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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A volta do Tigre Negro

(caio silveira ramos)

A cadelinha Nina chegou revirando o mundo. Mudou a disposição das coisas na área de serviço. Fez alguns cômodos da casa fechar suas portas. Espalhou obstáculos feitos de borracha e pano no tapete da sala.  Depois se espreguiçou e ofereceu a barriga manchada de branco para afagos de mil sóis e mãos infinitas.
A moça que trabalha no prédio sentenciou: “ela parece cachorro de pobre. Cachorro de rico é branco, peludo, sem focinho e tem rabo curto. Ela tem focinho grande, pelo rente e rabo comprido. Como ela, e ainda malhadinha assim, marrom, com mancha preta e pata bege, tem um monte na favela”.
Rindo, retruquei: “então a Nina é perfeita pra gente: não somos ricos mesmo!” E lá fui eu, todo feliz, com meu filho, jogar bola com a cachorrinha no meio da sala.
E lá vai ela, feliz também, correr com as orelhas balançando. Nina pula, deita, rola. E balança a cabeça, segurando com os dentes cheios da valentia dos seus dois meses, o cachorrinho de pelúcia Tibúrcio.
Nina parece tão feliz, que a suspeição da faxineira sobre o pedigree mambembe trazido pela criadora se dissolve no primeiro olhar profundo pedindo colo. E a “mini daschund arlequim” se transforma deliciosamente numa “salsichinha malhada”, provavelmente não tão “inha” assim no futuro.  E se seu “padrão raro de pelagem” – com manchas pretas, e focinho e patas cor “tan” –, se revela, na verdade, como o provável resultado de algum cruzamento temerário, apenas duas roladas de 360 graus no chão da sala fazem o prédio desabar de ternura por causa de Nina, a mais bela. Nina, Nininha, Ninoca, Ninotchka. Nina Biscoito. Nina-mel.
Mas existe algo mais naquela cadelinha que provocou a querença instantânea em mim.  Algo além da maciez do pelo malhado, da corrida saltitante pela casa, da delicadeza de mordiscar sem dor a mão que lhe afaga a barriga. 
Olhando uma sequência de fotos em que ela, apoiada no meu ombro, vai serenando tranquilamente os olhos até fechá-los por completo, decifro o sonho que a cadelinha devaneia.  Em algum lugar, lugar perdido entre mim e ela, Nina faz seu chamado, que é também o meu.
E ao longe, eu e ela avistamos quem atende ao nosso pedido.
Destemido e altivo, o Tigre Negro está de volta.

