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sexta-feira, 13 de julho de 2018

A cabra na sala


(caio silveira ramos)

Certo dia, o Vô Sylvio apareceu com uma cabritinha branca lá na casa da rua Prudente.  Quem deu falou que era para a ceia do Natal.   Mas a criançada se afeiçoou de tal forma à bichinha, que quando o Natal chegou ninguém teve coragem de mandar abater a cabrita. A Jandyrinha, que era quem mais gostava de planta e de bicho, quando soube que o presente não era de estimação, mas para refeição, abriu um berreiro tão grande que a dona Dedé, que morava na esquina, deu permissão à menina para entrar todo dia no seu quintal e cortar capim para alimentar a cabritinha. Desde então, Jandyrinha e Branquinha se tornaram inseparáveis companheiras de brinquedos e confidências. 

Sobrevivendo às festas do fim de ano, a cabrita se sentiu em casa de tal forma que, quando o Vô Sylvio chegava do trabalho e se sentava em sua poltrona em frente ao rádio grande da sala para ouvir notícias e novelas, ela empurrava a porta da cozinha, atravessava a casa e se espichava no chão ao lado dele até a hora do jantar. Dizem que se interessava particularmente pelas novelas de amor e mistério, mas isso pode ser lenda.
O que não é lenda é que Branquinha cresceu, virou uma beleza de cabra mocha e durante um bom tempo, ordenhada pela própria Vó Jandyra, forneceu leite para a família.   Senhora do quintal (mas sempre longe das roupas penduradas na corda), Branquinha se entrosou perfeitamente bem com os outros bichos da casa: Meg, uma destemida fox-terrier de pelo duro, presente de um casal inglês que tinha morado em frente; Dunga, um fox meio vira-lata que apareceu para ficar durante a viagem de uns vizinhos, mas que depois não quis mais ir embora. E, lógico, os muitos pintinhos que passeavam fora do galinheiro.  Com esses Branquinha era especialmente maternal: cuidadosa, ela se deitava de bruços para que os bichinhos se instalassem em suas costas e, quando tinha certeza que todos estavam bem seguros, saía pelo quintal desfilando feito trenzinho de passeio.
O Hélio, que por esse tempo já na namorava a Lia, achava tanta graça na Jandyrinha brincando descalça no quintal com a cabrita e os outros bichos, que arranjou um porquinho muito do danado para a menina.  Ela se encantou com o novo companheiro que, como a Branquinha, tomava banho de regador.   Parece que os dois bichos se deram até bem (inclusive ele também deu para passear com os pintinhos nas costas), mas só a cabritinha continuava com autorização para assistir ao rádio na sala.  E ainda era a preferida da Jandyrinha.
Até que Vô Sylvio e Vó Jandyra tiveram que se mudar para uma casa sem quintal na rua Treze.   Não se sabe ao certo que destino tiveram os pintinhos, Meg, Dunga, Branquinha e o porquinho (que nos últimos tempos já tinha virado um cachaço bonachão). 
Talvez, saídos de uma casa sempre tão cheia de melodias, desfilem por aí, feitos os Músicos de Bremen.  Na frente vai Branquinha, altiva, cheia de orgulho, com os pintinhos aboletados em suas costas assobiando felizes uma antiga canção de rádio-novela.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 7/1/2018

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O sorvete solitário

(caio silveira ramos)

(para Dona Janda, por gostar de bolo com sorvete)

