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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Não sou de briga

(caio silveira ramos)

Detesto violência. Abomino a tortura, o tapa, o grito. O ganhar no berro ou no muque. O convencimento pela brutalidade.
Certo que na infância brinquei de mocinho e bandido.  Fui Robin Hood com arco de cabide e flecha com ventosa de borracha na ponta. Zorro de espada de plástico. James West com revólver de espoleta de rolinho. Batman com punhos que faziam sock, crash, splatt. zlopp e pow! Também derrubei os muros de madeira do Forte-Apache e, fantasiado de Tarzan com shorts de elástico na cintura, me atraquei com os mais famintos crocodilos. Brinquei, sonhei e tornei a brincar. Mas as brincadeiras e os sonhos não me tornaram violento nem defensor de truculências. Muito pelo contrário: as “lutas” da infância me ajudaram a discernir o certo do errado. O bom do mau.  O Thor do Loki. E me ensinaram muitas vezes a encontrar a justiça e não a brutalidade. 
Confesso que tive sorte de não ter sofrido a violência do bullying e nem mesmo ouvido um ameaçador “me espere na esquina”.  Mas nunca fugi dos bons combates, mesmo que esses tenham ficado apenas no campo das ideias e das palavras.
Desconfio, porém, que assim como Clarice Lispector em “A mulher que matou os peixes” contei toda essa história de menino comportado e pacífico para tentar marotamente me justificar por dois terríveis atos de violência física que pratiquei contra – e isso é o mais assustador – dois queridos amigos.
O último caso aconteceu em 1988, num intervalo das aulas do 3º colegial.  Atribulados pelas provas finais e pelo vestibular que se aproximava ameaçadoramente, aproveitávamos o pouco tempo de folga para jogar conversa fora ou alguma bola pra dentro da rede.
Foi num desses intervalos que, ao pular para fazer o arremesso em direção à cesta de basquete, meu joelho bateu forte no queixo do Chicão Totti, que justamente tentava se erguer após perder o equilíbrio durante a disputa da bola.  Não sei se consegui fazer o ponto: só ouvi um “creque” e vi o colega colocar a mão na frente boca. Fui socorrer o Chicão e percebi que ele tinha quebrado parte de um dos dentes da frente.  Fomos até a enfermaria e a escola o encaminhou para um dentista.
Enquanto, desolado, eu esperava sua volta, correu o zum-zum-zum pelo colégio:       “briga-feia-Caio-e-Chicão-mas-eram-tão-amigos-deve-ter-mulher-no-meio-quebrou-dois-dentes-tem-certeza-que-foi-ele?-tenho-eu-vi-tudo-parece-que-a-joelhada-deslocou-o-queixo-também-mas-ele-é-tão-calmo-que-nada!-nervoso-bravo-já-brigou-com-professor-mentira!-que-nada-eu-vi-viu-nada-que-foi?-tá-me-chamando-de-mentiroso?-vou-dar-uma-de-Caio-e-quebrar-sua-boca-também!” E por aí a coisa cresceu.
Acho que foi o Xandão – justo o Xandão, amigo do peito, mas piadista em tempo integral –, quem começou a me chamar de “Sawamu, o Demolidor”, dizendo que eu tinha utilizado contra o Chicão o “salto (ou chute) no vácuo com joelhada”, invencível golpe do então famoso personagem de mangá e “anime” inspirado no lutador de “boxe-tailandês” Tadashi Sawamura.  De qualquer forma, só ficou a piada e não o apelido, embora o Xandão, sentado ao meu lado, continuasse cantando baixinho e risonho, durante as aulas, o esdrúxulo tema de abertura daquele desenho animado: “e os insetos que vagam pelos charcos/têm poucas chances de alcançar o oceano...”.
No final da manhã, o Chicão já estava de volta ao colégio pronto para rir com todos os dentes (inteiros) da história do “Sawamu, o Demolidor”.
Mas no meu canto, deprimido, eu me sentia como um daqueles insetos vagando pelos charcos.


