Mostrando postagens com marcador sonhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sonhos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre livros e amores

(caio silveira ramos)

Lá vai meu filho, do alto dos seus quatro anos, se divertir com um tablet: o pequeno, que brinca de brincar com os números e com os movimentos das peças do xadrez, tem na ponta dos dedos – ágeis como seus olhos –, as coisas que gosta.   Logicamente não é sua única diversão: ele se esbalda com os amigos da escola, desenha, faz suas artes e entre turras e ternuras com sua inseparável amiga Fezoca, tenta decifrar as mulheres. E também joga bola, brinca com seus carrinhos, joga bola com seus carrinhos – inventou um curioso jogo em que substitui os “botões” pelos pequenos possantes –, corre por seus mundos imaginários, vê desenho e futebol pela TV, canta (e improvisa) como se sua vida tivesse um fundo musical e lê seus primeiros livros de pano, borracha e papel.   Mas a tranquilidade com que esse menino, fascinado pelo tempo revelado pelos relógios, transita entre as letras impressas e as eletrônicas, aponta para o meu futuro inevitável.
Ler na tela do computador nunca me pareceu muito confortável, mas com a chegada dos tablets, a situação começa a melhorar: além de se poder aproximá-los dos olhos – uma oftalmologista, comentando sobre minha visão, me consolou: “Deus te deu outros dons, meu filho” –, também (e com facilidade) já é possível virar páginas em suas telas sensíveis ao toque, colocar marcadores de leitura, localizar trechos específicos e poupar árvores e vastos espaços em nossas estantes.   Os aparelhos exclusivos para leitura de livros digitais (os e-Readers) têm uma vantagem sobre a maioria dos tablets com telas de cristal líquido: eles não têm iluminação interna, o que torna a compulsação (e porque não, a compulsão) confortável até debaixo do sol. Por outro lado, o acesso a outras mídias por meio dos tablets convencionais ainda inibe a venda dos e-Readers. De qualquer forma, se o número de livros eletrônicos em Língua Portuguesa ainda é tímido (até pelo seu preço abusivo), a leitura de jornais e revistas por meio dos tablets já ganha espaço e não assusta quase mais ninguém. A não ser, também, pelo seu (ainda) alto preço.
“Os livros são objetos transcendentes/Mas podemos amá-los do amor táctil/Que votamos aos maços de cigarro”: certo, você pode detestar cigarros, maços e até o autor do verso, Caetano Veloso, mas é impossível ignorar sua iluminação poética ao nos expor esse amor tátil (e em alguns casos até olfativo) que o tal objeto transcendente chamado livro tem.
Minha vida é repleta de livros desde a infância: o escritório do meu pai com suas prateleiras de metal e madeira (algumas ampliadas artesanalmente por ele próprio) cheias de livros ao alcance da mão como cachos de uvas; as estantes abarrotadas de Direito e fantasia que lotavam meu quarto de estudante; as paredes do fundo da minha sala recheadas com tantos volumes que chego a pensar que, enquanto durmo, eles se reproduzem e começam a contar suas próprias e inéditas histórias.    Porém, apesar de tantos livros gravitando em minha vida, não sou um bibliófilo, tecnicamente falando, isto é, um colecionador de livros raros e preciosos.   Se sou um amante de livros, meu amor é moldado muito mais pelo encanto de seus conteúdos, de suas histórias e sons, que pelo prazer tátil, olfativo e contemplativo.  Por isso, em meu futuro inevitável eu prevejo os livros eletrônicos sem desprazer e medo: mais valem mil histórias voando que uma rara primeira edição na mão.
Porém, quando vejo meu filho, com as mãozinhas postas para trás, diante das paredes do fundo da sala, com suas estantes de alto a baixo repletas dos sonhos de seu avô, dos meus (muitas vezes morando também dentro daqueles sonhos) e dos seus próprios sonhos (esses despretensiosamente brincando nas prateleiras mais baixas, afinal, as uvas, para continuar alimentando, precisam permanecer ao alcance das mãos), entendo que os livros de papel resistirão por muito tempo.  Fascinado pelos velhos livros da estante, meu filho sabe que os sonhos de seu avô e de seu pai estão ali esperando seus olhos e seu abraço.   
Esperando que os sonhos do menino cresçam a tal ponto que não apenas consigam engolir os sonhos mais velhos e tomá-los como seus.  Mas que possam também se multiplicar tanto, tanto, que consigam criar novos sonhos em almas alheias.

