terça-feira, 14 de abril de 2015

Infinitos tons

(caio silveira ramos)

“Caso do vestido” sempre foi para mim um belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade.  Ou, quando muito, me fazia lembrar o imbróglio em que se meteu o presidente americano Bill Clinton, na década de 1990. Mas se você está lendo esta crônica no futuro, talvez vá se lembrar da foto de um vestido listado que circulou pela internet e causou discussões no final de fevereiro de 2015.
A foto foi tirada na Inglaterra e rapidamente ganhou o mundo: alguns diziam que enxergaram o vestido com as cores branca e dourada. Outros, azul e preta. Psiquiatras e neurocientistas rapidamente explicaram que as diferenças de percepção das cores se davam por causa da maneira como o cérebro tenta compensar a variação da luz que entra pelos olhos. 
Humildemente penso em causas que também colaboraram para as “miragens”: além do ângulo em que foi tirada a foto e a consequente incidência da luz – em foto posterior, tirada de outro ângulo, o vestido se mostrou de forma inequívoca como preto e azul -, as diferentes qualidades das telas dos diversos aparelhos eletrônicos em que as imagens foram visualizadas e até a distância e a posição (frontal ou “meio de lado”) que as pessoas olharam para a foto em seus celulares, tablets, computadores e TVs, levaram às diferentes visões.  Isso sem contar que muitas vezes, na mesma página de um “site”, a “foto original” foi apresentada no início da matéria de um jeito e, já no meio, de outro (às vezes mais escura, às vezes mais clara). E o que é pior: diante de matérias que apresentaram simulações (muitas vezes sem legenda) que aumentavam as saturações das cores (deixando as existentes mais fortes) e revelaram três fotos (uma com a cor original e as outras duas “pendendo”, uma para o dourado, e a outra para o azul), as pessoas ficaram ainda mais confusas. Teve quem se perguntou: “mas como? Agora são três os vestidos?”...
 A curiosidade é, na maioria das vezes, uma qualidade humana.  E é até louvável quando leva à busca por explicações científicas. Mas a repercussão da foto do tal vestido me surpreendeu por dois motivos: o primeiro, é que sou daltônico e sempre enxerguei as cores de maneira diferente da maioria das pessoas.  O que haveria de novo nisso? De certa forma, o espanto resgatou um pouco da dignidade dos daltônicos do mundo inteiro, que tantas vezes foram caçoados por não conseguirem enxergar um simples arco-íris ou os efeitos 3D de um filme de aventuras.
A segunda razão da minha surpresa é que, na mesma semana em que o tal vestido ganhou o mundo e as conversas, outras imagens caminharam pelos olhos dos povos, mas com menor interesse, bem menos alarde e sem a avidez e o espanto causados pelas cores mutantes.
Artefatos históricos (principalmente estátuas datadas do séc. VII a.C.), abrigados por um museu em Mossul (Iraque), foram destruídos a golpes de marreta e outros instrumentos por integrantes do grupo fundamentalista “Estado Islâmico”. Mas as imagens da destruição foram vistas com tal naturalidade pelo mundo, que constatei que o “daltonismo” humano insiste em enxergar o ignóbil com as cores mornas da banalidade.  Sob alegação de idolatria e adoração, os militantes do grupo – que na semana anterior tinham queimado 8 mil livros e manuscritos (alguns datados de até 5.000 a.C.) da biblioteca pública de Mossul,  e que comumente se orgulham em exibir vídeos com as decapitações daqueles que não compartilham suas ideias -, destroem parte da História humana baseados na intolerância.
Enquanto o mundo se espanta com as cores de um vestido.

