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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Conexões

(caio silveira ramos)

Brontops Baruq é um dos grandes autores brasileiros modernos.  Avesso à fama, ele possui uma identidade secreta como o Bruce Wayne do Batman.  Mas não faz isso por ser enjoado. Faz por modéstia. Mesmo assim, já é famoso nos círculos da literatura de ficção-científica, ainda que se dê bem escrevendo em qualquer gênero. Além de ser um magnífico desenhista.
Conheci Brontops olhando o verso de umas fotos de viagem: para cada imagem captada pela câmera, ele ilustrava a situação que a gerara, a história por trás daquela fotografia, e tudo se tornava ainda mais interessante. Depois ilustrou um continho meu. E enfim, descobri que ele também escrevia e tinha – talvez fruto de uma bagagem de conhecimento profundo, que não excluía nem a “cultura pop” – uma criatividade espantosa.
Não sei o porquê, mas enquanto escrevia uma série de três crônicas intitulada “Não sou de briga”, para o “Mirante dos Infinitos”, pensei em dedicá-la ao Brontops. Estranho isso, porque ele é uma pessoa pacífica, tranquila, avessa a se meter em qualquer polêmica.  Talvez tenha pensando nele porque as crônicas, para ilustrar as situações narradas, fizessem menção a séries e desenhos dos anos 1980, assuntos que Brontops domina também.  Mas provavelmente não era esse o motivo, pois é difícil encontrar algum assunto que Brontops não domine. E sempre sem qualquer pingo de afetação ou pretensão.
A razão da homenagem talvez fosse uma perda recente na vida da identidade secreta de Brontops, mas como a dedicatória não combinaria com o título da série – o que teria a ver “Não sou de briga” com a tristeza de uma partida? – resolvi não fazer nas crônicas qualquer menção ao seu nome.
Mas assim que acabei de enviar ao Jornal a terceira e derradeira parte da série, encaminhei a Brontops as duas primeiras crônicas, revelando minha intenção inicial de dedicar a ele aqueles textos. Brontops achou graça, fez alguns comentários sobre o enredo e acabei me despedindo dizendo que assim que fosse publicada, eu encaminharia a terceira parte por e-mail, para que ele, pelo menos, pudesse apreciar as ilustrações da incrível Maria Luziano.
A última parte enveredava por caminhos estranhos ao enredo das crônicas anteriores e tratava do conflito terrível de um eu-menino que, para reforçar as desculpas de um malfeito contra um amigo, acabava por se desfazer de um querido carrinho de bombeiros, ainda que isso provocasse algum arrependimento.  Publicada a crônica, a encaminhei ao Brontops, que me respondeu: “eu tenho esse brinquedo!”. E alguns dias depois, para comprovar, ele me enviou o tal carrinho de presente.
E ali, diante de mim, estava um brinquedo idêntico ao que eu me obrigara a dar de presente a um amigo-menino, em 1978: um carrinho de bombeiros “de ferro”, da marca Matchbox, vermelho, com detalhes prateados e com uma escada amarela que subia e descia.
A conexão estava feita: estranhamente, seguindo um caminho tortuoso, a crônica que imaginei dedicar (sem saber por qual razão) ao escritor Brontops, revelava enfim suas intenções.  Ela era veículo de uma amizade entre meninos.  Meninos novos, meninos velhos.
Meninos eternos.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 9 de setembro de 2017


domingo, 6 de março de 2016

O sebo do dia seguinte

(caio silveira ramos)

