as jogadas, mesmo que fosse uma pelada de “os com camisa” contra “os sem camisa”.  Talvez se imaginasse jogando, relembrando seus tempos de goleiro no terrão do seminário ou nos campos de várzea do campeonato bancário.
Ele não torcia: gostava de ver os gols, as defesas, os dribles.   Em época de Copa do Mundo, se já estivesse em férias, assistia a todas as partidas possíveis, alegrando-se com os times que tivessem um grande goleiro ou jogassem bonito, sem violência e ofensivamente.  Mas ele não sofria, não gritava, nem se deixava entusiasmar muito pela Seleção Brasileira: consciente dos danos irreversíveis da ditadura militar, temia o ufanismo inconsequente e vazio.  Da várzea ao Maracanã, a vitória não importava. Importava era a beleza daquele bailado todo.
E contra qualquer ditadura, ele subverteu a “ordem” que determina que os filhos devem torcer pelo clube de seus pais: pelo filho caçula, passou a se dizer torcedor do time que um garoto de quatro anos escolheu (e se apaixonou) livremente. Sem despertar qualquer suspeita do motivo, para os das ruas, das escolas, para o mundo, ele torcia para o Palmeiras, justamente no período em que o time ficou mais de dezesseis anos sem título.  Para que o filho caçula não sofresse sozinho, ele se fez palmeirense até quase acreditar que torcia de fato.
Pelo filho mais novo, ele vestiu o coração de verde e branco e o expôs ternamente fora do peito.

***

Mas em casa, a história era outra: o Palmeiras do filho não entusiasmava o pai, que preferia optar pelo belo e pela alegria.   No final da década de 1970 e começo da de 1980, foi o Corinthians da Democracia, comandado pelo doutor Sócrates, quem encheu os olhos do Miro.  Não eram apenas a criatividade do time em campo e o toque mágico de calcanhar de Sócrates: o que fascinava era a postura sábia daquele jogador formado em uma das maiores faculdades de Medicina do País, que discutia sem dificuldade sobre qualquer assunto – inclusive sobre leituras diversas –, se posicionava de maneira corajosa politicamente em época de ditadura e ainda dizia, mesmo recebendo ofertas milionárias de times estrangeiros, que se o Brasil voltasse à democracia, ele não aceitaria jogar no exterior.  O filho sabia que o time jogava solto e bonito, e que o médico-jogador além de inteligente era um craque de bola, mas a paixão falava mais alto e o menino preferia torcer contra o maior rival do seu esforçado time.   Ciente de todo o sofrimento do filho, o pai, fora de casa, se revela um anticorintiano irônico, embora não deixasse de enaltecer o talento de Sócrates e sua luta pela democracia.
Como as eleições diretas para Presidente da República demoraram, o “Doutor” foi jogar no Fiorentina da Itália e o olhar de seu Miro só voltou a se encantar com um time quando Telê Santana transformou o São Paulo em uma fabulosa orquestra no começo da década de 1990.  O filho do Miro admirava Telê desde 1979, quando o mestre montou um grande Palmeiras e por isso seguiu para Seleção Brasileira.  E dirigindo a Seleção, mesmo sem títulos, Santana construiu duas inesquecíveis equipes para as Copas do Mundo de 1982 e 1986. 
Muito bom, muito bem, mas daí a torcer para o São Paulo anos depois já era outra história.  Mas se isso era impossível para o filho, para o Miro não era nenhum problema, já que no São Paulo, Telê encontrou os títulos que lhe faltavam e brindou o time com um futebol vistoso, ofensivo, alegre, que deixava a violência de lado.  Seu Miro, que já tinha um passado tricolor, mais uma vez se encantou, principalmente quando soube que Telê Santana tinha o mesmo cuidado com os times da base do São Paulo.  E ainda exigia que os meninos se esforçassem na escola, se aprontando para um mundo maior que o do futebol. Telê preparava times para a vida e para beleza.
Mas nem só a beleza do jogo enchia os olhos do Miro.  Os simples encantos de uma partida singela o recheavam de alegria.  Por isso, eu e ele subimos tantas vezes a rua Moraes Barros para ver o XV jogar no Barão de Serra Negra.   Não íamos apenas para ver o jogo (mesmo porque durante um bom tempo o Nhô Quim não apresentava um futebol nada vistoso): nosso prazer era a conversa no caminho, a sensação de entrar no estádio, sentar na geral, tomar sorvete e compartilhar um cone de jornal cheio de “casulos” de amendoim.  Ele “estendia” o cone e sob nossos pés espalhava as vagens todas em cima da toalha improvisada. Depois ia descascando uma a uma, comendo sem tirar os olhos do jogo ou me dando os “casulinhos” já abertos para que eu não perdesse um lance no campo ou um amendoim torrado na boca. 
Até hoje, só fechando os olhos, consigo sentir novamente o arrepio emocionado de entrar em um estádio à noite e ver surgir de repente a grama iluminada, resplandecendo todos os verdes possíveis e inimaginados.
E ainda de olhos fechados, sentir o arrepio de reencontrar os olhos do pai resplandecendo todos os seus verdes.  E iluminando a escuridão.