***

Se em 1988, eu (involuntariamente, involuntariamente!!) quebrei com uma joelhada um pedaço do dente do valente Chicão e passei o resto do ano me desculpando (e acho que ainda hoje, se encontrar com ele na rua, vou pedir desculpas de novo. E de novo. E de novo.), dez anos antes também cometi um ato de violência contra um amigo. E o pedido de perdão, ainda que igualmente sincero, não deixou de vir acompanhado de profundas dúvidas.
1978: eu, com seis ou sete anos, como em muitas outras vezes, fui brincar na casa do meu grande amigo Rogério Nakamura. Naquele dia, tivemos a companhia de outro colega do 1º ano, o Fracetto. A tarde foi ótima: jogamos bola, brincamos com dezenas de bonequinhos de personagens de TV, apostamos corridas com carrinhos de ferro em miniatura e inventamos lutas do Super-Homem e de heróis japoneses contra os mais terríveis monstros do Universo. Tudo num clima de paz e amizade.  E sempre acompanhados por um dos irmãos do Rogério, o engraçadíssimo Mauro, que era quatro anos mais velho que a gente.
Na hora da janta, enquanto esperávamos os últimos preparativos da sensacional comida da Dona Marta, fomos brincar na saleta de visita.  Empolgados com as histórias que o Rogério contava sobre o herói da série de TV Spectreman, simulamos lutas contra monstros ferozes e gigantescos que estavam sempre prontos para poluir o planeta. As almofadas das poltronas e do sofá voaram várias vezes.  Nós voamos várias vezes. E de repente, enquanto estávamos lá naquele pacífico bate-não-bate, o Mauro gritou um “agora é pra valer”, talvez temendo uma possível vitória das criaturas de lixo do Dr.Goria.
Mas justamente naquele momento, ainda que sem querer, acertei um poderoso cruzado de direita no rosto do Fracetto. Que abriu o berreiro. E botou a boca no mundo.
Imediatamente, enquanto eu tentava socorrer meu amigo e pedia desculpas desencontradas, apareceram assustados na sala, o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos do Rogério, o Maurício e a Selma:
“Que é que tá acontecendo aqui?”
E o Fracetto chorando alto:
“O Caio me deu um soco e tá doendo!”
“O Caio?!!!”
E o Fracetto chorando mais alto:
“Foi, mas a culpa não é dele! A culpa é do Mauro, que disse ‘agora é pra valer’!”
O Mauro pulou:
“Minha? Eu não fiz nada!!!”
O Rogério botou lenha:
“Foi culpa sua sim, Mauro! Tava tudo tranquilo até que você mandou bater pra valer!”
Dona Marta fechou a questão:
“Mauro, você é o mais velho, tinha que ter mais responsabilidade! Fracetto, vamos lavar esse rosto, olha aí, nem tá vermelho. Depois o pai leva cada um pra sua casa. Isso, já passou, não é? Vamos jantar agora. Mauro, você tá de castigo”.
Naquela noite, enquanto voltava pra casa no banco de trás do opalão vermelho dos Nakamura ao lado do Fracetto (que já parecia perfeitamente recuperado: franzino como era, ele tinha comido quatro pedaços de pizza), eu pensava como minha tarde tão feliz tinha terminado de forma tão amarga. Em poucos minutos, eu tinha ferido dois amigos de forma profundamente diferente: um, com um sonoro soco de Spectreman.
O outro, com uma gritante omissão disfarçada de silêncio.









