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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Três personagens e um quase autor


(caio silveira ramos)

Não há ninguém desinteressante.
No fundo da alma do ser aparentemente mais insosso, um mundo se revolve.  Mesmo quem atravessa a vida inteira no sossego e na pacatez, em algum momento perdido, um fato ou um ato acabam por deixar um sinal certeiro. E um romance todo pode ser escrito em vinte volumes.
Mas há aqueles que vão além: um simples apelido ou até um jeito peculiar de ser constroem personagens completos.  Prontos. Como são os casos de Galo Cego, Mirtica e Trevisan.
Quem me falou do Galo Cego foi o Zé Borges: eles moraram no mesmo bairro quando crianças.  Bom, talvez só o Zé fosse criança, porque o Galo Cego já usava barba rala, camisa aberta no peito castigado pelo sol e a corrente de metal barato no pescoço.  Pelo menos é assim que eu imagino o Galo Cego. Ou simplesmente o “Galo”, como diz o Zé Borges quando reconta as histórias perdidas do amigo.
Pois o Galo devia ser mais velho que sua turma. E acho que foi ele quem apresentou para a molecada do bairro os estabelecimentos comerciais mais fuleiros da cidade.
“Estabelecimentos comerciais”: assim o Zé Borges chama aqueles botecos com prateleiras altas, lotadas de cima a baixo com garrafas (milimetricamente arrumadas) da pinga mais sem-vergonha.  No balcão, sob o vidro já embaçado, deve ter um pratinho de azeitona ou de tremoços, um ovo colorido de 1943 e uma mosca já caduca.  Os mais sofisticados têm uma mesa de sinuca com tacos meio tortos e o pano, de um verde desbotado, cheio de marcas de giz.
Para mim, o Galo devia ser o rei daqueles estabelecimentos todos.  E das vielas, das esquinas, das noites espalhadas. Quando a meninada se deu conta, o Galo já tinha perdido uma vista. Imagino que fosse a vista esquerda, o que aprimorava sua mira, embora o Galo não usasse arma de fogo e preferisse acertar suas contas por meio de seu vernáculo burilado nas encruzilhadas.
Dizem as más línguas, que a vista se perdeu quando o Galo, trançando as pernas na madrugada, tropeçou na guia e feriu o olho num caco de garrafa. Mas para mim foi numa briga, defendendo uma moça que estava apanhando de um safado qualquer. O Galo chegou, intimou o sujeito, que largou o braço da garota e sorriu debochado, porque percebeu que um comparsa chegava pelas costas do herói com a navalha armada. O Galo ainda encheu a fuça do covarde, mas a navalha traíra riscou seu olho sem pena. Os bandidos apanharam, fugiram e nunca mais foram vistos. A moça se apaixonou pelo Galo que, pra tranquilizá-la, forjou no fundo da dor um “não foi nada, não foi nada”. Mas a vista se perdeu para sempre e o apelido arranhou sua alma como a navalha traiçoeira.
Galo Cego que, pelo que o Zé falou, “vivia de expedientes”, se meteu em muitas outras brigas. Por ele, pelos amigos, pelas mulheres. Mas foi ficando velho, a molecada pra quem ele ensinou a malandragem foi tomando rumo, arranjando emprego pra sobreviver, se aprumando, constituindo família, deixando o Galo sozinho nos estabelecimentos comerciais e nas brigas.
Muitas histórias contam do Galo. Algumas dizem que ele mesmo inventou, como aquela que vivia repetindo nos últimos tempos, se gabando: a de que tinha namorado, antes de ficar famosa, uma atriz da Globo nascida na cidade. O pessoal ria: “menos, Galo! Pega leve. Você não, né?”  É que quando o Galo começou a contar essa, a bebida vinha comendo bonito seu fígado e o sol castigando ainda mais sem dó sua pele enrugada.  Aliás, ele parecia mais velho do que de fato era.  Tossia, resmungava, tava ficando rabugento. Apanhando mais do que batendo.
Dizem que teve filhos, mas mesmo quando começou a capengar, parece que nenhum quis saber dele. Ele que, aliás, sempre morou com os pais.  Falaram que era bom filho, nunca os abandonou porque os dois tiveram ele tarde e sempre pareceram doentes.
A mãe enviuvou, o Galo deu uma sumida.  Num estabelecimento comercial qualquer, perguntaram dele durante uma conversa vadia. Alguém disse que tinha parado de beber, que tava cuidando da mãe e arranjara um emprego pesado para pagar os remédios dele e dela.
Mas o Zé Borges veio dizer outro dia “que soube por alguém que”, depois que a mãe partiu, o Galo degringolou de novo.  E agora tava, vai não vai, num hospital vagabundo qualquer, definhando, pele e osso.   No bairro, dizem até que ele já morreu.  “Coitado do Galo”, diz o Zé Borges. 
Zé Borges, que pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

