sexta-feira, 13 de julho de 2018

As certezas absolutas


(caio silveira ramos)



Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

(Os sapos – Manuel Bandeira)


Não sei, não, mas acho que vivemos no tempo das certezas absolutas.
Em redes sociais, entrevistas, artigos, livros ou palestras motivacionais, gurus, filósofos, artistas, astronautas, técnicos de futebol, esportistas, celebridades renascidas, influenciadores digitais e até sapos expõem com uma convicção inabalável a receita perfeita para o bem viver. Dissertam sobre a jogabilidade, o sentido da vida e a arte da guerra. Eles sabem o que é certo, eles não gaguejam, eles são vitoriosos e farão você alcançar o sucesso.
Você sempre esteve errado: eles indicarão o caminho.  Seus traumas? Em uma semana, um curso fará você emergir do lamaçal em que esteve perdido: tudo será revelado pelos sapos que coaxarão aos quatro cantos a trilha correta da sua liberdade. Da sua liderança. Da sua vitória.
Por que você pergunta? Por que você questiona? Eles afirmam que você deve questionar, mas repare: eles já têm as repostas.
Talvez eu precise fazer um curso desses. Ouvir uma palestra que arranque todas as minhas dúvidas e me afaste do fracasso. Ou quem sabe eu deva me inscrever em um canal do “Youtube” em que filósofos de palavra e terno justos me digam como criar meu filho, como enfrentar meu passado, como renascer para o futuro.  Pois eu vivo cheio de dúvidas.  Não me orgulho da minha ignorância, mas sei que ela é vasta. Minhas incertezas caminham comigo diariamente.  Mas os sapos coaxam suas certezas.
A auto-ajuda finalmente catapultou-se das gôndolas das livrarias e invadiu sua vida.   E eu nem sei o que almoçarei amanhã.  Mas eles sabem o que eu devo comer e a forma que devo me vestir e me portar. Como devo me posicionar a cada momento. Sabem até em quem eu devo votar.  Do uso do cúrcuma ao reuso de Nietzsche, os sapos dizem que você está fazendo tudo errado. Tudo foi feito sempre errado. Você sempre errou. O mundo errou. Mas eles estão certos.
A vida precisa de certezas.  Como seria possível sem elas construir prédios, desenvolver vacinas, voar sobre os oceanos, ir até a lua, ensinar matemática, executar leis, erradicar doenças, salvar vidas, plantar e colher alimentos, passar de geração para geração os conhecimentos adquiridos pelos povos por tantos séculos?  As certezas são fundamentais para o desenvolvimento humano.  Mas não essas certezas que critico: critico a arrogância dos novos gênios que dizem solucionar qualquer problema existencial por meio de fórmulas simples e discursos vazios. Critico os alardeadores da vida saudável baseados na “existência de vários estudos”.  Critico os que vendem a ilusão do caminho seguro para que sua vida adquira novos rumos e você seja um vencedor. Mas vencer o quê mesmo?
Paro por aqui, antes que eu me encha de certezas e me torne um novo sapo.  Eles que continuem fazendo sucesso, vencendo suas batalhas (seja quais elas forem) e ganhando seu dinheiro coaxando.
Quanto a mim, continuarei dando conselhos ao meu filho: ele precisa de certezas para crescer.
Mas deixarei sempre com ele o benefício da dúvida.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 8/7/2018

A saudade que ficou


(caio silveira ramos)

