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sábado, 15 de agosto de 2015

O canto da bruxa

(caio silveira ramos)

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem de sombra e água fresca resolveu fazer cosquinhas na cabeça da minha irmã Raquel, que deu para cismar que já não era mais a pituquinha do pai. Na verdade, nada mudou muito na família, a não ser pelos cuidados normais que um bebê recém-nascido provoca numa casa que já tem três meninas de 4, 6 e 8 anos.  Mas passado tanto tempo, Raquel se culpa profundamente por coisas que toma hoje como grandes maldades que teria feito comigo para tentar recuperar seu reinado.   Eu acho muita graça nessas lembranças, assim como me divertia com tudo que ela fazia na época.
Me divertia com tudo... Pensando bem, menos com uma coisa.
Raquel devia ter cerca de oito anos quando ganhou dois “Discões”.   O tal “Discão” era uma reunião, num mesmo LP de doze polegadas, de várias histórias da clássica “Coleção Disquinho”.  Produzida pela gravadora Continental, a Coleção apresentava, numa série de compactos coloridos, fábulas e contos de fada narrados por meio de textos recheados de rimas e de canções ricamente orquestradas que se tornaram muito populares nas décadas de 1960 e 1970.
Pois num daqueles LPs, Raquel descobriu esfregando as mãozinhas, que a história d’ “A bela adormecida” me botava um medo de tapar os ouvidos e implorar: “tira, tira, tira isso!”
A questão toda não estava na história em si, mas na bruxa que aparecia logo no começo jogando a maldição do sono eterno sobre a princesa ainda bebê. E depois, lá pelo meio do disco, ainda cantava a terrível “Canção da velha fiandeira” – “lalilalá-lilalá-lilalá, girando, girando, não paro de girar, trabalho, cantando, na roda de fiar” –, que atraía a jovem princesa para espetar seu dedo no fuso da roca e dormir por cem anos.
Eu já tinha pavor de bruxas, mesmo antes daquele disco.   Pelo que lembro, todas as vezes em que voei para o meio da cama dos meus pais durante a madrugada, a causa foi sempre a mesma: os terríveis pesadelos com bruxas. E bruxas antropófagas.
Talvez só Freud possa explicar esses meus terríveis sonhos de infância com bruxas tentando me devorar.  Só Freud. E talvez uma amiga de Dona Marica, que de vez em quando aparecia para ajudar a passar roupa e contar tenebrosos contos de bruxas para a molecada.   Não, a culpa não é dela: eu já tinha pesadelos com bruxas antes. Ela só me deu um empurrãozinho para dentro da casa de doces e me emprestou o ossinho de frango para tentar iludir a faminta feiticeira. Bem, talvez a culpa seja dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Mas só Freud mesmo pode explicar.
A bruxa do desenho de Walt Disney era má, mas tinha estilo e certa beleza exótica.  No filme “Malévola”, ela se mostra ainda mais bela, afinal é interpretada por Angelina Jolie, que se estivesse menos magra estaria ainda mais estonteante.  Mas, ah, me desculpe, ela é no fundo boa e injustiçada.  Bruxa tem que ser bruxa, e aquela do disco da Raquel, só pela voz, já diz para que veio.  Ela é irresistivelmente má e sarcástica.  E deve ser velhíssima, muito feia e cruel. E com um rancor medonho que já se revela na fala inicial: “não me convidaram, no entanto eu vim. Mesmo assim”.
Raquel percebeu meu “glup”, assim que ouvi aquela frase. E lá pelo meio do disco, enquanto a voz do canto da bruxa crescia na medida em que a jovem princesa se aproximava do porão, eu ia parar embaixo da escrivaninha do meu pai. E minha irmã descobria que tinha o poder.
E que dali em diante, estava de novo no comando.