Quem conhece bem o Mirtica é o tio Vavá, que na verdade não é meu tio, mas é tratado como se fosse.  De qualquer forma, não tem uma história contada pelo tio Vavá, nem uma conversa entre ele e seu irmão Roberto, o Brancão, que lá pelas tantas o Mirtica não apareça.  E como nunca tive o prazer de conhecer o Mirtica, para mim ele é uma verdadeira lenda. Um mito.
De fato, a presença do Mirtica nas conversas tem diferentes funções, dependendo da situação e do estado de ânimo dos participantes.  Vejamos lá alguns casos:
Mirtica como indicador de tempo:
“(...) não, não foi nesse ano que você falou! Foi antes! A segunda filha do Mirtica nem tinha nascido ainda nessa época!”
Mirtica como índice de evolução patrimonial:
“(...) eh, eh. Olha essa foto! Quem tinha uma Brasília velha igual a essa era o Mirtica! As coisas mudaram... Hoje ele só anda de carrão!
Mirtica: uma referência na moda:
“Chique mesmo era aquela calça boca-de-sino do Mirtica!”
Mirtica: a verticalização das cidades e a mudança nos costumes:
“(...) concordo, pode até ser mais seguro. Mas morar em prédio é diferente de casa: magina se eu tenho amizade com meu vizinho do apartamento da frente que nem eu tinha com o Mirtica...”
Mirtica e o aquecimento global:
“(...) hoje, mesmo no frio, vê se o Mirtica ia conseguir usar aquele casacão dele...”
Mirtica e os programas de culinária gourmet:
“Picanha? Desse jeito? Muita frescura pro meu gosto! Picanha boa mesmo foi aquela que a gente comeu lá na casa do Mirtica!”
Mirtica: solução ou polêmica?
“Não, Brancão! Não tá comigo: a morsa grande o pai deu de presente pro Mirtica.  Você lembra como o pai gostava dele! Já a torquês, o Mirtica emprestou faz uns trezentos anos, mas devolveu quando o pai ainda tava vivo. E comigo também não tá!”
É verdade: seu Domingos, pai do tio Vavá e do seu Roberto, gostava mesmo do Mirtica. Pedreiro de mão cheia, grande e forte como um touro - capaz de derrotar no braço de ferro, e ao mesmo tempo, os dois filhos parrudos (e, se bobeasse, o Mirtica junto) –, seu Domingos era um trabalhador incansável, mas também um apreciador das boas coisas da vida. “Eh, é uma beleza tudo!!!” era uma de suas frases preferidas.
Seu Domingos, já aposentado, gostava de receber os parentes e amigos ali na entrada da casa (construída por ele), entre o portão e a porta da sala: em vez do carro (a idade não o deixava mais pegar no volante), ele colocou naquele espaço uma mesa de tampo quadrado e quatro cadeiras, todas de madeira rústica e provavelmente feitas também por ele.
Tal qual um rei, ele se sentava na cadeira voltada para o portão e, com as mãos apoiadas na bengala ou no tampo da mesa, botava os grandes olhos azuis na rua ou conversava longamente com quem o visitava. Enquanto isso, aquele soberano apreciava calmamente um copo de vinho ou cerveja. Eu, que conheci seu Domingos quando ele já tinha quase oitenta anos, sempre aparecia por lá para bater um papo ou simplesmente levar uma caixa de bombons ou alguma outra guloseima: ele amava doces. Eu, sua sabedoria.  “Eh, Piracicaba! Que beleza!”. 
Muitas vezes, enquanto estava por lá, vi chegar o tio Vavá com sua alegria. E seu Domingos, depois de ganhar na testa um beijo do filho, abria o sorriso e com a voz brotada lá em Laranjal Paulista (mas tecida pela vida toda de “lavoro” em Santo André) perguntava da nora, dos netos e, lógico, do Mirtica.
“Mandou um abraço pra mim, fio? Ah! Que amigo bom é o Mirtica! A vida é mesmo uma beleza!” – dizia seu Domingos.
Seu Domingos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.

***

O Trevisan era um grosso. E não só os colegas do ponto de táxi diziam isso: a maioria dos passageiros – principalmente as senhorinhas (e o bairro era repleto delas) –, os porteiros dos prédios, o pessoal da padaria e os entregadores de pizza viviam reclamando dele para o Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto, que vire e mexe tinha que perder uma tarde inteira no departamento de trânsito para livrar a cara do Trevisan.
Não que o sujeito fosse má pessoa. O problema era que ele vivia dizendo que tinha sido motorista do falecido humorista Costinha e por isso gostava de contar, para quem quisesse ou não ouvir, piadas que fariam o próprio comediante ruborizar de vergonha, tão escabrosas eram elas.  Pra completar o quadro, o Trevisan tinha uma boca murcha sem dentes (que o ajudava em caras e trejeitos que lembravam de fato o Costinha), usava normalmente camisas do tipo polo que não lhe cobriam totalmente a barriga e calçava diariamente vistosas sandálias de tiras claras e grossas.   Ninguém entendia como aquele senhor de cabelos totalmente brancos, que já devia ser até avô, pudesse falar tanta besteira por centímetro quadrado de frase. 
Marrento, vivia discutindo por qualquer bobagem com os colegas do ponto: dera um empurrão no Ivan (que ao cair esfolara o braço no muro), ameaçara puxar uma faca pro Mosquito e até o Carlão, que fala manso e normalmente é sereno como um monge, ele tirara do sério.   Uma vez, passei de ônibus em frente ao ponto e vi seu Valdir e o Trevisan parecendo duas crianças birrentas, sentados de braços cruzados, emburrados e mudos, cada qual em seu extremo do banco de madeira. Aliás, os dois viviam às turras, pregando quase todos os dias com fita adesiva, no telefone do ponto, bilhetinhos com frases altamente motivacionais como “é a sua inveja que faz meu carro acelerar” e outras tantas com um linguajar nem tão polido assim.
Adorava aterrorizar as velhinhas que desavisadas pegavam seu carro e acabavam ouvindo suas piadas indecentes. As que já conheciam o Trevisan (que reclamava uma barbaridade com elas quando a corrida era curta), ao perceberem que o carro dele estava em primeiro lugar no ponto, disfarçavam e faziam uma horinha na banca do João (vendo alguma revista ou comprando figurinhas para os netos) até que o Trevisan saísse para uma corrida.  Se ele percebesse antes, gritava: “ô dona fulana, pode vir, não tenha medo, não! Seu preferido não está aqui, mas eu faço um servicinho pra senhora!” Algumas continuavam fingindo na banca, mas muitas atravessavam a rua, falavam “seu descarado!” e entravam no carro seguinte.  Dizem que numa época em que ficou quase sem clientes, atendia ao telefone do ponto mudando a voz e dizendo seu primeiro nome, que quase ninguém conhecia. Ele saía para buscar a cliente no endereço informado, mas voltava logo: a passageira quando via que o tal “Antônio” era o Trevisan e não um novo taxista no ponto, recusava a corrida.
Ele gostava de dizer que tinha perdido um dos dedos da mão durante uma briga com um sujeito armado: no primeiro tiro, o dedo tinha voado longe. Mas quando o outro foi dar o segundo, Trevisan conseguiu desarmá-lo, acabando por matar o sujeito.  Dizia que tinha sido absolvido por legítima defesa, mas eu e o Zé Carlos Alves desconfiávamos que aquela história toda era mentira e o Trevisan tinha mesmo perdido o dedo fugindo de um marido traído.  Porque o cara podia ser feio como o capeta, mas era metido a namorador incorrigível.
Quase nenhuma empregada doméstica passava pelo ponto sem que o Trevisan se entusiasmasse.  Nessas horas, para conquistar, se fazia educado, “posso ajudá-la a carregar as sacolas?”  Se a moça caísse na conversa, ele ficava tão empolgado que dava presente, ajudava a família com cesta básica, fazia comidinhas nos encontros amorosos.  Quando se apaixonava de fato, perdia a cabeça, se metia em dívidas e comprava até celular para falar mais tempo com a escolhida.
Foi o que aconteceu com a moça da cicatriz.