            De tanto andar, fui parar em frente de um sebo na rua Cristiano Vianna, em São Paulo: um prédio aparentemente pequeno, com uma porta estreita e uma grande vitrine onde se lia: “Sebo Café Memória”.  Entrei.
         Por dentro, o sebo era grande: prateleiras abarrotadas até o teto. Livros, revistas e catálogos empilhados pelo chão. Centenas de LPs apoiados em três degraus que levavam a um piso um pouco mais alto e igualmente tomado por livros.  Perto da entrada, um balcão feito de tijolos (e que provavelmente tinha sido construído para abrigar o “setor do café” do sebo) fora também abocanhado pelos livros, dando a impressão de que não se arranjaria ali nem um copo d’água de torneira.  Procurei apoiar meus pés nos espaços vazios do chão, esbarrei nas pilhas de livros, me equilibrei. Até que avistei uma moça que parecia tentar fazer uma inútil faxina no lugar.  Perguntei se ela tinha um LP de um velho sambista paulistano.  A moça sumiu entre as prateleiras e de repente ele chegou: cabelo grisalho escorrido até o pescoço, barba por fazer, olhos enormes e um andar que parecia estar com soluço.
         “É você quem procura o LP?”
      Tinha um jeito meio ríspido, desafiador. Talvez o dono do sebo estivesse ressabiado: por que um fulaninho de óculos e com cara de violinista iria querer um LP de um velho sambista malandro?  Mas conversando com o homem – que se chamava Amadeu – percebi que eu estava enganado: ele só queria conhecer a pessoa que procurava um LP antigo, de um músico antigo, quase esquecido. E que ele admirava.
         Conversamos longamente aquele dia. Seu Amadeu tirou de algum lugar duas cadeirinhas de criança feitas de madeira e me convidou para sentar ao lado de uma vitrola.  Colocou discos para eu ouvir, me mostrou livros.  Rimos muito.  Bradava contra os enjoados: “poeira não é sujeira!” E desafiava os modismos dizendo que, quando morresse, deveriam escrever em seu túmulo: “no estádio, nunca fiz ‘ola’ ”, talvez querendo dizer que não era um maria-vai-com-as-outras.  Quando me despedi, confessou que tinha em casa outros livros e discos interessantes que poderia trazer no dia seguinte. Fiquei de voltar.
         E voltei. Voltei no dia seguinte, e no outro, e no outro. Às vezes saía carregado com livros e discos.  E sempre ouvia a mesma proposta: leva, vê, depois você me devolve.  O que eu comprava, ele me vendia barato, quase constrangido.
         Mesmo saindo tarde do serviço, antes de voltar para casa, passava no sebo para conversar. Íamos para uma saleta nos fundos da loja, também abarrotada dos mais diversos títulos e com outras duas cadeirinhas se equilibrando nas pilhas de livros.  E por horas ficávamos papeando, falando sobre literatura, música, política e também sobre o passado dele, cheio de negócios que não deram muito certo (chegou até a me propor uma sociedade em uma loja de “bandoneons”, que gentilmente recusei não só por não ter nenhum centavo: “uma loja de bandoneons no Brasil, seu Amadeu? É falência na certa.”).  Confessou também alguns vícios, dos quais só sobraram os cigarros. Muitos cigarros, que mantinham suas unhas eternamente amareladas. De vez em quando as conversas iam para a parte da frente da loja e os assuntos se desenrolavam junto à vitrola que tocava Eliseth Cardoso, Carlos Gardel ou Piazzolla.  Lá pela meia-noite, eu o ajudava a apagar as luzes e a descer as portas de correr.  Depois subíamos juntos a rua Teodoro Sampaio até nos despedirmos na entrada da galeria que dava acesso ao prédio onde ficava o apartamento (também tomado pelos livros) em que ele morava com Dona Miriam e seus três filhos.
         Nas manhãs que eu passava no sebo vasculhando prateleiras e jogando conversa fora, via seu Amadeu atendendo seus clientes.  Alguns chegavam tímidos, procurando algum título.  Então, ele se metia no meio das estantes e trazia o tal volume. Mas se achava fraco o livro pedido, oferecia também outro, mais interessante, instigando o cliente com comentários sempre curiosos.  E se o fulano dizia que não tinha como pagar, muitas vezes seu Amadeu dizia: “pode levar, fica com ele”.   Se algum desavisado pedia algum livro que ele achava ruim (“tem o ‘Minha luta’, do Hitler, tiozinho?”), ele contornava: “tenho, é bem caro, mas só consigo para amanhã.  Enquanto isso, por que não vai dando uma lida nesse, que é sobre o mesmo assunto?”. E o moleque saía todo feliz do sebo com um livro denunciando as mazelas do Holocausto. 
         Esse “tenho, mas só consigo para amanhã” era uma de suas frases mais repetidas. E não era mentira.  Como sua casa era uma extensão da loja, ele, rei no meio do caos, sabia que tinha o título pretendido. Talvez dentro da banheira ou embaixo da cama. “Este é o sebo do dia seguinte”, me confessava baixinho, rindo com todos os seus dentes.  Muitos clientes ele perdia com essa história. Mas a maioria voltava. Voltava, no dia seguinte, fascinada como eu pelo mundaréu de livros.  Ou pela conversa do dono do sebo.
         Um dia, apareci com um conto inspirado nele. “Mas só consigo ler para amanhã”, gracejou para esconder o encabulamento.  E no dia seguinte, sentado na cadeira de criança, ele ergueu as sobrancelhas e me segredou: “quer me fazer chorar?”.
         Tempos depois, na porta do sebo fechado, vi meu conto pregado, olhando para a rua:

O descobridor das palavras

(caio silveira ramos)

            Morava com minha mãe em um quarto e sala que ficava em cima de um galpão que eu nunca vira de portas abertas.     Porém, quando voltei das férias na casa da tia Marina, havia alguma coisa lá.   As pesadas portas de ferro estavam abertas e de dentro brotavam livros de todos os tipos: novos, usados, com capas coloridas ou apresentados em sisudas coleções encadernadas de couro.  Fiquei ali em frente à vitrine, parado, os olhos passeando pelas capas, querendo aterrissar em um volume vermelho com um enorme balão amarelo desenhado.
         Só conhecia os livros da escola, pois em casa não cabiam estantes e a minha mãe "não se matava no tanque para jogar dinheiro fora." Mas aquilo tudo inundava minha cabeça, meu nariz e queria, queria muito sair pela boca.
         Quando minha mãe já me puxava pelo braço e abria o portão para subirmos para casa, uma voz deu duas piruetas e se deixou cair nas minhas costas: "Senhora, deixa o menino ver!" "Obrigada. Fica para outra vez."  E me puxou de novo. Mas a voz me grudara nas costas: "É esse que você quer, garoto?"  "Já disse que fica para outra vez. Não tenho dinheiro agora." "Não precisa pagar, não.  Deixa ele levar, depois me devolve.  Vocês não moram aqui em cima?"
         Olhei minha mãe desconfiada. Olhei o homem me estendendo o volume vermelho.  E antes que algum deles dissesse não-sim, peguei o livro com seu balão e, agradecendo envergonhado, subi correndo as escadas de casa.
Enquanto minha mãe tentava entender aquele homem, areando com força uma panela na cozinha, eu, sentado no chão da sala, acariciava o brinquedo novo.  Agora dava para sentir sua capa antiga, passear pelo azul (sim, havia um céu azul empoeirado), perceber que havia dois homens e uma moça dentro do cesto do balão e tocar com os dedos as letras em relevo: "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias".   Dava também para reconstruir o rosto do dono da livraria (que, depois fiquei sabendo, chamavam de sebo): cabelos grisalhos puxados para trás que escorriam até os ombros. Óculos de aros escuros escorregando pelo nariz. E a voz, de um rouco abafado, que ajudava a desenhar o sorriso de piano.
         Passei a ir sozinho para escola e na volta parava na frente da vitrine. Espiando.  Um dia, ele me surpreendeu e perguntou se eu não queria entrar. Fiquei encabulado, já tinha terminado o livro, mas disse que precisava almoçar. "Então volte depois."
         Comi depressa, sem olhar minha mãe, que como sempre ficava muda. Terminei, lavei meu prato e fui levar o lixo para a rua. Antes de sair, experimentei: "preciso devolver o livro." "Vá, mas não demore."
         Primeiro entraram meus olhos.  Diferente da vitrine, o sebo parecia uma bagunça: livros por todo canto, pilhas mal equilibradas e discos de vinil em fileiras pelo chão.   Depois foram os ouvidos: um som angustiado, som de línguas estranhas vindas de uma vitrola em um canto.   E ao lado da vitrola, sentado em uma cadeira de criança, estava ele: "Pode entrar, sente aqui ao meu lado. Gostou do livro? Deixe este ali naquela pilha e escolha outro."
         Fiquei lá boa parte da tarde.  Entre conversas com clientes e resmungos com a esposa Judith, fiquei sabendo que seu nome era Irineu, que a música da vitrola se chamava tango e que era cantada pelo moço emoldurado em uma das poucas paredes livres: Carlos Gardel. Me mostrou livros antigos de aventura e me apresentou a “seu” Lobato com um "leve 'Viagem ao Céu'." Havia também um pôster apoiado em uma pilha de discos, com a foto de um cantor de braços abertos, que parecia o homem mais feliz do mundo e se chamava Germano Mathias. "O Catedrático do Samba!", apresentou seu Irineu, enquanto trocava o disco de tango por um batuque que sincopou irresistível em meus sapatos.
E aquele ritual se repetiu por todos os dias seguintes.  Depois do almoço eu fazia as entregas das roupas das clientes de minha mãe e ia para o sebo, procurar livros, ler muito e ouvir o Gardel e o Mathias.  Eu chegava com um “oi” encabulado e procurava uma das cadeirinhas próximas da vitrola.  Ele sorria e às vezes se sentava ao meu lado, sugerindo leituras ou me estendendo um pequeno dicionário para eu mesmo brincar de Cabral com as palavras.  Outras vezes eu só ficava lá, quietinho, vendo ele conversar com clientes sobre autores que fui, aos poucos, reconhecendo nas estantes. 
          Havia dias em que ele saía para comprar mais livros. E antes que voltasse com sacolas carregadas de mais volumes antigos e seu estranho caminhar de dançarino de valsa, dona Judith conversava comigo: “que sua casa estava tomada pelos livros, que não podia nem mais ver novela porque o sofá fora soterrado”. Mas seu olhar era inundado de paixão por aquele homem tão estranho.