Agora neste ano de 2018, o dia 4 de maio me pregou mais uma peça: faleceu o compositor Elzo Augusto. Exceto pelo também grande compositor e intérprete Luiz Ayrão, que publicou um belo texto sobre Elzo em uma rede social, não houve notícias em jornais, nem lamentos de outros artistas. 
Como acontece com a maioria dos compositores populares brasileiros, Elzo não era conhecido do grande público, mas suas músicas até hoje são tocadas em rodas de samba infinitas e até em intermináveis festas infantis. É dele, por exemplo, “A saudade que ficou (O lencinho)”, sucesso na voz do já citado Luiz Ayrão (que também assina o samba por meio de um de seus pseudônimos: Joãozinho da Rocinha). E é de Elzo Augusto a inconfundível versão em português de uma canção que na internet consta como de autoria de Honorio Herrero e Luis Gomez Escolar: “Comer, comer” (“comer, comer, comer, comer é o melhor para poder crescer”) que foi inicialmente gravada pelo grupo “Brazillian Genghis Khan”, se transformou num estrondoso sucesso, recebeu regravações de inúmeros outros artistas e conjuntos, e até hoje tem seu refrão cantado por milhares de crianças.
Elzo nasceu Elso (mas era para ser Nelson) em Jaboticabal, em 19 de setembro de 1930.  A partir da década de 1950 passou a ser gravado por intérpretes fabulosos como Ângela Maria, Jamelão, Gilberto Alves, Joel de Almeida, Demônios da Garoa, Francisco Egídio, Luiz Gonzaga, Dalva de Oliveira, Hebe Camargo, Pery Ribeiro, Isaurinha Garcia, Luiz Ayrão e Germano Mathias.  Como se não bastasse, os apresentadores Silvio Santos e Chacrinha também gravaram músicas compostas por Elzo com muito sucesso.  Isso sem falar nos inúmeros artistas de quem ele foi empresário.  Aliás, graças ao Elzo, pude conhecer o mítico Jamelão após um show memorável no SESC Ipiranga.
No livro “Sambexplícito: as vidas desvairadas de Germano Mathias”, me debrucei um pouco sobre a obra de Elzo Augusto e, em um capítulo a ele dedicado, apelidei-o de “A lanterna de Diógenes”. 
A imagem me veio quando descobri que Elzo, ao lado de José Saccomani e Jorge Martins, compusera o sucesso de Gilberto Alves “Lanterna na mão” (1960). Então divaguei: “A partir da década de 1970, apenas carregando orgulhoso os farrapos do seu samba, Mathias, esmigalhado pelo reverso da fama e da fortuna, passou a perambular no pseudo-túmulo paulistano para vasculhar entre os mortos a música verdadeira. Foi então que Elzo se transfigurou na lanterna daquele diógenes, guiando-o por entre as ruelas, não deixando que ele tropeçasse nos corpos estendidos, sacando da escuridão palcos e síncopes para iluminar o seu caminho desesperado. E ainda hoje, mesmo aquecido pelo sol de Taipas, Diógenes, em seu tonel, mantém a lanterna acesa”.
Pois não era de Elzo a composição “Costela Predileta”, samba que me fez descobrir a figura espantosa de Germano Mathias cantando entusiasmada nas noites de sábado no programa “Festa Baile” da TV Cultura? Não era de Elzo o sincopado-manifesto “Samba da periferia”, declaração de princípios com que Germano abria apoteoticamente seus shows?  Não fora  Elzo quem compusera para a Escola de Samba “Flor da Penha” o samba-enredo em homenagem a Mathias “Esquentando a memória do povo”?  Não tinha sido o palmeirense Elzo quem criara o hoje clássico “Bandeira do Timão”, fazendo Germano voltar a um estúdio para gravar depois de décadas?  Não tinha sido Elzo quem, em 2002, compusera todas as faixas e produzira o CD “Talento de Bamba”, primeiro disco solo do “Catedrático do Samba”, que tinha gravado seu último LP lá em 1974?  Pois foi Elzo, poeta introspectivo que Mathias sempre admirou, quem nunca deixou de acreditar no talento de seu amigo bamba e, por ele, se transfigurou em lanterna e porto seguro.
Alguém poderá dizer que Elzo era um homem duro, seco, mas o conheci graças a sua humildade. Graças a sua generosidade. Um certo dia, recebi uma ligação e a voz rouca de Elzo Augusto se apresentou.  A seguir, disse que tinha apreciado muito dois sambas meus cantados por Germano e por isso gostaria de me encaminhar algumas de suas letras para que eu colocasse melodias.  Me envergonhei, não me senti capaz, mas disse que sim, ficava orgulhoso do convite, da confiança e da futura parceria.  Ele me enviou pelo correio dezenas de canções e sambas cuidadosamente datilografados e eu, muito sem jeito, coloquei minhas melodias encabuladas.  Elzo gravou algumas delas em CDs autorais que me enviou de presente assim que saíram do forno.
Quando soube apenas um mês depois que “Ela” – assim Elzo chamava a morte, inclusive num samba antológico gravado por Mathias – viera encontrá-lo após tantas escapadas, liguei para Germano que ficou estarrecido com a notícia. 
Para consolá-lo, lembramos de tantas gravações que ele fizera dos sambas de Elzo durante décadas.  Ele cantou alguns, mas depois se calou.  Precisava desligar o telefone.
Para me consolar, peguei o livro “Extensão de mim”, no qual Elzo conta um pouco de sua vida, lembra de suas composições e escreve sobre seus parceiros.  Na página 126 ele me dedicou um verso singelo: “Você, novo parceirinho, meu balaio está cheio de letras e temas pra ganhar seu cavaquinho”.
Por aí vou assobiando: uma melodia me chega, depois vem outra, e outra, e outra, mas já não há as letras de Elzo Augusto para que elas descansem e se abriguem.  Então as melodias se fazem esquecer, se emudecem, se perdem no ar.
Que um dia elas, livres de mim, possam nascer de novo no peito de outros poetas.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 24/6/2018

Memórias de um café


(caio silveira ramos)