***

Zé Carlos Alves, o coordenador do ponto de táxi em que trabalhava o Trevisan, era o oposto do colega: vivia para a família, se orgulhava da honestidade, respeitava de criança de colo a idoso com mais de cem anos, cumpria as promessas mesmo que baseadas somente no fio do seu bigode e, por um amigo ou cliente, era capaz de ir até o outro lado da Muralha da China com seu táxi.  Além da esposa e da neta - que por ter superado um grave problema de saúde, era seu grande orgulho, exemplo e paixão -, tinha quatro filhas, o que fazia com que tivesse a mais profunda consideração por todas as mulheres do mundo.
Família, nome, amigos e honra eram os grandes tesouros do Zé. E se alguém mexesse com qualquer um deles, ele virava bicho.    Foi o que aconteceu certa vez numa história do Zé Dançarino, também taxista do ponto.  Pois não é que o tal sujeito chegou num prédio e pediu pra chamar certo morador?  “Quem que eu devo anunciar?”, perguntou o porteiro.  E o outro: “José Carlos, taxista.”
O morador, que era cliente do ponto e sabia que o Zé não o procuraria por qualquer coisa, desceu voando.   Quando chegou na portaria, deu de cara com o Zé Dançarino, que teve a cara de pau de pedir cinquentinha “pra comprar um remédio pra mãe doente, coitada”.  O cliente, pego de surpresa, sacou a grana e deu.  Mas depois, se sentindo uma besta, contou tudo pro Carlão, que ficou furioso e repassou para o Zé Carlos Alves.  Que ficou mais furioso ainda e partiu pra cima do Zé Dançarino: “você usou meu nome, safado!” “Mas eu também me chamo José Carlos!” “Mas o cliente não sabia disso, malandro!”
O Zé Carlos Alves, além de enfrentar as artes do Zé Dançarino, tinha o maior trabalho com o Trevisan, tantas eram as reclamações do mau comportamento do sujeito.    Fosse lá por que motivo, eu gostava de provocar o Zé Carlos Alves dizendo que, no fundo, o Trevisan era um incompreendido.   E eu dava até exemplo disso.  Ele tratava mal os passageiros? Pois eu contava uma história acontecida comigo: num dia de chuva forte, estava eu de terno e gravata, sentado no banco do ponto, esperando que algum táxi aparecesse.   Eis que o Trevisan encostou o carro, abaixou o vidro e disse: “não posso levar você hoje: tenho uma corrida marcada pra daqui a cinco minutos. Mas sobe aí que eu vou encontrar um carro em algum outro ponto”.  Eu disse que não precisava, ele insistiu e lá fomos nós. Uns três quarteirões depois, encontramos um táxi num ponto, o Trevisan chamou o colega e quase ameaçando, recomendou: “leva o homem direitinho que é gente boa”.   No outro dia, contei a história e provoquei o Zé Carlos Alves: “não falei que o Trevisan é um incompreendido?”  E o Zé: “incompreendido? Vai nessa, vai...”
Mas o que eu gostava de dizer ao Zé Carlos é que o Trevisan, na verdade, era um romântico.  E, falando sério, até comecei a acreditar de fato nisso.
O Trevisan vivia contando sobre suas façanhas. No começo eu fingia que ouvia e pensava noutra coisa, achando que era papo de cafajeste.   Mas depois comecei a perceber que debaixo daquela papagaiada toda se revelava um ingênuo.   As mulheres faziam dele gato e sapato.   Teve até o marido de uma delas (que jurara pro Trevisan ser viúva) que um dia ligou para ele e chacoteou: “e aí, meu irmão? Não vai mais mandar cesta básica aqui pra casa?”.  Trevisan ficou doido, mas era assim mesmo: quando se apaixonava, dava presente, comprava leite especial se amada dizia que o filhinho tinha intolerância à lactose e por aí vai.  Celular então, já tinha comprado uns cinco para diferentes namoradas.
Numa das corridas, ele falou da conquista da vez.  A moça estava no ponto de ônibus, não era bonita, mas ele também não.  Trevisan puxou papo, conversaram, começaram a se ver. Um dia, ele a levou pra casinha dele. 
Quando me encontrou, veio satisfeito me contar. Disse que a moça tinha uma cicatriz na barriga: devia ter tido um corte profundo e alguém costurara tudo com má vontade e relaxo.   A pele ficara toda torta.   Ele riu e com a boca torcida tentou imitar a cicatriz da barriga de moça. Achei de mau gosto, me fechei.  Mas ele continuou. Não por minha causa. Parou de caçoar, falou “tadinha” e começou a se abrandar. Primeiro em dó, depois em ternura.   “Que terá sido aquilo: facada, tiro, perda de um rim? Aconteceu um troço violento ali...”  Chegou a falar que talvez um maldito tivesse tentado arrancar da barriga dela um filho à navalha.  Sofria a moça, sofria. 
Nas corridas seguintes, não parou mais de falar dela. Começava fingindo a caçoada, imitava a cicatriz torta. Mas depois se derramava. Aquela cicatriz o atraía mais que o corpo todo dela. Que o rosto. Que o mundo.   Aquela cicatriz a tornava tão miserável quanto ele. Estava apaixonado. Por ela, por aquela cicatriz.  Apaixonado. 
Talvez ela também.

