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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Nomes: modos de transgredir

(caio silveira ramos)

Entre o final de março e o início de abril de 1971, poucos dias antes do meu nascimento, meus pais decidiram qual seria meu nome.
Ele, talvez marotamente, sugeriu, se nascesse um menino, o nome do sogro.  Minha mãe, conhecedora dos sentidos mais profundos das palavras de meu pai, deu a deixa para que ele pudesse revelar as ideias que realmente estava ruminando:
“Hum... ‘Sylvio’... Seria muito bom, mas aqui vão chamar o pequeno de Sirvo, Sirvinho... Acho muita maldade fazer isso com nosso nenê”.
“É, não é mesmo? Você tem toda razão... Então, estive pensando... O que você acha do nome ‘Anísio’, em homenagem ao Anísio Teixeira?...”
“Ah, não... Um bebezinho chamado ‘Anísio’? Acho que não combina muito...”
“É mesmo... Um nome antigo... Parece nome pra gente mais velha... Pensei também em ‘Caio’. Em homenagem ao Caio Prado Júnior...”.
“‘Caio’... É bonito. Então está certo: vamos dar ao nenê o nome ‘Caio’!”
Meu pai sorriu.  Mas se eu pudesse assistir àquele momento “ao vivo” não entenderia todas as razões do sorriso do pai.
Anos depois eu soube que o educador baiano Anísio Teixeira era um dos ídolos dele.  Anísio foi, no Brasil, o grande ideólogo da educação pública e um dos maiores símbolos na luta pelo ensino gratuito (e de qualidade) para todos. Para ele, a educação não era privilégio: era um direito. Toda sua vida foi devotada à ela.  E por ela foi criticado e perseguido. Mas pela educação ele lutou até o fim de sua vida.
Caio Prado Júnior foi um dos grandes pensadores do Brasil. Até os que o criticam e discordam de suas ideias (e de algumas de suas injustificadas omissões) reconhecem que suas obras são fundamentais para entendimento da História do País. Livros como “Formação do Brasil Contemporâneo” e “História Econômica do Brasil” são leituras obrigatórias para quem deseja conhecer o País a fundo.  Sobre a obra de Caio Prado Júnior não cabe falar a frase ignorante: “não li e não gostei”.  Pode-se até abominar suas ideias. Mas elas devem figurar em qualquer biblioteca que se preze.
Assim, na intenção do nome “Anísio” – que mesmo não efetivada esteve sempre presente em cada passo da minha vida – e na concretização do nome “Caio”, as paixões de meu pai e as bênçãos generosas de minha mãe nada impuseram a uma criança, mas nela gravaram as ideias que eles tanto lutavam e colocavam em prática todos os dias: a salvação e a transformação de vidas pela educação gratuita de qualidade e a diminuição das profundas desigualdades sociais de um país.
Mas só há pouco tempo descobri que meus pais foram além.  Menos de um mês da escolha do meu nome e do meu nascimento, Anísio Teixeira, depois de dias desaparecido, foi encontrado morto no fosso de um elevador. Naquela época já se suspeitava o que as atuais investigações indicam: Anísio não sofreu um acidente como foi oficialmente alardeado: pelas posições de seu corpo e de sua pasta (ambos encontrados numa parte do fosso incompatível com uma queda), pelo local e condições em que foram encontrados seus óculos, e principalmente pelas lesões sofridas pode-se concluir que Anísio foi brutalmente assassinado e depois teve seu corpo, sua pasta e seus óculos “arrumados” no fosso.  Coincidência ou não, após a morte de Anísio Teixeira o governo deu o pontapé inicial no desmonte da educação pública brasileira de qualidade. Educação pública que hoje agoniza impedindo que várias vidas sejam transformadas.
Quanto a Caio Prado Júnior, quando “recebi” seu nome, estava ele preso já há algum tempo.  E assim continuaria até agosto daquele 1971.  Preso não por desvio de dinheiro público, caixa-dois, corrupção ou qualquer desses crimes tão comuns na vida política brasileira: da mesma forma que fora preso durante a Ditadura Vargas, Caio estava novamente encarcerado, agora pela Ditadura Militar, simplesmente por suas ideias e livros.
Assim, com um simples nome dado a um bebê, meus pais de uma forma corajosa transgrediram a brutalidade de um Regime que atravessava justamente seu momento mais covarde e perigoso.  Por meio do nome de uma criança (com todas as suas variantes e intenções) estavam ofertadas as esperanças de um Brasil mais justo e humano.
E aqui sigo eu, prova viva de um período que não se apaga.  Nos nomes e sobrenomes que carrego na alma e no corpo está gravada para sempre a certeza de que a educação transforma vidas.
E que as ideias de um País menos desigual jamais, jamais devem ser novamente torturadas, mortas ou encarceradas.