***
Foi num fim de tarde. Num fim de aula. Na pré-escola:
Eu me descobri daltônico.
Já tinha desconfiado de algo estranho ao pintar uma árvore: mas afinal, com qual daqueles lápis eu deveria pintar o tronco? E a copa?  Eu sabia que a copa deveria ser verde e o tronco marrom: mas qual era o verde? O que era afinal “marrom”?  Achava que não tinha aprendido as cores direito: eu ficava entre dois ou três lápis, mas para mim eram praticamente iguais. E o que é pior (embora não soubesse expressar isso): meu cérebro, meus olhos não conseguiam encontrar as próprias definições daquelas cores.  No fundo eu sabia que aqueles lápis não eram amarelos ou azuis: eles pareciam ser verdes. Ou marrons. Eu também sabia que estava chegando perto: mas parava por aí. Distinguir entre as duas cores eu não conseguia.
Então, naquele final de tarde chuvoso da pré-escola, se desenhou um arco-íris. Não no céu, mas na folha em branco que estava sobre a minha mesa.  Mas além de desenhar, era necessário pintar o arco-íris.  E as cores foram fugindo dos meus olhos, escapando das minhas mãos. E começaram a se estranhar no papel.  Azul ou roxo? Laranja ou verde claro? Verde escuro ou marrom? Olhei para o resultado: seria aquilo? Não devia ser (pelo menos era o que revelava o silêncio intrigado dos meus coleguinhas de mesa). Um doloroso nó colorido nasceu na minha garganta.  A aula terminou, entreguei o trabalho para a professora e quando vi minha irmã Ester me esperando no corredor em frente à porta da sala, a chuva lá de fora escorregou para dentro e desmanchou o colorido do nó. Que mesmo assim teimou em escorrer transparente pelo meu rosto.
No caminho de volta, Ester – sábia já nessa época - me aconselhou a não me preocupar: a professora saberia enxergar meu arco-íris com outros olhos. Mais ou menos como eu tinha acabado de fazer.
Descobri naquele dia que meu problema não era de aprendizado, mas sim um distúrbio de origem genética chamado daltonismo.  E que alguns dos meus primos do lado materno também eram daltônicos. E que provavelmente também tinha sido daltônico meu avô. E também meu trisavô (que talvez por isso não variasse muito as cores do terno).
Exceto por aquelas primeiras experiências na pré-escola, nunca tive grandes problemas por causa da minha confusão com as cores.  De quando em vez, a não percepção de diferenças cromáticas em mapas, quadros, textos grifados e até em roupas me colocou em situações apenas curiosas.  Mas nada disso me atrapalhou de fato e realmente penso que não me embaraçará.  A não ser que eu ainda queira ser piloto de aviões - que deve lidar com inúmeros botões coloridos – ou talvez um espião internacional que, para salvar o mundo de uma catástrofe sem precedentes, terá que optar entre cortar um fio verde ou um marrom. Ou entre um azul-marinho ou um roxo.
Por esses dias, recebi a notícia de que o engenheiro americano Don McPherson, especializado em pesquisa de lentes, teria desenvolvido uns óculos que corrigiriam as distorções do daltonismo.  Achei muito interessante e assim que tiver oportunidade vou querer experimentar os tais óculos.   Mas não irei muito além de uma única experiência.
O daltonismo marca minha visão como um eterno lembrete, uma tatuagem que não me deixa esquecer que, assim como existem diferentes maneiras de ver as cores, há diferentes formas de entender o mundo, de interpretá-lo: e não estão aí justamente algumas das razões e dos muitos sentidos da arte?
   E se não bastasse esse encontro com a arte, a percepção constante da existência das diferentes visões de mundo revelada pelo daltonismo me prepara para respeitar as diferentes ideias, refletir sobre elas e até modificar as minhas próprias.  Assim, mesmo discordando da ideia alheia, sei da impossibilidade de qualquer tipo de imposição da minha vontade, porque é justamente a simples existência de pensamentos contrários e livres que garante a sobrevivência dos meus pensamentos.  E a liberdade de expressá-los.
Quase paradoxalmente, o daltonismo me encara todos os dias para me fazer abominar qualquer tipo de preconceito, pois mostra ser às vezes tão tênue (e tão sem importância) a diferença entre as cores. Entre as escolhas. Entre as identidades. Entre as próprias diferenças.
Pensando assim, talvez o daltonismo me faça mais livre, mesmo que eu continue sem saber como pintar um arco-íris. 
Porque nessas horas, meu filho me pega pela mão e me entrega o lápis certo.
E sorrindo, me ensina o caminho.


Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/3/2015 e republicado em 10/4/2015



terça-feira, 3 de março de 2015

A viola e o espantalho

(caio silveira ramos)

Sou um espantalho.
Não daqueles de filmes de terror ou das histórias do Batman.  Se for para me remeter ao cinema, estou mais para o Espantalho do Mágico de Oz. E continuo à procura de um cérebro.
Mas a razão da identidade não é o espanto: é a feitura.
Sou feito de pedaços, pedaços das almas, rostos, corpos, visões e amores de quem vou encontrando pelo caminho.
Desde que nasci fui colecionando pessoas. Não para que elas me pertencessem, mas para que eu fosse remendado por elas.  Durante o dia, durante a noite, na vigília e no sono sonhado, uma multidão desfila sem parar na minha frente, costurando minha pele, escorrendo nas vielas do meu cérebro, se aproveitando da minha incapacidade de desamar: a vendedora de uma loja de brinquedos, o coleguinha da pré escola, a menina bonita fazendo a leitura do dia numa sala de aula da minha infância, o cobrador de ônibus, o motorista do táxi, a copeira do serviço, a professora de inglês, a mãe, o pai, a irmã, a mulher, o filho, a prima, a tia, a vó não conhecida.  Todos, todos, todos, de qualquer tempo, inesquecidos, flutuando, me compondo, me reamando.
Ultimamente, passei a usar tecnologias: na internet, os poemas criados por Maira Garcia passam a morar nas minhas ideias. Outra poeta, Marina Mendes, envia por e-mail suas-minhas dores mais profundas.  A fotógrafa Patricia Ide leva meus olhos para passear pelo mundo e me envia as visões dela-já-também-minhas pelo WhatsApp.  O blog de Brontops Baruq muda os descaminhos dos meus sonhos.
Ainda muito pequeno, a imagem de Pixinguinha na capa do volume número 2 da Coleção “História da Música Popular Brasileira” me chamou a atenção. Folheei o encarte, vi as fotos, encontrei o sorriso. Ouvi o disco, o som da flauta, o som do sax, o som da voz de Orlando Silva se misturando aos instrumentos. As melodias do disco se misturando aos sorrisos das páginas do encarte, o sorriso meu se recriando na boca.  Quando aprendi a ler, entendi emocionado a inscrição ao lado da foto da capa: “Este homem é um poema”. 
E minha alma se amoldou àquela poesia. 