O Meireles, além de amigo querido, é uma figura incrível: conhecedor de uma infinidade de assuntos, ele escreve bem como poucos e possui a incrível capacidade de compartilhar sua sabedoria com o mundo.   Generoso e humilde, ele não reconhece seu talento. E não é por falsa modéstia.
Pois o Meireles foi obrigado a usar suas férias para cuidar do pai, que faria uma delicada cirurgia no joelho.  Um dia antes da partida, o Meireles ficou até mais tarde na repartição, adiantando o serviço para não atrapalhar o colega que o substituiria durante as férias. E no dia seguinte bem cedo, lá foi ele para sua cidade natal no interior de São Paulo.
O pai do Meireles era um velho e querido cardiologista na tal cidade. Nos últimos tempos, por causa da saúde debilitada, tivera que abandonar suas atividades e seus pacientes, e por isso andava acabrunhado, como se a vida não precisasse mais dele. 
Feita a operação, já no quarto, o Meireles chegou perto do pai perguntando se tudo estava bem. O velho médico disse inicialmente que sim, mas num momento raro de desabafo, ele, quase sempre quieto, confessou envergonhado que sabia do incômodo que causava em todo mundo, que não servia mais pra nada, que virara um verdadeiro estorvo para a esposa e para os filhos.
O Meireles teve vontade de acarinhar a cabeça do pai, mas se conteve: os dois há muito não trocavam essas ternuras e o velho médico poderia se sentir mais envergonhado ainda.  Ficaram ali, se observando, o Meireles distraindo o pai com uma conversa qualquer sobre política ou algum parente distante.
No dia seguinte, a mãe do Meireles foi passar algumas horas com o marido no hospital para que o filho pudesse sair um pouco, tomar um banho. Espairecer. 
Como a cidade era pequena e a tarde ensolarada, o Meireles resolveu voltar a pé para a casa dos pais.  Foi andando, revendo as ruas da infância, as vitrines das lojas novas, o comércio popular se abrigando nas calçadas.  Pensou em comer alguma coisa e se lembrou do “Café Portinari”.  Na verdade, nem estava com fome: provavelmente pensara antes no lugar que no estômago.
O “Café Portinari” era o preferido ponto de encontro do pai com os velhos amigos.   Lá eles se reuniam no sábado ou mesmo durante a semana depois do expediente.  O grupo era formado principalmente por médicos, como o pai do Meireles. Mas também havia um advogado, dois engenheiros, além de um ou outro amigo que de vez em quando aparecia por lá também. 
Não, não, o “Café Portinari” não era nem um pouco majestoso: quem descia a rua de paralelepípedos reparava que a entrada era apenas um pequeno retângulo recortado na parede - provavelmente da parte mais alta do porão - da “Pousada Luz da Aurora”, um velho prédio que ocupava aquela esquina desde 1919.  Dentro, a suposição da pequenez do lugar se confirmava: o Café era quase um corredor com algumas poucas mesas. Não se sabe se pela arte do nome, pelo café, pelo atendimento, pelos amigos do pai ou pelo aconchego, mas o fato é que para o Meireles o lugar tinha um encanto indiscutível.
E atrás desse encanto ele veio caminhando tranquilo, respirando o ar da tarde para esquecer o do hospital.  Entrou na rua José Pires e, antes de atravessá-la, reparou no vaso de flores frescas bem próximo da centenária porta de folhas duplas da “Pousada Luz da Aurora”. Mas quando desceu a rua com os olhos, no lugar das mesinhas do Café despontando na calçada, ele deu de cara com o torso de uma manequim de plástico branco vestida com um “baby-doll” transparente.  E acima do toldo da conhecida entrada, em vez de “Café Portinari” ele se deparou com uma tabuleta oval onde se lia: “Tieta’s Lingerie”.
Estacou um instante, pensou estar na rua errada, mas não: na calçada oposta reinava ainda a “Pousada Luz da Aurora” que afastava qualquer engano.  Desceu um pouco mais, disfarçou, espichou os olhos para dentro da loja, viu outras peças de roupas íntimas penduradas em cabides. Perto da entrada, um cartaz escrito à mão avisava: “atacado e varejo”.
Meireles nem chegou a atravessar a rua: deu meia volta, começou a andar sem rumo e quando se deu conta estava na casa dos pais.   Entrou, rumou direto para o banho e embaixo do chuveiro pensou no porquê de tanto estupor.  Pois, muitas lojas que conhecera não haviam também dado lugar a outras?  Além disso, ele nada tinha contra roupas íntimas ou personagens de Jorge Amado.  Talvez alguma coisa que só Freud pudesse explicar: o lugar preferido do pai era agora uma loja de “lingerie”... 
Mas só quando voltou ao hospital, entrou no quarto e viu o velho ressonando no leito é que se deu conta de que o fechamento do “Café Portinari” encerrava um tempo. O tempo do pai.  Daquele antigo pai. Um pai diferente desse que estava ali agora indefeso, frágil, envergonhado do pus de suas feridas.
E sem perceber, ajeitou a coberta daquele pai, que abriu os olhos, sorriu manso e voltou a dormir tranquilo.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 10/6/2018

Cheguei numa Sexta-Feira Santa


(caio silveira ramos)

Cheguei numa Sexta-Feira Santa.
Não ao mundo, que isso foi na Quarta-Feira.
Cheguei em casa (“em” mesmo, que chegar “a casa” seria muito pouco acolhedor) numa Sexta-Feira Santa.  A velha casa. A casa da mãe, do pai, das irmãs, da infância. Cheguei em casa que, no fundo, no fundo, é chegar ao mundo também.
Dizem que estavam as três meninas sentadas na escada de madeiras largas do saguão da entrada, lugar do mais alto pé direito da casa. Ali, entre a porta da rua e a do corredor que dá para a sala.
As três meninas, oito, seis e quatro anos.  As três irmãs sentadas no mesmo degrau, uma ao lado da outra.  Quel, a mais nova, devia estar com uma blusinha de manga comprida e uma calça confortável. Ruthinha, a do meio, de vestidinho branco de algodão bem macio. Teca, a mais velha, de blusa de frio com decote em “v” e calça de brim azul. As três quietas e tentando enxergar, através dos quadrados de vidro trabalhado da porta que dava para a rua, se alguém estava chegando.  Se alguém estava passando.  O trá-trá-trá do caminhão de lixo e o fluplam-flupam-flupam dos lixeiros em correria, jogando o conteúdo das latas quadradas de óleo no tal caminhão antes de devolvê-las às calçadas? O lefe-lefe da correspondência passada por baixo da porta pelo carteiro de boné amarelo-claro? O poque-poque do cavalinho da carroça do seu João Verdureiro? O troque-troque da roda do carrinho do seu Doceiro? “Não, não, Quel, hoje é feriado. Não tem lixeiro, carteiro, verdureiro, nem doceiro.”
“Eu queria só seu Doceiro. Tô com fome. Será que vai demorar ainda?”
“Olha, olha, acho que estão chegando... Não, foi só alguém andando até o ponto de ônibus”.
“Mas hoje não é feriado? Tem ônibus?”
“Claro que tem.”
“Tô com fome.”
“Eu quero conhecer logo meu irmãozinho...”
“Vocês querem fazer silêncio? Não pode ficar falando! Hoje é dia que Jesus morreu!”
“Jesus morreu hoje?”
“Não foi bem hoje, mas é como se fosse...”
“Ele morreu, então? Ah, não!”
“Parem de choramingar. Vocês são muito crianças mesmo! Não entendem nada.”
“E você não é criança também?”
“Olha, olha, olha, acho que chegaram...”
Mas era só mais alguém passando.
Às vezes penso que aquele momento ainda está ali: elas esperando, esperando até hoje, sentadinhas, fazendo psiu com os dedinhos indicadores na boca: silêncio porque é o dia que Jesus morreu.
Não me vejo chegando, a casa desperta, as três em volta da mãe espiando o bebê no colo e dizendo palavras enternuradas. Vejo-as ali na escada esperando.  Ou depois: as lembranças palpáveis daquele dia ou dos seguintes: o berço montado novamente com seu colchãozinho de palha. A pulseira de identificação do hospital. A cesta de plástico verde com bolinhas brancas para guardar produtos de higiene. Um sem fim de babadores coloridos dados por alunas, vizinhas e amigas da mãe.  Um quadrinho pintado por tia Clemência com um anjo alto abençoando um bebê loiro.
Não me vejo atravessando a porta, as meninas se encantando.
Mas disseram e eu acredito:
Cheguei numa Sexta-Feira da Paixão.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 20/5/2018