***
O cachorrinho de plástico, que já tinha passado pelas mãos das minhas três irmãs, chegou até mim sem os olhos e as rodinhas. Mas mesmo assim, eu me empertigava todo puxando o brinquedo por um barbante lá no quintal de casa. De tanto verem a cena, quando a Jô anunciou que a cadelinha da sua casa iria dar cria e que eu poderia ficar com um dos filhotes, meus pais decidiram que já era hora de eu ter um cachorro de verdade.
No começo de janeiro de 1979, os filhotes nasceram e ficou combinado que, assim que a nossa família voltasse da viagem de uma semana pra Poços de Caldas, iríamos apanhar o bichinho.  Quando a Jô disse que o cachorrinho tinha o pelo quase todo preto, imediatamente comecei a pensar em nomes.  Depois de muito matutar, anunciei solene: “ele vai se chamar Tigre Negro”.
Alguém ironizou e até me falou alguma coisa, mas na minha cabeça eu e Tigre Negro já enfrentávamos os mais temíveis vilões do Universo. Seríamos uma dupla corajosa e invencível, pronta para combater o mal.
A viagem para Poços foi muito, muito boa, mas confesso que entre os sabonetes artesanais, as fontes luminosas coloridas, o relógio de flores no meio da praça, o café da manhã de hotel, a vista do Cristo, uma cachoeira, um parque infantil e um barquinho de ferro da coleção “Matchbox”, Tigre Negro aparecia voando, me convidando para uma nova missão. Por isso, na mesma tarde em que chegamos cansados da viagem, fui com meu pai e minhas irmãs até a casa da Jô para me encontrar com meu parceiro.
Os filhotes estavam dentro de uma manilha de concreto e, mesmo antes de a mãe da Jô apanhar o bichinho certo e colocá-lo numa caixinha de papelão, eu já tinha reconhecido o temido Tigre Negro.  Que descansava serenamente de olhos fechados.
Em casa, rodeado por panos e crianças, o cachorrinho parecia se acostumar com as novidades. Menos com o nome. Eu chamava baixinho, “vem Tigre Negro, vem”, porém ele parecia não ligar muito. Mas quando minha irmã Ester esfregou os dedos com um pedacinho de comida e falou “tipe, tipe, tipe” ele levantou a cabeça, saiu da caixa e foi cambaleando, cambaleando, saborear o petisco. Depois, para minha surpresa, lambeu amoroso a mão da minha irmã. Que fez seu rá, rá, rá, triunfante, o afagou com gosto e completou:
“Tipe, tipe, tipe. Isso! Ele mesmo já escolheu seu nome: Tipe!”
Reclamei, sustentei o título, chamei, chamei de novo, com energia de um soluço engasgado “Tigre Negro! Vem cá!”.  Depois, minha voz foi se entristando baixinho, mas ele não veio. Ester tentou consolar:
“O tigre é um felino. Vai ver que ele acha que você tá chamando ele de gato...Ele é um cachorro valente.” 
Ela então o conduziu de volta para a caixinha de papelão e me ensinou que, coçando a orelha do bichinho, ele fechava os olhos. Depois segurou minha mão e fez meu dedo passear ao longo do focinho do cachorrinho, que foi se acalmando, me acalmando. Até que manso, ele dormiu com um suspiro adocicado.
Como muitas vezes ainda faria, me deixei consolar afagando longa e serenamente aquele meu novo amigo. E sussurrei, ainda que sem jeito, para mim e para ele:
“Dorme, Tipe. Dorme bem.”