***
Eu já tocava um pouco de violão, quando a voz me veio.  Cantando um samba que eu não sabia de que em era, a voz me veio. Claro, o som que saía de mim era de menino. Nove, dez anos.  Mas havia uma doçura na busca das palavras, uma tentativa de aveludamento do meu timbre agudo de pouco volume.  O ritmo se fez outro.  Um ritmo que às vezes acelerava, como se fugisse tímido. E que impunha ao violão uma cadência que obrigava meus dedos a procurar uma batida que eu desconhecia.   Minha irmã Ruth desvendou:
“Você está parecendo o Paulinho da Viola.”
Então fui conferir o nome e a figura. E percebi que já tinha visto o sambista na TV. E a voz e a imagem se fundiram. 
O som do samba agora saía daquela imagem. E o samba se chamava “Não é assim”.  Fazia parte do caderno de violão da irmã Ruth? Podia ser, mas como eu sabia que o samba tinha que ser cantado com aquele jeito intimidado? Já teria ouvido no rádio? Seria um tema de novela?
“Não é assim” se tornou um dos meus hinos – não cantado em altos brados (que a música pedia justamente o contrário disso) -, mas interpretado com a cadência, com a batida que Paulinho da Viola me ensinava à distância.  E junto caminhava uma doçura humilde, mas altiva, acompanhada da timidez de um fechar de olhos e do encabulamento de um sorriso discreto.  Aquele samba de Paulinho da Viola era uma verdadeira carta de intenções para toda minha vida: a cadência, a batida, a busca da doçura humilde e altiva, a timidez e o encabulamento não seriam dali em diante somente instrumentos do samba.   Seriam os alimentos que passariam a coordenar meus músculos, meu pensamento, minha voz, minha maneira de conceber e entender o amor.
Outros sambas vieram de Paulinho da Viola.   Outros sambistas vieram com outros sambas diversos: sincopados, risonhos, candentes, rasgados: compositores e composições me tecendo, me remediando, me espantando.  Mas aquele jeito embebedado com “Não faz assim” enraizou-se em mim e eu me tornei um pouco aquele samba.
Mais tarde eu descobri que não era apenas Paulinho da Viola que emprestava seu jeito a “Não faz assim” e me contaminava junto.  Havia ali, uma doçura-além que não vinha dele, mas que eu já sentia que viajara para dentro de mim.  Havia entre os versos um contracanto, um lalaialaiá sereno que embalava a canção toda. E aquele voz – eu soube bem depois – era de Dona Ivone Lara.   Então, se no dia a dia meu jeito se afeiçoou a Paulinho da Viola, meus sonhos se abrigaram no colo daquela senhora.
E de viola em viola, de laras em laras, eu continuo me espantalhando.  Não um espantalho de afugentar, mas um que estende os braços e fala com passarinhos, tal qual o personagem cantado pelo próprio Paulinho da Viola em “Vela no breu”, samba composto por ele e por Sérgio Natureza.
E se não é assim que se faz, me perdoem.
É assim que me faço. 

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/2/2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

Mar japonês

(caio silveira ramos)

Conheci Rogério Nakamura na pré-escola e logo nos tornamos amigos inseparáveis. 
Ele vinha da Capital cheio de inteligência, ideias de brincadeiras novas, conhecimento sobre desenhos e séries de TV que eu nunca tinha ouvido falar e os mais interessantes brinquedos que eu já tinha visto: carrinhos de ferro que abriam portas, bonecos de heróis dos mais variados tipos, formatos e nacionalidades (inclusive japoneses), bolas, joguinhos de tabuleiro, arminhas de plástico e uma bola gigante com alça que a gente chamava de canguru. Nada devia ser caro, nada era de luxo: o que encantava era variedade e o ineditismo que me faziam viajar, imaginando como seriam as lojas de brinquedo de São Paulo.  Ou talvez as do Japão, já que na minha cabeça, meu amigo tinha parentes que viajavam até lá e traziam presentes mágicos para ele e para seus três irmãos (todos também inteligentes e espertos): Maurício, que já estava no colegial e era um excelente aluno; Selma, que mesmo terminando o ginásio, entendia muito de cinema e era fã da banda Queen, e Mauro, um menino de onze anos muito divertido, rodeado de amigos e um solitário são-paulino numa família de corintianos.
Uma família era completada pela generosidade de um casal aparentemente tão diferente e ao mesmo tempo tão unido que era impossível pensar em um sem enxergar o outro.   Doutor Suguio era alto, muito quieto e sereno.   Dona Marta era pequena, falante e onipresente como uma típica mãe italiana, só que de inquietos olhos puxados.   Além do carinho explícito que tinham um pelo outro, o que também os unia era uma dedicação incondicional à família, principalmente quando se tratava de oferecer as melhores oportunidades de estudo aos quatros filhos.
E quando eu menos esperava, eles me acolheram de tal forma, que cheguei a pensar alegremente que meus olhos ficariam puxados também.
Os Nakamuras me levavam, no Opalão vermelho de quatro portas, para todos os passeios da família, inclusive ao Clube Cristóvão Colombo, onde eram sócios de carteirinha e eu, quase isso, tantas vezes entrei como convidado.  E tantas também foram as vezes em que frequentei a incrível casa dos Nakamuras, na rua Luis de Camões, que tenho a impressão de que meus pés ainda devem caminhar pelas paredes do longo e alto corredor que saía da sala e buscava a cozinha e os quartos.
Uma casa com pés impressos na imaginação das paredes, com portas que desvendavam esconderijos inusitados e escorregadores feitos de tampos de mesa que levavam a doze mil mundos diferentes de brinquedos.
Talvez essa casa só tenha existido em algum sonho.
Ou no outro lado do mundo.