***
Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha foi um grande compositor da música brasileira.    Quando formou o “Bando de Tangarás” com Noel Rosa, Almirante, Henrique Brito e Alvinho, passou a adotar também o pseudônimo “João de Barro”.   Mas qualquer que fosse o nome usado, ele não abria mão do talento criador, tanto que, além de escrever a letra de “Carinhoso” para a melodia de Pixinguinha, foi um dos reis das marchinhas de São João e de Carnaval (com seu estilo “antropofágico-pré-tropicalista”), e também precursor da Bossa Nova.  Sozinho ou com parceiros, compôs clássicos do calibre de “As pastorinhas” (com Noel), “Copacabana” “Balancê”, “Touradas em Madri”, “Yes, nós temos bananas”, “Chiquita Bacana”, “Capelinha de Melão” (as seis com Alberto Ribeiro), “A saudade mata a gente” (com Antonio Almeida), “Pirata da perna de pau”, “Vai com jeito” e muitos outros.  
Quando o longa-metragem de Walt Disney “Branca de Neve e os sete anões” chegou ao Brasil, Braguinha participou ativamente da dublagem e também compôs as letras em português.  O mesmo aconteceu com outras produções da Disney como “Pinóquio”, “Dumbo” e “Bambi”.   Assim, não é de se espantar que ele estivesse à frente da produção da “Coleção Disquinho”, da gravadora Continental, na década de 1960.    Além de adaptar alguns dos mais fantásticos contos infantis de todos os tempos, ele compôs várias canções para aquelas histórias, o que imprimiu à série um sabor gostosamente brasileiro (e novamente “antropofágico”). Só para lembrar, são dele as canções “Pela estrada” (“pela estrada fora eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha”) e “Lobo mau” (“eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau, eu pego as criancinhas pra fazer mingau”), de “Chapeuzinho Vermelho”.  Canções tão enraizadas na nossa imaginação, que até nos parecem hoje de autoria desconhecida e popular.
Além de escrever, adaptar e compor, Braguinha conseguiu atrair para a “Coleção Disquinho” gente talentosa de todas as áreas: dubladores, narradores (principalmente narradoras, como Sônia Barreto, Simone Moraes e Nely Martins), orquestras, compositores, autores, roteiristas, todos de primeira linha.  Para se ter uma ideia, as músicas receberam arranjos e regências dos míticos Radamés Gnattali, Francisco Mignoni e Severino Araújo.
Entre os bambas escalados por Braguinha, estava a professora de música, compositora e escritora Elza Fiuza.   E foi Elza quem adaptou para o “disquinho colorido”, “A bela adormecida”.  E foi Elza quem criou os diálogos todos para aquela história. Inclusive as terríveis falas da bruxa e a canção da velha fiandeira que tanto teimavam em frequentar meus pesadelos.
Estranhamente, porém, de tanto minha irmã Raquel colocar o disco para rodar na vitrola, fui perdendo o medo de bruxas e daquela faixa.  E fui, sem saber por que, me apaixonando por aquela canção anteriormente tão assustadora.
Muitos anos depois, enfeitiçado pela voz de Clementina de Jesus, compreendi meu fascínio por aquela música.
E descobri que havia muitas outras bruxas em meu caminho.