                                                                                               Publicado no Jornal de Piracicaba em duas partes: 24/1 e 27/2/2019

Dessemelhanças


(caio silveira ramos)

Minha mãe organizou um almoço para comemorar o aniversário da tia Teresa, que andava amuada desde a morte do tio Estrela.
Do primeiro casamento do vô Otávio nasceram sete filhos.  Depois que ficou viúvo, ele se casou com a vó Luiza com quem teve mais quatro crianças. Na época do almoço de aniversário, meu pai e tio Henrique já tinham partido, mas tio Augusto, depois de muitos e muitos anos, reviu tia Teresa. No início, não reconheceu a irmã e me cutucou: “quem é essa carioca?” “É a tia Teresa, tio...”
“Teresa, é você mesmo? Não tinha reconhecido!! Também, onde já se viu uma caipira criada em Itu com esse sotaque?”
Tia Teresa riu e abraçou o irmão.  Ela morava no Rio de Janeiro há muito tempo e um tanto pelo costume e outro tanto pelo charme (alguém diria “esnobismo”), carregava nos “erres” e “esses” cariocas.
De qualquer forma, eu estava feliz por rever tanta gente que não encontrava fazia tempo, inclusive a própria tia Teresa.   Estavam lá, tia Myrthes, Heloísa e Daniel, viúva e filhos do tio Henrique. E também todo pessoal do tio Augusto, vindos lá de Jundiaí: tia Carminha, Maria Luiza (com o marido e os filhos), Fátima, Helena e Tavinho.
Passei boa parte da festa olhando para aqueles meus parentes, buscando meu pai em cada traço e em cada palavra.  Mas ele era muito diferente dos irmãos e sobrinhos: talvez os olhos da minha prima Heloísa lembrassem um pouco os dele, com aquele verde profundo e atento. Mas de resto, meu pai parecia ser de outra família: tia Augusto, tia Teresa e a lembrança do tio Henrique tinham o mesmo formato de rosto e de nariz. O mesmo olhar. E quase os mesmos caminhos do tempo na pele.
Meu pai, mesmo com toda aspereza da vida, tinha o desenho do rosto menos brusco, os cabelos ondulados e negros penteados para trás, o olhar curioso de quem queria engolir o mundo e as letras para descobrir os mistérios do tempo, do espaço e do mais esquecido dos seres. Ele era muito diferente dos irmãos. Até no nome: era o único que tinha o “Coelho” antes do “Ramos”: será que o Miro teria puxado mais o lado materno, diferentemente dos irmãos?
Talvez as dessemelhanças fossem fruto do tempo e da separação causada pela morte prematura de uma jovem mãe de quatro crianças, que tinham na época entre 5 e 11 anos. Meu pai, por exemplo, mais por amor ao estudo que por vocação, foi para o Seminário Menor em Pirapora do Bom Jesus, só voltando para casa em Itu - na verdade a casa de seus primos e tios Maria e Benedito -, no período das férias escolares.  Quanto a seus irmãos e irmã, cada um foi para um lado.
De qualquer forma, constatei que não seria naquele almoço que eu conseguiria reencontrar o olhar do meu pai.
Mas de repente, de longe, justamente eu que sempre fora traído pela miopia, consegui desvendar todo um mistério: na cabeceira da mesa, meu tio Augusto almoçava em silêncio. Percebi mais uma vez que seu olhar, suas orelhas, seus cabelos e a pele enluarada do seu rosto não me traziam a imagem de quem eu procurava.   Mas se suas mãos eram diferentes das do meu pai, a forma de segurar o garfo era a mesma. Se sua boca e seu queixo não refletiam meu pai, sua mastigação tinha exatamente as mesmas ondulações. Assim como eram iguais aos do meu pai o seu abrir e fechar das pálpebras, mesmo sendo tão diferentes os olhos de um e do outro.
Meu pai estava ali, naqueles movimentos do corpo. Separados pelo mundo, pelas dores e pela morte, eles se encontravam talvez no embalar de um antigo colo perdido, nas brincadeiras de pés descalços na terra batida, no riso solto espalhado no ar há tantos anos.
Meu pai estava ali.
Nos movimentos do tempo.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 2/9/2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O filho que ele quer ter


(caio silveira ramos)