***

Mas se não era por causa do pai, por que o filho se tornou palmeirense?
Meu grande amigo Nando Boscariol foi quem fortaleceu meu sangue alviverde: ainda muito pequenos, brincávamos de “gol a gol” e, como ele era são-paulino, para haver alguma disputa, eu me tornei um palmeirense doente.  Depois, quando o próprio Nando rejeitou um pôster do “Palmeiras Campeão Paulista de 1976”, que veio como prêmio de um álbum de figurinhas da “Copa Brasil”, eu grudei o time na parede, decorei como tabuada a escalação e passei a acompanhar os jogos pelo rádio.
Mas antes, antes disso, eu já torcia pelo Palmeiras e aí é que está o mistério: muito pequeno, quando dei por mim, eu já era palmeirense, sem que houvesse ninguém na família que torcesse ou procurasse fazer a minha cabeça.  O que sei é que quando eu e meu pai escolhemos os nossos times de futebol de botão, ele optou pelo São Paulo e eu, pelo Palmeiras.
Na escalação dos meus botões pode estar a solução do mistério: eles já vinham com o rosto e o nome dos jogadores do Palmeiras da época, um time tão fabuloso  que, por dar uma verdadeira aula de futebol, era chamado de “Segunda Academia” em homenagem à “Primeira Academia” (apelido  do vitorioso Palmeiras da década de 1960).

A minha escolha por aquele time de botão revela que enquanto eu arriscava minhas primeiras engatinhadas, a “Segunda Academia” deitava e rolava pelos campos do País, e sua escalação, que incluía Leão, Luís Pereira, Leivinha e Ademir da Guia, de tanto pular de boca em boca (até na dos não torcedores do time) acabou se abrigando amorosamente dentro da minha cabeça.   O problema é que o Palmeiras, depois de sua fase acadêmica, ficou sem títulos de 1977 até o segundo semestre de 1993. Ou seja: durante toda minha vida escolar – do pré-primário até o último ano da faculdade –, meu time só foi campeão no final do último período.   Durante muitos daqueles anos, o camisa 7 Jorginho Putinatti, com suas jogadas inacreditáveis – que incluem vários gols olímpicos e um inesquecível gol “tabelado” com o árbitro José de Assis Aragão –, manteve acesa uma chama verde e alegre que nunca permitiu que eu sequer imaginasse abandonar meu time.  E também, durante todos aqueles anos, em meus sonhos, transformei Ademir da Guia, que já era Divino, em um Dom Sebastião de armadura verde, que viria com seu ritmo líquido (revelado por João Cabral de Mello Neto na mais bela poesia sobre futebol já escrita) para resgatar todas as glórias do meu time e afastar qualquer tristeza. Mas Ademir nunca mais voltou a jogar.
Para não me deixar sozinho durante essa dura fase, meu pai se dizia palmeirense.    Solidário-fingidor, ele dividia comigo, pelo menos em público, as frustrações, as amarguras e as gozações. E como grande goleiro que era, rebatia todas elas com bom-humor e muita graça.
Anos depois, quando ele já havia partido, comecei a me lembrar de algumas de suas conversas sobre futebol e fui rever suas fotos antigas: na infância ou na juventude, lá estava ele de goleiro.   Seus uniformes, suas defesas, suas poses nos retratos dos times “em posição” (as famosas fotografias dos “em pé e agachados”) foram revelando o segredo que me acompanha.  