***

Durante muitas corridas, o Trevisan falou de sua paixão pela moça da cicatriz.  Ele até emagreceu e parou de contar as piadas esdrúxulas, mas continuava bem-humorado. Diminuiu a bebida. Estava feliz. Assobiava até. 
Nessa mesma época conseguiu financiar um apartamento num conjunto habitacional que ficava bem longe. O lugar era barra pesada e ele vivia encontrando pelos corredores uma moçada mal-encarada usando droga.  No começo teve medo, mas depois já estava até dando conselhos pra rapaziada.   Apaixonado, aprendera uma receita para fazer uma carninha grelhada especial pra amada. E estava até pensando em guardar um dinheiro para arrumar a cicatriz dela. Embora achasse que sua eleita fosse linda de qualquer jeito.
Então teve o dia em que o Zé Carlos esperava em segundo no ponto - logo atrás do táxi do apaixonado -, quando chegou um casal com malas e filhos. Bom dia, bom dia, entraram no carro do Trevisan: o marido no banco da frente. A mulher e as crianças no banco de trás. Partiram. Um minuto depois, estavam de volta ao ponto. Furioso, o homem puxou a família pra fora do carro do Trevisan (que estava quieto e sem graça) e perguntou ao Zé se poderia levá-los ao aeroporto.  No caminho, todos instalados, o Zé perguntou o que tinha acontecido: era coordenador do ponto e qualquer reclamação ele poderia tomar providência. O tal homem falou então que, nem bem tinha começado a corrida, “o cafajeste do outro taxista – Trevisan o nome dele, não é? -, tinha mexido no retrovisor pra bisbilhotar sua esposa no banco de trás”.  Antes que o Zé pudesse falar qualquer coisa, o homem foi dizendo que não perderia tempo naquele momento. Mas na volta da viagem iria ele mesmo ao departamento de trânsito denunciar o Trevisan.
Se ele teve uma recaída ou fora sua fama que induzira o passageiro, não sem sabe.  Mas aquela nova reclamação e o receio dos outros taxistas expulsaram o Trevisan do ponto.  Depois de ficar um tempo sem trabalhar, voltou, mas num ponto três quarteirões pra baixo.  
Um dia o Zé me falou que o Trevisan tinha tido uma discussão com um pipoqueiro e levara uma pedrada na testa. Mas não deve ter sido coisa muito grave: uns dois meses depois, ele me viu andando na calçada, botou o bração pra fora do carro e chamou: “fala, compadre!”.
Depois disso o perdi de vista. De vez em quando perguntava para o Zé: “tem visto o Trevisan?”.  E o Zé: “às vezes esbarro com ele por aí. Mas quero distância...”.
Porém, houve um dia em que encontrei o Zé abatido.  Quase tremendo, tentou disfarçar: “ficou sabendo do seu amigo?”. “Seu amigo” ou “seu protegido” era como o Zé se referia ao Trevisan quando conversava comigo.  Mas naquele dia a coisa não parecia boa.  E não era: o Trevisan tinha sofrido um grave acidente: sozinho, estourara o carro na murada de uma avenida movimentada ali perto e morrera.  “Foi hoje?” “Faz umas duas semanas. Quem contou foram os colegas do ponto dele”. 
Ficamos os dois quietos.  O Zé se abalava muito quando algum colega morria de acidente ou assalto. Já eu fiquei imaginando como teria sido o velório e o enterro do Trevisan: alguns poucos colegas do ponto (mas não todos), quem sabe uma filha, talvez um vizinho.  Num canto, a moça da cicatriz.  Mas como os outros iriam saber? A cicatriz escondida como ela. Como a lágrima dela.  Depois foi embora, ninguém nem percebeu.  Ninguém nunca percebia mesmo.
Agora já era tarde, mas se eu soubesse, teria ido. O Zé Carlos Alves também.
Zé Carlos que, pensando bem, aqui entre nós, daria um personagem e tanto.



Publicado em série no Jornal de Piracicaba em 11/3, 25/3, 8/4, 22/4 e 6/5/2018


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Castorino e a capacidade

(caio silveira ramos)


De 1982 a 1988, fui aluno do Professor Castorino Telles de Souza.   E durante todos esses anos, do ginásio ao colegial, ele me ensinou Ciências, Biologia e até Matemática, provando, ao lado da brilhante aluna Luciana Ducatti, que o Teorema de Pitágoras poderia ser corretamente demonstrado com lápis, papel e... tesoura e cola.   Mas isso é outra história.  Como também é outra história lembrar que o irmão do Professor Telles, o Mestre Roberto, chegou a me dar algumas aulas de xadrez na quinta série, mesmo que eu não tivesse nem a metade do talento que meu filho de oito anos tem diante de um tabuleiro.
O Professor Telles sempre foi de opiniões fortes e francas e, por vezes, causou alguma controvérsia. Eu mesmo devo ter discordado dele algumas voltas, mas isso faz tanto tempo que já nem me lembro em quais assuntos. E provavelmente eu era muito novo para ter alguma razão.
No primeiro ano do Telles como meu professor de Ciências, a meninada não entrava em polêmicas com ele. Pelo contrário. No intervalo, antes das suas aulas, as crianças enchiam a lousa com desenhos engraçados que ele, antes de iniciar a matéria, ia apagando um por um até escolher o favorito do dia.  E o mundo ria com infinitos “tellesfones”, “tellesvisões”, “tellesféricos”, “tellescópios”, todos os objetos devidamente barbados, calvos e munidos dos indefectíveis óculos de aros bem redondos.  Acho que toda classe desenhava, menos eu: mesmo que tivesse milhões de ideias “tellúricas”, era tão tímido que se um desenho meu fosse escolhido, nunca teria coragem de me revelar.
    Entre uma lição e outra, ele - além de tirar do bolso do guarda-pó curto uma caixinha com cravos da índia para ajudá-lo a parar de fumar – arrancava da cachola algumas frases e ideias curiosas.  Eu achava deliciosa sua definição para “oô”: “expressão caipiracicabana de espanto e descrédito”, tudo isso dito sem economizar na pronúncia bem carregada do “an" (de “espanto”), de todas as vogais (principalmente dos “es”) e claro, de todos os “erres” a que tinha direito.  Achava saborosas suas frases que começavam com “quem nunca foi criança que...”  e terminavam com algo como “transformou a bola furada em capacete” ou “fez máquina fotográfica de uma caixinha de fósforos”. Os hinos mais famosos do Brasil para ele eram os “do Corinthians (o que eu discordava), o ‘Virundum’ e o de Piracicaba, porque é quase uma moda de viola”. “Para Casa” virava “Prular”.  E a representação gráfica, sacada por ele e pelo Professor Zé Arthur, de uma árvore com dois galhos – que explicava espertamente a evolução dos protozoários até o homem – era jocosamente apelidada de “Chifre do Zé”.
Mas ele também falava sério. E muito: ficava furioso se alguém arrancava displicentemente uma folha do caderno só porque talvez houvesse um erro simples. Dizia que seu pai lutara com dificuldade para educar os filhos. Filhos que, muitas vezes, tiveram que escrever em papel de embrulhar pão para fazer lições e estudos.
Uma das suas lições mais preciosas foi aquela que nos ensinou os mistérios da palavra mágica “capacidade”.  Nas provas e nas tarefas, ele nos segredou que a tal palavra poderia ser usada para explicar incontáveis fenômenos da Ciência. Se acaso se pretendesse definir “fotossíntese”, lá viria a magia: “é a capacidade que os vegetais têm de etc” .  Porém, mais do que isso: ele nos fez refletir sobre o sentido de nossas próprias respostas em todos os campos de conhecimento. Mesmo sem usar palavras mágicas, ao sermos indagados sobre a definição de algo, deveríamos responder com objetividade e clareza, e não com vagos “é quando” ou “é, por exemplo, (...)”.
Muito além das Ciências, ele nos ajudou a colocar as ideias em ordem. 
A pensar sobre o sublime ato de pensar.