***

Claro que estantes repletas, organizadas ou não, ainda nos fascinam e nos convidam prazerosamente às delícias da leitura, mas de nada adiantam prateleiras onde os livros ficam quietos, engaiolados como aves raras: os livros precisam voar pelas almas, invadir mentes.   Sejam eletrônicos, flutuando pela rede, ou de papel, circulando por mãos e olhos, os livros carecem viver e gerar vida.
Ainda que muitos livros caminhem para o papel em aparências e cores cada vez mais convidativas, se obras novas vierem em formato eletrônico, que se instalem: quero conteúdos.   Se obras antigas forem acessíveis pela rede, que sejam cada vez mais enredadas.   Não tenho pretensões de colecionador: quero o livro consumido, lido, circulando.   No transgressor “A reforma da natureza”, o gênio de Monteiro Lobato fez sua Emília tornar os livros comestíveis: o “livro-pão” mataria as duas fomes do ser humano e ainda economizaria espaço.  Metáfora ou não, o fato é que o Marquês de Rabicó acaba por deglutir uma obra querida de Dona Benta, o que nos faz pensar que, se não todas, algumas obras de papel se revestem não só do amor tátil cantado por Caetano Veloso, mas do amor olfativo, contemplativo. Sentimental.
Assim, embora eu admita que alguns livros saiam de minha estante e ganhem o mundo, há outros que imagino tê-los ao alcance das mãos e dos olhos por minha vida afora.   Não pela raridade, mas pelos sentidos.    São livros velhos, comprados em sebos, cheios de histórias próprias e recheados com os rastros de seus donos anteriores. Ou são livros já desgastados, mas presentes de infância que trazem a aventura do enredo e o carinho de dedicatórias amorosas: um Júlio Verne com a inscrição afetuosa do pai, lembranças das nossas viagens pelo centro de São Paulo; um Rudyard Kipling com beijos da mãe: ponte entre a infância dela e a minha ou simplesmente um prêmio por uma conquista perdida no tempo.
No meu aniversário, ganhei do meu compadre Carlos Loureiro – um dos maiores e corajosos Defensores Públicos do Brasil – uma linda antologia (“Poesia até agora“ – 1948 – Livraria José Olympio Editora), de Carlos Drummond de Andrade.  Para meu espanto, o livro traz a assinatura original do poeta.    Não sabe, talvez, meu amigo, que o que torna o presente valioso para mim, mais que a letra do escritor, são os próprios poemas avassaladores criados por Drummond aliados à busca trabalhosa e delicadamente fraterna que o padrinho do meu filho deve ter feito para me colocar tal presente nas mãos e no sorriso.  O que me prende ao livro não é sua raridade, mas a poesia plena feita por dois Carlos que têm seus corações maiores que o mundo.