Abriram perto de casa um parque coberto, que tem como atrações trampolins, redes elásticas, paredes acolchoadas, piscinas de espumas sintéticas, tabelas de basquete para “enterradas” depois de saltos fantásticos e até muros escaláveis.  Embora haja um setor exclusivo para adultos, é a parte infantil que mais atrai o público: mães e pais ficam esperando tranquilos (ou fotografando alucinadamente) enquanto suas crianças pulam felizes, parecendo voar como passarinhos.
Pois Joãozinho também foi voar com os amigos. E tudo ia às mil maravilhas quando o Lolô chegou esbaforido dizendo que o João tinha se machucado. Assustada, a mãe do acidentado saiu correndo e o encontrou num canto, com os olhos assustados e as mãozinhas entre as pernas, tossindo, quase sem fôlego, mas sem chorar. Ao seu lado, alguns monitores tentavam lhe dar um copo d’água, enquanto outros explicavam à mãe do pequeno que ele tinha caído, com as pernas abertas, na borda de uma piscina cheias de cubos de espuma. E que, mesmo acolchoada, a tal borda acabara ferindo o Joãozinho em uma região muito sensível.
A mãe levou o menino ao banheiro, examinou-o rapidamente e quando percebeu que ele tinha ficado mais calmo, perguntou se estava tudo bem.  E o Joãozinho, com os olhos molhados e profundamente tristes, encarou a mãe, segurou o choro e disse grave:
“Mamãe... eu... não vou poder mais ter filhos!”
A mãe do Joãozinho já esboçava um riso quando percebeu que o pequeno falava sério e sentido.   Então o tranquilizou dizendo que ele estava só assustado e dolorido, mas tudo ficaria bem. E um dia poderia ter quantos filhos sonhasse.
“E a dor, passou?”
“Tá passando. Só está um tiquinho.”
“Quer voltar a brincar?”
“Não quero, não.”
“Então tá bem.”
Mas faltando uns dez minutos para acabar o tempo de acesso aos brinquedos, ele esqueceu a dor e os temores, e aceitou o chamado dos amigos para voltar a voar.
Quando cheguei do trabalho, já sabendo da aventura, perguntei para ele se tudo estava bem. E se ele ainda estava com dor.
“Na hora doeu muito, mas agora já passou tudo. Papai, você viu o gol do Messi no jogo de hoje à tarde?”
Eu disse que não tinha visto, mas que tentaria ver.   Só que mais do que o belo gol do Messi, ficou passeando na minha cabeça a preocupação embutida na frase que o pequeno tinha dito a sua mãe naquela tarde. 
No serviço, contei aos colegas.  Todos acharam muita graça e se espantaram com uma suposta precocidade do Joãozinho.  Perguntaram de onde viria aquela ideia dele sobre a paternidade e suas origens. Respondi que talvez viesse de uma conversa qualquer comigo ou com sua mãe. Ou talvez, da advertência cuidadosa do professor ao orientar os meninos para se protegerem da bola na formação de uma barreira no futebol.  Uma amiga, rindo também, observou:
“Ele é canceriano mesmo: tem pendores dramáticos e é profundamente ligado à família!”
Eu que desconheço o caminho dos signos, mas me perco perseguindo a poesia, sorri-devaneando com os sonhos do filho. 
Não, não me empavonei por imaginar orgulhosas e numerosas descendências.  Mas sorri por João perceber, na sua ainda curta existência, que a paternidade pode ser uma experiência prazerosa. E, ao que parece pelo tamanho do seu temor de não conseguir conhecê-la um dia, entender que é algo que comporta mais do que a simples capacidade de ajudar a criar outro ser.
É algo que tem a real e bem-aventurada possibilidade de tentar fazer esse outro ser mais feliz.









Ilustração de Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 11/2/2018

Natais presentes


(caio silveira ramos)