***

É difícil tentar descobrir como um menino “nasce” torcendo por um time que não é o de seu pai. E como um pai passa a torcer (ou finge torcer) pelo time escolhido por seu filho só para que seu menino não sofra sozinho nas derrotas e nos tempos difíceis.  Será que o meu “solidário fingidor”, tal qual o poeta Pessoa, fingia tão completamente que chegava a fingir ser palmeirense o palmeirense que de fato era? 
Quando literalmente comecei a dar tratos à bola, fiquei fascinado por saber que meu pai tinha sido goleiro: lá pelas décadas de 1940 e 1950, tanto no seminário, quanto nos campeonatos bancários da várzea, ele fechava o gol.   Diante da minha decisão de tentar fechar o gol também, seu Miro me arranjou joelheiras.    Como eu nunca tinha visto Emerson Leão com aquele acessório, achei engraçado, mas meu pai explicou que além do piso do pátio de casa ser feito de um duro mosaico de pedras vermelhas (salpicado de amarelas e azuis), um antigo goleiro do meu Palmeiras, chamado Oberdan Cattani, usava joelheiras.  E com a ajuda delas, ele voava no ar sem medo e podia fazer defesas inacreditáveis com suas mãos gigantescas.
E Oberdan fechava o gol mais que qualquer um.   E Oberdan nem despenteava o cabelo, como um super-herói de cinema.  E Oberdan surgia triunfal no meio do ataque adversário para defender as bolas mais perigosas com apenas uma das mãos.
Passei a usar as joelheiras nos “nossos treinos”.  Quando meu pai chutava uma inesquecível bola de capotão verde e branca número 4, eu me atirava no ar sem medo como Oberdan Cattani. 
Muitas e muitas vezes meu pai falou do velho goleiro com admiração. E muitas e muitas vezes, olhando as fotos antigas de seu Miro, comecei a perceber que as defesas de Oberdan Cattani guardavam a verdadeira razão de meu pai ter ido parar (e saltar) debaixo das traves: exceto pela estatura e pela ausência do bigode (que por causa do seminário ele nunca usou), nas suas poses de goleiro, nas suas defesas, nos seus uniformes e nas suas joelheiras, meu pai se espelhava no seu super-herói que tinha um “P” estampado no centro do peito e que voava sem despentear o cabelo nas fotografias de jornais e revistas, nas figurinhas de bala ou nas transmissões apaixonadas do rádio.  
E se meu pai se tornou são-paulino por causa dos títulos nascidos das bicicletas de Leônidas da Silva, era no invencível “Muralha Verde” que ele se transformava para defender as traves infinitas.   Talvez uma bola espalmada corajosamente lá no campo do seminário tenha se transformado em sonho e, atravessando gramados, cidades e tempos, acabou mergulhando no sono tranquilo do menino adormecido em um berço com colchão de palha.  Talvez seja isso: mais do que ter nascido durante o reinado da “Segunda Academia”, acho que me tornei palmeirense devido a um sonho compartilhado entre dois garotos de tempos diferentes. 
E por causa daquele sonho, em 2010, decidi conhecer Oberdan Cattani. Descobri o número do seu telefone e conversei com o próprio, que me indicou os caminhos caso eu fosse de carro ou de ônibus.  E numa manhã nublada de sábado, de mãos dadas com meu filho ainda tão pequeno, fui recebido por aquele homem de 91 anos em uma casa verde e branca no Bairro da Pompéia.   Percebi que Oberdan devia receber muitas daquelas visitas, principalmente de filhos já barbados levando pela mão seus velhos pais palestrinos, todos fãs do “Muralha”. E todos mais novos que ele.   
E casa adentro, Oberdan nos levou a uma sala repleta de troféus, camisas, flâmulas, fotos, revistas, recortes de jornal, diplomas e honrarias.   E contou histórias. E falou sobre times, amigos, adversários, injustiças e defesas. E falou sobre seu amor pelo Palestra Itália e pelo Palmeiras, na verdade um só time que a guerra fez mudar de nome e a dureza do prélio o tornou campeão no dia em que Oberdan e seus companheiros surgiram imponentes no Pacaembu carregando a bandeira do Brasil.  Mas mudando o caminho da visita, o goleiro abriu o coração e o guarda-roupa do seu quarto para mostrar um singelo memorial com retratos e outras lembranças da esposa desesperadamente amada.  Definitivamente, Oberdan era um homem apaixonado.
Antes de partir, tiramos fotos, ele abençoou meu filho pela vida e pelos campos, e espalmou suas mãos de colosso para que o pequeno comparasse com as suas.  E quando as mãos espalmadas do gigante e do menino se encontraram, o milagre se fez: através do meu filho, meu pai finalmente conheceu seu ídolo de infância.  Pelo super-herói que inspirou os voos de meu pai, meu filho conheceu um pouco de seu avô.

Deixamos Oberdan, sua casa e suas paixões, e saímos pela manhã nublada de sábado: meu filho saltitando na calçada, “treinando quedas de goleiro” (como ele mesmo diz), se jogando no ar para defender bolas imaginárias.  Numa dessas defesas, a barreira de nuvens falhou e ele (ou terá sido meu pai-menino lá no Seminário de Pirapora?) espalmou corajosamente o sol, que subiu, subiu, e foi se perder no escanteio do céu.
E a manhã de sábado enfim se ensolarou.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/2 e 7 e 21/3/2014


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Délia nossa sem medo

(caio silveira ramos)

Dez de janeiro é dia de reverenciar a alegria.   A alegria da união infinita entre seu Miro e dona Janda.  E a alegria do nascimento de uma mulher que além dos tempos me estende a mão e me empresta sua força assim que meu pensamento se volta para ela (embora sua força esteja em mim até quando me esqueço de quem eu mesmo sou).
Nascida em São Pedro e batizada “Adelina” (mas para mim, para o mundo, para sempre, Délia, dona Délia, Donadélia), ela era filha de italianos, o que moldou sua maneira de enxergar o mundo. Ou o seu pequeno mundo: privada da instrução formal, ela desconhecia o sentido das letras escritas e da largueza do planeta. Para ela, a Itália deveria ser ali pertinho de São Pedro, um sítio ideal onde adormeciam suas raízes e as dores mais sentidas davam lugar à beleza plena.   Se algo era bom ou bonito só poderia ser italiano: o belo jardim da revista, o céu mais azul no quadro, o galã da TV? Todos italianos, tinham que ser. 
Da infância sofrida, dura, gostava de se lembrar do pão com banana, do trabalho na terra, de alguma outra história já quase esquecida.  No mais, sua vida era ali, no presente, nos filhos e nas águas que o tempo ia minando nos seus olhos. Dores, dores fundas que ela esquecia trabalhando, trabalhando muito, sempre incansável e destemida.
Ela lavava roupa e assim entrou na nossa vida. Depois foi trabalhar numa casa como empregada, mas sempre recebia nossa visita no sitiozinho em que morava com o segundo marido.  Viúva de novo, já beirando os setenta anos e com águas doloridas inundando seus olhos, voltou a trabalhar lá em casa, primeiro dois, três dias. Depois ficou de vez: queria, precisava de “lavoro” para o corpo, para mente. Para as águas dos olhos adormecerem um tanto.
Mas se a dor era muita e ela a deixava fugir de quando em vez por trás dos óculos de aros escuros e quadrados, no dia a dia o que eu via era o sorriso de dentes perdidos e (talvez até por isso) sem freios ou mágoas.  Para mim ela reservava aquele sorriso e sua força.  E eu me encantava com aquela mulher tão forte. 
Não muito alta, de cabelos brancos curtos e encaracolados, ela tinha braços poderosos forjados no tanque, no ferro de passar e na polenta perfeita, mexida e remexida sem tréguas com a colher de pau na panela de ferro grande.  Os frangos entregavam candidamente os pescoços ao seu laço vermelho, no galinheiro pequeno.  O chão de madeira da sala se transformava em espelho depois da enceradeira vigorosa. Sua força era tamanha e me impressionava tanto, que numa redação do primário revelei para meu próprio espanto que ela, do alto dos seus setenta e tantos anos, pulava uma janela de casa para limpar uma área de ventilação, cuja porta tinha sido obstruída por um antigo guarda-roupa.
Talvez, entre aquela porta trancada e aquele guarda-roupa, ela escondesse todas as suas dores para que eu não visse suas águas tantas.
Para mim ela só reservava a alegria.  