Três personagens e um quase autor


(caio silveira ramos)

Não há ninguém desinteressante.
No fundo da alma do ser aparentemente mais insosso, um mundo se revolve.  Mesmo quem atravessa a vida inteira no sossego e na pacatez, em algum momento perdido, um fato ou um ato acabam por deixar um sinal certeiro. E um romance todo pode ser escrito em vinte volumes.
Mas há aqueles que vão além: um simples apelido ou até um jeito peculiar de ser constroem personagens completos.  Prontos. Como são os casos de Galo Cego, Mirtica e Trovisin.
Quem me falou do Galo Cego foi o Zé Borges: eles moraram no mesmo bairro quando crianças.  Bom, talvez só o Zé fosse criança, porque o Galo Cego já usava barba rala, camisa aberta no peito castigado pelo sol e a corrente de metal barato no pescoço.  Pelo menos é assim que eu imagino o Galo Cego. Ou simplesmente o “Galo”, como diz o Zé Borges quando reconta as histórias perdidas do amigo.
Pois o Galo devia ser mais velho que sua turma. E acho que foi ele quem apresentou para a molecada do bairro os estabelecimentos comerciais mais fuleiros da cidade.
“Estabelecimentos comerciais”: assim o Zé Borges chama aqueles botecos com prateleiras altas, lotadas de cima a baixo com garrafas (milimetricamente arrumadas) da pinga mais sem-vergonha.  No balcão, sob o vidro já embaçado, deve ter um pratinho de azeitona ou de tremoços, um ovo colorido de 1951 e uma mosca já caduca.  Os mais sofisticados têm uma mesa de sinuca com tacos meio tortos e o pano, de um verde desbotado, cheio de marcas de giz.
Para mim, o Galo devia ser o rei daqueles estabelecimentos todos.  E também das vielas, das esquinas, das noites espalhadas. Quando a meninada se deu conta, o Galo já tinha perdido uma vista. Imagino que fosse a vista esquerda, o que aprimorava sua mira, embora o Galo não usasse a arma de fogo e preferisse acertar suas contas por meio de seu vernáculo burilado nas encruzilhadas.
Dizem as mais línguas, que a vista se perdeu quando o Galo, trançando as pernas na madrugada, tropeçou na guia e feriu o olho num caco de garrafa. Mas para mim foi numa briga, defendendo uma moça que estava apanhando de um safado qualquer. O Galo chegou, intimou o sujeito, que largou o braço da garota e sorriu debochado, porque percebeu que um comparsa chegava pelas costas do herói com a navalha armada. O Galo ainda encheu a cara do covarde, mas a navalha traíra riscou seu olho sem pena. Os bandidos apanharam, fugiram e nunca mais foram vistos. A moça se apaixonou pelo Galo que, pra tranquilizá-la, forjou no fundo da dor um “não foi nada, não foi nada”. Mas a vista se perdeu para sempre e o apelido arranhou sua alma como a navalha traiçoeira.
Galo Cego que, pelo que o Zé falou, “vivia de expedientes”, se meteu em muitas outras brigas. Por ele, pelos amigos, pelas mulheres. Mas foi ficando velho, a molecada pra quem ele ensinou a malandragem foi tomando rumo, arranjando emprego pra sobreviver, se aprumando, constituindo família, deixando o Galo sozinho nos estabelecimentos comerciais e nas brigas.
Muitas histórias contam do Galo. Algumas dizem que ele mesmo inventou, como aquela que vivia repetindo nos últimos tempos, se gabando: a de que tinha namorado, antes de ficar famosa, uma atriz da Globo nascida na cidade. O pessoal ria: “menos, Galo! Pega leve. Você não, né?”  É que quando o Galo começou a contar essa, a bebida vinha comendo bonito seu fígado e o sol castigando ainda mais sem dó sua pele enrugada.  Aliás, ele parecia mais velho do que de fato era.  Tossia, resmungava, tava ficando rabugento. Apanhando mais do que batendo.
Dizem que teve filhos, mas mesmo quando começou a capengar, parece que nenhum quis saber dele. Ele que, aliás, sempre morou com os pais.  Falaram que era bom filho, nunca os abandonou porque os dois tiveram ele tarde e sempre pareceram doentes.
A mãe enviuvou, o Galo deu uma sumida.  Num estabelecimento comercial qualquer, perguntaram dele durante uma conversa vadia. Alguém disse que tinha parado de beber, que tava cuidando da mãe e arranjara um emprego pesado para pagar os remédios dele e dela.
Mas o Zé Borges veio dizer outro dia “que soube por alguém que”, depois que a mãe partiu, o Galo degringolou de novo.  E agora tava, vai não vai, num hospital vagabundo qualquer, definhando, pele e osso.   No bairro, dizem até que ele já morreu.  “Coitado do Galo”, diz o Zé Borges. 
Zé Borges, que pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