***

E dessa forma segue minha estante: cheia de poesia e estórias (como gostava de grafar Guimarães Rosa) em cada lombada, em cada página, em cada capa. 
Até que esbarro em uma coleção antiga de nove volumes: uma coleção de Machado de Assis, da Editora Cultrix, organizada e anotada por Massaud Moisés.   Retiro o volume que apresenta uma coletânea de contos do Bruxo (ah! Como os bruxos desaprenderam a arte da escrita...): passeio com a mão pela capa verde-rugosa e sinto na ponta dos dedos a pena gravada em dourado no canto direito inferior.  A paz se aproxima e eu abro o livro: primeiro vem o aroma, o aroma inconfundível, antigo, que me traz uma sensação que mistura serenidade e proteção. Em qualquer lugar do mundo conseguiria distinguir aquele cheiro.    Em qualquer momento da vida acho que serei capaz de recriá-lo na memória.   Na palma da mão, as páginas; no fundo dos olhos, as letras cheias de sentidos.  Vou para o começo: a assinatura de meu pai e a data em que leu o livro pela primeira vez quando morava em São Carlos. E logo abaixo, a dedicatória feita anos depois: “para o Caio em Piracicaba – 07/04/83 (12 anos)”.   Uma dedicatória simples, séria, diferente das cheias de graça que ele costumava fazer.  Mas é que, além de ter sido repetida nos nove volumes, ela representava um rito de passagem: naquele momento, me dando de presente sua amada e antiga coleção de Machado, meu pai me ofertava a chave da maturidade da vida e das letras: eu agora podia ler o mundo todo, sem fronteiras ou censuras.   
Em outros volumes da coleção, reencontro a letra miúda de meu pai nas margens das páginas: comentários, anotações de frases, pequenos caminhos que gosto de percorrer como se conversasse com ele novamente.  Mas essa lembrança de conversa, de vozes, me faz voltar aos contos. Lembro-me da tarde de férias em que, deitados em sua cama, ele me leu “Miss Dollar”, “A Cartomante”, “Uns braços” e “Conto de escola”.  Antes de cada leitura, ele me chamava a atenção para beleza daquilo, das construções dos personagens, das frases, dos sentidos.  Depois lia, lia: sua voz grave acariciava o texto e o meu espanto de menino encantado.
É curioso que nos momentos de angústia, tristeza ou medo eu procure aquela coleção para me pacificar.  Intriga-me que a dita ironia pessimista de Machado de Assis tenha o dom de me trazer à tona.  Nas mãos sinto a capa verde-rugosa, a pena gravada em dourado, as páginas amareladas. A letra miúda de meu pai. A dedicatória dele esperando que eu um dia faça idêntica inscrição para meu filho naqueles mesmos volumes: novas pontes.  Vou buscar o cheiro, o cheiro eterno.   O cheiro das páginas, o cheiro do tempo, o cheiro das palavras: vou buscar, no talento do bruxo, a beleza dos sentidos, e esses sentidos me fazem voltar para casa seguro.   Começo a ler e ouço o que ninguém em nossos dias pode ouvir: a voz de Machado.
A voz de Machado é a voz do meu pai naquela tarde de férias.  Ele me lê um conto, dois, um romance inteiro.
Até que, novamente sereno, eu adormeço em seu ombro.

Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 9/11/2012 e 23/11/2012


                                          

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Doce refúgio

(caio silveira ramos)