***


Talvez nenhuma geração tenha sido tão psicologicamente afetada com o surgimento da AIDS quanto a minha. Estávamos a um pé da adolescência quando as primeiras notícias sobre uma terrível doença que guardava estreita relação com o sexo começaram a se espalhar pelos nossos olhos e ouvidos.  Nem bem começávamos a sonhar, nem bem iniciávamos nossa tentativa de entendimento sobre o que talvez fosse o sexo e o mundo, já nos amedrontava a morte certa, o preconceito e a segregação.  Parecia que quando chegara nossa vez, seríamos tolhidos da possibilidade do desejo.
Foi então que o Professor Telles resolveu fazer, uma vez por mês, uma roda (literalmente: as carteiras eram arrumadas formando um grande círculo), que ele, inspirado pelo título do filme de Woody Allen, chamava de “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”.  Para ninguém ficar constrangido ao expor suas dúvidas, cada aluna ou aluno escrevia sua questão num pedaço de papel que, depois de dobrado, era colocado num saco. Então, o Professor Telles ia retirando nossos medos, dúvidas e angústias e respondendo um a um com leveza e sem meias verdades.
E vieram outras lições: na sexta série foi organizada uma excursão ao Zoológico de São Paulo. Uma das propostas da viagem seria observar as placas informativas colocadas em frente às moradas dos animais para ajudarmos a aprimorar os dados dos bichos do Zoológico de Piracicaba.  Me lembro que levei um caderninho e anotei incansavelmente as características de cada animal e as informações relevantes.  Mas o que muito me chamou a atenção foi uma conversa dentro do ônibus que, por mais que eu tenha me esforçado, não consegui não ouvir.
Na viagem de ida para São Paulo, sentados nos bancos atrás do meu, vinham o Professor Telles e a professora de inglês “Teacher” Elisabeth Nocit.  Acho que o passeio até a Capital reavivou a memória e a saudade dele, que deu para contar entusiasmado, à colega, o período em que viveu em São Paulo quando ainda era estudante.  Lá pelas tantas, lembrou do lugar em que morava: na minha cabeça de criança criou-se um prédio decadente no centro da cidade, recheado de figuras interessantes e misteriosas: malandros, travestis, prostitutas, excluídos de todos os tipos e tamanhos.  Eu não entendia muito bem as histórias, mas aquelas pessoas tão cheias de humanidade se criaram em mim e até hoje tecem muitas das minhas histórias.
Nas aulas, Telles nos convidava a experiências, como aquela que revelou o tipo sanguíneo de cada aluno: trouxemos agulhas descartáveis e ele foi passando de carteira em carteira, fazendo delicados furos nos nossos dedos para que brotassem gotas de sangue que eram pingadas numa lâmina de vidro. O professor colocou seus reagentes e tcharam!, nosso sangue se mostrou com todas as suas letras e sinais.
Das lições de Ciências e Biologia, as que mais grudaram em mim foram aquelas que mostravam os ciclos de doenças como a de Chagas, Esquistossomose, Cisticercose Cerebral, Leishmaniose, Malária, Febre Amarela, Dengue e tantas outras.  Com essas lições – inclusive aquela que me revelou o sentido da palavra “profilaxia”  -  eu abri ainda mais meus olhos para as visões que meus pais me ofertavam já em casa: as de que eu vivia em um mundo que não se preocupava em investir em pesquisa para encontrar a cura de doenças que afetavam os mais pobres. Que eu nascera em um país repleto de desigualdades e por vezes cruel e desatento. 
Um país onde muitos não tinham casa, água ou condições sanitárias mínimas para se ter uma vida digna.
Um país em que tantos não tinham sequer o direito a professores que os ajudassem a enxergar a vida.
                                               


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
               Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 e 26/3/2017

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Amadores

(caio silveira ramos)