Quem conhece bem o Mirtica é o tio Vavá, que na verdade não é meu tio, mas é tratado como se fosse.  De qualquer forma, não tem uma história contada pelo tio Vavá, nem uma conversa entre ele e seu irmão Roberto, o Brancão, que lá pelas tantas o Mirtica não apareça.  E como nunca tive o prazer de conhecer o Mirtica, para mim ele é uma verdadeira lenda. Um mito.
De fato, a presença do Mirtica nas conversas tem diferentes funções, dependendo da situação e do estado de ânimo dos participantes.  Vejamos lá alguns casos:
Mirtica como indicador de tempo:
“(...) não, não foi nesse ano que você falou! Foi antes! A segunda filha do Mirtica nem tinha nascido ainda nessa época!”
Mirtica como índice de evolução patrimonial:
“(...) eh, eh. Olha essa foto! Quem tinha uma Brasília velha igual a essa era o Mirtica! As coisas mudaram... Hoje ele só anda de carrão!
Mirtica: uma referência na moda:
“Chique mesmo era aquela calça boca-de-sino do Mirtica!”
Mirtica: a verticalização das cidades e a mudança nos costumes:
“(...) concordo, pode até ser mais seguro. Mas morar em prédio é diferente de casa: magina se eu tenho amizade com meu vizinho do apartamento da frente que nem eu tinha com o Mirtica...”
Mirtica e o aquecimento global:
“(...) hoje, mesmo no frio, vê se o Mirtica ia conseguir usar aquele casacão dele...”
Mirtica e os programas de culinária gourmet:
“Picanha? Desse jeito? Muita frescura pro meu gosto! Picanha boa mesmo foi aquela que a gente comeu lá na casa do Mirtica!”
Mirtica: solução ou polêmica?
“Não, Brancão! Não tá comigo: a morsa grande o pai deu de presente pro Mirtica.  Você lembra como o pai gostava dele! Já a torquês, o Mirtica emprestou faz uns trezentos anos, mas devolveu quando o pai ainda tava vivo. E comigo também não tá!”
É verdade: seu Domingos, pai do tio Vavá e do seu Roberto, gostava mesmo do Mirtica. Pedreiro de mão cheia, grande e forte como um touro - capaz de derrotar no braço de ferro, e ao mesmo tempo, os dois filhos parrudos (e, se bobeasse, o Mirtica junto) –, seu Domingos era um trabalhador incansável, mas também um apreciador das boas coisas da vida. “Eh, é uma beleza tudo!!!” era uma de suas frases preferidas.
Seu Domingos gostava de receber os parentes e amigos ali na entrada da casa (construída por ele), entre o portãozinho e a porta da sala: em vez do carro, ele colocou naquele espaço uma mesa de tampo quadrado e quatro cadeiras, todas de madeira rústica e provavelmente feitas também por ele.
Tal qual um rei, ele se sentava na cadeira voltada para o portãozinho e, com as mãos apoiadas na bengala ou no tampo da mesa, botava os grandes olhos azuis na rua ou conversava longamente com quem o visitava. Enquanto isso, aquele soberano apreciava calmamente um copo de vinho ou cerveja. Eu, que conheci seu Domingos quando ele já tinha quase oitenta anos, sempre aparecia por lá para bater um papo ou simplesmente levar uma caixa de bombons ou alguma outra guloseima: ele amava doces e eu, sua sabedoria.  “Eh, Piracicaba! Que beleza!”. 
Muitas vezes, enquanto estava por lá, vi chegar o tio Vavá com sua alegria. E seu Domingos, depois de ganhar na testa um beijo do filho, abria o sorriso e com a voz brotada lá em Laranjal Paulista (mas tecida pela vida toda de “lavoro” em Santo André) perguntava da nora, dos netos e, lógico, do Mirtica.
“Mandou um abraço pra mim, fio? Ah! Que amigo bom é o Mirtica! A vida é mesmo uma beleza!” – dizia seu Domingos.
Seu Domingos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

O Trovisin era um grosso. E não só os colegas do ponto de táxi diziam isso: a maioria dos passageiros – principalmente as senhorinhas (e o bairro era repleto delas) –, os porteiros dos prédios, o pessoal da padaria e os entregadores de pizza viviam reclamando dele para o Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto, que vire e mexe tinha que perder uma tarde inteira no departamento de trânsito para livrar a cara do Trovisin.
Não que o sujeito fosse má pessoa. O problema era que ele vivia dizendo que tinha sido motorista do falecido humorista Costinha e por isso gostava de contar, para quem quisesse ou não ouvir, piadas que fariam o próprio comediante ruborizar de vergonha, tão escabrosas eram elas.  Pra completar o quadro, o Trovisin tinha uma boca murcha sem dentes (que o ajudava em caras e trejeitos que lembravam de fato o Costinha), usava normalmente camisas do tipo polo que não lhe cobriam totalmente a barriga e calçava diariamente vistosas sandálias de tiras claras e grossas.   Ninguém entendia como aquele senhor de cabelos totalmente brancos, que já devia ser até avô, pudesse falar tanta besteira por centímetro quadrado de frase. 
Marrento, vivia discutindo por qualquer bobagem com os colegas do ponto: dera um empurrão no Ivan (que ao cair esfolara o braço no muro), ameaçara puxar uma faca pro Mosquito e até o Carlão, que fala manso e normalmente é sereno como um monge, ele tirara do sério.   Uma vez, passei de ônibus em frente ao ponto e vi seu Valdir e Trovisin parecendo duas crianças birrentas, sentados de braços cruzados, emburrados e mudos, cada qual em seu extremo do banco de madeira. Aliás, os dois viviam às turras, pregando quase todos os dias com fita adesiva, no telefone do ponto, bilhetinhos com frases altamente motivacionais como “é a sua inveja que faz meu carro ir para frente” e outras tantas com um linguajar nem tão polido assim.
Adorava aterrorizar as velhinhas que desavisadas pegavam seu carro e acabavam ouvindo suas piadas indecentes. As que já conheciam o Trovisin (que reclamava uma barbaridade com elas quando a corrida era curta), ao perceberem que o carro dele estava em primeiro lugar no ponto, disfarçavam e faziam uma horinha na banca do João (vendo alguma revista ou comprando figurinhas para os netos) até que o Trovisin saísse para uma corrida.  Se ele percebesse antes, gritava: “ô dona fulana, pode vir, não tenha medo, não! Seu preferido não está aqui, mas eu faço um servicinho pra senhora!” Algumas continuavam fingindo na banca, mas muitas atravessavam a rua, falavam “seu descarado!” e entravam no carro seguinte.  Dizem que numa época em que ficou quase sem clientes, atendia ao telefone do ponto mudando a voz e dizendo seu primeiro nome, que quase ninguém conhecia. Ele saía para buscar a cliente no endereço informado, mas voltava logo: a passageira quando via que o tal “Antônio” era o Trovisin e não um novo taxista no ponto, recusava a corrida.
Ele gostava de dizer que tinha perdido um dos dedos da mão durante uma briga com um sujeito armado: no primeiro tiro, o dedo tinha voado longe. Mas quando o outro foi dar o segundo, Trovisin conseguiu desarmá-lo, acabando por matar o sujeito.  Dizia que tinha sido absolvido por legítima defesa, mas eu e o Zé Carlos Alves desconfiávamos que aquela história toda era mentira e o Trovisin tinha mesmo perdido o dedo fugindo de um marido traído.  Porque o cara podia ser feio como o capeta, mas era metido a namorador incorrigível.
Quase nenhuma empregada doméstica passava pelo ponto sem que o Trovisin se entusiasmasse.  Nessas horas, para conquistar, se fazia educado, “posso ajudá-la a carregar as sacolas?”  Se a moça caísse na conversa, ele ficava tão empolgado que dava presente, ajudava a família com cesta básica, fazia comidinhas nos encontros amorosos.  Quando se apaixonava de fato, perdia a cabeça, se metia em dívidas e comprava até celular para falar mais tempo com a escolhida.
Foi o que aconteceu com a moça da cicatriz.