Quem andou pelo Bairro Alto entre as décadas de 1970 e 1990 deve ter conhecido uma farmácia na esquina das ruas Moraes Barros e São João.  E se conheceu a farmácia, não se esquece de quem ficou atrás de seu balcão durante todo aquele período e ali teceu a vida de sua família: seu Pedro Boscariol.
Eu, que tantas vezes subi e desci a Moraes Barros, nunca deixei de olhar para os lados da farmácia e saudar aquela figura alta, de cabelos e bigode escuros.   E no sorriso-resposta ao meu aceno, flutuava um abraço tão paternal e certo, que meu passo se encorajava e eu seguia em paz.   Tudo porque o sorriso abrigava não só aquele abraço, mas pessoas, uma casa, uma família toda, que era (e para sempre será) também minha.
Nos meus pesadelos mais terríveis, nos meus desencontros sonhados, se não vislumbro o caminho de casa, vou logo para a rua São João e corro até o portão que dá acesso a uma vila, não muito distante da farmácia.   Lá, percorro um corredor, passo ao lado de um gramado e chego finalmente à última casa. Estranhamente, ela nunca está fechada. E naquela casa, nos pesadelos transformados em sonhos tranquilos, ainda mora meu refúgio e a família de Pedro Boscariol, que me recebe menino e acalenta meu sono até o despertar de um dia sem medo.
Desde que me entendo por gente, faço parte daquela família feita do sorriso mais doce da Jacque, do olhar mais maroto da Ju, da voz amorosa de dona Terezinha (que me aconchega até hoje) e da serenidade do querido e saudoso seu Pedro.  Não sei quando, não sei como tudo começou, mas quando me vi, vivo e risonho, já estava lá naquela casa, brincando com o filho de seu Pedro: Nando, o melhor amigo que minha infância feliz poderia esperar.
Fui tantas vezes àquela casa, na vigília ou nos sonhos, que conheço de olhos fechados todos os seus cômodos, as fotos das crianças na parede, o quadro de São Francisco de Assis, a cozinha, a rede no quintal.    Naquela casa, me escondi atrás do tanque brincando de caubói, planejamos (mas só planejamos) fazer um “z” no espelho como se o próprio Zorro tivesse passado por lá e, no corredor comprido do fundo do quintal, jogamos bola em campeonatos que não terminaram até hoje.   
Muito por causa de Nando Boscariol, me tornei palmeirense.   Como ele e o pai eram torcedores doentes do São Paulo, precisávamos ter times diferentes para que nossos jogos imaginários se estendessem em prorrogações de arrebentar corações desavisados.   Assim, um desprezado (por meu amigo) pôster do “Palmeiras - Campeão Paulista de 1976”, brinde de um álbum de figurinhas da época, foi parar na minha parede e meu sangue virou verde.   Mas se dependesse de mim, meu time nunca mais seria campeão (como de fato não foi por longos 17 anos), pois Nando era o melhor jogador do mundo.  Habilidoso, driblador, valente: com meu “adversário” eu não tinha muita chance, principalmente quando ele apareceu com uma pedalada no ar que pegava a bola de sem pulo e o gol era certeiro.    E mesmo que eu tentasse imitar meu amigo, encontrava pela frente o maior goleiro que nossas traves feitas de bujão de gás ou tijolo podiam encontrar.     Tanto que, anos depois, assisti orgulhoso a um jogo preliminar da equipe júnior do XV e Nando Boscariol foi grande destaque.
Mas se Nando poderia ser hoje goleiro tão famoso quanto Marcos e Rogério Ceni (por coincidência, os mais recentes ídolos de nossos times), ele preferiu ser professor.   Amado (que eu sei) por seus alunos, ele faz o esporte se transformar em caminho seguro para suas crianças.   
Durante as férias, sonhei mais uma vez com aquela casa e aquela família, e resolvi passear com meu filho em frente ao portão da vila na rua São João, que há muitos anos já não é endereço dos Boscariol.  Ficamos olhando o corredor da entrada e de repente vimos Nando e eu, ambos pequenos, jogando bola ali mesmo: um esfolando o dedo no cimento encrespado das paredes, enquanto o outro (ele) marcava mais um gol.   Depois, mesmo sem ultrapassar o portão, eu e meu filho passeamos pela vila e brincamos no gramado onde Nando criou porquinhos-da-índia e me senti como Bandeira.    Por fim, chegando à última casa, encontramos a porta aberta: olhamos as fotos na parede, comemos pão com manteiga preparado por Dona Teresinha e, feito um passarinho, meu pequeno saiu brincando comigo e com um Nando-menino: éramos zorros, sacis e índios, valdir peres e leões. Depois, eu e meu filho dormimos na rede colorida daquele quintal e sonhamos que, em suas aulas, o professor Luís Fernando leva, guardados dentro peito, sua antiga casa, sua família e seu velho amigo de infância.  E ensina para os novos meninos a força da amizade para a vida inteira. 