           E eu me tornei uma traça faminta. Devolvia um livro, pegava outro. Às vezes seu Irineu aconselhava: "saboreie mais as palavras." 
 Isso durou até eu cair doente.  Febres e pesadelos me derrubaram por uma semana. Sonhava com Dona Judith, tentando ver a novela por entre os livros. Outras vezes ela estava sentada em cima de uma pilha enorme, batendo a cabeça no teto, assistindo à TV que ficava em cima de outra grande pilha: palafitas de papel e eletrodomésticos. Noutro sonho, seu Irineu fechava o sebo, um caminhão levava todos os livros embora. Um barulho terrível derrubava todas as estantes de tijolos e tábuas. E eu delirando: "eu preciso devolver o livro, eu preciso devolver o livro."
        Quando fiquei melhor e pude sair para rua, as portas de ferro estavam realmente fechadas. Minha mãe desconversou. Voltando da escola, eu tentava olhar por um buraco, mas o galpão continuava escuro e silencioso.
Não pude devolver o último livro, que reli um milhão de vezes.   Refiz todas as viagens de Marco Pólo e me tornei amigo íntimo de Kublai Kan.   Até o dia em que minha mãe me entregou um pacote.  "Estive no centro da cidade e me lembrei de você." O papel era amassado, o embrulho mal feito: seus dedos grossos não estavam acostumados a delicadezas.   Abri devagar e vi surgir "O Conde e o Passarinho", de Rubem Braga.  "Desculpe, está velho, mas o moço disse que é bonito".  Tentei um abraço apertado, mas seu corpo também não estava acostumado a delicadezas.
Esqueci da hora, fiquei lendo até dormir.  Acordo com a luz acesa: duas da manhã. A cama ao lado da minha, continua arrumada.   Sem calçar os chinelos vou até a sala. E lá está ela, dormindo no sofá. Um sono bom, sereno. Quase um sorriso nos lábios. Entre as mãos sobre o colo, um livro aberto: parece um romance.   Eu quero chamá-la, beijar seus olhos, mas não tenho coragem: talvez ela sonhe. Nós dois, numa manhã de sol, descendo as escadas em direção à rua.   O galpão está reaberto, há uma floricultura no lugar do sebo.  Não. Uma loja de espelhos.
          Mas nada mais disso importa: estamos passeando, pisando sobre as ruas de papel.
           E flutuamos docemente sobre as palavras ensolaradas.
                                                                                                                                                                     Gravuras: Brontops Baruq (cedidas pelo autor)
***
Na porta do sebo fechado, vi meu conto pregado, olhando para a rua.
Vi e quase entendi tudo. Ou tentei fingir que não entendia: meio zonzo, fui pedir informação no restaurante de comida capixaba ao lado do sebo:
“Seu Amadeu morreu hoje de manhã. A família pregou esse texto na porta e foi para o velório. Depois vai ter a cremação na Vila Alpina.”.
Agradeci à garçonete e subi, sabe-se lá de que jeito, até minha casa no final da rua Teodoro Sampaio.  E de lá fui para o velório.
As tristezas foram chegando para os olhos e para o peito: os dedos entrelaçados de seu Amadeu, com as unhas amareladas pelo cigarro. O suspiro desalentado de dona Miriam.  O abraço cheio de lágrima de Rebeca, Raquel e Amadeuzinho.
Me lembrei de meu pai, de sua partida.  E descobri a profunda dor da morte revivida.
Os dois, tão diferentes de corpo e temperamento. De sentidos e engajamentos.  Mas perdidas entre as estantes, as semelhanças: o amor pela palavra escrita, pelas páginas sem fim emoldurando o mundo; a ânsia de libertar as almas pelas ideias e criações dos livros. A generosidade de reacender vidas esvaziadas pela miséria.
Durante mais de uma semana, o sebo ficou fechado. E meu conto continuou lá pregado, olhando para a rua.  Sem um rasgo, sem um risco. E quando Amadeuzinho e dona Miriam valentemente reabriram as portas do agora “Sebo Memória...do Amadeu”, meu conto misteriosamente ganhou o mundo: de repente apareceu numa roda de discussão de leitura de jovens da periferia. Noutro dia, serviu para estimular um grupo de pacientes com distúrbios psiquiátricos. E até apareceu como anexo no “Caderno Universitário 1”, “Coesão e Coerência – algumas reflexões” (Piracicaba – Editora UNIMEP, 2004) escrito pela brilhante pesquisadora e doutora em Linguística, Cristina Martins Fargetti.
E por fim, o conto me fez voltar ao sebo numa manhã de chuva.
A porta aberta, o som forte do tango saindo do meio dos livros, das estantes.  Lá dentro, o disco rodando na vitrola.
E em frente à vitrola, de costas para a entrada do sebo, dona Miriam sentada na cadeirinha de madeira.
Soprei seu nome com cuidado, toquei seu ombro, e ela se virou, enxugando os olhos, sorrindo encabulada, “ai, meu filho”.
Puxei a outra cadeirinha, me sentei, e ficamos lá, de mãos dadas, ouvindo o tango do disco.
E esperando os dias seguintes.