***

PROCURA-SE UMA CASA NA VILA MONTEIRO:
Uma casa de portão baixo, com a garagem visível, que deve abrigar até um opala de quatro portas, de preferência vermelho.  Do lado direito da garagem, atrás da parte fixa do portão, deve haver uma pequena área gramada com um pinheiro alto no meio, perfeito para ser enfeitado no Natal.
Dentro da casa, precisa-se de uma sala de estar, com duas venezianas quadradas e grandes, poltronas macias e um sofá confortável.   Da sala deve sair um corredor comprido e estreito que possibilite que meninos, de 6 a 10 anos, espalmando as mãos e os pés contra as paredes, subam até encostar as cabeças na laje.  E depois, coordenando mão com pé, pé com mão, desçam lentamente até o piso.  Ou de um pulo só, soltando mãos e pés, aterrissem no solo da cidade feito o Homem Aranha. 
O corredor deve ter uma porta para sala de TV, outras duas para dormitórios médios e, no final, tem que acabar num quarto de casal. Um quarto aparentemente simples, mas com um gigantesco guarda-roupa embutido numa das paredes.  Só que – e isso é fundamental –, uma das portas deve ser falsa.  Bem, a porta logicamente é verdadeira, mas atrás dela, em vez de roupas, tem que ser revelado um imenso banheiro de azulejo azul, próprio para esconderijos ou aberturas para mundos paralelos.
Voltando pelo corredor, finalmente deve-se entrar na tal sala de TV, com espaço suficiente para um grande aparelho em cores, coisa rara se essa casa for também procurada no começo da década de 1980.  Na transição para a cozinha, uma mesa de jantar deve comportar uma família de seis pessoas, com um lugar sobrando na cabeceira para uma visita de 7 ou 8 anos, que embora fique fascinada pelas cores de comidas feitas com arroz e algas, tem sempre garantidas no prato as melhores coxinhas de frango. 
Terminada a cozinha, uma porta telada deve dar saída para uma escadaria de concreto que termina na entrada de uma edícula e no início de um longo corredor que se abre à direita.  Nesse corredor, potentes cavaletes de madeira, ao sustentarem duas longas e pesadas tábuas lisas, formam uma mesa para almoços grandes e externos.  Mas as tais tábuas devem ser pesadas só o suficiente para que dois meninos pequenos possam levá-las (uma de cada vez) até a escada de concreto, criando, assim, escorregadores tão potentes que podem até tirar fumaça das pernas das crianças se elas estiverem de “shorts”.
Não deve ser raro, terminado o escorregador, que as crianças acabem conseguindo brecar apenas dentro da edícula, onde além de máquinas de lavar, tem que haver uma bela coleção de brinquedos, com bonecos japoneses e outros da Marvel ou da Liga da Justiça. E carrinhos de ferro Matchbox, que abrem as portas e trafegam por mil e uma cidades.
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: o pai de seu amigo, dono daquela casa, voltou a trabalhar em São Paulo, levando toda a família junto.  
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: seu amigo foi embora, deixando para ele, dois carrinhos Matchbox novos: um policial futurista com vidros verdes e um esporte laranja que abre as portas da frente.  
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: a família de seu amigo foi embora, deixando sua televisão colorida de presente. A primeira televisão em cores da família do menino, que pôde ver, naquele 1980, o Ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de Moscou, chorando colorido.
Mas vagando pela Vila Monteiro, o menino ainda procura aquela casa.
Chorando eternamente em branco e preto.

***

O pai do meu amigo Rogério foi chamado para um novo emprego em São Paulo e a família toda se mudou em 1980.  
Para manter a amizade, ele me mandava cartas contando pequenas notícias ou piadinhas inocentes.  E eu respondia enviando livros que tinha gostado ou histórias que eu mesmo escrevia e ilustrava com canetinha, normalmente narrando as aventuras do meu vira-lata Tipe transformado no super-herói Tigre Negro, que vivia salvando do perigo sua namorada Pink (por “coincidência” a cachorra pequinês dos Nakamuras).
Em janeiro de 1982, dona Marta e seu Suguio apareceram em Piracicaba para resolver alguma coisa sobre a casa da Vila Monteiro e me convidaram para voltar com eles para São Paulo. E mais: me convidaram para passar uma semana com a família na casa da praia de Peruíbe.  Eu, que nas férias de junho já tinha passado uma semana inteira longe de meus pais, achei que estava mais que habilitado para ficar distante da Moraes Barros mais uma vez.  Certo que, naquele junho, eu tinha ficado na casa da querida tia Josette, com a doçura do tio Samy e a alegria da prima Luciana me fazendo acreditar que os sons de Jundiaí eram extensões muito familiares da minha vida piracicabana.  Mas agora eu estava um semestre mais velho.  E os Nakamuras, afinal, eram minha família japonesa.
Com as bênçãos paternas – mas sob o choro da minha irmã Ruth – parti para São Paulo na mesma noite do convite.  No ônibus da Viação Piracicabana, com a cabeça apoiada no colo de dona Marta, me lembrei da primeira e única vez que tinha visto o mar.
Uns dois anos antes, meu pai fora para Santos visitar o Carlos Pinto, conhecido jornalista da área teatral.  Depois da visita, no final de uma tarde nublada, Carlos Pinto nos convidou para um mergulho no mar. Dissemos que iríamos apenas acompanhá-lo até a praia.   Me lembro da cena:  eu e meu pai parados numa estrutura de concreto – acho que era um grande duto que se esticava mar adentro – e Carlos Pinto, depois de um teatral mergulho, dando poderosas braçadas no oceano infinito.  Mas o que mais me chamou a atenção foram as baratas:  dezenas, centenas de baratas, rodeando o duto, desviando por piedade de nossos pés e entrando e saindo do mar de uma forma que nunca imaginei que pudessem.  De uma forma que eu nunca imaginei que o mar seria.
A não ser nesse dia teatral em Santos (em que as baratas disputaram o oceano com Carlos Pinto), meu pai nunca conseguiu levar minha infância até o mar, mergulhado que ele sempre estava no salário minguado e no serviço tanto, inclusive nos meses de férias, quando estudava, preparava aulas e ensinava as lições mais difíceis aos alunos com maior dificuldade de aprendizado.
Mas naquela noite de janeiro de 1982, com a cabeça apoiada novamente no colo de dona Marta, eu sonhava que o sacolejo que sentia não era do ônibus que nos levava do Terminal Rodoviário da Luz até a Vila Gumercindo.
Já era o balanço do mar.
Era o mar.
O mar.        