Tio Amador era irmão da minha avó Jandyra.  Ele trabalhava no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e morava com a esposa e os dois filhos numa das casinhas que eram reservadas para os funcionários.  De quando em vez vinha para São Paulo: na Capital, visitava a mãe, dona Sebastiana, e suas irmãs e irmãos. Em Jundiaí, a irmã Zezé e a sobrinha Josette.  E em Piracicaba, as sobrinhas Maria da Glória e Jandyrinha, que se assemelhava à mãe não só no nome, mas também no amor pelas plantas.
Ele chegava sempre risonho, com o cabelo muito crespo e branco cortado bem curto, os óculos de aro escuro e quadrado, e o corpo baixote e gorducho. Às vezes aparecia de chapéu de palha.  Mas sempre vinha com um pacotinho de papel pardo, lotado de “Balas Chita” para a molecada.  Eu adorava as de embalagem amarela – acho que de abacaxi ou de tutti frutti –, mas não dispensava as de menta, caso no meio viessem também as empacotadas em papel verde.    A primeira criança da casa que aparecesse (e era quase sempre eu quem abria a porta) recebia o sorriso e o pacote, mas as balas eram imediatamente oferecidas aos mais velhos (e, por sorte, recusadas), e fraternalmente repartidas entre os pequenos. 
Tio Amador adorava papear com meus pais sobre os parentes, o Jardim Botânico e as plantas.   Em todas as visitas, não deixava de demonstrar seu encantamento por minha mãe ter feito florescer o “Bastão do Imperador” nos fundos da casa: “o Hélio, melhor agrônomo que eu já vi, mesmo naquela belezura de terra roxa dele, jamais conseguiria Bastões tão saudáveis e bonitos quanto esses que iluminam seu quintal, Jandyrinha!  Só sendo filha da mana Janda para ter essa mão pra natureza!”  E ficava lá, um tempão no quintal, namorando aquela flor misteriosa de caule grosso e bulbo majestoso, avermelhado, parecendo mesmo um cetro real.
Depois, ou Tio Amador almoçava em casa ou pedia para meu pai levá-lo de carro a algum dos restaurantes da cidade “para comer uma feijoada ou um peixinho, sem dar trabalho para a Jandyrinha”.  Entrou para o folclore da família a história que meu pai contava às gargalhadas: enquanto saboreava uma suculenta feijoada, tio Amador espirrou forte e a dentadura caiu dentro do prato.  Sem qualquer cerimônia, ele resgatou a dita do meio da comida, deu-lhe uma leve espanada com os dedos para retirar alguns grãos de feijão, meteu-a de novo na boca e tranquilamente voltou a comer satisfeito.
O que me intrigava é que, depois desses almoços, meu pai voltava sozinho para casa. Questionado, seu Miro sorria com os olhos e dizia apenas que tio Amador gostava de dar uns passeios sozinho.
Já um pouco mais velho, perguntei novamente a meu pai sobre aqueles antigos passeios do tio.  E ele respondeu gaiatamente mais uma vez: “seu Amador saía por aí porque gostava de ver moças bonitas e conversar com elas”.
Me dei por satisfeito com a resposta e pensei lá comigo que tio Amador tinha sido um sujeito feliz. 
E que eu queria ser um amador também.

***

Até meus oito, nove anos, eu e minhas irmãs fomos alegremente abastecidos pelas “Balas Chita” trazidas pelo tio Amador.  Mas ele não aparecia apenas com o pacotinho de balas para as crianças: dos seus bolsos, tio Amador tirava sementes de todos os tipos e tamanhos, e as distribuía para quem se interessasse por plantas.  Eu que naquela época tinha descoberto a história d’ “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon, achava que tio Amador também tinha o “dedo verde”: ele devia ser uma espécie de mágico, que ia derramando suas sementes pelo mundo. E delas brotavam as flores mais exóticas, as plantas mais misteriosas, que se espalhavam por quintais e varandas. E que de repente até poderiam sair pelas frestas dos muros e do mundo.
Eu já devia ter uns onze anos quando fui com meus pais passear na casa da tia Josette, em Jundiaí.  Uma casa cheia de sol e som, com primos e primas crescendo junto com a gente lá de casa, todos mais irmãos que simples parentes.  Além do encontro das famílias, o passeio tinha também dois grandes motivos: uma visita ao tio Amador, que muito doente passava uns dias na casa da sobrinha Josette. E o abraço numa coleção de pedras.
O primo Renato, o segundo filho mais velho da tia Josette, foi um dos meus heróis de infância: curioso e inteligentíssimo, passava horas estudando no quarto que dividia com o irmão Roberto.   Quando tio Sammy construiu o “predinho” nos fundos da casa, Renato passou a ter um quarto de estudos, de onde, para mim, ele saía muito raramente.  Um quarto de estudos com a porta sempre aberta, o que me permitia, mesmo de longe, espiá-lo pesquisando ou tocando flauta doce. Um quarto cheio de livros, com uma dessas mesas de engenheiro (provavelmente para o irmão desenhar os projetos para a faculdade) e um jogo de lentes chamado “Poliopticon” (cuja caixa eu namorava secretamente quando passava pela vitrine da “Gatti Ótica”, na esquina da rua Governador com a Moraes Barros).
Mas Renato nunca bancou o geniozinho chato, muito pelo contrário: conversava mansamente, não se negando a compartilhar seu vasto conhecimento com quem quer que fosse. Inclusive comigo, um primo quase dez anos mais novo, que olhava para ele fascinado como se estivesse diante do próprio Professor Pardal.  Pois quando saía do quarto de estudos, Renato aparecia com seus inventos: uma câmara fotográfica feita de papelão e fita adesiva, com disparador, visor e tudo mais. Ou um despertador de corda, que em vez soar estridente, acendia uma lâmpada quando dava o horário para acordar o sonhador. 
Eu, mesmo acordado, sonhava em ter um telescópio. Generosamente, Renato me deu duas lentes para que eu construísse meu brinquedo: fucei aqui e ali e, com dois tubos de papelão, fiz minha luneta regulável que conforme a distância permitia o ajuste do foco. Feliz da vida, achei que meu primo ficaria orgulhoso de mim. 
Mas quando fui mostrar a ele minha geringonça (e aproveitar para perguntar como se fazia para as imagens não se serem vistas de ponta-cabeça), o primo Renato já tinha voado para bem longe e se tornado professor de uma universidade americana.  Foi ensinar a novos amadores a beleza dos números que viajam por trás dos mistérios do Universo.
Isso foi bem depois. Naquele dia da visita, já que eu andava todo interessado em fazer uma coleção de pedras, ele me deu de presente vários exemplares incríveis para eu não começar do zero.  E com o pensamento cravado nas pedras e cristais que tinha acabado de ganhar do primo Renato, fui cumprimentar o tio Amador, que estava ocupando uma das camas lá no quartão das minhas primas.
Acho que ele não me reconheceu direito. E eu também quase não o reconheci de pijama listado de mangas compridas e com o cabelinho crespo muito branco.  Os olhos miúdos sem os óculos pareciam infinitamente tristes.  Era um tio Amador sem pacotes de balas nas mãos, sem sementes brotando dos bolsos, sem sorriso cantando na boca. 
Parecia que, de repente, a terra e a vida também tinham se transformado em pedra. Não como aquelas cheias de beleza e mistério da minha nova coleção.  Mas como pedras secas, duras, que agora se negavam a beijar os dedos verdes de um amador inveterado.