***
Ainda que para o veterinário eu insistisse que o nome do meu amigo era Tigre Negro (“só o apelido é Tipe, mas pode chamar desse jeito mesmo”), acabei me rendendo ao inevitável e, exceto nas histórias ilustradas com canetinha – “em que o fabuloso herói Tigre Negro salva sua amada cachorrinha pequinês Pink” -, o nome “Tipe” passou a ser um dos que mais minha voz lançava pela casa com amor e alegria.
Não que fosse indomável, mas ninguém achou que adestrá-lo fosse importante. Assim, se ele era normalmente proibido de entrar nos cômodos internos da casa e até no pátio, lá no quintal (que começava no muro baixo e vazado, com seu portãozinho de ferro, e ia até o quartinho dos fundos), Tipe se espalhava com tal liberdade, que domá-lo pareceria violência ou insensatez.  Mesmo sendo completamente indisciplinado – ele nunca trouxe a bolinha atirada de volta -, Tipe se tornou meu grande parceiro pela cumplicidade.
Quando eu chegava triste, ele me olhava fundo, se sentava ao meu lado no chão e depois se ofertava para um afago silencioso. E permanecia lá, até que a minha tristeza se perdesse na sua pelagem preta.  Mas quando eu vinha felizando o dia, ele me pulava nas pernas, pegava alguma bola e saía correndo pra que eu fosse atrás dele sem nunca alcançá-lo. Depois ficávamos os dois exaustos, encostados em uma das colunas do ranchinho ou no tanque de pedra onde minha mãe o banhava.  Quando as respirações se acalmavam, ele oferecia a barriga e eu a coçava rapidamente do lado esquerdo, o que fazia a pata traseira da mesma banda girar freneticamente.  Ele então se esticava todo de contentamento.
Em outros dias, minha alegria de menino era tanta e se transbordava de tal forma, que só de me ver Tipe danava a fazer círculos enormes pelo quintal, numa velocidade três vezes maior que normalmente ele mostrava: cinco, seis voltas, passando feito um tiro em meio a galhos, troncos, touceiras, pedaços de madeira, degraus de canteiros, colunas do ranchinho aberto (que ficava no caminho), vasos, vasilhames e todo tipo de tralhas. Nada, nada o segurava. Ficava morrendo de medo que ele trombasse de frente com uma árvore, tropeçasse numa garrafa ou ficasse entalado entre galhos cortados. Mas Tipe parecia guiado por uma força sobrenatural, como se algo o conduzisse pelas frestas mais escondidas para que ele seguisse sua sina de relâmpago.  Depois parava bruscamente, bebia sua água com sofreguidão e vinha manso descansar ao meu lado.
Talvez por seu reino se limitar às fronteiras do quintal, Tipe se tornou uma fera com estranhos.  Se era amoroso e cheio de dengos para com os da casa, com os de fora – exceto com a Jô, Dona Délia e sua neta Marcinha e, lógico, com a Tita, por quem Tipe morria de amores -, ele se transformava mesmo em Tigre Negro, rosnava com força e, se pudesse, partia para o ataque.
Seus alvos preferidos eram os meus amigos que vinham para brincar ou jogar bola no pátio: talvez achasse que eles queriam machucar o seu querido parceiro.  Nesses dias, Tipe latia furiosamente e sem trégua, e quase se esgoelava com a cabeça entre as grades do portãozinho. Meu pai chegou a colocar uma tela e alguns arames grossos para ele não se machucar ou ficar entalado, mas para infelicidade dos meus amigos, Tipe, de tanto chacoalhar o portão, acabava por abrir o trinco e disparava feito um raio louco pra cima dos meninos.
Um dia ele foi direto na canela do Genival: não machucou muito, mas fez terminar o  futebol daquela tarde e quase acabou com a amizade também. Mas quando o Tipe foi pra cima do Nando, a coisa ficou feia pro lado do meu cachorro. A sorte é que, goleiro voador que era, Nando deu três pulos altos e livrou sua canela saltando pra cima da mesa da copa.  E enquanto eu prendia o Tipe de novo, balançando no ar uma folha de espada-de-são-jorge (uma das poucas coisas que o Tipe temia, embora nunca tenha apanhado), meu pai foi tirar o Nando de cima da mesa.
Depois daquele susto, ficou decidido: enquanto meus amigos estivessem em casa, Tipe ficaria preso no quartinho dos fundos.  Mas para que meu amigo ficasse mais à vontade durante seu desterro, meu pai serrou a porta do quartinho ao meio e colocou um trinquinho na parte de baixo, deixando a metade de cima aberta para o ar, para o som e para o sol.
Jogando bola com a molecada, eu ouvia ao longe os latidos incansáveis e ferozes do Tigre Negro.  E quando os meninos iam embora, lá ia eu libertar meu amigo.  Que pulava em mim afoito, parecendo conferir se aqueles intrusos tinham me machucado.  Cheio de remorso eu abraçava meu amigo, enchia seu potinho de água fresca e me sentava ao seu lado, conversando com ele, perguntando por que era tão bravo.  E ele, Tipe renascido, já despido do temível Tigre Negro, se aninhava tranquilo por me ver seguro de novo.
Ele e seu parceiro, mais uma vez, tinham conseguido escapar de todos os perigos do Universo.