Há um episódio de “Os Simpsons” em que o personagem Homer abre o freezer e se vê diante de vários potes de sorvete. Ele abre o primeiro pote e se revela um sorvete do tipo “Napolitano” em que as “faixas” de creme e morango estão intactas, enquanto a parte reservada ao chocolate está completamente vazia. Visivelmente decepcionado, ele vai abrindo as outras caixas e em todas a situação é a mesma: creme e morango até a boca dos potes e o espaço do chocolate completamente vazio. Ao abrir o último frasco, inconformado, grita para a esposa: “Margie, precisamos comprar mais sorvete Napolitano!”.
Quando eu era pequeno, não entendia por que as pessoas compravam sorvete “Napolitano” se “todo mundo gostava mesmo era o de chocolate”. Depois ficava aquela disputa feroz e o meu sabor preferido acabava bem antes dos outros tipos de sorvete.
Não passou muito tempo e eu acabei concluindo que o “Napolitano” talvez fosse mais democrático que o exclusivo de chocolate, afinal, sempre tem alguém que não come esse sabor e não seria justo deixar tal pessoa passando vontade.  Ou quem sabe a razão fosse outra: um pote só de chocolate seria mais ou menos como um final de semana dentro das férias: não teria a mesma graça.
E foi justamente durante umas férias no começo da década de 1980 que algo novo me chamou a atenção: eu estava em Peruíbe, na casa da família do meu amigo Rogério Nakamura. Tínhamos acabado de almoçar, o calor era violento e nós dois ficamos como uma vontade absurda de tomar sorvete.  Dona Marta nos deu dinheiro e, debaixo de um sol impiedoso, saímos alucinados de bicicleta atrás da nossa sobremesa.
Devia ser domingo à tarde de um janeiro: quase todos os bares e padarias estavam fechados. E os que estavam abertos não tinham mais nem um picolé pra contar história. Rodamos, rodamos, fomos longe, com o sol castigando sem dó, quando encontramos um armazenzinho perdido no tempo e no espaço. E dentro do freezer de sorvetes se materializou um único e solitário tijolinho de sorvete de morango Kibon. 
Naquela época, os sorvetes de massa para levar para casa ou vinham em embalagens de plástico grandes ou em tijolinhos embalados apenas com papelão. Esses tijolos, quando rasgado o papelão, deviam ser consumidos rapidamente, pois sem embalagem alguma (que nada tinha de térmica) derretiam num instante.
Pois eu e meu amigo Rogério retiramos o tal tijolinho de sorvete de morango de dentro do freezer como quem encontra um tesouro. Pagamos e o dono do armazém colocou a embalagem num saquinho de plástico que rapidamente o Rogério amarrou no guidão da sua bicicleta. E com medo que nossa riqueza derretesse no caminho, voamos até chegar à casa.
Domingo, calor, depois do almoço: a família toda cochilava em algum canto. Pegamos um prato fundo e duas colheres, nos sentamos na soleira da porta da cozinha e rasgamos a embalagem de papelão sobre o prato. O sorvete já estava começando a derreter, então não perdemos tempo: mergulhamos no sorvete com vontade. Cada um com sua colher. Nunca nada parecera tão gostoso: a consistência, a textura, o sabor, o frescor explodindo na boca e descendo pela garganta.  Num segundo, o papelão desmanchado sobre o prato não tinha mais nenhum vestígio de sorvete. E solenes, sabedores da importância daquele momento, jogamos a embalagem no lixo.
Durante todos esses anos, experimentei muitos tipos e sabores de sorvete: receitas simples ou mais elaboradas, algumas sublimes. Mas poucas se aproximaram do prazer proporcionado por aquele tijolo de sorvete de morango.
E hoje, quando me vejo diante de um pote de sorvete “Napolitano”, nunca deixo de pegar algumas colheres do de morango, provavelmente para me lembrar daquele sorvete tomado com tanta satisfação na soleira da porta de uma cozinha estacionada no tempo. E me dou conta de sempre reparar que os grandes prazeres da vida estão nas coisas mais singelas.
Ou simplesmente constato que o sorvete de chocolate ainda é disparado o mais gostoso.


 Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 de fevereiro de 2017 sob o título de Morango rejeitado

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Amadores

(caio silveira ramos)