***
No dia seguinte à minha chegada à casa dos Nakamuras na Vila Gumercindo – casa com quase tantos segredos quanto a antiga da Vila Monteiro piracicabana –, partimos para Peruíbe.   No lugar do antigo Opala vermelho de quatro portas, seu Suguiu agora dirigia um Opala creme de duas, mas grande o suficiente para levar, com conforto, a esposa, os quatro filhos e um convidado magrelo ávido de mar.
Era final da tarde quando Dona Marta pediu para o marido lentear o carro numa rua paralela à praia para que eu espiasse o mar.
E o mar era azul. Azul como eu nunca tinha visto. 
Só que o encontro deveria ficar para o dia seguinte. Agora era hora de chegar, descarregar o carro, arejar a casa da praia, olhar curioso para os canais que passeavam paralelos às calçadas de quase todos os quarteirões, reencontrar com antigos brinquedos conhecidos que agora moravam na praia, comer, dormir.
Mas antes de dormir, a chuva chegou forte e egoísta. Na cama, imaginei baixinho que não poderia pisar na areia.  Não poderia tocar no mar.
Só que às cinco da manhã, acordei com um silêncio esperançoso brincando no lado de fora da casa. Peguei meu “Vinte Mil Léguas Submarinas” e fui quieto para a sala aguardar o dia em companhia do Capitão Nemo e do arpoador Ned Land.
Pouco depois seu Suguiu e dona Marta acordaram e decifraram minha vontade secreta: tentaríamos ir para praia, mesmo com o céu nublado.
E fomos.  O dia estava feio, cinza.  De perto, o mar não era mais azul. A praia parecia suja, mas só estava triste de galhos, plantas e conchas trazidos pela chuva ou pelas ondas. Quase que escondido, peguei um punhado de areia: queria era fazer castelos como os dos filmes, dos programas de TV: mas ela, escura, úmida, escorreu por entre os meus dedos. Nenhum castelo nasceria dali.   Foi então que Mauro e Rogério me chamaram para entrar no mar. E descobri que não sabia o que fazer.   O falso-infinito todo ali, cheio de som e tato, e eu perdido para sempre.
Fui andando, a água fria roçando os dedos, as canelas, os joelhos.  Meus pés experimentando todos os segredos do mundo.  E agora?  Que precisava ser feito? Caminhar, caminhar, caminhar até o corpo mergulhar todo até o outro lado do mundo? 
Então veio a onda e o riso. Riso meu, do corpo incendiado de sete mil novos sentidos.  Riso alheio, da minha falta de jeito.
Mas logo, enquanto os outros garotos se esqueciam de mim e se fartavam de mar, Mauro e Rogério se deram conta da minha emoção de menino ensimesmado e se enterneceram para mostrar como a onda devia ser recebida. Como eu deveria me entregar a ela. Como eu poderia me deixar levar pelo mar sem me perder para sempre.  
E o mar foi se amoldando ao meu corpo caipira, me fazendo dele, me mostrando que ele era para se brincar e se temer. E que sempre estaria ali, indomável, estranho, feito para esticar minha pele e a minha alma até a margem distante lá do outro lado.
Hoje (e para sempre), ainda que longe dos cuidados de uns olhos nikkeis a me guardar da beirada da areia ou da onda ao lado, a cada nova entrada no mar, eu me paraliso-menino-feito-de-um-dia-nublado.  
Até que nos reconhecemos mais uma vez. 
E, feitos de onda e sal, eu e o mar nos fantasiamos de infinito.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  5 e 19/12/2014 e 16 e 30/01/2015


sábado, 22 de novembro de 2014

Sertões encantados

(caio silveira ramos)

Prêmio Leia Comigo!(2007)
da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil- FNLIJ


Meu pai chegou com o recorte do jornal: um anúncio convocando os ex-alunos do Seminário de Pirapora do Bom Jesus para um encontro festivo.  No dia marcado, lá estávamos nós no carro, meu pai dirigindo, lembrando pelo caminho de histórias vividas há mais de quarenta anos.
Eu já conhecia muitas delas: minha avó morrera quando meu pai tinha sete anos. Ele disse adeus para o pai (que foi morar com o filho mais velho em São Paulo) e de mãos dadas com a irmã mais nova passou a viver em Itu com a família da mãe.  Quando meu pai completou onze anos, o tio fez o comunicado: ele seria encaminhado para aprender o ofício de sapateiro.  Meu pai não tinha nada contra sapatos, botas e afins, mas nos pés ele já calçava as palavras aladas dos livros que conseguia emprestado das freiras que o ensinaram o abecedário e outras vírgulas.  Acuado, mas coroinha maroto, empiedou os olhos e pediu, “quero ser padre”.  A tia, comovida, ralhou com os filhos, “vejam seu primo, tão piedoso, por que nem um filho meu foi abençoado com a vocação?”. Os primos não se importaram: gostavam dele como um irmão e no fundo sabiam que a vocação dele era bem outra. Ele só queria continuar calçando outras palavras para voar mais alto.  E não necessariamente para alcançar arcanjos e querubins.
Chegamos à Pirapora e subimos pelo velho caminho que levava ao Seminário.  Estacionamos o carro e fomos a pé, meu pai deixando a alma correr na frente aos pulos.  De acordo com o anúncio, os alunos deveriam usar crachás para facilitar a identificação.   Mas ao cruzarmos o portão, um grito saiu de um senhor de bigodes e cabelos brancos que estava reunido com outros senhores de cabelos brancos (e que com certeza, daquela distância, não conseguiam ler os nomes escritos no crachá do meu pai).  Mas podiam claramente reconhecer seu rosto transfigurado:
“E aí, rapaz! Continua lendo Os Sertões?”
Eu sabia que meu pai era fascinado pela obra de Euclides da Cunha desde menino. No Seminário, o acesso aos livros era um tanto restrito: havia uma espécie de index librorum prohibitorum em que certos alencares, machados, azevedos, eças e até lobatos eram sutilmente não recomendados ou simplesmente proibidos.  Mas se até o fantástico e o misterioso eram desaconselhados, não faltavam clássicos da literatura greco-romana, obras sobre vida de santos, compêndios de História Universal e História do Brasil, e alguns livros de aventura.  Daí que os meninos se esqueciam dos estudos de latim e grego, dos banhos frios, do despertar na madrugada e dos dias de jejum, piedade e oração, com autores que iam de Karl May a Júlio Verne e eram lidos por um colega na hora do almoço ou nas quintas e domingos de folga.  
Diferentemente de outros meninos que eram visitados pelos parentes em um dos finais de semana do mês (quando recebiam abraços, presentes e doces), meu pai era esquecido durante o ano todo, só retornando para Itu nas férias de janeiro.  Ele era aluno aplicado, goleiro voador, bamba de pião e papagaio, mas na solidão das folgas, ele se perdia por outros caminhos em busca de novas aventuras. Foi então que topou com Antonio Conselheiro, Beatinho, o temível Moreira César e milhares de jagunços, e se embrenhou sertão adentro.  E aquele livro árido, com seus barroquismos e ciências, desvendou ao meu pai-menino um País rico e miserável, generoso e cruel, místico e valente.    Mal sabiam os padres belgas de olhos azuis e sotaque afrancesado, que o garoto que preenchia os vazios dos dobrados da banda do Seminário com um velho bombardino, naqueles sombrios finais de semana encontrava (no mais insuspeito dos livros) muito mais do que análises da terra, do homem e da luta. Além de ensaios e aventuras, moravam ali, escondidos, o fantástico, o misterioso e os pecados proibidos.  
Por isso, ele se apaixonou pelo grito lancinado que aquelas páginas não abafavam.
Páginas escritas por um homem inconformado feito de angústia.