As manhãs ansiosas acordadas muito cedo desde o começo de dezembro.
Um pião colorido de ferro acionado por uma haste espiralada.
As músicas da mãe.
Uma carriolinha vermelha de braços amarelos e rodinha preta.
Os presépios do pai.
Uma escova de cabelo com uma zebrinha pintada.
A mesa decorada pelas irmãs.
Um urso de plástico com talco cheiroso dentro.
A bandeja de frutas (ameixas, pêssegos e uvas) sobre o baú da máquina de costura “disfarçado” pela toalhinha de renda.
Uma caixa “Ao bom menino” de ferramentas “de verdade” para crianças.
A cesta - de vime, retangular, grande, com a tampa presa com dobradiças e fecho de metal, usada depois como guarda-brinquedo e até como base de um presépio pequeno - trazida pelo tio Samy naquele Natal arrumado lá no “Quartão”, com a família toda reunida.
Uma clarineta vermelha de plástico, com chaves coloridas para acompanhar a partitura escrita com bolinhas pintadas.
A alegria das irmãs.
Uma caixinha registradora amarela que, apertado o botão vermelho, toca uma campainha e tem aberta a gaveta com o dinheiro para o troco.
O riso sacudidinho da tia Mocinha.
Uma escavadeira de plástico, com base giratória, esteira de borracha e uma manivela lateral para mover o braço da pá.
A farofa com pedacinhos de maçã preparada pela mãe
Uma caixa pequena de isopor cheia de peças coloridas e dois pares de rodinhas de borracha para montar figuras e carrinhos.
O peru perfumando a casa.
Um carrinho de plástico (especial porque não esperado).
Os pratos especiais com flores no fundo (presente de casamento dos pais).
Um trenzinho movido à pilha.
A meia-noite do dia 24 de dezembro, hora de a família distribuir os presentes, depois do nascimento do Menino-Jesus no presépio.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para despertar os brinquedos que dormiram no pé da cama.
A manhã ansiosa acordada muito cedo no dia 25 dezembro para sonhar com o Natal do ano que virá.
Publicado no Jornal de Piracicaba em 24/12/2017

sexta-feira, 29 de abril de 2016

História de cérebro e boca

(caio silveira ramos)

Caiu de alguma forma nas mãos da mãe do João Pedro a seguinte frase: “às vezes, para um taurino ser feliz, ele precisa apenas de um abraço e duas coxinhas de frango com catupiri”.   A mãe do João Pedro, mesmo não vendo graça em horóscopos, encontrou graça na frase e emendou: “acho que sou mesmo uma típica taurina: essa frase me define”.   João Pedro que é amigo de afetos, mas também nunca abre mão do riso, retrucou: “pra mim, que não sou de touro, fico bem só com as coxinhas”.  E rindo, rindo foi abraçar sua mãe.
À noite, enquanto se preparava para dormir, João Pedro fez seu pedido de todo dia:
“Papai, deita comigo e conta uma história?”
 E como sempre, lá fui eu, de livro na mão, para ser iluminado pela luz do abajur verde e branco.
Terminada a leitura, na escuridão do quarto, ele me pediu que eu lhe coçasse as costas. E emendou:
“Agora, me conta uma história de cérebro e boca?”
Entendi o pedido: ele queria uma história inventada da minha cabeça, sem livros, sem escritas, algo para embalar seu sono e seu sonho. Mas para fazer eco a suas graças comecei:
“Um grande cérebro mal-humorado caminhava pela floresta quando encontrou uma boca cheia de dentes...”
Ele cocegou a noite com seu riso, e pediu: “não, papai, fala sério...”
Geralmente invento algo novo, que vai se espichando, espichando, e se encerra ao encontrar o sono do pequeno. Mas naquele dia me lembrei da história de “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, que no segredo da noite se achegou em mim abrigada pelas lembranças das belas gravuras de um livro perdido na infância, onde Aladim era chinês e havia dois gênios: um da tal lâmpada e outro de um anel.  Com o pensamento grudado naquelas velhas figuras, que até pareciam fotografias, fui retecendo a história, esticando o enredo, inventado mil e um ingredientes, umas três ou quatro tramas novas e alguns personagens estranhos tirados do bolso. E, tomado de liberdades, decretei até alforria para os tais gênios aprisionados.
No outro dia, encontrei outra versão de “Aladim” num livro grosso.  À noite, debaixo do abajur, li a história palavra por palavra. Letra por letra. Ele cutucou:
“Gostei. Mas a sua foi melhor.”
Dito isso, virou-se de costas para mim e pediu que eu atravessasse meu braço sobre seu peito, o que ele chama de “cinto de segurança”.
E dispensando coxinhas de frango com catupiri e outras histórias, ele adormeceu.
Aninhado no meu abraço.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 24/4/2016


O sítio do outro mundo

(caio silveira ramos)
  