Tio Amador era irmão da minha avó Jandyra.  Ele trabalhava no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e morava com a esposa e os dois filhos numa das casinhas que eram reservadas para os funcionários.  De quando em vez vinha para São Paulo: na Capital, visitava a mãe, dona Sebastiana, e suas irmãs e irmãos. Em Jundiaí, a irmã Zezé e a sobrinha Josette.  E em Piracicaba, as sobrinhas Maria da Glória e Jandyrinha, que se assemelhava à mãe não só no nome, mas também no amor pelas plantas.
Ele chegava sempre risonho, com o cabelo muito crespo e branco cortado bem curto, os óculos de aro escuro e quadrado, e o corpo baixote e gorducho. Às vezes aparecia de chapéu de palha.  Mas sempre vinha com um pacotinho de papel pardo, lotado de “Balas Chita” para a molecada.  Eu adorava as de embalagem amarela – acho que de abacaxi ou de tutti frutti –, mas não dispensava as de menta, caso no meio viessem também as empacotadas em papel verde.    A primeira criança da casa que aparecesse (e era quase sempre eu quem abria a porta) recebia o sorriso e o pacote, mas as balas eram imediatamente oferecidas aos mais velhos (e, por sorte, recusadas), e fraternalmente repartidas entre os pequenos. 
Tio Amador adorava papear com meus pais sobre os parentes, o Jardim Botânico e as plantas.   Em todas as visitas, não deixava de demonstrar seu encantamento por minha mãe ter feito florescer o “Bastão do Imperador” nos fundos da casa: “o Hélio, melhor agrônomo que eu já vi, mesmo naquela belezura de terra roxa dele, jamais conseguiria Bastões tão saudáveis e bonitos quanto esses que iluminam seu quintal, Jandyrinha!  Só sendo filha da mana Janda para ter essa mão pra natureza!”  E ficava lá, um tempão no quintal, namorando aquela flor misteriosa de caule grosso e bulbo majestoso, avermelhado, parecendo mesmo um cetro real.
Depois, ou Tio Amador almoçava em casa ou pedia para meu pai levá-lo de carro a algum dos restaurantes da cidade “para comer uma feijoada ou um peixinho, sem dar trabalho para a Jandyrinha”.  Entrou para o folclore da família a história que meu pai contava às gargalhadas: enquanto saboreava uma suculenta feijoada, tio Amador espirrou forte e a dentadura caiu dentro do prato.  Sem qualquer cerimônia, ele resgatou a dita do meio da comida, deu-lhe uma leve espanada com os dedos para retirar alguns grãos de feijão, meteu-a de novo na boca e tranquilamente voltou a comer satisfeito.
O que me intrigava é que, depois desses almoços, meu pai voltava sozinho para casa. Questionado, seu Miro sorria com os olhos e dizia apenas que tio Amador gostava de dar uns passeios sozinho.
Já um pouco mais velho, perguntei novamente a meu pai sobre aqueles antigos passeios do tio.  E ele respondeu gaiatamente mais uma vez: “seu Amador saía por aí porque gostava de ver moças bonitas e conversar com elas”.
Me dei por satisfeito com a resposta e pensei lá comigo que tio Amador tinha sido um sujeito feliz. 
E que eu queria ser um amador também.