***
Eu e meu pai fomos passear no Rio de Janeiro e aproveitamos para visitar a família do tio Amador, que já tinha falecido fazia quase quinze anos. Por todo o caminho, cortando por dentro do Jardim Botânico, tive a impressão de que a qualquer momento eu o veria espalhando suas sementes ou espiando por entre as árvores, feito um curupira protegendo sua mata. 
Seus filhos tinham a idade das minhas tias mais novas: ele, muito parecido com o pai, só que quieto e com o olhar mais distante.  Ela, o sorriso e a ternura de tio Amador.
Já a viúva, se parecia não ter ternuras, com certeza tinha perdido todos os seus sorrisos.  Nos olhos, nos cabelos pretos muito lisos presos num coque e em cada vinco do rosto se embrenhava uma secura que parecia ter rompido há séculos. Não havia um olhar, um movimento de boca, uma palavra que não rimasse com a mais palpável amargura.
Dei para emparelhar as figuras ou para desentender o emparceiramento desenhado no passado: como podiam aqueles dois ter um dia se conhecido, se apaixonado, se casado e criado filhos sendo tão diferentes? Disfarçaria, ela, toda a alegria? Teria ele me enganado todo o tempo, escondendo igual amargor atrás de um pacote de “Balas Chita”?
Pensei que atrás daquele fel talvez ela escondesse as saudades dele, mas já desconsiderei: não se fisgava nela qualquer indício de falta acabrunhada. Ela reclamava do passado, do presente e da possibilidade de futuro.
Fui por outros caminhos: teria ele se espalhado, igual a suas sementes, para não vislumbrar as amarguras dela?  Ou teria ela se amargurado com a largueza da alegria apaixonada dele? Ou será ainda que eles teriam de comum acordo (re)partido ao meio a palavra “amador”, ficando ele com a melhor parte e ela apenas com a rima pobre?
Mas já no caminho de volta percebi que o amador era eu. Eu que do alto dos meus vinte e quatro anos tinha a certeza de já conhecer todos os meandros das paixões avassaladoras.  Eu que julgava implacavelmente os certos e os errados dos relacionamentos conjugais e afetivos.  Eu. Eu, que condenava traidores e traídos, compreendi que do amor só conhecia a superfície. Era um amador no entendimento dos amores alheios e próprios.
E hoje, passado tanto tempo, continuo reconhecendo meu amadorismo e humildemente me visto com a poesia do velho Carlos para repetir: amar se aprende amando.
E amando, e aprendendo, vou me tornando cada vez mais amador.
Simplesmente um amador.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/3 e 10/4/2016



Doçura enviada pela leitora Dilma Spigolon Ferreira (abril/2016)


terça-feira, 27 de outubro de 2015

O segundo parto

(caio silveira ramos)

A primeira pessoa a me falar sobre o Marcos foi minha mãe. Ele devia ter 11, 12 anos e era seu aluno de piano na Escola de Música.   Mas ela admirava a sabedoria daquele menino além da música: Marcos desenhava dinossauros com graciosa ciência e sabia uma infinidade de coisas das áreas mais diversas. De botânica à astronomia, nada escapava da sua curiosidade. 
Eu também gostava de astronomia, mas do meu jeito: enquanto o genial Marcos sabia as distâncias entre as galáxias e a velocidade dos astros, e parecia conhecer todos os segredos dos buracos-negros, eu sonhava com histórias em que Michael Collins, o único astronauta da Apollo 11 a não pisar na lua, tinha uma nova oportunidade e visitava outros planetas. Marcos tinha a dimensão da infinitude do Universo. Eu tentava entender a solidão de um astronauta.
Pois Marcos, na oitava série, veio frequentar o colégio em que eu estudava. Eu já o conhecia de vista, mas agora ele estava ali, na mesma turma. Imaginava um geniozinho excêntrico, chato e metido à besta, mas para minha surpresa ele podia até parecer excêntrico, porém era excentricamente bem-humorado e generoso.  Marcos era realmente esperto, mas não ficava se vangloriando de sua ciência e gostava de compartilhá-la.  E sabia rir de si próprio: quando teve que usar um colete com haste de ferro para arrumar a postura, ao ouvir as primeiras gozações já se pôs um apelido: Robocop.  Mas o apelido não pegou e ninguém mais deve se lembrar disso.  O que ninguém se esquece é que ele foi o único de sua turma a passar direto na Medicina da USP. 
E nós nos encontramos muito na rua Teodoro Sampaio, meu caminho para o Largo São Francisco e endereço da “Casa do Estudante” da Medicina.  Mas depois os caminhos se espalharam: terminada a faculdade, Marcos teve que servir um ano o Exército e só então pôde fazer a sonhada Residência em Psiquiatria no Hospital do Servidor.  E lá, encontrou em seu orientador, o mestre que mudou seu destino: Dr.Carol Sonenreich.
Marcos terminou a Residência e resolveu voltar para Piracicaba. Apaixonado pela Psiquiatria e pelas técnicas únicas de seu mentor, ganhou o profundo respeitado dos colegas e o amor agradecido dos pacientes.   Conhecido por não recusar os casos mais difíceis, se tornou uma referência na delicada missão de aliar os tratamentos psiquiátricos às gravidezes tanto arriscadas quanto infinitamente desejadas.
E o Doutor Marcos continuou sua trilha predestinada até que um dragão sem luzes resolveu atravessar seu caminho.
Porém, mais uma vez seu cérebro privilegiado soube encontrar novos atalhos.
E sua mãe soube ressuscitar Deus.