***
Mas nem todas as dores do mundo foram capazes de diminuir a força daquela mulher: lavadeira (dessas que equilibravam pesadas trouxas de roupa na cabeça com a naturalidade de quem assobia distraído), passadeira, faxineira, cozinheira (sempre e em tudo de mão-cheia), mãe-valente-coração-de-leão, ela fazia jus ao apelido “Délia” (afinal, assim também era chamada a destemida deusa grega Ártemis). 
Isso, porém, não tem a mínima importância, porque dona Délia não se preocupava muito com gregos e troianos (e talvez nem soubesse que um dia tivessem existido).  Para ela, tudo que era querido só podia ser “oriundi”, apenas com algumas exceções: mesmo que eu não tivesse um pingo de sangue italiano na veia, comigo ela se fazia “nonna” carinhosa, de fazer pipoca e bolinho de chuva mesmo nas tarde de sol.   Talvez ela atribuísse a mim certa italianidade por eu ser, como ela dizia, “palmerista” ou por gostar de macarrão. Ou quem sabe, previsse o futuro e já soubesse que meu filho teria, além do meu, o sobrenome Laurenti.
E mesmo que a “nonna” Délia escondesse do meu olhar o olhar de suas águas tormentosas, eu sabia secretamente de suas dores. As dores da infância difícil, da dupla viuvez, das ingratidões alheias e das infinitas preocupações com filhos, netos e bisnetos.  A dor de amar demais (coincidentemente ou biblicamente?) o filho mais pródigo, que ela dizia ter sido na infância tão parecido comigo.  E lá ia ela trabalhar, trabalhar incansavelmente para que na água do tanque as suas águas escoassem junto.
Um dia apareceu em casa sua neta Márcia, filha da filha Adelaide: ela vinha para ajudar a vó que não queria parar de trabalhar de jeito nenhum.  Quase da mesma idade da minha irmã Ruth, Márcia era tão bonita quanto uma manhã de abril e, feito a “nonna”, reservava para mim a doçura maior do seu sorriso (além de uma sacrificada parte do seu sustento que magicamente ela transformava em carrinhos de ferro ou discos de histórias musicadas).
Tempos depois, Márcia se foi, me deixando sem sua beleza e seu sorriso: ela precisava iluminar de abril o olhar de seus próprios filhos.   Não demorou muito, minha “nonna” também foi se aninhar na casa de sua filha Virginia – que tal como dona Délia se fez mãe-valente-coração-de-leão – e no colo dos netos de sangue.   A idade já era muita, as dores do corpo maiores e as da alma já pesavam demais no olhar cansado que começava a perder a vontade de enxergar o mundo.  Principalmente depois que o filho Sebastião se foi para sempre.
E na varanda da casa de Virginia, ela passava as tardes com os olhos voltados para rua, mas já quase nada via.   Da última vez que a encontrei, me descobriu pela voz e pelo abraço, e me revelou todas as suas águas: eu já estava grande, quase “doutor”, não havia mais motivo para ela esconder de mim suas dores e as dores do mundo. Talvez quisesse que seus rios abrigassem os meus.
Pouco depois ela se foi, inundando todo um mirante com suas águas.
As águas dela, Délia.
As águas dela, nossas.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 e 24/1/2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Linda flor

(caio silveira ramos)

Era uma apresentação de Natal de alunos da Escola de Música na Catedral de Piracicaba, mas eu me lembro pouco, muito pouco: me lembro do meu encantamento com as melodias que eu já conhecia do inesquecível álbum “40 Canções de Natal”, do Maestro Ernest Mahle; me lembro de alguns músicos e atores, vários deles amigos lá de casa.  Mas o que eu guardo gravado, feito um mapa de felicidade, é apenas um sorriso.
Cantando “Lindas Flores”, várias pastorinhas entraram alegremente pelo corredor central com suas roupas coloridas, cabelos com tiaras enfeitadas e suas cestinhas de vime recheadas de flores para oferecer ao Deus pequenino.  Eu sabia que minha irmã Raquel estaria entre elas, mas quando a vi entrando num quase bailado, com o rostinho inclinado meigamente e um sorriso bordado de olhos e boca, meu Natal se iluminou com todas as luzes.
Desde pequena, Raquel sempre se queixou risonhamente que era a única, entre nós quatro, a não ter o olhar azulado.    Curiosamente, no entanto, se abertos, seus olhos castanhos profundos (de um “verde escondido”, como disse certa vez um oftalmologista) já causam estragos, fechados, provocam suspiros incontroláveis, principalmente quando ela toca, enlevada e acima dos pobres mortais apaixonados, seu violoncelo mágico.
Ela, charmosamente, sempre teve seu jeito particular de sorrir, ainda mais quando encontra alguém na rua: um sorrir tímido, quase como se escondesse envergonhada uma vontade irresistível de rir gostosamente.  Mas então aparecem novamente seus olhos “de verde escondido”: quando os lábios teimam em ocultar o riso no canto da boca, o sorriso escorrega transbordante pelos olhos marotos, que vêm em socorro libertar uma alegria incontrolável e doce.
Naquele Natal, ao entrar pelo corredor da igreja iluminada, os lábios de Raquel novamente tentaram timidamente esconder o sorriso, mas os olhos de toda Catedral, ao verem a pastorinha levando lindas flores até o altar, se refletiram nos olhos dela, e seu sorriso se escancarou pela boca sem medo e graciosamente.
E até hoje o sorriso está lá: nos olhos de Bruno, nos lábios de Anita.
E nos sonhos mais doces de alguém que dorme sereno numa manjedoura.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 27/12/2013