Talvez à noite ele também sonhe com a minha casa: lá, Nando sobe as escadas, passa pela sala e encontra um eu-menino que o espera ansioso para mais uma partida infinita.  Corremos pelo piso de pedras vermelhas, driblando as azuis e amarelas salpicadas aqui e ali. E, mesmo torcendo por times rivais, sabemos que naquele pátio (ou em seu antigo quintal) nossa amizade nos fez irmãos para sempre.

   Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 3/8/2012

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O homem multiplicado

(caio silveira ramos) 
                          

É fácil chegar: com apenas algumas teclas e uns poucos cliques, encontramos no mapa virtual a rua Algemiro Coelho Ramos.  Perdida, longe do centro, uma quadra só.
Mergulhando na tela, a rua sai do mapa e se mostra inteira. É possível passear por seus poucos metros: casas simples, sem cadeiras na calçada e reboco nos muros.  Carros velhos, bicicletas, crianças magrelinhas, uma cerca de tábuas mal-ajambradas, um vira-lata mal-ajambrado. Rabiscado no asfalto esquecido e cheio de remendos, um jogo de amarelinha quase apagado, mas onde ainda dá para ver o céu.  No fim da rua, um terreno desleixado, o mato crescendo sem dó.
Alguém pergunta: por que ele não é nome de avenida grande, cruzando a cidade, rememorado em cada esquina?  Outro já se espanta: mas professor amado como era, amante sem fim que foi da educação pública, por que não denomina escola estadual ou municipal?  Sorrio: talvez ele preferisse aquela rua pequena e humilde longe do centro. Aquele quase beco manuelbanderino, mas com alguma saída. Ainda que nela se perca um terreno baldio.
Não. Na verdade nem isso.  Ele era avesso a esse tipo de homenagem, rapapés vazios, forma sem conteúdo. Do que adiantaria denominar uma avenida, se nas esquinas continuassem a gravitar famílias sem rosto, sem voz e sem identidade? Do que valeria ter seu nome estampado na frente de uma escola, se lá dentro os professores continuassem a se equilibrar sobre os vencimentos mendigados, se despreparando a cada dia? Se a educação não transfigurasse o caminho de alunos sem voz ativa, de sujeitos inexistentes e indeterminados?
No final da década de 70, em uma época em que a democracia se achava em perigo, por ela aceitou o cargo de Coordenador da Ação Cultural sob duas condições: que ficaria apenas por um ano e que teria total liberdade de trabalho, isto é, sem influências de politicagens. E assim foi feito: casa e contas em ordem, a arte aberta aos estudantes, ao povo da rua. O teatro iluminado pela música erudita e pelo cururu, um Salão de Humor glorioso com Henfis e Glaucos: gaiolas abertas.  E mesmo sob o choro de funcionários, artistas e sonhadores, ele cumpriu sua promessa: depois daquele ano inesquecível, pediu exoneração, pegou seu longo guarda-pó branco, sua pasta de anotações de aulas cuidadosamente preparadas e, a pé, retomou seu caminho em direção à escola, em um dos dias mais felizes de sua vida.  Voltou a ser passarinho semeador precioso de sua Língua e, por meio dela, de sonhos de segunda à sexta. De manhã, de tarde e de noite.
Homem tantas vezes mergulhado em profundos silêncios – penso que sofria do desespero da palavra transformadora –, Homem tantas vezes mergulhado em profundos silêncios – penso que sofria do desespero da palavra transformadora –, usava sua voz para ler histórias cheias de ternura que faziam minhas irmãs chorar e os alunos despertar para a vida.  Pois foi isso que ele fez, mas que não se encontra no Google: ele viveu de oferecer vida nova aos seus milhares de alunos dentro das classes e, também fora delas, aos amigos, camaradas, famintos, mendigos, renegados, excluídos (e claro, aos milhares de alunos), que vinham nos intervalos das aulas ou nas tardes e noites de sábado para aprender (ainda mais), conversar, pedir conselhos, emprestar um livro, viajar com ele por revistas de geografia e história. Eles vinham. Vinham aprender a sonhar. 
Pois seu milagre não foi apenas o de, com salário de professor, seu e da amada, formar quatro filhos e dar-lhes o sentido da liberdade.   Ele ensinou, a todos que precisaram, o milagre da multiplicação de sonhos. Milhares de sonhos, milhares de vidas ressuscitadas.
Nem avenidas largas, nem escolas de tijolo e ou de lata: fora do alcance dos sites de busca, mas dentro do peito de milhares, multiplicado, Algemiro Coelho Ramos é simplesmente um atalho.
Pequeno atalho entre o coração e o sonho realizado.