***
Além de ter sido um amado professor de Educação Física e um lendário técnico de basquete e vôlei, tio Sebastião Simões nunca deixou para o dia seguinte o que podia fazer no anterior. Talvez por isso, assim que se viu preocupado com minha coluna de 16 anos moldada pela miopia, ele resolveu construir uma barra fixa para eu me exercitar em casa. 
Para sustentar o cano de ferro da barra, tio Sebastião cavou dois buracos na parte cimentada do quintal e em cada um deles ergueu os enormes batentes de uma antiga porta que estavam encostados no ranchinho. Por fim, para deixar tudo bem seguro, construiu em volta da base daquelas colunas de madeira (já furadas no alto para receber o cano de ferro), dois “caixotes” de concreto.
De dentro do quartinho, enquanto tio Sebastião suava com suas ferramentas no quintal, Tipe  latia, só que sem muito entusiasmo. Mas só depois que a obra ficou pronta e tio Sebastião foi embora, que eu percebi que meu cachorro não estava muito bem: assim que foi solto, andando pelo quintal, Tipe trombou com a base da barra. Ele estava praticamente cego.
Não demorou muito, sua visão se perdeu totalmente, a barriga ficou inchada e dura, e ele entristeceu-se todo.  Só ficou a ternura. 
Numa tarde de sábado, minha mãe ligou para um ex-aluno que era veterinário. Ele veio, examinou o Tipe, balançou a cabeça e aplicou uma injeção para amainar suas dores.  E no dia seguinte, de manhã, as dores se foram todas. Menos a da tristeza, que se instalou sem prazo para ir embora: Tipe fechou os olhos sem que meus dedos precisassem passear por seu focinho.
Como meu pai estava em Ribeirão Preto, na casa da Ester, minha irmã Raquel convenceu seu namorado a cavar um buraco bem profundo perto do pé de caqui para enterrar o Tipe.  Eu despreguei uma das tábuas de uma caixa (do tipo usado para vender cachos de uva), peguei uma lente de aumento e fui pacientemente direcionando a luz do sol para queimar, feito um pirógrafo, a madeira macia. E ponto por ponto, fui gravando letras e números naquela lápide de pau, fogo e lágrima: “TIGRE NEGRO (TIPE) - 09/01/1979 - ...”.  A data da partida também estava lá na placa, mas agora não me lembro mais. Me esforço, faço contas e associações, mas o choro que embebedou aquele pedaço de madeira, apagou tudo. O ano talvez seja 1986 ou 1987 ou 1988, mas o dia e o mês se perderam em meio a todas as chuvas de céu e de olhos, assim como se desintegrou aquela tábua que tinha sido queimada pela dor e pelos raios do sol.
Meu pai, quando voltou de Ribeirão, para aplacar sua tristeza, plantou margaridas bem na área onde a terra ainda úmida abrigava meu amigo. E como a tristeza talvez fosse muita, nas bordas dos três canteiros do quintal, ele cultivou mais das mesmas flores, contornando aquele canto do mundo de branco, amarelo, verde e do silêncio de um Tigre Negro.
Até que eu girei a chave da porta da entrada de casa e, vindo lá de dentro, o latido vigilante de Tipe escorou-se em mim.  Mas quando entrei, nem era do Tipe a voz agora estancada: quem me olhava fundo nos olhos e corria para o tapete da sala de um apartamento, se esticando toda para um agrado, de barriga para cima, era a cadelinha malhada Nina.  Sem mesmo tirar o paletó, me agachei ligeiro para que as minhas mãos de menino se desdobrassem em mil e um afagos.  Mas aquele menino nem era eu.
Eu continuava de pé, no meio da sala daquele apartamento, vendo meu filho de capa e coragem, voando pelos séculos ao lado de sua parceira tigrada.
Os dois prontos para derrotar todos os vilões da galáxia.

Ilustrações: Erasmo Spadotto e Maria Luziano – cedidas pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 e 28/8 e 11 e 25/9/2016



sábado, 31 de janeiro de 2015

Mar japonês

(caio silveira ramos)