***

Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto de táxi em que trabalhava o Trovisin, era o oposto do colega: vivia para a família, se orgulhava da honestidade, respeitava de criança de colo a idoso com mais de cem anos, cumpria as promessas mesmo que baseadas somente no fio do seu bigode e, por um amigo ou cliente, era capaz de ir até o outro lado da Muralha da China com seu táxi.  Além da esposa e da neta - que por ter superado um grave problema de vista, era seu grande orgulho, exemplo e paixão -, tinha quatro filhas, o que fazia com que tivesse a mais profunda consideração por todas as mulheres do mundo.
Família, nome, amigos e honra eram os grandes tesouros do Zé. E se alguém mexesse com qualquer um deles, ele virava bicho.    Foi o que aconteceu certa vez numa história do Zé Dançarino, também taxista do ponto.  Pois não é que o tal sujeito chegou num prédio e pediu pra chamar certo morador?  “Quem que eu devo anunciar?”, perguntou o porteiro.  E o outro: “José Carlos, taxista.”
O morador, que era cliente do ponto e sabia que o Zé não o procuraria por qualquer coisa, desceu voando.   Quando chegou na portaria, deu de cara com o Zé Dançarino, que teve a cara de pau de pedir cinquentinha “pra comprar um remédio pra mãezinha”.  O cliente, pego de surpresa, sacou a grana e deu.  Mas depois, se sentindo uma besta, contou tudo pro Carlão, que ficou furioso e repassou para o Zé Carlos Alves.  Que ficou mais furioso ainda e partiu pra cima do Zé Dançarino: “você usou meu nome, safado!” “Mas eu também me chamo José Carlos!” “Mas o cliente não sabia disso, malandro!”
O Zé Carlos Alves, além de enfrentar as artes do Zé Dançarino, tinha o maior trabalho com o Trovisin, tantas eram as reclamações do mau comportamento do sujeito.    Fosse lá por que motivo, eu gostava de provocar o Zé Carlos Alves dizendo que, no fundo, o Trovisin era um incompreendido.   E eu dava até exemplo disso.  Ele tratava mal os passageiros? Pois eu contava uma história acontecida comigo: num dia de chuva forte, estava eu de terno e gravata, sentando no banco do ponto, esperando que algum táxi aparecesse.   Eis que o Trovisin encostou o carro, abaixou o vidro e disse: “não posso levar você hoje: tenho uma corrida marcada daqui a cinco minutos. Mas sobe aí que eu vou encontrar um carro em algum outro ponto”.  Eu disse que não precisava, ele insistiu e lá fomos nós. Uns três quarteirões depois, encontramos um táxi num ponto, o Trovisin chamou o colega e quase ameaçando, recomendou: “leva o homem direitinho que é gente boa”.   No outro dia, contei a história e provoquei o Zé Carlos Alves: “não falei que o Trovisin é um incompreendido?”  E o Zé: “incompreendido? Vai nessa, vai...”
Mas o que eu gostava de dizer ao Zé Carlos é que o Trovisin, na verdade, era um romântico.  E, falando sério, até comecei a acreditar de fato nisso.
O Trovisin vivia contando sobre suas façanhas. No começo eu fingia que ouvia e pensava noutra coisa, achando que era papo de cafajeste.   Mas depois comecei a perceber que debaixo daquela papagaiada toda se revelava um ingênuo.   As mulheres faziam dele gato e sapato.   Teve até um marido de uma delas (que o Trovisin jurava que era viúva) que um dia ligou para ele e chacoteou: “e aí, meu irmão? Não vai mais mandar cesta básica aqui pra casa?”.  Trovisin ficou doido, mas era assim mesmo: quando se apaixonava, dava presente, comprava leite especial se amada dizia que o filhinho tinha intolerância à lactose e por aí vai.  Celular então, já tinha comprado uns cinco para diferentes namoradas.
Numa das corridas, ele falou da conquista da vez.  A moça estava no ponto de ônibus, não era bonita, mas ele também não.  Trovisin puxou papo, conversaram, começaram a se ver. Um dia, ele a levou pra casinha dele. 
Quando me encontrou, veio satisfeito me contar. Disse que a moça tinha uma cicatriz na barriga: devia ter tido um corte profundo e alguém costurara tudo com má vontade e relaxo.   A pele ficara toda torta.   Ele riu e com a boca torcida tentou imitar a cicatriz da barriga de moça. Achei de mau gosto, me fechei.  Mas ele continuou. Não por minha causa. Parou de caçoar, falou “tadinha” e começou a se abrandar. Primeiro em dó, depois em ternura.   “Que terá sido aquilo: facada, tiro, perda de um rim? Aconteceu um troço violento ali...”  Chegou a falar que talvez um maldito tivesse tentado arrancar dela um filho à navalha.  Sofria a moça, sofria. 
Nas corridas seguintes, não parou mais de falar dela. Começava fingindo a caçoada, imitava a cicatriz torta. Mas depois se derramava. Aquela cicatriz o atraía mais que o corpo todo dela. Que o rosto. Que o mundo.   Aquela cicatriz a tornava tão miserável quanto ele. Estava apaixonado. Por ela, por aquela cicatriz.  Apaixonado. 
Talvez ela também.