***

Até meus oito, nove anos, eu e minhas irmãs fomos alegremente abastecidos pelas “Balas Chita” trazidas pelo tio Amador.  Mas ele não aparecia apenas com o pacotinho de balas para as crianças: dos seus bolsos, tio Amador tirava sementes de todos os tipos e tamanhos, e as distribuía para quem se interessasse por plantas.  Eu que naquela época tinha descoberto a história d’ “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon, achava que tio Amador também tinha o “dedo verde”: ele devia ser uma espécie de mágico, que ia derramando suas sementes pelo mundo. E delas brotavam as flores mais exóticas, as plantas mais misteriosas, que se espalhavam por quintais e varandas. E que de repente até poderiam sair pelas frestas dos muros e do mundo.
Eu já devia ter uns onze anos quando fui com meus pais passear na casa da tia Josette, em Jundiaí.  Uma casa cheia de sol e som, com primos e primas crescendo junto com a gente lá de casa, todos mais irmãos que simples parentes.  Além do encontro das famílias, o passeio tinha também dois grandes motivos: uma visita ao tio Amador, que muito doente passava uns dias na casa da sobrinha Josette. E o abraço numa coleção de pedras.
O primo Renato, o segundo filho mais velho da tia Josette, foi um dos meus heróis de infância: curioso e inteligentíssimo, passava horas estudando no quarto que dividia com o irmão Roberto.   Quando tio Sammy construiu o “predinho” nos fundos da casa, Renato passou a ter um quarto de estudos, de onde, para mim, ele saía muito raramente.  Um quarto de estudos com a porta sempre aberta, o que me permitia, mesmo de longe, espiá-lo pesquisando ou tocando flauta doce. Um quarto cheio de livros, com uma dessas mesas de engenheiro (provavelmente para o irmão desenhar os projetos para a faculdade) e um jogo de lentes chamado “Poliopticon” (cuja caixa eu namorava secretamente quando passava pela vitrine da “Gatti Ótica”, na esquina da rua Governador com a Moraes Barros).
Mas Renato nunca bancou o geniozinho chato, muito pelo contrário: conversava mansamente, não se negando a compartilhar seu vasto conhecimento com quem quer que fosse. Inclusive comigo, um primo quase dez anos mais novo, que olhava para ele fascinado como se estivesse diante do próprio Professor Pardal.  Pois quando saía do quarto de estudos, Renato aparecia com seus inventos: uma câmara fotográfica feita de papelão e fita adesiva, com disparador, visor e tudo mais. Ou um despertador de corda, que em vez soar estridente, acendia uma lâmpada quando dava o horário para acordar o sonhador. 
Eu, mesmo acordado, sonhava em ter um telescópio. Generosamente, Renato me deu duas lentes para que eu construísse meu brinquedo: fucei aqui e ali e, com dois tubos de papelão, fiz minha luneta regulável que conforme a distância permitia o ajuste do foco. Feliz da vida, achei que meu primo ficaria orgulhoso de mim. 
Mas quando fui mostrar a ele minha geringonça (e aproveitar para perguntar como se fazia para as imagens não se serem vistas de ponta-cabeça), o primo Renato já tinha voado para bem longe e se tornado professor de uma universidade americana.  Foi ensinar a novos amadores a beleza dos números que viajam por trás dos mistérios do Universo.
Isso foi bem depois. Naquele dia da visita, já que eu andava todo interessado em fazer uma coleção de pedras, ele me deu de presente vários exemplares incríveis para eu não começar do zero.  E com o pensamento cravado nas pedras e cristais que tinha acabado de ganhar do primo Renato, fui cumprimentar o tio Amador, que estava ocupando uma das camas lá no quartão das minhas primas.
Acho que ele não me reconheceu direito. E eu também quase não o reconheci de pijama listado de mangas compridas e com o cabelinho crespo muito branco.  Os olhos miúdos sem os óculos pareciam infinitamente tristes.  Era um tio Amador sem pacotes de balas nas mãos, sem sementes brotando dos bolsos, sem sorriso cantando na boca. 
Parecia que, de repente, a terra e a vida também tinham se transformado em pedra. Não como aquelas cheias de beleza e mistério da minha nova coleção.  Mas como pedras secas, duras, que agora se negavam a beijar os dedos verdes de um amador inveterado.

***
Eu e meu pai fomos passear no Rio de Janeiro e aproveitamos para visitar a família do tio Amador, que já tinha falecido fazia quase quinze anos. Por todo o caminho, cortando por dentro do Jardim Botânico, tive a impressão de que a qualquer momento eu o veria espalhando suas sementes ou espiando por entre as árvores, feito um curupira protegendo sua mata. 
Seus filhos tinham a idade das minhas tias mais novas: ele, muito parecido com o pai, só que quieto e com o olhar mais distante.  Ela, o sorriso e a ternura de tio Amador.
Já a viúva, se parecia não ter ternuras, com certeza tinha perdido todos os seus sorrisos.  Nos olhos, nos cabelos pretos muito lisos presos num coque e em cada vinco do rosto se embrenhava uma secura que parecia ter rompido há séculos. Não havia um olhar, um movimento de boca, uma palavra que não rimasse com a mais palpável amargura.
Dei para emparelhar as figuras ou para desentender o emparceiramento desenhado no passado: como podiam aqueles dois ter um dia se conhecido, se apaixonado, se casado e criado filhos sendo tão diferentes? Disfarçaria, ela, toda a alegria? Teria ele me enganado todo o tempo, escondendo igual amargor atrás de um pacote de “Balas Chita”?
Pensei que atrás daquele fel talvez ela escondesse as saudades dele, mas já desconsiderei: não se fisgava nela qualquer indício de falta acabrunhada. Ela reclamava do passado, do presente e da possibilidade de futuro.
Fui por outros caminhos: teria ele se espalhado, igual a suas sementes, para não vislumbrar as amarguras dela?  Ou teria ela se amargurado com a largueza da alegria apaixonada dele? Ou será ainda que eles teriam de comum acordo (re)partido ao meio a palavra “amador”, ficando ele com a melhor parte e ela apenas com a rima pobre?
Mas já no caminho de volta percebi que o amador era eu. Eu que do alto dos meus vinte e quatro anos tinha a certeza de já conhecer todos os meandros das paixões avassaladoras.  Eu que julgava implacavelmente os certos e os errados dos relacionamentos conjugais e afetivos.  Eu. Eu, que condenava traidores e traídos, compreendi que do amor só conhecia a superfície. Era um amador no entendimento dos amores alheios e próprios.
E hoje, passado tanto tempo, continuo reconhecendo meu amadorismo e humildemente me visto com a poesia do velho Carlos para repetir: amar se aprende amando.
E amando, e aprendendo, vou me tornando cada vez mais amador.
Simplesmente um amador.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/3 e 10/4/2016