***
Trabalhei durante dez anos com F. Baruq e, apesar dos angelicais olhos azuis, ela é daquelas que perde o amigo (e qualquer parente), mas não perde a piada.  Por ser um dos seus alvos preferidos – ela não perdoa qualquer deslize do meu daltonismo – acho que F. Baruq gosta de mim como de um parente próximo.  Daí porque não sei o que me deu na cabeça de contar a ela a história dos temores profundos que eu sentia quando minha irmã Raquel colocava para rodar na vitrola a cantiga da velha fiandeira “interpretada” pela bruxa do disquinho d’“A Bela Adormecida”: “fiando, fiando não paro de fiar...”. 
Pois F. Baruq arranjou a gravação em meio digital e passou a repetir a cantiga sempre que uma oportunidade surgia. E mesmo quando não tinha a gravação por perto, cantava para me provocar, “fiando, fiando”, ainda que tenha descoberto que o correto era “girando, girando, não paro de girar”.  Para entrar na brincadeira, eu recriava meus medos antigos e quase me metia embaixo da primeira mesa que aparecesse.  A palavra “fiando” virou entre nós um verdadeiro código de falsas ameaças e zombarias inocentes.  E o auge da brincadeira aconteceu em um 31 de outubro, durante o aniversário de uma amiga: quando entrei no apartamento em que ocorria a festa, F.Baruq e outra colega, ambas usando vistosos chapéus de bruxa, entoaram “fiando, fiando” entre risos e letras alteradas cheias de graça. Mais uma vez entrei na brincadeira e simulei sustos e traumas. Mas a verdade é que há muito tempo eu não temia mais a música. Pelo contrário: sentia uma profunda emoção ao ouvi-la.
Desde menino eu conhecia a figura de Clementina de Jesus, mas foi somente durante minhas peregrinações pelos sebos de discos, nos intervalos das aulas de Direito, que me dei conta da sua grandeza.  Quando encontrei o LP “Clementina de Jesus”, de 1966, entre tantos deslumbramentos – começando pela capa –, me encantei com a singeleza de um cântico folclórico natalino de pastoril chamado “Vinde, vinde companheiros”.   O “laialaiá” da “Rainha Quelé” se iniciava ao longe, como que chamando docemente os pastores e as pastoras. E o canto crescia, crescia, ainda muito doce, como se todos se aproximassem ternamente para ver o Menino nascido.
Emocionado, me veio de repente outro laialaiá distante, que foi chegando, chegando sem medo.  Intrigado, me dei conta que quem se avizinhava era aquela antiga canção da bruxa de “A Bela Adormecida”, que também se iniciava com uma voz envelhecida e distante. E que depois crescia e atraía a princesa para os porões do palácio.  Mas o canto que agora chegava e me tomava pela mão e pelos ouvidos nem de bruxa mais era. Era um “canto de trabalho” entoado por uma velha fiandeira de um Brasil rural e profundo, semelhante a tantos outros cantos espalhados por Clementina. Vozes velhas, distantes, embolando aspereza, doçura e encantamentos:

Girando, girando
Não paro de girar
Trabalho, cantando,
Na roda de fiar

A velha fiandeira
Trabalha sossegada
A noite inteira
Na roda encantada

Girando, girando...

E girando, girando, aquela cantiga não vinha mais até mim nascida dos porões de um palácio de uma Europa medieval.  Girando, girando, o canto da velha fiandeira - criado pela sabedoria dos ouvidos e da imaginação de Elza Fiuza – se misturava à voz sagrada de brandura e desespero de Rainha Quelé e brotava de outros porões, de outros pesadelos, de medos e pavores concretos gravados na carne. Aquelas vozes envelhecidas e torturadas revelavam um país gestado nos porões dos navios negreiros, onde as bruxas eram os próprios homens. Onde não apenas as pontas dos dedos eram feridas, mas o corpo todo.
Onde o sono se chamava morte.
Ou um pesadelo que durou muito mais que cem anos.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  3, 17 e 31/7/2015


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Délia nossa sem medo

(caio silveira ramos)