domingo, 12 de outubro de 2014

O Cavaleiro da Rosa Branca

(caio silveira ramos)

Ele chegou a São Paulo por volta de 1968 (mas não se sabe se já era corintiano).    Depois de uma dor de dente, sua simpatia e sua humildade franciscana foram acolhidas pela família de um generoso dentista. Mas ele, sempre pensando em desincomodar, agradecido, foi continuar seu caminho. Os cavaleiros andantes precisam continuar seus caminhos para aplacar as dores do mundo.
Rozalvo Alves dos Santos veio de Cordeiros, centro-sul do Estado da Bahia, divisa com São João do Paraíso (MG). Cordeiros, que foi um povoado de Condeúba. Cordeiros, que se chamou Candeal. Que se chamou Mandacaru. Cordeiros, da antiga capela do Senhor Bom Jesus da Boa Vida.    Mas se a vida é sempre boa, andava difícil pelos roçados de Cordeiros em 1968.   E, com as bênçãos de sua mainha, um daqueles (Alves dos) Santos teve que partir aos 23 anos. Sem armadura, de peito aberto (mas com seu cinturão de madeira), foi ganhar o mundo. Ou o mundo ganhar um cavaleiro.
E ele foi (sempre destemido) compartilhar sua alegria, sua fé, sua boa-vontade e seu sorriso com os desvalidos do mundo. Para sobreviver foi ambulante, gerente de loja de departamentos, vendedor de geladinho, representante de loja de tecidos, caseiro.  Para sobreviver, comprou um carro e um “trailer” e se tornou uma das figuras mais amadas no bairro Unileste vendendo doces e refrescos.  Isso para sobreviver. Porque, para viver, ele apenas precisa de sua fé e da alegria alheia provocada por sua generosidade e seu desapego.
Tempos atrás ele acordava de madrugada para correr – chegou até a participar de algumas competições –, mas hoje, a partir das quatro horas da manhã, ele prefere deixar voar o pensamento pelos que precisam de suas orações. Uma hora depois, o cavaleiro começa a se preparar para as atividades do dia: toma seu banho frio (aprendeu que isso ajuda a combater doenças respiratórias, mas há um quê de sacrifício redentor nesse ato), depois prepara seu café (se não for dia de jejum ofertado para acabar com os jejuns involuntários alheios), e por fim sai para o trabalho, não sem antes socorrer esse ou aquele amigo necessitado. À noite, vai à missa e, discreto e gentil como sempre – e como um cavaleiro andante deve ser –, confere se algum conhecido precisa de sua ajuda.
Nos feriados e finais de semana, ele viaja para visitar seus milhares de amigos espalhados pelo mundo, que requisitam sua presença por quererem bem, por saudade ou por um abraço.   E o pequenino e magro Rozalvo de repente se transforma no gigante Cavaleiro da Rosa Branca, não para lutar contra moinhos de vento, mas para tecer vias sacras e temporais com seu acolhimento. Para combater o bom combate.
E assim o cavaleiro andante segue seu caminho, de Bom Jesus da Boa Vida a Bom Jesus do Monte, tendo como escudeiro apenas seu coração.
Coração imenso moldado de simplicidade e fé.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13/12/2013


sábado, 11 de outubro de 2014

Próximos passados

(caio silveira ramos)

A Loja do Toninho ficava na esquina da Moraes Barros com a parte de cima do Largo Santa Cruz.   Atravessando a Moraes, na outra esquina, ficava a loja de brinquedos da Bem.   Certo, certo: podia até não ser apenas uma loja de brinquedos. E talvez a dona (seria dona?) não se chamasse Bem.  Mas eram os dois fatores que ali me interessavam: os brinquedos – de lá que vieram o tratorzinho amarelo de pedal e um caminhãozinho de lata – e a moça bonita que atendia aos clientes no balcão e tratava todo mundo (principalmente eu) por “bem”.  Para minha tristeza, a Bem foi embora pouco tempo depois e a Loja do Toninho, com seus tecidos e roupas, atravessou a rua e ocupou seu lugar.   Ficou no seu espaço antigo uma lotérica que oferecia apostas da Esportiva  - numa fase pré Lotos, Senas e Mega Senas, quando os cartões eram perfurados e mostravam apenas treze jogos - e bilhetes da Loteria Federal.