Doçura enviada pela leitora Dilma Spigolon Ferreira (abril/2016)


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os retalhos de Cristina Flor

(caio silveira ramos)

A primeira lembrança que tenho da velha Cristina Flor chega com o cabelo sempre curto e branco. E o sorriso constante e tímido. E o rosto negro de poucas rugas. E as canelas e os braços finos.  Já a segunda lembrança vem com o corpo, que devia ser magro também, mas que parecia avolumado com suas roupas, seus poucos vestidos enfiados uns sobre os outros, como se quisesse ter suas coisas, seu mundo, sempre colados em si.
A história da velha Cristina Flor também vem chegando aos pedaços, mas eles são poucos.  Os outros vagueiam pelo tempo.
Dizem que Cristina Flor, moça linda, apareceu um dia aninhando uns panos, zanzando de lá pra cá. Chamaram, olharam: no colo, o filho sem vida, ela assim também, ou quase: para sempre debruçada no seu mundo.  A moça linda Cristina Flor, diziam, perdera o marido, perdera o filho, perdera o juízo.   Mas esse só ficou para sempre vagueando em outro lugar, em outro tempo. Como os pedaços da sua história.
Vó Sebastiana, com seus cabelos de índia, muito compridos e negros, recolheu alguns pedaços da alma de Cristina Flor. E Cristina Flor, com seus pedaços, começou a trabalhar na pensão da Vó Sebastiana, lavando e passando roupa, limpando peixe, arrumando a mesa. Debruçada no seu mundo: quieta ou falando sozinha. Ou talvez conversando com seus mistérios.   Mas Cristina Flor nunca morou na pensão.
Cristina Flor tinha sua casinha na Rua do Porto.  E uma vizinha que olhava por ela. E o olhar da vizinha era feito de talco polvilhado na escada da frente da casinha de Cristina Flor: de noite, as pegadas de Cristina diziam que ela já tinha voltado para encontrar com os seus sonhos.  De manhã, muito cedo, as não pegadas diziam que tais sonhos não a tinham levado para fora durante a madrugada.  E finalmente, no horário de sempre, o talco-olhar da vizinha podia sossegar: Cristina Flor já tinha saído para trabalhar na pensão da Vó Sebastiana.
Só que o tempo passou para Vó Sebastiana, que teve que fechar a pensão e morar com a filha Zilda em São Paulo.  Então, Cristina Flor foi trabalhar na casa da outra filha de Vó Sebastiana, a Vó Jandyra.  E lá conheceu a menina Maía da Góia.
O tempo passava também para Cristina Flor, que ainda morava na sua casinha na Rua do Porto.  Lá fazia à mão seus tapetes de retalhos e seus vestidos de trabalho e festa.  Cristina Flor adorava uma festa de brincamentos ou um evento religioso.   Nas procissões, mudava o penteado e saía com trancinhas delicadas no cabelo curto.  No Dia de Finados, se enfeitava toda e punha roupa nova para apreciar as barraquinhas de flores e gostosuras em volta do Cemitério da Saudade.  Se enfeitava para ver as pessoas. E ver o “movimento”.   E ver a vida.  E quando chegava a Festa do Divino, ela parecia voltar aos tempos de moça linda e se enchia de alegria e faceirice para apreciar os barcos, as bandeiras. O rio.
Quando o rio jogava água pra fora, a casinha de Cristina Flor na Rua do Porto era inundada e ela se assustava muito.   Até o dia em que Vó Jandyra, já morando na rua Santa Cruz, foi resgatar Cristina Flor, que estava acuada em cima de uma mesa, lá na sua casinha.   E Cristina Flor foi morar também na rua Santa Cruz.  E Cristina Flor foi dormir no mesmo quarto que a menina Maía da Góia.  Para sempre olhar pela menina Maía da Góia.
Até o dia em que a menina passou a olhar por Cristina Flor.
Cristina Flor, cada vez mais debruçada no seu mundo.