Dez de janeiro é dia de reverenciar a alegria.   A alegria da união infinita entre seu Miro e dona Janda.  E a alegria do nascimento de uma mulher que além dos tempos me estende a mão e me empresta sua força assim que meu pensamento se volta para ela (embora sua força esteja em mim até quando me esqueço de quem eu mesmo sou).
Nascida em São Pedro e batizada “Adelina” (mas para mim, para o mundo, para sempre, Délia, dona Délia, Donadélia), ela era filha de italianos, o que moldou sua maneira de enxergar o mundo. Ou o seu pequeno mundo: privada da instrução formal, ela desconhecia o sentido das letras escritas e da largueza do planeta. Para ela, a Itália deveria ser ali pertinho de São Pedro, um sítio ideal onde adormeciam suas raízes e as dores mais sentidas davam lugar à beleza plena.   Se algo era bom ou bonito só poderia ser italiano: o belo jardim da revista, o céu mais azul no quadro, o galã da TV? Todos italianos, tinham que ser. 
Da infância sofrida, dura, gostava de se lembrar do pão com banana, do trabalho na terra, de alguma outra história já quase esquecida.  No mais, sua vida era ali, no presente, nos filhos e nas águas que o tempo ia minando nos seus olhos. Dores, dores fundas que ela esquecia trabalhando, trabalhando muito, sempre incansável e destemida.
Ela lavava roupa e assim entrou na nossa vida. Depois foi trabalhar numa casa como empregada, mas sempre recebia nossa visita no sitiozinho em que morava com o segundo marido.  Viúva de novo, já beirando os setenta anos e com águas doloridas inundando seus olhos, voltou a trabalhar lá em casa, primeiro dois, três dias. Depois ficou de vez: queria, precisava de “lavoro” para o corpo, para mente. Para as águas dos olhos adormecerem um tanto.
Mas se a dor era muita e ela a deixava fugir de quando em vez por trás dos óculos de aros escuros e quadrados, no dia a dia o que eu via era o sorriso de dentes perdidos e (talvez até por isso) sem freios ou mágoas.  Para mim ela reservava aquele sorriso e sua força.  E eu me encantava com aquela mulher tão forte. 
Não muito alta, de cabelos brancos curtos e encaracolados, ela tinha braços poderosos forjados no tanque, no ferro de passar e na polenta perfeita, mexida e remexida sem tréguas com a colher de pau na panela de ferro grande.  Os frangos entregavam candidamente os pescoços ao seu laço vermelho, no galinheiro pequeno.  O chão de madeira da sala se transformava em espelho depois da enceradeira vigorosa. Sua força era tamanha e me impressionava tanto, que numa redação do primário revelei para meu próprio espanto que ela, do alto dos seus setenta e tantos anos, pulava uma janela de casa para limpar uma área de ventilação, cuja porta tinha sido obstruída por um antigo guarda-roupa.
Talvez, entre aquela porta trancada e aquele guarda-roupa, ela escondesse todas as suas dores para que eu não visse suas águas tantas.
Para mim ela só reservava a alegria.  

***
Mas nem todas as dores do mundo foram capazes de diminuir a força daquela mulher: lavadeira (dessas que equilibravam pesadas trouxas de roupa na cabeça com a naturalidade de quem assobia distraído), passadeira, faxineira, cozinheira (sempre e em tudo de mão-cheia), mãe-valente-coração-de-leão, ela fazia jus ao apelido “Délia” (afinal, assim também era chamada a destemida deusa grega Ártemis). 
Isso, porém, não tem a mínima importância, porque dona Délia não se preocupava muito com gregos e troianos (e talvez nem soubesse que um dia tivessem existido).  Para ela, tudo que era querido só podia ser “oriundi”, apenas com algumas exceções: mesmo que eu não tivesse um pingo de sangue italiano na veia, comigo ela se fazia “nonna” carinhosa, de fazer pipoca e bolinho de chuva mesmo nas tarde de sol.   Talvez ela atribuísse a mim certa italianidade por eu ser, como ela dizia, “palmerista” ou por gostar de macarrão. Ou quem sabe, previsse o futuro e já soubesse que meu filho teria, além do meu, o sobrenome Laurenti.
E mesmo que a “nonna” Délia escondesse do meu olhar o olhar de suas águas tormentosas, eu sabia secretamente de suas dores. As dores da infância difícil, da dupla viuvez, das ingratidões alheias e das infinitas preocupações com filhos, netos e bisnetos.  A dor de amar demais (coincidentemente ou biblicamente?) o filho mais pródigo, que ela dizia ter sido na infância tão parecido comigo.  E lá ia ela trabalhar, trabalhar incansavelmente para que na água do tanque as suas águas escoassem junto.
Um dia apareceu em casa sua neta Márcia, filha da filha Adelaide: ela vinha para ajudar a vó que não queria parar de trabalhar de jeito nenhum.  Quase da mesma idade da minha irmã Ruth, Márcia era tão bonita quanto uma manhã de abril e, feito a “nonna”, reservava para mim a doçura maior do seu sorriso (além de uma sacrificada parte do seu sustento que magicamente ela transformava em carrinhos de ferro ou discos de histórias musicadas).
Tempos depois, Márcia se foi, me deixando sem sua beleza e seu sorriso: ela precisava iluminar de abril o olhar de seus próprios filhos.   Não demorou muito, minha “nonna” também foi se aninhar na casa de sua filha Virginia – que tal como dona Délia se fez mãe-valente-coração-de-leão – e no colo dos netos de sangue.   A idade já era muita, as dores do corpo maiores e as da alma já pesavam demais no olhar cansado que começava a perder a vontade de enxergar o mundo.  Principalmente depois que o filho Sebastião se foi para sempre.
E na varanda da casa de Virginia, ela passava as tardes com os olhos voltados para rua, mas já quase nada via.   Da última vez que a encontrei, me descobriu pela voz e pelo abraço, e me revelou todas as suas águas: eu já estava grande, quase “doutor”, não havia mais motivo para ela esconder de mim suas dores e as dores do mundo. Talvez quisesse que seus rios abrigassem os meus.
Pouco depois ela se foi, inundando todo um mirante com suas águas.
As águas dela, Délia.
As águas dela, nossas.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 e 24/1/2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Algemirando (2): enxada, giz e destemor