                                             Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                                                                            Publicado no Jornal de Piracicaba em 15/6/2012

domingo, 14 de setembro de 2014

Voltas sem idas

(caio silveira ramos) 
                                      
Tinha que ser assim: voltar flutuando nas palavras, distraído.  Nas palavras desastradas, que esperavam que eu voltasseindo, mas se me veem, é só miragem. Estou aqui, estou lá, estou aí, mas pelas palavras.  Por meio delas, mas não só por causa de.
Nasci no ventre desse rio, mergulhado, inundado por ele, que me pertencerá por mais quinhentas gerações, mesmo que eu beba de outras águas: no meu sangue ele habita e corre de mim para as veias dos que vierem depois, filhos, netos.  Infinitos.
Saí do leito do rio para o das leis: do Largo Santa Cruz para o de São Francisco.  E mesmo acinzentado pelas marginais, as correntezas me carregaram com tanta força que, quando nasceu meu menino, para embalá-lo mais sereno, abriguei-me nas beiradas enconcretadas do riacho do Ipiranga.
Nesses anos todos de filho ausente ensuspirado, voltei de fato e de corpo muitas vezes: vim rever os amigos, os parentes, redesenhar meus amores de infância, me entristecer profundamente duas vezes e me reencontrar no aninhamento do colo da minha iara-mãe, da abelha que produz mel e é dele feito. Iara que me colheu do rio para me enfeitiçar neste meu mirante de infinitos.
Infinitas são as visões deste mirante perpétuo: horizontes tão longínquos que posso me ver pelas costas a contemplar as infinitas vozes de que sou tecido.   As almas envaraldadas que me embriagam todos os dias a me dizer quem sou.  E infinitos são os olhos que empresto para as órbitas alheias a me levar pelo mundo.
Pelas palavras voltarei sempre a este mirante imaginário, para falar daquelas vozes, daquelas almas, dos meus olhos embaçados de picumã, mas viajantes pelos passos alheios.  Para falar dos infinitos. Estarei aqui ou em qualquer lugar destas páginas de papel ou de nuvem.  Capinarei meus verbos roubados das bocas caipiras-negras-italianadas (e de tantas outras trazidas pelas reviradas do mundo).    Derramarei uma centena de letras cozidas pela letra miúda de meu pai nas margens dos seus livros anoitecidos.  Plantarei minhas palavras, garapadas no doce da cana ou na aspereza da sua pele embagaçada. 
E infinitos também serão os assuntos: palpitarei barbeiramente sobre política, me embrenharei atrás do gol, cambalearei pelos sons e pelos novelos de histórias reais ou deslavadamente mentirosas, pois todos os meus caminhos sempre deram na rua do porto.
Por fim, decifrarei os sonhos dos leitores (sejam tais sonhos verdadeiramente sonhados ou preferivelmente inventados), mas não o farei pelos sotaques de deuses olímpicos ou freudianos.   Minha decifração será pela poesia, pois é esse meu sotaque, ainda que feito na prosa.
Meu sotaque nascido das águas redemoinhadas pelas pedras desse rio onde o peixe para.
O peixe para.
E eu também.                                                            
                                          Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                         Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º/6/2012