Meus pais juntaram suas economias e compraram um pequeno sítio em São Pedro.  Talvez pretendessem plantar alguma coisa lá, ter uma horta, um pomar. Quem sabe criar algumas galinhas, como fizeram durante algum tempo no quintal de casa.
Me lembro de alguma coisa do caminho: antes de entrar na estrada de areia, no fim da parte asfaltada, um casal de poloneses vendia paçoquinha. Talvez servissem outras coisas, café, chá, melado, pois tinham um pequeno caminhão velho. Mas eu só me lembro da paçoquinha. E da areia que vinha logo a seguir pelo caminho.
No início, a porteira era feita de troncos retorcidos e arame farpado. Quando sobraram mais algumas economias, meu pai colocou uma porteira de verdade, de madeira, fechada com corrente e cadeado.  Para imitar os meninos dos filmes, eu descia, abria a porteira, subia no mourão, balançava na mão o chapéu de festa junina e gritava feliz “eeeia, eeeia, eeeia” para o carro do meu pai.
O sítio tinha uma parte plana e depois um longo declive, que terminava no lugar mais misterioso do mundo: enclausurado pelas copas das árvores gigantes, que impediam que o sol se intrometesse por ali, eternamente sombreado e fresco, havia um terreno arenoso limitado ao fundo por uma elevação de terra e pedra de onde brotavam fios grossos de água.
Era difícil chegar até lá embaixo: o terreno era acidentado, a descida, forte, a trilha às vezes se escondia debaixo do capim-gordura e era preciso ter cuidado por onde pisar para não se estrepar num buraco de tatu ou de cobra.  Mas o coração batia forte, quando, na metade do caminho, dava para se ouvir o barulho da água correndo.  E ele vinha para boca quando se entrava naquela catedral alta e sombria. Entre o medo e o deslumbramento, sempre acompanhado por alguém mais velho, eu caminhava com a respiração presa, desviando das áreas mais úmidas, até chegar perto da “parede do fundo” onde a mão em concha recolhia o jorro mais forte de água para refrescar a cabeça, a garganta e a alma. Depois era encher os galões para levar aquele frescor também para casa.  Mas antes de preparar o fôlego para a subida dura, eu olhava de canto para o maior dos meus medos ali: um grande círculo de areia molhada que diziam ser movediça.  E onde ninguém se atrevia pisar. Era como se aquele lugar saísse de um filme de Tarzan para me tragar até o centro da Terra. Era como se aquele círculo de areia brotasse de um sonho ruim para me levar para outro mundo.
Mas já lá no alto, eu me sentia a salvo de novo. Meu pai abria o porta-malas do carro e de dentro da “geladeirinha” de isopor tirava uma garrafa de laranjada gelada e sanduíches de presunto e queijo (ou de mortadela), tudo preparado pela minha mãe.   Passados a sede, a fome e uma suave modorra (depois de um breve cochilo), meu pai pegava a enxada, e de chapéu na cabeça, equilibrando de quando em vez os óculos que escorregavam no suor do rosto, saía para carpir o terreno mais plano. E incansável, lá ia ele também, combater a erosão na área inclinada, fincando, nos barrancos, sacos de estopa cheios de areia ou cavando longos e intermináveis sulcos de terra com bordas altas.
Algumas vezes, eu me vestia de meu pai e, de chapéu de palha, camisa enxadrezada, calça rancheira, bota de cano curto enlasticado e óculos se divertindo no suor do rosto, pegava uma enxadinha para brincar de trabalhar e ajudar a construir sulcos sem fim naquela terra com cara de areia dura.
Mas, diferente de meu pai, eu não era menino criado na roça. Cansado da brincadeira, ia até o carro, me sentava em frente ao volante e fingia dirigir aventurado no meio de uma savana cheia de leões e rinocerontes sanguinários.
Ou então, deixava meu olhar se perder pelo céu.
E me perdia junto com ele.