Na esquina inferior da Moraes Barros com a rua Santa Cruz ficava o armazém do seu Stolf, que morava ali perto e gostava de passarinhos.   Foi naquele armazém que ficou a memória mais viva que tenho do vô Sylvio: num dia de mãos dadas e sol, após encontrarmos por acaso meu padrinho, seu Arlindo Rufato, eu e o avô (perfumado e arrumado com sua gravata borboleta) compramos um grande pacote de bolacha de maisena “Júpiter” que, na embalagem de listras azuis e brancas, tinha estampado um galinho empurrando uma carriola.  O perfume suave do seu Sylvio ainda passeia por aquela esquina que, tempos depois, abrigou o bar do Pedro, autor do melhor x-salada do mundo. Mas o Pedro também se foi, levou embora o sanduíche e me deixou muda a Tubaína.
Descendo a Moraes, depois do armazém, ficou um trecho perdido.  Não me lembro muito bem nem das casas, nem das pessoas.  Me recordo só do menino grande Fred, que vivia no seu tempo paralelo.   A razão do esquecimento desse trecho é que, depois do armazém do seu Stolf, eu me escondia debaixo da blusa da minha mãe para passar em frente da loja de móveis do seu Alfredo.  Eu alegava vergonha e não medo: quem temeria aquele velhote baixo, de suspensórios, nariz de pardalzinho e sorriso tranquilo? Mas nem sequer encabulamento era.  A verdadeira razão do esconderijo é que, no fundo, nós dois tínhamos um secreto pacto nunca falado: eu fingia que tinha medo dele e ele ria do meu fingimento.  Ríamos os dois da brincadeira. E continuamos a brincar de esconde-esconde. 
Até que ele se escondeu para sempre e eu nunca mais o vi.

***

Passando a loja do seu Alfredo, eu saía debaixo da blusa da minha mãe e meu olhar continuava seu passeio descendo a Moraes.  Então vinha o Bar do Piau, com seus pôsteres de artistas pregados na parede, baleiros giratórios sobre o balcão e paçocas quadradas dentro da boca. Depois, a “Casa de Oração” e a figura inconfundível de sua zeladora, dona Mariquinha, de coque, fala risonha, cotovelos apoiados na grade do muro baixo e olhar feliz por acompanhar o movimento da rua através dos óculos de aro quadrado e escuro.
A seguir vinha a casa de dona Amélia e seu Idiarte Massariol.  Uma das maiores lendas do E. C. XV de Novembro, seu Idiarte segredou ao filho Paulinho todos os mistérios da bola – tanto que o rapaz (um dos meus ídolos de infância) foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1978 pelo Vasco da Gama.  Quando dei por mim, Paulinho era famoso, morava no Rio de Janeiro e já era figurinha do “Futebol Cards”, mas sua irmã Renata, moça de doces olhos risonhos, me arranjou uma foto autografada dele com a camisa do Vasco, que eu levei gloriosamente na escola no dia seguinte.
Então, logo abaixo, se materializava a casa mais feliz do quarteirão.   Uma casa que parecia ter sido feita especialmente para abrigar crianças, muitas crianças, com seus quartos grandes e um pátio formidável e gigantesco para jogar bola e andar de bicicleta.  E um quintal cheio de bichos miúdos, plantas e árvores – um pé de fruta-do-conde e um caquizeiro – que deixavam a molecada subir pelos seus troncos ou pendurar uma velha mangueira de chuveiro nos seus galhos, para muitos tarzans passearem de cipó. 
Talvez, tantas outras crianças tenham sido também atraídas para aquele lugar, porque naquela casa dormia eternamente um fogão à lenha ao lado do tanque: ali, fazia muito anos, tinha morado uma doceira, dessas de lenço na cabeça, colher de pau na mão e tachos cheios de delícias, que deviam ser raspados pelas antigas crianças que flutuavam pelo lugar. 
E os aromas todos ficaram rondando por ali, se misturando a outros, novos ou eternos, atraindo outras crianças que chegaram também pelos cheiros das histórias transbordadas dos livros ou das músicas que se arteiraram pelas orelhas das janelas daquela casa.
Uma casa feita para crianças de todo o mundo.

***

Depois de parar para me lambuzar no tacho doce e quente de uma casa cheia de livros, sons e crianças (e ali guardar minha alma para sempre), é hora de seguir caminho com os olhos e dar uma espiada na casa seguinte.   Lá estão seu Francisco Perecin, dona Helena, Nino, Quinho, Bel e, claro, Maria Helena, com seu sorriso ensolarado.  O presente-passado se rodopia e na mesma casa estão agora seu Rolim, dona Natalina, seus filhos e o pastor alemão Bob, que revela toda sua braveza na janela da frente ou num buraco do muro por onde se vê seu focinho de lobo mau.
  Antes que a família de Fernando Zocca chegue para morar no mesmo lugar, já dá para avistar seu Nello Travaglini na sacada da casa seguinte (lá no alto, sobre a loja de móveis). Ele cumprimenta com sua voz adoniranzada e, lá embaixo na rua, quando menos se espera, a porta da casa se abre e dona Eva me entrega um pirex de polenta frita ou de bolinho de chuva.  Se for segunda-feira, eu ganho, além de um beijo alegre e estalado no rosto, uma travessa enorme de almôndega com macarrão caseiro, já que dona Eva preparou uma porção de massa a mais no domingo só para me presentear no dia seguinte (quando a macarronada fica ainda mais gostosa).
Depois da loja de móveis (que de repente virou uma de sapatos, não... já é de instrumentos musicais, não, não agora é um bar que toca tecnobrega), vem, com seu portão baixo de madeira, a casa de seu Calil e da doce dona Marieta.  Casa que um belo dia se metamorfoseou em uma floricultura cultivada pela alegria da filha do casal, dona Terezinha. 
E antes que na casa de baixo se silenciem as notas do acordeon de seu Orlandinho, inspiradas na sua amada Euremi, é hora (mesmo que num tempo preteritado) de atravessar a rua, passar com cuidado em frente ao Paulinho Lanches, dar uma olhada na loja de colchões ou acompanhar a moça que, num passado-presente trancado a sete chaves, visita a estação de rádio (que funciona no andar de cima da loja de colchões: ou já é uma papelaria?) para pedir uma música que ainda flutua no tempo. Mesmo num passado-presente trancado a sete chaves.
Talvez não tão trancado assim: em apenas alguns segundos é possível mergulhar nele, revirá-lo, revivê-lo, visitando cada uma das casas, cada uma das almas.
Ou então, se as sete chaves estiverem perdidas, é só dar alguns passos e procurar seu Geraldo Vecchini, mestre das sete, das setenta, das mil e uma chaves e de todos os fogos.
E todas as portas se abrirão com alegria.