Gravuras do conto: Brontops Baruq (cedidas pelo autor)
Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 3, 17 e 31/1 e 7/2/2016




terça-feira, 3 de março de 2015

A viola e o espantalho

(caio silveira ramos)

Sou um espantalho.
Não daqueles de filmes de terror ou das histórias do Batman.  Se for para me remeter ao cinema, estou mais para o Espantalho do Mágico de Oz. E continuo à procura de um cérebro.
Mas a razão da identidade não é o espanto: é a feitura.
Sou feito de pedaços, pedaços das almas, rostos, corpos, visões e amores de quem vou encontrando pelo caminho.
Desde que nasci fui colecionando pessoas. Não para que elas me pertencessem, mas para que eu fosse remendado por elas.  Durante o dia, durante a noite, na vigília e no sono sonhado, uma multidão desfila sem parar na minha frente, costurando minha pele, escorrendo nas vielas do meu cérebro, se aproveitando da minha incapacidade de desamar: a vendedora de uma loja de brinquedos, o coleguinha da pré escola, a menina bonita fazendo a leitura do dia numa sala de aula da minha infância, o cobrador de ônibus, o motorista do táxi, a copeira do serviço, a professora de inglês, a mãe, o pai, a irmã, a mulher, o filho, a prima, a tia, a vó não conhecida.  Todos, todos, todos, de qualquer tempo, inesquecidos, flutuando, me compondo, me reamando.
Ultimamente, passei a usar tecnologias: na internet, os poemas criados por Maira Garcia passam a morar nas minhas ideias. Outra poeta, Marina Mendes, envia por e-mail suas-minhas dores mais profundas.  A fotógrafa Patricia Ide leva meus olhos para passear pelo mundo e me envia as visões dela-já-também-minhas pelo WhatsApp.  O blog de Brontops Baruq muda os descaminhos dos meus sonhos.
Ainda muito pequeno, a imagem de Pixinguinha na capa do volume número 2 da Coleção “História da Música Popular Brasileira” me chamou a atenção. Folheei o encarte, vi as fotos, encontrei o sorriso. Ouvi o disco, o som da flauta, o som do sax, o som da voz de Orlando Silva se misturando aos instrumentos. As melodias do disco se misturando aos sorrisos das páginas do encarte, o sorriso meu se recriando na boca.  Quando aprendi a ler, entendi emocionado a inscrição ao lado da foto da capa: “Este homem é um poema”. 
E minha alma se amoldou àquela poesia. 