***

Depois de alguns dias me acertei com o Mauro e pedi desculpas por ele ter ficado de castigo por causa do meu soco no Fracetto.   Se bem que ele me confessou que o “agora é pra valer” significava aquilo mesmo: “agora bate de verdade... Mas de brincadeira, entendeu?”
Entendi mais ou menos. De qualquer forma, aceitei (quem sabe se por remorso?) a proposta do Mauro de trocar meu time de botão do São Paulo pelo que ele tinha do Atlético Mineiro. Me arrependi muito depois: não que eu gostasse do São Paulo, mas os botões vermelhos vinham com a cara de cada um dos jogadores colada. Tinha até o Pedro Rocha, assim como meu Palmeiras vinha com o rosto do Ademir da Guia e de toda a Segunda Academia. Já o time do Atlético Mineiro do Mauro tinha uma parte encaixada que prendia o distintivo de papel no botão de acrílico. Mas a cada chute, aquilo desmontava e a gente perdia o lance todo.  Isso sem contar que meu pai e o Nando gostavam de jogar com aquele São Paulo. Me arrependi, mas troca era troca. E depois, arrependimento por arrependimento, sentia mais pelo castigo do amigo do que ter perdido o botão com a cara do Forlan.
Tudo acertado com o Mauro, agora eu precisava resolver de vez as coisas com minha outra vítima.  Era tempo de férias e eu e meu pai combinamos de ir até a casa do Fracetto para pedir desculpas pelo soco que eu tinha dado no rosto dele durante a tal brincadeira “de mão” que, como a mãe da gente fala, “nunca dá certo”.   O Fracetto já tinha dito que estava tudo bem, mas meu pai queria pedir desculpas pra mãe dele, olho no olho, bem daquele jeito do seu Miro.
Não sei se foi minha a ideia de levar um carrinho de ferro de presente. Acho que foi.  Mas não era só para reforçar as desculpas: a verdade é que eu achava bonito quando via alguém que, visitando outra pessoa, levava alguma lembrança, uma flor, um bombom ou um bolo feito no capricho.  Dona Eva vivia me presenteando com bolinhos de chuva e macarronada.  Tio Amador, toda vez que vinha do Rio, trazia Bala Chita ou Dadinho. Meu padrinho, seu Arlindo, aparecia sempre com um brinquedinho ou um pacote de bolacha. Minha mãe ia além: ela quem dava lembrança pra visita, fosse um livro, um pão feito na hora, um brinquedo que achava que a gente não usava mais. Então, eu é que não podia fugir à regra: já que eu visitar um amigo, uma visita, assim, oficial, com conversa de pai com mãe, sim senhor, sim senhora, precisava também levar uma lembrança.
Eu tinha acabado de ganhar dois carrinhos Matchbox e estava exultante: além de incríveis, aqueles carrinhos de ferro não eram baratos e se você ganhasse qualquer um deles no aniversário podia sair comemorando. E eu tinha recebido dois!
Estávamos ainda na fase de namoro: eles ainda não tinham se misturado com os outros brinquedos e eu não ousava nem sujar suas rodinhas no chão da sala. Passeavam um pouco na palma da minha mão e depois voltavam para suas caixinhas individuais feitas de papel duro.  Assim, novos em folha e ainda embalados, qualquer um deles estava pronto para ser dado de presente para o Fracetto.  Mas qual?
Um era o jipe verde. Na parte de trás ele tinha uma espécie de bazuca de plástico que subia e descia e ainda girava 360 graus. Os banquinhos eram pretos e a armação do retrovisor, feita de ferro fininho, era caprichosamente dividida no meio.
O outro era um carro de bombeiros. Bem mais robusto que o jipe, ele era de um vermelho vivo, com detalhes prateados e uma escada giratória amarela. De cara, escolhi esse para ficar comigo. Mas depois mudei de ideia. E mudei de novo. De novo. De novo.  Uma hora me via com meu jipe verde em mil e um combates contra os mais terríveis tiranos da Terra. Noutra, me arriscava com meu super carro de bombeiros em incêndios medonhos para salvar crianças indefesas.  E de quarta até sábado fiquei naquela indecisão terrível. Já não pensava direito nas desculpas, no almoço, nos outros brinquedos: dia e noite era só aquela matutação sem fim.
Lá pelas tantas me arrependi daquela minha ideia de presente. Poderia fazer simplesmente assim: eu iria lá na casa do Fracetto, meu pai falaria com a mãe dele, desculpas, desculpas, tchau e bença.  Depois podia até convidar o amigo pra brincar em casa com os carrinhos, mas abrir mão dos meus brinquedos tão bacanas... Não, não podia fazer aquilo, já tinha falado com meus pais, que gostaram da ideia. E o Fracetto era um amigo muito legal, merecia o presente. Acho até que ele nem tinha um carrinho de ferro.
E sábado de manhã, lá fui eu com meu pai na casa do amigo. A conversa foi boa, a mãe dele agradeceu, mas disse a meu pai que ele não precisava ter se preocupado: ela me conhecia etc e tal. Já o Fracetto e seu irmãozinho pularam de alegria quando viram o carro de bombeiros com seu vermelho vivo, seus detalhes prateados e sua escada giratória amarela. 
Presente era presente: achei que devia dar o mais bonito.
Ou no fundo, no fundo, a opção revela toda a verdade: eu não passava de um violento brigão que tinha escolhido um jipe com uma bazuca que subia e descia e girava 360 graus. Um jipe de guerra para um espírito mirim belicoso.
Pode ser, pode ser.
Mas de vez em quando eu ainda sonho com aquele carrinho de bombeiros.




