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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Quando chega a melodia


(caio silveira ramos)

Para Fernado Szegeri

Ela vinha sempre na volta pra casa, no último dia de aula, assim que eu descia do ônibus no ponto da rua XV de Novembro, quase esquina com a São João.
Durante o ano, ela desaparecia, dessonhava, devia viver em algum canto esperando seu momento: eu não me lembrava dela e ela se esquecia de mim. Nem mesmo nas férias de julho ela se manifestava. Só mesmo no último dia, ali, pelo final de novembro, começo de dezembro. Era botar o pé pra fora do ônibus e a sensação de liberdade, a perspectiva de liberdade e a própria liberdade me traziam o nananã de uma melodia que eu não conseguia decifrar, segurar pelos cabelos, fixar na memória. E eu ia flutuando, flutuando, cantarolando aquela música que crescia exultante, me levando pro alto, me fazendo voar mesmo sem letra até a porta de casa, onde de fato as férias começavam. Onde as férias incitavam aquele som de liberdade a me preencher a alma.  Som que seria retirado novamente de dentro do meu peito apenas um ano depois.
De onde viria aquela melodia de liberdade e de alegria incontida? Minha não era: não tinha vindo de um sonho. Talvez tivesse surgido de dentro de um rádio que vivesse estacionado na cozinha de casa ou de outro que gostasse de espalhar seus sons pela rua. Talvez da TV, de uma trilha sonora de uma novela que esperava o jornal das 8 ou que se propagandiava durante os intervalos da Sessão da Tarde.   Só sei que durante os quatro anos do ginásio e os três do colegial, a melodia me encontrava no lugar e no dia certos. Sempre. Mas eu, naqueles tempos pré-internéticos, nunca consegui encontrar sua origem e seu caminho.
Entrei na Faculdade e durante os cinco anos, por capricho, sempre no último dia de aula, voltando de São Paulo, só para encontrar a melodia que marcava o início das minhas férias (e da minha liberdade), eu deixava de desembarcar na rodoviária para saltar do ônibus na esquina da Moraes com a Independência. Ia descendo a pé, desviava do meu caminho, entrava na rua Bom Jesus e por fim dobrava a XV só para passar de propósito pelo velho ponto de ônibus quase na esquina com a São João. E milagrosamente a melodia vinha. Solta. Sem letra, sem nome, sem autoria.
E me preenchia de liberdade.

***

Num final de semana em Ribeirão Preto, na casa da minha irmã, ouvi, vindo pela janela, a melodia sonhada. A melodia que me aparecia sempre no último dia de aula e que marcava misteriosamente, desde a infância, o início das minhas férias. 
A música começou com um “deixa estar...”, mas depois não consegui decifrar mais nada: alguém abaixou o som do rádio, trocou de canal, desligou o mundo. Mas como nessa época eu já tinha sido completamente envolvido pelo samba, ainda consegui apreender a voz do cantor: sem dúvida nenhuma, era uma composição interpretada por João Nogueira.
Com a ajuda da internet, encontrei a listagem completa dos seus discos e músicas, mas entre os diversos títulos, não aparecia nada que fizesse qualquer referência às palavras mágicas “deixa estar”.
Passei a vasculhar lojas de discos, sebos e estantes de casas de amigos atrás dos sambas daquele João.  E fui ouvindo, descobrindo, redescobrindo a beleza gingada de seu canto. A força transformadora do seu poder de criação.  Seu e de parceiros como o grande poeta Paulo César Pinheiro. E assim, me embriaguei de “Espelho”, “Além do espelho”, “Súplica”, “Minha Missão”, “E lá vou eu”, “Nó na Madeira”, “Mineira”, “Se segura, segurança”, “Batendo a porta”, “Eu, hein, Rosa!” e tantos outros.
Topei então com o LP “Boca do Povo”, de 1980. E como sempre fazia a cada audição de um disco do João, para saborear ainda mais minha busca e meu sonhado encontro, fui colocando o comecinho de cada faixa, uma a uma. E assim foram brotando sambas como “Poder da Criação”, “Mulher valente é minha mãe” e o clássico de Padeirinho e Ferreira dos Santos, “Linguagem do Morro”.
Então, na 12ª faixa (justamente a última!), após uma introdução feita só pela batida da percussão, começou um samba-amaxixado iniciado pelo esperado “deixa estar” e com a melodia sonhada. Ali estava o samba que me alimentou de liberdade durante tantos anos.
“Bons ventos”, do próprio João Nogueira e de Ivor Lancellotti – compositor que carrega na voz e na criação o som de uma alma enluarada que encantou e encanta intérpretes como Clara Nunes (que, entre outras, gravou “Sem companhia” e “Amor perfeito”, ambas parcerias com Paulo César Pinheiro) e Roberto Carlos (“Abandono”) –, traz a história de alguém que anseia desistir de um amor para, aos poucos, reabrir o coração.  De qualquer forma, a letra trata da esperança de “um novo amanhecer”, o que rima com a inspiração de liberdade que a música há tanto tempo já me oferecia.
Recentemente, descobri que a composição tinha figurado como uma das faixas da trilha sonora de uma novela das 18 horas da Rede Globo, “As Três Marias”, baseada no romance homônimo de Rachel de Queiroz e exibida de novembro de 1980 a maio de 1981.  Não me lembro de ter assistido à novela – embora me recorde das atrizes protagonistas -, mas foi naquele período que o bendito samba me enfeitiçou.
Observo agora a foto da capa do tal LP “Boca do Povo”: nela, João Nogueira sorri feliz enquanto ouve um radinho de pilha. Se não fosse a impossibilidade do tempo, alguém poderia dizer que ele fala com alguém ao celular.
Gosto de sonhar assim: João, de fato, atravessa o tempo e fala comigo: depois de mandar um abraço do parceiro Ivor Lancellotti, pergunta se eu continuo andando por aí, cantarolando seu samba.
Emocionado, mesmo sem conseguir responder ao poeta, “devagar, vou abrindo meu coração” com a certeza de que “o amor vai sobreviver”.
E lalariando a melodia pelas ruas, vou me perder pelo tempo.


Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 e 17/12/2017


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Chocolate afetivo

(caio silveira ramos)


Meu pai resolveu fazer um curso em Campinas aos sábados. Acho que era algo relacionado a uma de suas paixões, a Linguística.  Mas saía tão cedo de casa para ir para a rodoviária que, quando eu acordava, ele já tinha partido.
No final do dia, meu pai chegava cansado, mas profundamente feliz.  Ria, contava histórias, enquanto mergulhava um pedaço de pão com um pouco de margarina ou mel na sua xícara de café com leite.
Mas antes, bem antes, assim que eu abria a porta atendendo ao seu famoso assobio, ele me dava uma caixinha de cigarrinhos de chocolate. Ou um tubo de papelão (azul ou vermelho, dependendo da marca), com tampa de plástico, cheio até a boca de pastilhas (também de chocolate) embaladas cada uma em papel alumínio.  Eu dividia os chocolates com minhas irmãs e até guardava alguma coisa para comer mais tarde. E sobrava o tubo que servia para armazenar pequenas coisas. Ou, arrancados o fundo e a tampa, aquele canudo de papelão ainda podia se transformar numa bela luneta pra ver as crateras do lado oculto da lua.
Eu pulava de felicidade: além do chocolate recebido e do próprio tubo de papelão que viraria um brinquedo, me enchia de orgulho e de importância saber que meu pai tinha viajado até Campinas, feito seu curso e, ainda assim, conseguira tempo para pensar em mim durante o dia. A ponto de me trazer uma lembrança de tão longe.
Mas lá pelos meus doze, treze anos, num almoço de domingo, quando recordei saudoso os tubos de pastilhas de chocolate e a alegria sentida ao receber presentes trazido lá de Campinas, meu pai estranhou:
“De Campinas? Não... Eu comprava na “Bomboniere” aqui pertinho de casa, quando voltava a pé da rodoviária no final do dia...”
“Da “Bomboniere” aqui da rua XV? Mas eu tinha certeza que o senhor se lembrava de mim lá em Campinas...”
“Eu lembrava, mas o chocolate era daqui. Tem alguma diferença? O chocolate não tinha o mesmo gosto?”
“Tinha, mas... Sei lá...”
Eu conhecia muito bem a “Bomboniere” da rua XV de Novembro (pouco abaixo da esquina com a José Pinto de Almeida) e que ficava bem perto da nossa casa: ela era pequena, mas para mim, mais encantada que a Fantástica Fábrica de Chocolate do Sr. Wonka. Não só pelos doces, mas também porque tinha no alto um balcão ondulado, que eu não sabia aonde ia dar e o que escondia. Mesmo ali, no piso inferior, tudo era uma festa para os olhos e para a boca: prateleiras preenchidas por cubos de vidro repletos de balas, chicletes, dadinhos de amendoim, bombons e chocolates. Espetados em tabuleiros de madeira, pirulitos grandes, embalados em papel colorido estampado com caretas engraçadas, ou aqueles pequenos, retangulares, “do Zorro”. E a loja tinha muito mais: pacotinhos de balas de goma (que meu pai tanto gostava), bonecos de plástico de super-heróis, com tampinhas de plástico na cabeça, recheados de dezenas de bolinhas coloridas e doces. Frascos de plástico transparente (daqueles que precisava cortar a ponta com tesoura para tomar o suco doce e colorido que vinha dentro) em forma de revólver ou carrinho. Latinhas ovaladas cheias de balas...  Isso tudo sem contar as caixas de papelão, cada uma com sua tampa de vidro quadrada com moldura de madeira, onde ficavam os salgadinhos vendidos a granel. Ah, e o baleiro grande e giratório, com balas Soft, Kids e aquelas Kleps que eram vendidas em fitas? E os balcõezinhos com dropes, Mentex, chocolates das mais variadas marcas e bonecos da Disney, que esticando o pescoço, guardavam pastilhas “Pez”? E o ovo de chocolate que vinha numa caixa azul que minha mãe comprava para meu pai na Páscoa?
Pois era dali, justamente dali, pertinho de casa, que meu pai trazia os cigarrinhos ou as pastilhas de chocolate. De lá vinham os aguardados tubos de papelão que viravam lunetas.
Às vezes, em nossas conversas, eu fingia uma falsa e exagerada decepção e meu pai ria, me perguntando se eu preferia que ele não tivesse trazido os chocolates. E eu, risonha e dramaticamente, dizia que seria melhor o amargo da verdade que o gosto doce da mentira. E ríamos os dois.
Preciso de um tubo de papelão daqueles. Pode ser azul, vermelho, da marca que for. Não são necessárias nem as pastilhas de chocolate embaladas em papel alumínio. Preciso só do tubo, para retirar a tampa de plástico e o fundo de papelão. Preciso daquela luneta. Ir para janela do escritório e vasculhar aquele passado. Ver o pai chegando da rodoviária carregando seu cansaço.  Trazendo seus livros, seus cadernos e quem sabe o chocolate comprado na “Bomboniere” a poucos metros da nossa casa.
Preciso daquela luneta fantástica com cheiro de chocolate.
E a visão do riso inconfundível do pai.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pela autora
Publicado no Jornal de Piracicaba em 12/11/2017