(caio silveira ramos)


A crônica Algemirando (I) do Caio inspirou-me a escrever algumas lembranças daquele tempo tão bom em que, minha família e eu, passamos boa parte das nossas vidas, num casarão antigo, situado na movimentadíssima região central de Piracicaba.
Meus filhos Gustavo, Guilherme, Nice e eu, fomos vizinhos do professor Algemiro, da queridíssima Jandyra e seus filhos, quando morávamos e tínhamos escritório de advocacia à Rua Morais Barros durante a década de 1980.
Eu mantinha a banca, onde atendia clientes, elaborava as peças processuais, lia jornais e ouvia rádio, na sala da frente da casa. Era equipadíssimo o escritório; entretanto o estado de conservação do quintal não deixava de ser um caracterizador da vergonhosa omissão.
Eu não cuidava daquele trecho, e Nice, apesar de se desdobrar na higienização da casa, no cuidado com os meninos, na alimentação e tudo o mais, também não podia fazer nada, com aquela espécie de ‘selva amazônica’ particular.
Numa ocasião o professor Algemiro, conversando com Nice e os meninos, propôs-lhes a feitura de um campinho de futebol no local.
A molecada vibrou com a ideia, Nice ficou na expectativa e eu, quando me falaram, não opus embargo.
Então o saudoso professor, usando habilmente uma escada apareceu e, transpondo corajosamente o muro, pôs-se a erradicar a erva daninha, aplainando depois o terreno.
Em seguida, usando meia dúzia de sarrafos, ele construiu as traves dando por encerrado, para a alegria incontida dos pimpolhos, os trabalhos daquela espécie de ‘Itaquerão’ do centro.
Gustavo e Guilherme, hoje na faixa dos 30 anos, lembram-se com muita alegria, dos momentos em que passavam horas e horas na casa dos professores Algemiro e Jandyra conversando, ouvindo histórias e aprendendo a jogar xadrez.”

Muitas lembranças retornam com essa história, mas Fernando Zocca parece me fazer recordar algumas faces de meu pai: um homem que não discriminava pessoas e trabalhos, quaisquer que fossem suas naturezas ou origens.  Fosse a enxada e o martelo, a caneta e o giz, com o mesmo capricho e destreza ele domava todos os instrumentos. E com o mesmo amor que arava a terra, encantava a mente dos alunos.
A crônica de Fernando Zocca também revela que o Professor Algemiro era um homem destemido. Não me lembro nem da palavra “medo” saindo de sua boca ou de qualquer gesto que indicasse um titubeio diante do perigo. Mas diferente daqueles que são destemidos por irresponsabilidade, psicopatia ou desamor pela própria existência, sua ausência de medo se destacava justamente na sua paixão pelo outro, pela vida. Pela generosidade de sua alma de portas abertas.
Por fim, Dr. Zocca  deixa nas entrelinhas o que ninguém duvida: o Professor Algemiro tinha ao seu lado a companheira certa, que sempre estendeu sua mão com a mesma generosidade (e com o mesmo destemor) de quem ama a terra e o papel. Papel onde também moram letras e notas musicais.
E ela estendeu sua mão para que a alma dele voasse sem freios.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 5/4/2013