***
Enquanto meu pai, já sem camisa e empunhando apenas sua velha enxada, continuava a lutar contra a erosão faminta que atacava nosso sítio sem nome, e minha mãe, de coração botânico e dedo verde, enfrentava todos os perigos dos capões mais traiçoeiros para recolher mudas novas e diferentes, eu subia pelo capô da Variant cor de café com leite (e tempos depois, da Brasília branca) e chegava até o teto do carro estacionado.
Eu era pequeno e leve, mas mesmo assim me suavizava ainda mais para não ferir a lataria. Lá em cima, me deitava de costas sobre o teto e, com as mãos sob a cabeça, grudava os olhos no céu. E aí me esquecia do mundo.
Não ficava ali para cochilar ou decifrar o formato das nuvens, mesmo porque o céu era tão limpo que poucas vezes vi algumas delas passeando por lá.  O meu prazer era me tontear naquele infinito azulado até quase perder os sentidos: deixar os olhos mergulharem fundo, fundo, para que pontos dourados e prateados começassem a dançar pisca-piscando. Então, me dissolvia inteiro para me confundir com aquele céu.
Dali, mesmo durante o dia, eu poderia atravessar a atmosfera e descobrir todos os mistérios das galáxias mais distantes. Mas preferia ficar fragmentado e despossuído só naquele azul, invertendo todos os sistemas copérnicos para me tornar o centro do Sistema. O centro dissolvido do Universo.  Eu era além de mim e era tudo.  Pelo menos até o que azul se amarelasse nas beiradas do céu e meus pais me chamassem de volta. Era hora de ir para casa.
Mas chegou o dia em que da estrada de areia avistamos a cerca cortada e o sítio invadido por uma boiada bem nutrida. Meu pai pastoreou o rebanho até a abertura da cerca, montou no carro e seguiu no rastro da bicharada. Acostumada ao pasto alheio e ao caminho de volta para a casa própria, mansamente a boiada pegou a estrada e retornou para o ninho.  Meu pai desceu do carro e foi encarar quem arrebentava a porta do seu restaurante. “A culpa é da sua cerca que é fraca”.  Meu pai, filho de roça matreiro, rebateu: “a culpa é da sua torquês que é forte para cortar o arame e deixar a marca”.  Virou-mexeu, os donos do outro sítio acabaram pedindo desculpas e prometeram que a boiada deixaria de comer fora de casa.
Se aqueles prometeram, outros não.  Em nova visita ao sítio, a mesma história: cerca cortada, boiada se esbaldando no capim-gordura, meu pai pastoreando a bicharada para fora, que mansamente também sabia o caminho de casa.  Só que dessa vez teve jangunçaria mal-encarada, um sujeito que se distraía batendo com o facão na própria coxa e intervenção da polícia. Tudo certo, tudo resolvido, mas ficava claro que o sonho do sítio estava virando pesadelo. 
Bois invasores, capangas de gente graúda, árvores frutíferas vandalizadas, lutas inglórias contra a erosão e a impossibilidade, para um casal de professores, de gerar mais vida naquela terra fizeram meus pais venderem o sítio de São Pedro para garantir o estudo dos filhos. 
Aquele lugar, onde eu avistava deus e o diabo numa catedral de cúpula copada.  Aquele sítio, onde eu me entorpecia olhando o céu e acabava misturado ao infinito, desprendeu-se do meu caminho para sempre e foi parar num outro mundo. Ainda mais distante.
E hoje, nos dias sem nuvem, quando tento olhar para o alto, eu me sufoco no azul-cinzento.
E boiando na poeira, vou me desintegrar no céu desbotado.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 e 28/2/2016

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Olhos de ver

(caio silveira ramos)

Eu ainda era pequeno, muito pequeno, mas minha mãe logo percebeu que alguma coisa no meu olhar não estava bem.  Talvez eu também até percebesse, mas como o mundo que se me apresentava era bom – e eu não tinha outro olhar para comparar -, me pareceu que tudo deveria ser como já era.  Mas para ela não: eu merecia conhecer o mundo com todos os seus sentidos.
Ela procurou um oftalmologista, depois outro, e outro, e outro. Foi até Campinas, mas a resposta era a mesma: “isso é coisa de mãe. A senhora é que está enxergando demais”.
Mas ela sabia que não somente os médicos estavam enxergando menos do que deveriam: eu também estava.
Foi então que ela descobriu o jovem oftalmologista Francisco Komatsu. Já na primeira consulta, enquanto me distraía com um coelho e uma coruja movidos à corda, ele constatou que a visão da mãe estava certa e a do filho realmente errada. E o que era pior: era grande o risco da vista se perder para sempre: “dificilmente ele escapará de uma operação”.  Minha mãe perguntou se nenhum outro método poderia ser tentado antes de uma cirurgia.  Ele disse que poderíamos experimentar algumas coisas, mas insistiu: “dificilmente ele escapará de uma operação”. 
Então começamos a correr contra o tempo: passei a usar óculos, muitas vezes com tampões e artifícios lúdicos para me distrair: para forçar a vista preguiçosa, tapava-se uma das lentes com coisas curiosas - recurso que minha mãe chamava de “televisãozinha” -, como um esparadrapo mágico, um durex invisível ou até quadrinhos de gibis da Turma da Mônica. Mas eu devia me cansar daquela ginástica, porque várias vezes me pegaram com os óculos virados de ponta-cabeça: eu queria deixar meu “olho melhor” livre para ver o que o outro desperdiçava.
Além das consultas periódicas com Dr. Komatsu, passei a frequentar também a sala de uma técnica-ortóptica, uma moça muito doce chamada Walquíria, que me postava diante de quadros com letras e figuras, e também de aparelhos curiosos que serviam para exercitar meus olhos: em um deles, eu deveria, como se manejasse um periscópio, colocar um leão desenhando em uma jaula. No outro, um soldadinho tinha que ir para dentro do quartel. Minhas mãos tentavam dirigir aqueles lemes, para frente e para trás, mas frequentemente as figuras iam para um lado e a jaula ou o quartel para o outro. Eu não conseguia, não conseguia: era traído pelos meus próprios olhos. Um dia cheguei a dizer que tinha acertado. Mas logo contei a verdade: minha visão parecia querer o leão e o soldado livres para sempre.
Em casa também havia exercícios. Recortava-se de um jornal um artigo comprido. E eu, com uma caneta hidrográfica vermelha, tinha que fazer um pontinho dentro de cada letra que tivesse uma parte fechada, como um “a”, um “o”, um “g” ou um “p”. Outra brincadeira interessante era colar um grande desenho (a figura do Cebolinha, por exemplo) em uma placa de isopor fina e, com uma agulha – com a parte em que eu segurava devidamente protegida por um esparadrapo cuidadosamente colocado por minha mãe para não ferir meus dedos e meus olhos – furar todo o contorno da figura: quanto mais juntos os furos melhor. 
E havia também o terrível colírio guardado na geladeira. Eu confesso que não me incomodavam as gotas geladas caindo nos meus olhos.
O que me intrigava, depois que minhas vistas se desembaçavam, eram as gotas que, quase escondidas, teimavam em envidraçar os olhos de minha mãe.