***

Durante muitas corridas, o Trovesin falou de sua paixão pela moça da cicatriz.  Ele até emagreceu e parou de contar as piadas esdrúxulas, mas continuava bem-humorado. Diminuiu a bebida. Estava feliz. Assobiava até. 

Nessa mesma época conseguiu financiar um apartamento num conjunto habitacional que ficava bem longe. O lugar era barra pesada e ele vivia encontrando pelos corredores uma moçada mal-encarada usando droga.  No começo teve medo, mas depois já estava até dando conselhos pra rapaziada.   Apaixonado, aprendera uma receita para fazer uma carninha grelhada especial pra amada. E estava até pensando em guardar um dinheiro para arrumar a cicatriz dela. Embora achasse que sua eleita fosse linda de qualquer jeito.
Então teve o dia em que o Zé Carlos esperava em segundo no ponto - logo atrás do táxi do apaixonado -, quando chegou um casal com malas e filhos. Bom dia, bom dia, entraram no carro do Trovesin: o marido no banco da frente. A mulher e as crianças no banco de trás. Partiram. Um minuto depois, estavam de volta ao ponto. Furioso, o homem puxou a família pra fora do carro do Trovesin (que estava quieto e sem graça) e perguntou ao Zé se poderia levá-los ao aeroporto.  No caminho, todos instalados, o Zé perguntou o que tinha acontecido: era coordenador do ponto e qualquer reclamação ele poderia tomar providência. O tal homem falou então que, nem bem tinha começado a corrida, “o cafajeste do outro taxista – Trovesin o nome dele, não é? -, tinha mexido no retrovisor pra bisbilhotar sua esposa no banco de trás”.  Antes que o Zé pudesse falar qualquer coisa, o homem foi dizendo que não perderia tempo naquele momento. Mas na volta da viagem iria ele mesmo ao departamento de trânsito denunciar o Trovesin.
Se ele teve uma recaída ou fora sua fama que induzira o passageiro, não sem sabe.  Mas aquela nova reclamação e o receio dos outros taxistas expulsaram o Trovesin do ponto.  Depois de ficar um tempo sem trabalhar, voltou, mas num ponto três quarteirões pra baixo.  
Um dia o Zé me falou que o Trovesin tinha tido uma discussão com um pipoqueiro e levara uma pedrada na testa. Mas não deve ter sido coisa muito grave: uns dois meses depois, ele me viu andando na calçada, botou o bração pra fora do carro e chamou: “fala, compadre!”.
Depois disso o perdi de vista. De vez em quando perguntava para o Zé: “tem visto o Trovesin?”.  E o Zé: “às vezes esbarro com ele por aí. Mas quero distância...”.
Porém, houve um dia em que encontrei o Zé abatido.  Quase tremendo, tentou disfarçar: “ficou sabendo do seu amigo?”. “Seu amigo” ou “seu protegido” era como o Zé se referia ao Trovesin quando conversava comigo.  Mas naquele dia a coisa não parecia boa.  E não era: o Trovesin tinha sofrido um grave acidente: sozinho, estourara o carro na murada de uma avenida movimentada ali perto e morrera.  “Foi hoje?” “Faz umas duas semanas. Quem contou foram os colegas do ponto dele”. 
Ficamos os dois quietos.  O Zé se abalava muito quando algum colega morria de acidente ou assalto. Já eu fiquei imaginando como teria sido o velório e o enterro do Trovesin: alguns poucos colegas do ponto (mas não todos), quem sabe uma filha, talvez um vizinho.  Num canto, a moça da cicatriz.  Mas como os outros iriam saber? A cicatriz escondida como ela. Como a lágrima dela.  Depois foi embora, ninguém nem percebeu.  Ninguém nunca percebia mesmo.
Agora já era tarde, mas se eu soubesse, teria ido. O Zé Carlos Alves também.
Zé Carlos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.


Publicado em série no Jornal de Piracicaba em 11/3, 25/3, 8/4, 22/4 e 6/5/2018


O fim da corrupção


(caio silveira ramos)