Conheci Rogério Nakamura na pré-escola e logo nos tornamos amigos inseparáveis. 
Ele vinha da Capital cheio de inteligência, ideias de brincadeiras novas, conhecimento sobre desenhos e séries de TV que eu nunca tinha ouvido falar e os mais interessantes brinquedos que eu já tinha visto: carrinhos de ferro que abriam portas, bonecos de heróis dos mais variados tipos, formatos e nacionalidades (inclusive japoneses), bolas, joguinhos de tabuleiro, arminhas de plástico e uma bola gigante com alça que a gente chamava de canguru. Nada devia ser caro, nada era de luxo: o que encantava era variedade e o ineditismo que me faziam viajar, imaginando como seriam as lojas de brinquedo de São Paulo.  Ou talvez as do Japão, já que na minha cabeça, meu amigo tinha parentes que viajavam até lá e traziam presentes mágicos para ele e para seus três irmãos (todos também inteligentes e espertos): Maurício, que já estava no colegial e era um excelente aluno; Selma, que mesmo terminando o ginásio, entendia muito de cinema e era fã da banda Queen, e Mauro, um menino de onze anos muito divertido, rodeado de amigos e um solitário são-paulino numa família de corintianos.
Uma família era completada pela generosidade de um casal aparentemente tão diferente e ao mesmo tempo tão unido que era impossível pensar em um sem enxergar o outro.   Doutor Suguio era alto, muito quieto e sereno.   Dona Marta era pequena, falante e onipresente como uma típica mãe italiana, só que de inquietos olhos puxados.   Além do carinho explícito que tinham um pelo outro, o que também os unia era uma dedicação incondicional à família, principalmente quando se tratava de oferecer as melhores oportunidades de estudo aos quatros filhos.
E quando eu menos esperava, eles me acolheram de tal forma, que cheguei a pensar alegremente que meus olhos ficariam puxados também.
Os Nakamuras me levavam, no Opalão vermelho de quatro portas, para todos os passeios da família, inclusive ao Clube Cristóvão Colombo, onde eram sócios de carteirinha e eu, quase isso, tantas vezes entrei como convidado.  E tantas também foram as vezes em que frequentei a incrível casa dos Nakamuras, na rua Luis de Camões, que tenho a impressão de que meus pés ainda devem caminhar pelas paredes do longo e alto corredor que saía da sala e buscava a cozinha e os quartos.
Uma casa com pés impressos na imaginação das paredes, com portas que desvendavam esconderijos inusitados e escorregadores feitos de tampos de mesa que levavam a doze mil mundos diferentes de brinquedos.
Talvez essa casa só tenha existido em algum sonho.
Ou no outro lado do mundo.

***

PROCURA-SE UMA CASA NA VILA MONTEIRO:
Uma casa de portão baixo, com a garagem visível, que deve abrigar até um opala de quatro portas, de preferência vermelho.  Do lado direito da garagem, atrás da parte fixa do portão, deve haver uma pequena área gramada com um pinheiro alto no meio, perfeito para ser enfeitado no Natal.
Dentro da casa, precisa-se de uma sala de estar, com duas venezianas quadradas e grandes, poltronas macias e um sofá confortável.   Da sala deve sair um corredor comprido e estreito que possibilite que meninos, de 6 a 10 anos, espalmando as mãos e os pés contra as paredes, subam até encostar as cabeças na laje.  E depois, coordenando mão com pé, pé com mão, desçam lentamente até o piso.  Ou de um pulo só, soltando mãos e pés, aterrissem no solo da cidade feito o Homem Aranha. 
O corredor deve ter uma porta para sala de TV, outras duas para dormitórios médios e, no final, tem que acabar num quarto de casal. Um quarto aparentemente simples, mas com um gigantesco guarda-roupa embutido numa das paredes.  Só que – e isso é fundamental –, uma das portas deve ser falsa.  Bem, a porta logicamente é verdadeira, mas atrás dela, em vez de roupas, tem que ser revelado um imenso banheiro de azulejo azul, próprio para esconderijos ou aberturas para mundos paralelos.
Voltando pelo corredor, finalmente deve-se entrar na tal sala de TV, com espaço suficiente para um grande aparelho em cores, coisa rara se essa casa for também procurada no começo da década de 1980.  Na transição para a cozinha, uma mesa de jantar deve comportar uma família de seis pessoas, com um lugar sobrando na cabeceira para uma visita de 7 ou 8 anos, que embora fique fascinada pelas cores de comidas feitas com arroz e algas, tem sempre garantidas no prato as melhores coxinhas de frango. 
Terminada a cozinha, uma porta telada deve dar saída para uma escadaria de concreto que termina na entrada de uma edícula e no início de um longo corredor que se abre à direita.  Nesse corredor, potentes cavaletes de madeira, ao sustentarem duas longas e pesadas tábuas lisas, formam uma mesa para almoços grandes e externos.  Mas as tais tábuas devem ser pesadas só o suficiente para que dois meninos pequenos possam levá-las (uma de cada vez) até a escada de concreto, criando, assim, escorregadores tão potentes que podem até tirar fumaça das pernas das crianças se elas estiverem de “shorts”.
Não deve ser raro, terminado o escorregador, que as crianças acabem conseguindo brecar apenas dentro da edícula, onde além de máquinas de lavar, tem que haver uma bela coleção de brinquedos, com bonecos japoneses e outros da Marvel ou da Liga da Justiça. E carrinhos de ferro Matchbox, que abrem as portas e trafegam por mil e uma cidades.
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: o pai de seu amigo, dono daquela casa, voltou a trabalhar em São Paulo, levando toda a família junto.  
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: seu amigo foi embora, deixando para ele, dois carrinhos Matchbox novos: um policial futurista com vidros verdes e um esporte laranja que abre as portas da frente.  
Procura-se um menino vagando triste pela Vila Monteiro: a família de seu amigo foi embora, deixando sua televisão colorida de presente. A primeira televisão em cores da família do menino, que pôde ver, naquele 1980, o Ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de Moscou, chorando colorido.
Mas vagando pela Vila Monteiro, o menino ainda procura aquela casa.
Chorando eternamente em branco e preto.