***
Dr. Komatsu endireitou-se na cadeira e me cumprimentou:
“Parabéns! Você conseguiu!”
E virando-se para minha mãe, completou:
“A senhora salvou a vista dese menino.”
Depois de um ano e meio de colírios gelados, consultas, exames, exercícios de ortóptica, tampões, e de óculos e lentes que muitas vezes custaram os olhos da cara de dois professores da rede pública, os meus próprios olhos escaparam de uma operação que, no meio da década de 1970, deveria apresentar uma série de riscos.  Mas esses mesmos olhos contaram com atalhos que facilitaram tal fuga: a ciência e a sagacidade do Dr. Komatsu, a serena doçura de Walquíria - a especialista em Ortóptica -, o acolhimento de Dona Rosa e de toda equipe do consultório, algumas poucas caixinhas de bonecos “Playmobil” comprados (ainda sob o efeito embaçador de colírios para dilatar a pupila) no “Ao Cardinali” (que maravilhosamente ficava no caminho de volta do consultório), e principalmente os atalhos cavados pelos olhos de uma mulher que viu o que vários médicos não viram. Que viu o que eu não conseguia ver. Que viu que eu não poderia ver. Que viu por mim.
E mesmo com a vista salva, várias sentenças rondaram (e ainda rondam) meus olhos:
1ª) “Nunca terás cem por cento de visão. Aliás, estarás longe disso. A propósito, tua visão ficará cada vez pior.”
2ª) “Deverás sempre se sentar, enquanto na escola estiveres, bem na frente e bem no meio da sala.”
E lá fui eu “para o meio e para frente” em uma época em que não se associava a imagem de meninos de óculos à descolada figura de um “nerd”.  E mesmo sendo também uma época em que ninguém usava ainda a palavra “bullying” – mas ele existia de todas as formas possíveis – nunca sofri, em todos os meus anos na escola, qualquer tipo de gozação ou aporrinhamento.  Tive a sorte de ver brotar amigos que me acompanharam pelas salas de aula e pelos pátios das escolas, e que ainda, muitas vezes, vieram se sentar ao meu lado para que eu não me sentisse sozinho.
No último ano de colégio, quis me rebelar contra os meus olhos. Tentando fazer com que a colega ao lado virasse seu olhar na minha direção, resolvi, durante uma semana de aula, me sentar no meio, mas na terceira fileira. E ainda sem os óculos!  Não enxerguei a lousa, nem as fórmulas das aulas de Química. Não consegui ver (lógico), mas provavelmente a colega ao lado nem deve ter reparado na minha mudança de lugar e de estilo. E na semana seguinte, lá estava eu de novo, de óculos na cara e sentado na carteira do meio e da frente.
E nos caminhos que fui trilhando (às vezes levando alguns tropeços e umas tantas topadas) aprendi a remodelar meus outros sentidos, tentando enxergar além dos olhos.  Mas mesmo eles, ainda que mais nebulosos a cada ano, nunca deixaram de me acompanhar nas leituras dos livros e do mundo.  E dessa forma, fui tentando treinar meus olhos-de-pouco-enxergar para muito ver.
Assim como os olhos que me foram emprestados na infância por uma mulher. Olhos que olharam por mim.
E me permitiram mirar os infinitos.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º e 8/11/2015