***
Durante minhas últimas férias, fui depois de muitos anos visitar o Marcos. Ele não estava: estava sua mãe.  Até que ele chegou: entrou pela sala feito um furacão ensolarado e me viu.  Exclamou interrogando meu nome e abriu os braços fraternos.
Durante horas conversamos sobre seus planos e sua memória pulsou toda sua paixão pela Medicina.   Falou de seus estudos incessantes, dos cinco livros que passou a escrever – um sobre os métodos inovadores de seu mestre na Psiquiatria, Carol Sonenreich -, da vontade de ensinar tudo que aprendeu e tudo que não se cansa de aprender. E de suas aulas de canto. E dos seus cantares em russo.
Me dei conta do porquê seus pacientes o amavam (e o esperam) tanto:  generoso, Marcos precisa da Medicina, assim como a Medicina precisa dele.   Talvez por isso, ela e ele tenham se entendido tanto, ainda mais depois do acidente: afinal, como explicar que ele esteja andando, conversando, pensando e sorrindo depois de tudo o que aconteceu? Como pode o Dr. Marcos estar vivo, produzindo pensamento e ação?  Bem, a explicação disso tudo talvez não esteja apenas no amor da Medicina por ele.
A notícia do terrível acidente sofrido pelo Marcos veio acompanhada de uma sentença: se sobrevivesse, o que parecia muito difícil, ele passaria a habitar outro mundo, um mundo distante, imóvel e silencioso. Mas qualquer que fosse o caminho, seu irmão Rogério, com a arte à flor da pele, aguardaria o retorno do irmão tatuando infinitas telas cheias de vida.
Quem também remodelou sua vida na espera, foi a mãe do Marcos, que chegou a receber o seguinte conselho: “deixe ele ir embora, vai ser melhor.”  Mas as mães não entendem certos recados e rebateu: “ir embora para onde?  Para casa?”  E diante de um suspiro médico, ela pediu perdão por suas descrenças e deu para rezar. Rezar a cada instante, como um vício, como uma mania que lhe encobria a voz e o pensamento.  Penelopeando-se toda, passou a desfiar suas falas com seu Deus e com seu Marcos por dias e noites.  E completa de vozes, gestou seu filho novamente.
E um marcos-novo-marcos-mesmo foi crescendo.  Seus movimentos começaram a se multiplicar para explorar os sentidos. Seus e os do mundo que o aguardava.   Tal qual a gestação (que foi longa), seu segundo parto também foi trabalhoso.  Horas e horas, dias e dias, meses e meses.  Até que ele foi regerado.  E renasceu.
E sua mãe sorriu para sua cria.
Mais uma vez.

Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 30/8 e 13/9/2015



domingo, 14 de setembro de 2014

Voltas sem idas

(caio silveira ramos) 
                                      
Tinha que ser assim: voltar flutuando nas palavras, distraído.  Nas palavras desastradas, que esperavam que eu voltasseindo, mas se me veem, é só miragem. Estou aqui, estou lá, estou aí, mas pelas palavras.  Por meio delas, mas não só por causa de.
Nasci no ventre desse rio, mergulhado, inundado por ele, que me pertencerá por mais quinhentas gerações, mesmo que eu beba de outras águas: no meu sangue ele habita e corre de mim para as veias dos que vierem depois, filhos, netos.  Infinitos.
Saí do leito do rio para o das leis: do Largo Santa Cruz para o de São Francisco.  E mesmo acinzentado pelas marginais, as correntezas me carregaram com tanta força que, quando nasceu meu menino, para embalá-lo mais sereno, abriguei-me nas beiradas enconcretadas do riacho do Ipiranga.
Nesses anos todos de filho ausente ensuspirado, voltei de fato e de corpo muitas vezes: vim rever os amigos, os parentes, redesenhar meus amores de infância, me entristecer profundamente duas vezes e me reencontrar no aninhamento do colo da minha iara-mãe, da abelha que produz mel e é dele feito. Iara que me colheu do rio para me enfeitiçar neste meu mirante de infinitos.
Infinitas são as visões deste mirante perpétuo: horizontes tão longínquos que posso me ver pelas costas a contemplar as infinitas vozes de que sou tecido.   As almas envaraldadas que me embriagam todos os dias a me dizer quem sou.  E infinitos são os olhos que empresto para as órbitas alheias a me levar pelo mundo.
Pelas palavras voltarei sempre a este mirante imaginário, para falar daquelas vozes, daquelas almas, dos meus olhos embaçados de picumã, mas viajantes pelos passos alheios.  Para falar dos infinitos. Estarei aqui ou em qualquer lugar destas páginas de papel ou de nuvem.  Capinarei meus verbos roubados das bocas caipiras-negras-italianadas (e de tantas outras trazidas pelas reviradas do mundo).    Derramarei uma centena de letras cozidas pela letra miúda de meu pai nas margens dos seus livros anoitecidos.  Plantarei minhas palavras, garapadas no doce da cana ou na aspereza da sua pele embagaçada. 
E infinitos também serão os assuntos: palpitarei barbeiramente sobre política, me embrenharei atrás do gol, cambalearei pelos sons e pelos novelos de histórias reais ou deslavadamente mentirosas, pois todos os meus caminhos sempre deram na rua do porto.
Por fim, decifrarei os sonhos dos leitores (sejam tais sonhos verdadeiramente sonhados ou preferivelmente inventados), mas não o farei pelos sotaques de deuses olímpicos ou freudianos.   Minha decifração será pela poesia, pois é esse meu sotaque, ainda que feito na prosa.
Meu sotaque nascido das águas redemoinhadas pelas pedras desse rio onde o peixe para.
O peixe para.
E eu também.                                                            
                                          Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                         Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º/6/2012