***

De segunda a segunda (pois no domingo ainda ecoam os rojões comemorando a entrada do XV no Barão de Serra Negra), sob a tempestade ou o sol forte, seu Geraldo, dona Beth, os filhos Geraldinho e Lecenira (que desde que teve aulas de violão com a Ruth se tornou parte da família de seu Miro e dona Janda) sempre abriram todas as portas, sempre iluminaram todos os céus da cidade com o incansável amor por aquela loja.  Eles e todos aqueles que foram chegando com o tempo para trabalhar naquele lugar.  E quem passa por ali parece até que pode ver seu Fernando, pai de seu Geraldo: com as costas apoiadas na entrada da loja (logo abaixo das estampas dos santos juninos), lá está ele, observando tudo com a majestade e a placidez de uma divindade que controla todas as portas e todos os trovões.
Depois de palmilhada a calçada das chaves douradas, é hora de ver no passado-presente eterno a casa de dona Dora, seu Pilli e seus filhos, que me legaram uma sanfoninha de madeira e sons mágicos.  Mas agora é preciso andar, passar pela loja dos Araújo... não, não, eles já atravessaram a rua e quem está lá agora é seu Bellini. Agora? Que já faz anos que ele está lá, humilde e quieto, trazendo sons aos rádios, imagens às TVs e vida para sua família.
Então, desafiando presentes, passados e futuros, se revela a loja de seu Said e dona Terezinha Chalita.   Ali, na esquina da rua Moraes com o Largo Santa Cruz, na calçada onde a banca de seu Alécio expunha nas feiras da terça, suas sacas de arroz, feijão, batata, cebola e sorriso. 
A Loja Chalita, com seus panos desenrolados sobre o balcão. Com suas caixas de botões e linhas – que depois se transformam em trenzinhos de vagões infinitos –, com seus antigos carretéis de madeira de diversos tamanhos, que, colados um atrás do outro, do menor para o maior, viram uma luneta de pirata para enxergar novos mundos e mirantes perdidos. A Loja Chalita, com sua máquina de costura funcionando feliz feito o sorriso eterno da filha Cibele. A Loja Chalita, com o amor de seu Said e dona Terezinha, que, depois do capuchino e da travessa da salada de frutas, passeia pelas calçadas e sobe de mãos dadas a rua Moraes Barros a caminho da Igreja Bom Jesus do Monte.
Então, um dia, dona Janda descobriu que dona Terezinha tinha uma voz além da voz. E que ela deveria procurar um professor para revelar todos os seus cantares escondidos.  E a voz e todos os cantos se revelaram, aos oitenta anos. Se revelaram, ganharam palcos, altares e finalmente chegaram a uma gôndola em Veneza.
E foi assim que o amor de seu Said e dona Terezinha, feito os panos coloridos sobre o balcão, se desenrolou nas águas, atravessou os canais, chegou ao mar e se espalhou pelo mundo inteiro. 

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 11 e 25/10 e 8 e 22/11/2013

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Alma de passarinho

(caio silveira ramos)