***

No encontro dos antigos alunos do Seminário de Pirapora, em 1990, os meninos de cabelos brancos se multiplicavam.
Falavam de partidas e jogos pendurados no tempo, de bolas de borracha moldadas com pente para o futebol de botão, dos grêmios de leitura, do salão de estudos, das Festas de São Norberto e do Bom Jesus, onde o batuque negro dos barracões profanos se misturava ao canto-chão e, juntos, embebedaram o sangue dos meninos para sempre.    E se algum daqueles velhos meninos se lembrava agora das músicas da banda ou das peças que meu pai tinha participado, aparecia outro que chegava na roda e perguntava: “diga, Miro, como anda Os Sertões?”.  
A maioria não seguiu a carreira religiosa – inclusive meu pai, que para o desespero da tia, disse que iria para São Paulo, não para usar batina e seguir no Seminário-Maior, mas para trabalhar como bancário, estudar Letras Clássicas e ser professor.  E quando algum colega perguntava “professor de quê?” e ele respondia “de Português”, já vinha a exclamação “claro que foi por causa d’Os Sertões !”, como se fosse uma senha para desvendar antigos sonhos, esquecer dos assuntos graves dos sessenta e poucos anos e disparar a corrida descalça atrás de uma bola de capotão no campo de terra.
Terminada a missa – na qual, para meu espanto, meu pai entoava com os colegas cantos-gregorianos seguindo uma partitura de notações para mim desconhecidas e indecifráveis –, foram aqueles meninos se despedindo dos colegas e de si próprios. E, entristecendo-se, lentamente vestiram suas armaduras de tempo e aceleraram seus carros pela estrada.
No caminho de volta, pouco conversamos.   Eu sabia que meu pai levava aquele menino que se embrenhou n’ Os Sertões, escondido no banco de trás.  E não queria fazer barulho para acordá-lo, tão exausto que ele estava pelo dia cheio.   Sabia também que por amor à palavra feiticeira daquele livro, o menino me tomaria nos braços – para que eu não me ferisse com a dureza do chão e o perigo das plantas espinhosas – até que eu estivesse pronto e pudesse me enveredar sozinho e apaixonado por outros sertões, mais poéticos e mais sonoros. Que ele machucaria tantas vezes a alma rasgada por baleias, tubarões, fabianos e paulo honórios para que meu corpo doesse mais sereno.   Que para centenas de crianças, seus filhos ou não, revelaria aqueles sertões e aquelas almas, apresentando D. Quixote, Zezé, Bentinho e o Visconde de Sabugosa (primo talvez de um tal conde de mesmo nome que aparece perdido nas páginas d’Os Sertões).  E que o menino descobriria que o misterioso adormecer de sua mãe doía tanto quanto aquele narrado nos engenhos de Zé Lins; que a solidão e o abandono no seminário eram as mesmas do coruja André Miranda, de Aluísio Azevedo.  
Mas pelo resto da vida, aquele menino voltaria muitas vezes ao Arraial de Canudos.   Naquele livro feito com a razão de um homem apaixonado, ele encontrou as vozes e as mãos ressecadas para protegê-lo da solidão, e a dor de um mundo inteiro despencada dos olhos de um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.  Naquele livro ele se agarrou às palavras e viveu por elas.    Por causa delas.
Com a liberdade de um sonho inventado.  