Recebi no celular um vídeo curioso: dois homens fazendo uma disputa de braço de ferro diante de três moças muito atentas.  Quando o rapaz de óculos percebe que vai perder, passa ao outro – sem que as moças percebam – algumas notas de dinheiro.   Ele guarda (também sorrateiramente) as notas dentro do bolso e imediatamente o jogo começa a virar até a vitória final do moço de óculos, deixando as garotas espantadas e eufóricas.  Para reforçar a armação, o perdedor ainda faz cara de quem está dolorido, lamentando sua derrota.
Mostrei o vídeo ao João que pareceu não ver qualquer graça na cena.  Perguntei se ele tinha entendido o que se passara ali.
“Um estava perdendo, então ele tirou uns papeizinhos do bolso, distraiu o outro, que se desconcentrou e perdeu.”
Me surpreendi: o pequeno, sempre astuto e cheio de frases risonhas sacadas do fundo da cartola, dessa vez tinha sido traído pela ingenuidade de seus nove anos.
“Não filho, não foi isso. Esses ‘papeizinhos’ são notas de dinheiro: um, vendo que não podia ganhar justamente, deu dinheiro ao outro, que não se distraiu: ele aceitou o dinheiro, guardou no bolso e então entregou o jogo.   Isso se chama suborno.
Ele ficou intrigado. Parecia não acreditar:
“Mas por que eles fizeram isso? Por que alguém paga pra ganhar e outro recebe pra perder?”
“Você já percebeu que toda hora, na televisão, nas conversas dos adultos, tem sempre alguém falando a palavra “corrupção”? Isso que eles fizeram é uma forma de corrupção. Toda vez que alguém dá ou recebe algo – que pode ser dinheiro, presente ou favor – para fazer uma coisa que não é justa ou correta, está praticando corrupção.”
“Isso é muito feio. E não tem graça nenhuma, não é?”
“Não. E tem menos graça ainda quando alguém está recebendo ou dando alguma coisa que vai acabar piorando a saúde, a educação, a segurança das pessoas.”
E ficamos os dois calados, sentados no sofá da sala, olhando para o nada ou talvez tentando enxergar o futuro.
Eu não sei quanto a ele, mas senti certa esperança.  Podia ser uma esperança quase piegas e tão ingênua quanto supostamente foi a visão inicial dele quando se deparou com aquele vídeo mostrando a tal queda de braço. 
Porque talvez aquele primeiro olhar não fosse produto da sua ingenuidade, mas de sua incapacidade de aceitar a existência do suborno e da torpeza bilateral que o alimenta.  Talvez ele, sua geração e as próximas cresçam com a percepção natural de que a corrupção seja algo totalmente sem sentido, ultrapassado. Algo que foi moda há muito tempo, como parece que um dia também foi aquele antigo e estranho hábito de fumar cigarros. Algo que um dia bizarramente existiu, mas que para eles não terá qualquer cabimento em seu mundo. Em seu vocabulário. Em suas vidas. 
Não, não. Esqueçam. Reconheço: esse raciocínio foi tão ingênuo quanto o dele. 
Mas se João, pela vida afora, continuar não encontrando sentido em atos como aqueles praticados pelos dois homens do vídeo.  Se ele persistir em não achar graça nas consequências daqueles mesmos atos, talvez essa minha ingenuidade tenha valido à pena.
Publicado no Jornal de Piracicaba em 25/2/2018

O filho que ele quer ter


(caio silveira ramos)

Abriram perto de casa um parque coberto, que tem como atrações trampolins, redes elásticas, paredes acolchoadas, piscinas de espumas sintéticas, tabelas de basquete para “enterradas” depois de saltos fantásticos e até muros escaláveis.  Embora haja um setor exclusivo para adultos, é a parte infantil que mais atrai o público: mães e pais ficam esperando tranquilos (ou fotografando alucinadamente) enquanto suas crianças pulam felizes, parecendo voar como passarinhos.
Pois Joãozinho também foi voar com os amigos. E tudo ia às mil maravilhas quando o Lolô chegou esbaforido dizendo que o João tinha se machucado. Assustada, a mãe do acidentado saiu correndo e o encontrou num canto, com os olhos assustados e as mãozinhas entre as pernas, tossindo, quase sem fôlego, mas sem chorar. Ao seu lado, alguns monitores tentavam lhe dar um copo d’água, enquanto outros explicavam à mãe do pequeno que ele tinha caído, com as pernas abertas, na borda de uma piscina cheias de cubos de espuma. E que, mesmo acolchoada, a tal borda acabara ferindo o Joãozinho em uma região muito sensível.
A mãe levou o menino ao banheiro, examinou-o rapidamente e quando percebeu que ele tinha ficado mais calmo, perguntou se estava tudo bem.  E o Joãozinho, com os olhos molhados e profundamente tristes, encarou a mãe, segurou o choro e disse grave:
“Mamãe... eu... não vou poder mais ter filhos!”
A mãe do Joãozinho já esboçava um riso quando percebeu que o pequeno falava sério e sentido.   Então o tranquilizou dizendo que ele estava só assustado e dolorido, mas tudo ficaria bem. E um dia poderia ter quantos filhos sonhasse.
“E a dor, passou?”
“Tá passando. Só está um tiquinho.”
“Quer voltar a brincar?”
“Não quero, não.”
“Então tá bem.”
Mas faltando uns dez minutos para acabar o tempo de acesso aos brinquedos, ele esqueceu a dor e os temores, e aceitou o chamado dos amigos para voltar a voar.
Quando cheguei do trabalho, já sabendo da aventura, perguntei para ele se tudo estava bem. E se ele ainda estava com dor.
“Na hora doeu muito, mas agora já passou tudo. Papai, você viu o gol do Messi no jogo de hoje à tarde?”
Eu disse que não tinha visto, mas que tentaria ver.   Só que mais do que o belo gol do Messi, ficou passeando na minha cabeça a preocupação embutida na frase que o pequeno tinha dito a sua mãe naquela tarde. 
No serviço, contei aos colegas.  Todos acharam muita graça e se espantaram com uma suposta precocidade do Joãozinho.  Perguntaram de onde viria aquela ideia dele sobre a paternidade e suas origens. Respondi que talvez viesse de uma conversa qualquer comigo ou com sua mãe. Ou talvez, da advertência cuidadosa do professor ao orientar os meninos para se protegerem da bola na formação de uma barreira no futebol.  Uma amiga, rindo também, observou:
“Ele é canceriano mesmo: tem pendores dramáticos e é profundamente ligado à família!”
Eu que desconheço o caminho dos signos, mas me perco perseguindo a poesia, sorri-devaneando com os sonhos do filho. 
Não, não me empavonei por imaginar orgulhosas e numerosas descendências.  Mas sorri por João perceber, na sua ainda curta existência, que a paternidade pode ser uma experiência prazerosa. E, ao que parece pelo tamanho do seu temor de não conseguir conhecê-la um dia, entender que é algo que comporta mais do que a simples capacidade de ajudar a criar outro ser.
É algo que tem a real e bem-aventurada possiblidade de tentar fazer esse outro ser mais feliz.
Publicado no Jornal de Piracicaba em 11/2/2018