Ilustrações de Anderson Diniz e Maria Luziano - cedidas pelo Jornal de Piracicaba 
Publicado no Jornal de Piracicaba em 2, 16 e 30/7/2017

O sorvete solitário

(caio silveira ramos)

(para Dona Janda, por gostar de bolo com sorvete)

Há um episódio de “Os Simpsons” em que o personagem Homer abre o freezer e se vê diante de vários potes de sorvete. Ele abre o primeiro pote e se revela um sorvete do tipo “Napolitano” em que as “faixas” de creme e morango estão intactas, enquanto a parte reservada ao chocolate está completamente vazia. Visivelmente decepcionado, ele vai abrindo as outras caixas e em todas a situação é a mesma: creme e morango até a boca dos potes e o espaço do chocolate completamente vazio. Ao abrir o último frasco, inconformado, grita para a esposa: “Margie, precisamos comprar mais sorvete Napolitano!”.
Quando eu era pequeno, não entendia por que as pessoas compravam sorvete “Napolitano” se “todo mundo gostava mesmo era o de chocolate”. Depois ficava aquela disputa feroz e o meu sabor preferido acabava bem antes dos outros tipos de sorvete.
Não passou muito tempo e eu acabei concluindo que o “Napolitano” talvez fosse mais democrático que o exclusivo de chocolate, afinal, sempre tem alguém que não come esse sabor e não seria justo deixar tal pessoa passando vontade.  Ou quem sabe a razão fosse outra: um pote só de chocolate seria mais ou menos como um final de semana dentro das férias: não teria a mesma graça.
E foi justamente durante umas férias no começo da década de 1980 que algo novo me chamou a atenção: eu estava em Peruíbe, na casa da família do meu amigo Rogério Nakamura. Tínhamos acabado de almoçar, o calor era violento e nós dois ficamos como uma vontade absurda de tomar sorvete.  Dona Marta nos deu dinheiro e, debaixo de um sol impiedoso, saímos alucinados de bicicleta atrás da nossa sobremesa.
Devia ser domingo à tarde de um janeiro: quase todos os bares e padarias estavam fechados. E os que estavam abertos não tinham mais nem um picolé pra contar história. Rodamos, rodamos, fomos longe, com o sol castigando sem dó, quando encontramos um armazenzinho perdido no tempo e no espaço. E dentro do freezer de sorvetes se materializou um único e solitário tijolinho de sorvete de morango Kibon. 
Naquela época, os sorvetes de massa para levar para casa ou vinham em embalagens de plástico grandes ou em tijolinhos embalados apenas com papelão. Esses tijolos, quando rasgado o papelão, deviam ser consumidos rapidamente, pois sem embalagem alguma (que nada tinha de térmica) derretiam num instante.
Pois eu e meu amigo Rogério retiramos o tal tijolinho de sorvete de morango de dentro do freezer como quem encontra um tesouro. Pagamos e o dono do armazém colocou a embalagem num saquinho de plástico que rapidamente o Rogério amarrou no guidão da sua bicicleta. E com medo que nossa riqueza derretesse no caminho, voamos até chegar à casa.
Domingo, calor, depois do almoço: a família toda cochilava em algum canto. Pegamos um prato fundo e duas colheres, nos sentamos na soleira da porta da cozinha e rasgamos a embalagem de papelão sobre o prato. O sorvete já estava começando a derreter, então não perdemos tempo: mergulhamos no sorvete com vontade. Cada um com sua colher. Nunca nada parecera tão gostoso: a consistência, a textura, o sabor, o frescor explodindo na boca e descendo pela garganta.  Num segundo, o papelão desmanchado sobre o prato não tinha mais nenhum vestígio de sorvete. E solenes, sabedores da importância daquele momento, jogamos a embalagem no lixo.
Durante todos esses anos, experimentei muitos tipos e sabores de sorvete: receitas simples ou mais elaboradas, algumas sublimes. Mas poucas se aproximaram do prazer proporcionado por aquele tijolo de sorvete de morango.
E hoje, quando me vejo diante de um pote de sorvete “Napolitano”, nunca deixo de pegar algumas colheres do de morango, provavelmente para me lembrar daquele sorvete tomado com tanta satisfação na soleira da porta de uma cozinha estacionada no tempo. E me dou conta de sempre reparar que os grandes prazeres da vida estão nas coisas mais singelas.
Ou simplesmente constato que o sorvete de chocolate ainda é disparado o mais gostoso.


 Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 de fevereiro de 2017 sob o título de Morango rejeitado