***

O pai do meu amigo Rogério foi chamado para um novo emprego em São Paulo e a família toda se mudou em 1980.  
Para manter a amizade, ele me mandava cartas contando pequenas notícias ou piadinhas inocentes.  E eu respondia enviando livros que tinha gostado ou histórias que eu mesmo escrevia e ilustrava com canetinha, normalmente narrando as aventuras do meu vira-lata Tipe transformado no super-herói Tigre Negro, que vivia salvando do perigo sua namorada Pink (por “coincidência” a cachorra pequinês dos Nakamuras).
Em janeiro de 1982, dona Marta e seu Suguio apareceram em Piracicaba para resolver alguma coisa sobre a casa da Vila Monteiro e me convidaram para voltar com eles para São Paulo. E mais: me convidaram para passar uma semana com a família na casa da praia de Peruíbe.  Eu, que nas férias de junho já tinha passado uma semana inteira longe de meus pais, achei que estava mais que habilitado para ficar distante da Moraes Barros mais uma vez.  Certo que, naquele junho, eu tinha ficado na casa da querida tia Josette, com a doçura do tio Samy e a alegria da prima Luciana me fazendo acreditar que os sons de Jundiaí eram extensões muito familiares da minha vida piracicabana.  Mas agora eu estava um semestre mais velho.  E os Nakamuras, afinal, eram minha família japonesa.
Com as bênçãos paternas – mas sob o choro da minha irmã Ruth – parti para São Paulo na mesma noite do convite.  No ônibus da Viação Piracicabana, com a cabeça apoiada no colo de dona Marta, me lembrei da primeira e única vez que tinha visto o mar.
Uns dois anos antes, meu pai fora para Santos visitar o Carlos Pinto, conhecido jornalista da área teatral.  Depois da visita, no final de uma tarde nublada, Carlos Pinto nos convidou para um mergulho no mar. Dissemos que iríamos apenas acompanhá-lo até a praia.   Me lembro da cena:  eu e meu pai parados numa estrutura de concreto – acho que era um grande duto que se esticava mar adentro – e Carlos Pinto, depois de um teatral mergulho, dando poderosas braçadas no oceano infinito.  Mas o que mais me chamou a atenção foram as baratas:  dezenas, centenas de baratas, rodeando o duto, desviando por piedade de nossos pés e entrando e saindo do mar de uma forma que nunca imaginei que pudessem.  De uma forma que eu nunca imaginei que o mar seria.
A não ser nesse dia teatral em Santos (em que as baratas disputaram o oceano com Carlos Pinto), meu pai nunca conseguiu levar minha infância até o mar, mergulhado que ele sempre estava no salário minguado e no serviço tanto, inclusive nos meses de férias, quando estudava, preparava aulas e ensinava as lições mais difíceis aos alunos com maior dificuldade de aprendizado.
Mas naquela noite de janeiro de 1982, com a cabeça apoiada novamente no colo de dona Marta, eu sonhava que o sacolejo que sentia não era do ônibus que nos levava do Terminal Rodoviário da Luz até a Vila Gumercindo.
Já era o balanço do mar.
Era o mar.
O mar.        