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 7 e 21/11/2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Além do Mirante 2: O inventor de brinquedos







Gostaria de ser lembrado como um ser abençoado pela inocência. E que tentou mudar a feição da poesia.






poesia é voar fora da asa
(Manoel de Barros)





sábado, 25 de outubro de 2014

Sobre tempos


Pesadelos.
Estou na rua Governador. Tenho cinco, seis anos.
Procuro a “Lobrás”: quero caminhar pelo último corredor à esquerda, aquele da parede forrada de prateleiras de brinquedos: autoramas, castelos, caixas enormes de forte-apache.  Não vou comprar, só quero ver.  Só quero ver.
Mas a “Lobrás” não está lá.
Sigo em frente. Quero colocar uma moeda nas máquinas de chicletes de bolas coloridas do “Supermercado Brasil”. Mas nem os chicletes, nem as máquinas, nem o supermercado estão lá.
Vou para a esquina da Governador com a Moraes Barros: talvez na “Portalarga” eu encontre alguns brinquedos para ver. Mas não há mais brinquedos. E a “Portalarga” também não está mais lá.
Resolvo descer a Moraes até a Armando Sales: sinto sede e me vem a vontade de tomar suco colorido vendido nas garrafas de plástico em formato de revolvinho, boneco, foguete, tubarão ou qualquer outro brinquedo.  Só vai ser preciso ir até o “Supermercado Guerra”, comprar o suco com alguma moeda e arranjar uma tesoura para cortar o bico da embalagem. Mas o “Supermercado Guerra” também não está mais lá.  Não há suco, nem foguete. E minha sede continua.
Caminho um pouco mais pela Moraes, viro na José Pinto de Almeida e entro na Quinze de Novembro.  Subo um quarteirão para encontrar na esquina a “Livraria e Papelaria Artes Quinze”: a garganta continua seca, mas preciso comprar papel e lápis colorido para recriar aquele sonho: pintar as ruas de novo, as lojas, as pessoas perdidas.
Mas a “Artes Quinze” também não está mais lá. Como também não está, do outro lado da rua, a loja de roupas de Dona Alaíde.
Preciso acordar, preciso acordar. Continuo subindo a Quinze, vou até a esquina com a São João comprar café moído na hora, lá no “Nosso Empório”, do Roberto e do Genésio.  
Mas o “Nosso Empório” não está mais lá. E nem o Genésio. E nem o Roberto.
                   Já que não é possível acordar, caminho de novo em direção à Moraes: talvez na “Farmácia Santa Cruz” seu Pedro me dê algum remédio para afastar essa angústia corroendo o peito.   Mas não há remédio: nem seu Pedro, nem a farmácia estão por lá.
                   Vou até o ponto de táxi no Largo Bom Jesus pedir para seu Facco me levar no seu Corcel marrom de quatro portas até o “JumboEletro”: quero me esconder nas barracas gigantes de vários cômodos que ficam permanentemente abertas no andar inferior da loja. Mas seu Facco não está mais lá. Nem seu Corcel marrom. E as barracas devem ter se perdido com o vento.
Penso em atravessar a rua, entrar na vidraçaria e, embriagado pelo cheiro de massa, tentar me reconhecer em algum caco de espelho.  Mas a vidraçaria também não está lá.
Há no seu lugar uma relojoaria.  E atrás do balcão, alguém que reconheço.  Atravesso a rua e seu Alcides Almeida Souza sorri para a minha chegada.  Ele me dá um forte abraço e me empresta seus olhos claros, regados pela lembrança de meu pai.  E de trás do balcão também brotam dona Lila e seus meninos, todos de olhar claro-regado e abraços de rodear o mundo. 
Depois dos abraços, seu Alcides me mostra os mais curiosos relógios. E a sutileza de misteriosos tique-taques.
Ele regula cordas. Conserta ponteiros.  Rearranja o tempo. 
E quando o tempo finalmente se ajusta, um cuco abre suas portas e canta.   Bato palmas para o passarinho de madeira. Tenho cinco, seis anos.  Não, não sou eu: o tempo já é outro: quem bate palmas para o cuco é meu filho.
E sob palmas, sorrisos e olhos regados, o pesadelo bate asas e voa para o nunca mais.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 24/10/2014

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Além do Mirante 1: empate técnico

(caio silveira ramos)

Extra, extra! 
O blogue finalmente empata com o Jornal de Piracicaba. 
Iniciado em agosto de 2014, o blogue Mirante dos Infinitos teve que correr atrás da coluna quinzenal de mesmo nome que é publicada no Jornal de Piracicaba desde junho de 2012. 
Quem chegar agora pode aproveitar para clicar nas postagens sob o título "Sugestões para marinheiros de primeira miragem" e navegar um pouco no passado-presente-eterno.
Até o próximo infinito.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Aleluias

(caio silveira ramos)

(para Alexandre Barbosa Teixeira)