Quando nasci, ele já estava lá.    Deve ter sido presente da nossa querida Ledinha para minhas irmãs: consolação ou preparo para o nascimento do caçula? De qualquer forma, antes que eu me desse por mim, já iluminavam o sol da manhã todos os cantos do Papa-capim-coleirinha.
Meus pais foram os que mais se apegaram ao bichinho, que mesmo com os infinitos nomes imaginados pelas crianças, acabou chamado só assim: “o Passarinho”.  Ou “Tiquinho”, “Tico-tico”, “Papa-Capim”, “Coleirinha”. Ou qualquer nome carinhoso que aparecesse na hora em que meus pais cuidavam dele. Ou conversavam com ele.  E ele sempre respondia.
Como em casa a palavra “liberdade” era cultivada no quintal e na sala, foram várias as tentativas de deixar a gaiola aberta.  Alguém dizia: “o bichinho está acostumado, não vai sobreviver sozinho lá fora”.   Mas mesmo assim a gente insistia: alguém amarrava um pedaço de pano para que a mola da porta não fechasse sozinha e ficava espiando, torcendo para que o passarinho desse um passeio e voltasse logo.   No entanto, ele permanecia lá, olhando pro mundão lá fora sem sair da gaiola.
E assim ele foi ficando.  De manhã bem cedo, ao ouvir os primeiros pios do Passarinho, enquanto fervia a água do café, meu pai tirava a gaiola do corredor em frente ao banheiro e a apoiava na laje da casinha do bujão de gás. Lá, ele retirava devagarinho o pano (talvez um velho robe vermelho com detalhes em xadrez) que protegia o Passarinho da noite, do frio e da luz.  Depois, puxava a tábua da base de arame da gaiola, raspava toda sujeira, peneirava areia fina sobre a madeira, nivelava tudo com cuidado e, por fim, encaixava a tábua de volta.  Limpava o bebedouro e a banheirinha, e devolvia os dois com água fresca.   Então, ajeitava o poleiro mais alto – um galho macio esculpido com canivete –, retirava a gavetinha do alpiste, soprava amorosamente a palhinha seca e, se esvaziasse muito, pegava a velha lata de bolacha (que agora abrigava o alpiste) e enchia a gaveta até a boca.  E todo feliz, o Passarinho entoava um dos seus cantos. Pois o Coleirinha era assim: retirava do bico, infinitos cantos ensolarados.  E havia um cantar no banho, um cantar depois do bebedouro, um cantar no passear na areia, um cantar entre um alpiste e outro.
Nos finais de semana e feriados com sol, minha mãe prendia nos poleiros raminhos de capim em forma de ípsilon – que o Passarinho comia semente por semente, segurando com a patinha –, e meu pai pendurava a gaiola em um galho alto do pé de caqui.  No meio das folhas, o Papa-capim cantava outros cantos, chamando a natureza toda pra conversar com ele.
Foi então que apareceu um gato fora de si.
Mas espere um pouco mais: o Passarinho agora está inventando um canto novo.
***
Nos dias de sol doce, meu pai pendurava a gaiolinha no alto do caquizeiro.   E lá, o Papa-capim se refestelava e inventava vinte cantos novos. Todos eles feiticeiros.
E deve ter sido feitiço o que atraiu um gato.  Pois ouvimos o barulhão no quintal e fomos dar com a) a gaiola estraçalhada ao lado do pé de caqui; b) um gato fora de si saltando por cima do muro – nunca soubemos se o surto do gatuno era fruto de susto ou de dó pela perda da iguaria –, e c) o Passarinho arrepiado, paralisado de medo, com uma das perninhas quebrada, presa apenas por um fio quase invisível.
Meu pai abriu os arames da gaiola conversando, conversando baixinho, abrigando o Passarinho na concha das mãos.  E roçando a ponta do dedo na penugem da cabeça do Papa-capim, conseguiu fechar aqueles olhos aflitos e desacelerou o coração do bichinho.   Em volta, as crianças prendiam a respiração.  Só meu pai sussurrava.   E sussurrando pediu que um de nós trouxesse o esparadrapo e a tesoura.    Minha mãe recebeu o Passarinho na palma da mão, acarinhando, “calma, Tiquinho, calma”. Meu pai colocou a perninha no lugar. E com a delicadeza de um sonho bom, enrolou o esparadrapo.
O tempo caminhava desensolarado, com saudades do Passarinho, que continuava assustado, dormindo na caminha improvisada numa caixa de sapato.  Minha mãe dava, na ponta do dedo, alpiste por alpiste, gota por gota d’água.  Carinho por carinho.   Então, na gaiola nova, ele foi ensaiando uns passos medrosos, escorregando aqui e ali, se desmedando a cada dia, até que voou para o poleiro mais alto e soltou um canto novo.  Meu pai o pegou nas mãos de novo e milímetro por milímetro foi despregando o esparadrapo.  Foram longos minutos de silêncio na casa até que o milagre se fez: a perna se revelou toda. Inteira. Livre.
O tempo também se libertou e deu pra voar como o Passarinho. Parentes e vizinhos encantados com os cantares do bicho, deram pra lhe arranjar companhias.  E vieram canários, pintassilgos, bicos-de-lacre, periquitos e até um coleiro idêntico na figura, só que mal-humorado nos atos.  Mas só o velho Papa-capim ficou: a cabeça com algumas penugens embranquecidas, já passando dos admiráveis vinte anos. 
E tanto meu pai insistiu em abrir a gaiola, que ele começou a dar seus passeios curtos: saía, espiava, voltava logo.  Até que um dia demorou, passou a noite fora.  Nos consolamos com sua liberdade, mas na verdade estávamos desencantados.   Só no outro dia ele apareceu, entrou na gaiola aberta meio desconfiado e de lá não saiu nunca mais.   Logo depois voltou a assobiar contente. Devia contar suas proezas.
Em um final de semana de verão, viajei com meu pai para conhecer o Rio de Janeiro.  Não sei se por influência das aves livres de lá, quando voltamos, o Passarinho tinha morrido.   Minha mãe o encontrou deitado no chão da gaiola na manhã seguinte a nossa partida, mas só contou quando voltamos: não queria entristecer nossa viagem.   Meu pai quando soube, anuviou-se como eu quase nunca tinha visto: sentou-se num velho banco da cozinha, com os braços apoiados sobre as pernas entreabertas, os dedos entrelaçados, a cabeça baixa. E só dizia mansinho, “que pena, que pena”.
Quatro meses depois, meu pai também se foi.  Sua alma de passarinho foi ensinar a liberdade para o Papa-capim-coleirinha. Em troca, ele deve ter aprendido a voar e a inventar mil cantos novos.
Com a delicadeza de um sonho bom.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/9/2013