***
No dia seguinte à minha chegada à casa dos Nakamuras na Vila Gumercindo – casa com quase tantos segredos quanto a antiga da Vila Monteiro piracicabana –, partimos para Peruíbe.   No lugar do antigo Opala vermelho de quatro portas, seu Suguiu agora dirigia um Opala creme de duas, mas grande o suficiente para levar, com conforto, a esposa, os quatro filhos e um convidado magrelo ávido de mar.
Era final da tarde quando Dona Marta pediu para o marido lentear o carro numa rua paralela à praia para que eu espiasse o mar.
E o mar era azul. Azul como eu nunca tinha visto. 
Só que o encontro deveria ficar para o dia seguinte. Agora era hora de chegar, descarregar o carro, arejar a casa da praia, olhar curioso para os canais que passeavam paralelos às calçadas de quase todos os quarteirões, reencontrar com antigos brinquedos conhecidos que agora moravam na praia, comer, dormir.
Mas antes de dormir, a chuva chegou forte e egoísta. Na cama, imaginei baixinho que não poderia pisar na areia.  Não poderia tocar no mar.
Só que às cinco da manhã, acordei com um silêncio esperançoso brincando no lado de fora da casa. Peguei meu “Vinte Mil Léguas Submarinas” e fui quieto para a sala aguardar o dia em companhia do Capitão Nemo e do arpoador Ned Land.
Pouco depois seu Suguiu e dona Marta acordaram e decifraram minha vontade secreta: tentaríamos ir para praia, mesmo com o céu nublado.
E fomos.  O dia estava feio, cinza.  De perto, o mar não era mais azul. A praia parecia suja, mas só estava triste de galhos, plantas e conchas trazidos pela chuva ou pelas ondas. Quase que escondido, peguei um punhado de areia: queria era fazer castelos como os dos filmes, dos programas de TV: mas ela, escura, úmida, escorreu por entre os meus dedos. Nenhum castelo nasceria dali.   Foi então que Mauro e Rogério me chamaram para entrar no mar. E descobri que não sabia o que fazer.   O falso-infinito todo ali, cheio de som e tato, e eu perdido para sempre.
Fui andando, a água fria roçando os dedos, as canelas, os joelhos.  Meus pés experimentando todos os segredos do mundo.  E agora?  Que precisava ser feito? Caminhar, caminhar, caminhar até o corpo mergulhar todo até o outro lado do mundo? 
Então veio a onda e o riso. Riso meu, do corpo incendiado de sete mil novos sentidos.  Riso alheio, da minha falta de jeito.
Mas logo, enquanto os outros garotos se esqueciam de mim e se fartavam de mar, Mauro e Rogério se deram conta da minha emoção de menino ensimesmado e se enterneceram para mostrar como a onda devia ser recebida. Como eu deveria me entregar a ela. Como eu poderia me deixar levar pelo mar sem me perder para sempre.  
E o mar foi se amoldando ao meu corpo caipira, me fazendo dele, me mostrando que ele era para se brincar e se temer. E que sempre estaria ali, indomável, estranho, feito para esticar minha pele e a minha alma até a margem distante lá do outro lado.
Hoje (e para sempre), ainda que longe dos cuidados de uns olhos nikkeis a me guardar da beirada da areia ou da onda ao lado, a cada nova entrada no mar, eu me paraliso-menino-feito-de-um-dia-nublado.  
Até que nos reconhecemos mais uma vez. 
E, feitos de onda e sal, eu e o mar nos fantasiamos de infinito.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  5 e 19/12/2014 e 16 e 30/01/2015