***
Ninguém sabia o motivo, mas havia dias em que Cristina Flor ficava brava e danava a falar sozinha (ou sabe-se lá com que esfera de seu mundo).  Se metia na frente do tanque a lavar trapos, roupas e, se passasse desavisado, até o cachorro da casa. Vó Jandyra dizia que se naquele dia um anjo topasse com Cristina Flor, acabaria sem uma das asas.   Mas Vó Jandyra brincava só para desenhar de volta o sorriso de Cristina Flor, que seria incapaz de ferir anjos, cachorros ou qualquer matinho travesso brotando de uma rachadura na parede.
E o tempo foi se embolando no mundo de Cristina Flor: pessoas partiram, passaram, e ela mergulhou ainda mais no seu mundo. Na velha casa da rua Santa Cruz só restaram Cristina Flor e Maía da Góia. Então, a já velha Cristina Flor começou a dar suas escapadas: baixotinha, parecia gorducha quando saía encoberta por seus vestidos, todos uns sobre os outros. E vagando pela rua, deu para guardar as frutas desprezadas, principalmente as jogadas na lixeira de uma quitanda vizinha. Até que se adoentou e Maía da Góia a levou para o Dr. Alcides Aldrovandi. Desfolhados os seus vestidos, descobriu-se um novo segredo: amarradas junto ao velho corpo negro e magro de Cristina Flor, dezenas e dezenas de notas de dinheiro, quase todas fora de circulação: anos e anos de salários guardados, sem uso, perdidos para sempre no mundo de Cristina Flor.
Maía da Góia, que agora trabalhava fora, ficou com medo de deixar Cristina Flor sozinha.    Uma moça foi contratada para fazer o serviço de casa e companhia para Cristina Flor, que continuaria tecendo seus tapetes e vestidos.  Mas foi só Maía da Góia chegar mais cedo para ver o quadro: a moça lendo revista deitada no sofá e Cristina Flor faxinando a casa.   E outras moças vieram, quadros parecidos se pintaram e Cristina Flor ficou doente de novo, agora também com diabetes.  Dr. Alcides aconselhou Maía da Góia: “Cristina Flor precisa de olhos dia e noite”.  E para tristeza de Maía da Góia, Cristina Flor foi morar no “Lar dos Velhinhos”.  Mas foi só Maía da Góia visitar Cristina Flor no domingo, para ter uma surpresa.
Cristina Flor estava vistosa e arrumada, fazendo suas costuras e ajudando em pequenas tarefas.    E todo domingo, Maía da Góia levava frutas frescas para Cristina Flor, que sorria do seu mundo, cada vez mais debruçada.
Um dia Cristina Flor tomou um tombo, quebrou o braço e emudeceu: não falava mais, não queixava mais, apenas olhava assustada para aquele mundo de dor que não era mais o seu. Emudeceu com os olhos aflitos.   Maía da Góia foi correndo com a irmã Jandyrinha ver Cristina Flor. Alguém perguntou: “você sabe quem é ela, Cristina Flor?”.   Ela desassustou-se e sorriu: “É a Maía da Góia!”  E desandou a falar de novo.
Além da Maía da Góia, outra paixão de Cristina Flor era o Miro, marido da Jandyrinha.  Miro foi visitar Cristina Flor, que abraçou o Miro.   Uma amiga perguntou: “quem é ele, Cristina Flor?”.  E ela: “o Miro. Meu fio.” “Ué, Cristina Flor, quantos filhos você tem?”.  “Eu? Tenho mir!”.   Mas era graça ou sonho de Cristina Flor, que além do Miro (e de Maía da Góia), filho mesmo só aquele que ela embalava já sem vida desde quando era ainda moça linda.
E de tanto embalar seu menino, Cristina Flor debruçou-se de vez no seu mundo. Na Rua do Porto, quem sabe bem cedo, de mão dada com seu pequeno, vai passeando Cristina Flor nos seus muitos vestidos. Com seu cabelinho curto enfeitado de trancinhas miúdas. 
Com seus pés polvilhados de talco marcando o caminho.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 16 e 30/8/2013