Geralmente no começo da noite. Elas chegavam. Multidões delas, vorazes, infinitas.  Voando, atravessando a casa, aleluias procurando a luz.
A luz do grande lustre da sala.  
O lustre: suspenso do forro de madeira por quase três metros de corrente, ele parecia um leme rodeado por cinco cachimbos que abrigavam as lâmpadas.   Embaixo, o meio-globo de vidro fosco revelava mais um pouco de luz.   E era por causa dela que algumas aleluias morriam dentro daquele meio-globo gravado por desenhos que lembravam às vezes uma flor, às vezes um sol. Um sol de raios petalados de triângulos.   E era dentro daquele sol que se amontoavam as asas e os corpos das aleluias que se deixavam fascinar pela luz.  Mas muitas escapavam. E se atiravam com fome em sofás, mesas, livros, instrumentos musicais, portas e brinquedos.   Reduzindo tudo a pó.
Para mim, naquela época, não eram aleluias, siriris. Nada disso. Aquele pesadelo atendia por um só nome:
Cupim.
Tentávamos fechar as janelas, apagar as luzes, mas aquele bando selvagem persistia, abandonando as asas, se acasalando, se esgueirando nas frestas para derrubar a casa.   Acho que era esse meu medo maior: que um dia a casa caísse.   Metáfora da vida, do fim da infância? Nada importava. Eu temia que o céu desabasse literalmente sobre nossas cabeças, por Tutatis!
Me lembro de desesperos: eu arrancando a camisa e girando o braço feito um helicóptero para espantar os monstros. Minha irmã chorando, com medo que atravessassem a capa de couro e destruíssem o som de seu amado violoncelo, comprado a duras penas.   Diante daquilo, comecei a temer também por meu violão: a capa tinha aberturas laterais, que eu passei a encher de panos para que os bichos não entrassem.    
O piano parecia resistir.  As vigas do teto, o madeirame do piso e os batentes das portas de mais de oitenta anos se faziam mais amargos na sua emperobice só para afastar a multidão faminta.   Mas o resto parecia entregue à sanha daquele exército arrasador.
Durante o dia, jogando futebol de botão, bolinha de gude ou “cinco marias” (para nós, “porquinho”), alguém ia parar embaixo de algum móvel e cheio de assombro dava o alarme: “tem pozinho de cupim no chão! Aquele resto de madeira significava para nós alguma perda futura e inevitável, além de deixar a sensação terrível de que a qualquer momento sentiríamos o dedo afundando em algum móvel transformado em palha seca.  O som de areia vindo de dentro de um objeto feito de madeira (tal qual um “pau de chuva”) denunciava que debaixo da casca de tinta a óleo o mundo se desmanchava.
No inventário da destruição, total ou parcial, apareciam (ou desapareciam?): um armário de cozinha e um outro, de banheiro (para remédios);  um sofá-cama vermelho;  uma escrivaninha grande; uma escrivaninha menor, dessas para datilografia; uma cuia de chimarrão pequena, própria para crianças; o madeiramento de um forte-apache;  um pássaro-móbile que mexia as asas com o vento ou com uma cordinha puxada na barriga; uma mesa de jantar para seis lugares;  um sermão inteiro do Padre Antonio Vieira;  duzentas e cinquenta e sete declarações de amor de um romance Romântico e a revelação de um conto de mistério de Edgar Allan Poe.
Mas quando os cupins furaram a capa dura de um livro da coleção de Lima Barreto e por caminhos tortuosos devoraram sem trégua dezenas de palavras e frases, eu finalmente entendi aquela legião de famintos.
Eu finalmente compreendi aquela fome.

***

Seu Silvio Luciano deve ser um bruxo. 
Pelas salas e corredores do serviço, vejo seu caminhar sincopado-lento, quase pausado. Andar de quem não tem pressa, mas que sempre chega no tempo certo aonde quer chegar.  E ele vem ainda com aquele olhar atrás dos óculos quadrados: olhar gaiato, ladino, que também sempre chega aonde quer chegar.   
Dizem que já teve uma das mais incríveis lojas de discos lá para os lados da Avenida Paulista.  Dizem que sabe tudo sobre a Segunda Guerra Mundial. E rock. E jazz. E blues. E também sobre aparelhos de TV, de som, de rádio.   E revistas em quadrinhos.
Dizem que ganhou concurso culinário.  E imediatamente posso vê-lo de chapéu de bruxo, mexendo num caldeirão e rodeado pelos discípulos misteriosos de uma sociedade secreta, com suas vestimentas próprias, seus rituais e seus temperos exóticos. 
Assim, não me surpreendi quando ele me explicou como os cupins parecem comer o concreto.  De acordo com o bruxo Silvio Luciano, na feitura das caixas de lajes era usado muito entulho: madeira velha, papelão. O que viesse.   Depois de pronto o prédio, a cupinzada se aproveitava (e ainda se aproveita) das frestas do concreto para encontrar aquele banquete todo.  Então, fazem a festa.  Ou festas. Festas de comilanças e de construção de ninhos.  Resultado: as revoadas das aleluias hoje parecem brotar das paredes.
Quanto aos livros, o bruxo disse o seguinte: o papel geralmente é muito áspero.  Para torná-lo mais sedoso, os fabricantes passam uma camada de algo parecido com amido de milho.  Se os cupins já adoram o papel puro, imaginem só com um amaciante de maisena?  Qualquer livro do Paulo Coelho vira manjar delicioso.
Eu não conhecia Silvio Luciano quando me deparei com os primeiros furos e rastros nos livros de casa.  Achei até que aquilo era trabalho de traça de desenho animado.  Mas depois me dei conta que os cupins atacavam, sem distinção, D’Artagnan,  Padre Amaro,  o Patinho Feio e Anna Karienina.
Mas foi só recentemente, folheando a coleção de Lima Barreto, que me esvaziei dos temores que sentia dos cupins.  Que me desenrosquei da raiva que eu sentia das aleluais.

Aqueles livros foram invadidos sem medo por simples furos nas capas duras. Furos que se transformaram em rios cavados nas páginas macias. Rios que engoliram letras, palavras, ideias e personagens.   Famintos, os cupins pareciam buscar quem os compreendesse na fome e na ânsia. 
E se foram buscar, encontraram.  Encontraram miseráveis, bêbados, desesperados, fracassados, humilhados, loucos.  Velhos e jovens, quase todos trôpegos pelo preconceito que continuou sulcando suas carnes.  
E esse encontro de famintos revelou não apenas o apetite pelo amido das folhas.   Desnudou todas as outras fomes.  As fomes que atormentaram os sonos e as vigílias daquele autor de alma tão corroída quanto as almas de seus personagens.
A legião de famintos cupins conseguiu destruir algumas palavras.   Mas unida aos desvalidos e enjeitados encontrados naqueles caminhos, danou-se a esburacar minha cabeça com as ideias engolidas sem piedade.
E meus miolos sulcados, feito carne enchibatada, agora se contorcem de desespero e humanidade.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 26/9 e 10/10/2014