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Rotina

(caio silveira ramos)

Todo dia ele fazia tudo sempre igual.
Pouco antes das cinco da manhã, meu pai se levantava da cama.   Na cozinha, colocava numa das asas do fogão antigo, as duas ex-latas de bolacha: a maior, com açúcar cristal; a outra, com o pó de café.    Encaixava no velho tripé de ferro o coador de pano e logo abaixo o bule de metal sem a tampa.  E enquanto deixava a água em fogo baixo para ferver na “caneca” (era esse o nome que ele dava para a panelinha certa, que tinha até a marca da medida correta), meu pai ia para a sala fazer a ginástica aprendida nos tempos do Seminário de Pirapora.   Nada muito puxado, só movimentos básicos para começar bem o dia.  De volta à cozinha, com a água já fervendo, escaldava o coador, jogava fora a água do bule e media com uma colher (pouco maior e mais pontuda que as de sopa) o nível da água que tinha ficado na “caneca”.    Tudo nos seus conformes, colocava as colheres “certas” de açúcar e de café, mexia aquele caldo grosso e escuro e o despejava cuidadosamente no coador, só parando para dar umas mexidinhas na “caneca” pra que a mistura saísse uniforme.   Enquanto o café ainda caía no bule, despejava com muito jeito um tanto na sua xicrinha de ágata e tomava de olhos fechados.   Depois colocava mais um tanto numa outra xícara (de louça ou também de ágata, só que maior que a sua) e levava para minha mãe acordar seu dia. 
E ela despertava com o aroma, o gosto e o cuidado. Ou já estava desperta, protegendo a família e o mundo com suas orações.   E enquanto meu pai arrumava a mesa (ou fazia a barba e se preparava para o banho), ela colocava o leite para ferver e ia me chamar, já com meu uniforme passado, cheirando a novo.
E era um chamado doce, de proteger meus sonhos guardados: “filho, cobre os olhos”.  E era só eu me cobrir para ela acender a luz, já me oferecendo desculpas: “precisa ir hoje mesmo? Está chovendo lá fora”.   Ternura marota: talvez ela já soubesse que assim eu jamais conseguiria me negar a começar o dia.
Eu enrolava um tanto, imaginava o tempo lá fora e a manhã que me aguardava. Vestia o uniforme e cambaleando abraçava e beijava minha mãe, que naquele instante pendurava numa cadeira colocada em frente à porta do banheiro a roupa do meu pai passada há pouco. Não que precisasse ou ele pedisse: a roupa já saia perfeita do guarda-roupa. Mas o guarda-pó branco e comprido, e a camisa cheirosa passados de manhã eram apenas mais uma das muitas ternuras daquela mulher: era como se naquele momento ela acarinhasse e protegesse meu pai pelo dia todo.
De banho tomado, com o cabelo ondulado ainda molhado e penteado para trás, vestindo só a calça e os chinelos, meu pai abria a porta do banheiro para apanhar a camisa. Então, eu o abraçava.  E naquele abraço eu repousava mais um pouco: o cheiro do café espalhado pela casa, o cheiro da roupa passada, o cheiro do perfume do meu pai me embalavam e me abrigavam dos males da vida.
Eu lavava o rosto, tentava domar meu cabelo com a velha escova do meu pai e me sentava à mesa do café.   E enquanto mergulhava o pãozinho sem miolo que ele ou minha mãe tinham acabado de trazer da padaria, meu pai, carinhoso-zombeteiro, se ria do meu jeito de soprar a quentura do leite com café, me chamando de “bico fino”.  Mas lá vinha minha mãe de novo, colocando a minha caneca numa panelinha com água fria. Ou ele mesmo amornava tudo, passando o café com leite de uma xícara para outra.  E eu tomava aquele leite espumoso sob os olhos risonhos do meu pai.   E meu dia, enfim, acordava.
*
Há quem diga que nenhum amor sobrevive à rotina.
Talvez.
Ou talvez só na rotina o amor se revele inteiro. 
E para sempre.

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 5/9/2014