***
Eu já tocava um pouco de violão, quando a voz me veio.  Cantando um samba que eu não sabia de que em era, a voz me veio. Claro, o som que saía de mim era de menino. Nove, dez anos.  Mas havia uma doçura na busca das palavras, uma tentativa de aveludamento do meu timbre agudo de pouco volume.  O ritmo se fez outro.  Um ritmo que às vezes acelerava, como se fugisse tímido. E que impunha ao violão uma cadência que obrigava meus dedos a procurar uma batida que eu desconhecia.   Minha irmã Ruth desvendou:
“Você está parecendo o Paulinho da Viola.”
Então fui conferir o nome e a figura. E percebi que já tinha visto o sambista na TV. E a voz e a imagem se fundiram. 
O som do samba agora saía daquela imagem. E o samba se chamava “Não é assim”.  Fazia parte do caderno de violão da irmã Ruth? Podia ser, mas como eu sabia que o samba tinha que ser cantado com aquele jeito intimidado? Já teria ouvido no rádio? Seria um tema de novela?
“Não é assim” se tornou um dos meus hinos – não cantado em altos brados (que a música pedia justamente o contrário disso) -, mas interpretado com a cadência, com a batida que Paulinho da Viola me ensinava à distância.  E junto caminhava uma doçura humilde, mas altiva, acompanhada da timidez de um fechar de olhos e do encabulamento de um sorriso discreto.  Aquele samba de Paulinho da Viola era uma verdadeira carta de intenções para toda minha vida: a cadência, a batida, a busca da doçura humilde e altiva, a timidez e o encabulamento não seriam dali em diante somente instrumentos do samba.   Seriam os alimentos que passariam a coordenar meus músculos, meu pensamento, minha voz, minha maneira de conceber e entender o amor.
Outros sambas vieram de Paulinho da Viola.   Outros sambistas vieram com outros sambas diversos: sincopados, risonhos, candentes, rasgados: compositores e composições me tecendo, me remediando, me espantando.  Mas aquele jeito embebedado com “Não faz assim” enraizou-se em mim e eu me tornei um pouco aquele samba.
Mais tarde eu descobri que não era apenas Paulinho da Viola que emprestava seu jeito a “Não faz assim” e me contaminava junto.  Havia ali, uma doçura-além que não vinha dele, mas que eu já sentia que viajara para dentro de mim.  Havia entre os versos um contracanto, um lalaialaiá sereno que embalava a canção toda. E aquele voz – eu soube bem depois – era de Dona Ivone Lara.   Então, se no dia a dia meu jeito se afeiçoou a Paulinho da Viola, meus sonhos se abrigaram no colo daquela senhora.
E de viola em viola, de laras em laras, eu continuo me espantalhando.  Não um espantalho de afugentar, mas um que estende os braços e fala com passarinhos, tal qual o personagem cantado pelo próprio Paulinho da Viola em “Vela no breu”, samba composto por ele e por Sérgio Natureza.
E se não é assim que se faz, me perdoem.
É assim que me faço. 

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/2/2015

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Escritor de orelha

(caio silveira ramos)

De uns tempos para cá, me tornei um escritor de orelha. 
De orelha de livros. Por sorte minha, amigos talentosos (e generosos) me convidaram para fazer pequenas apresentações de suas obras.  E eu, encabulado, mas agradecido (ou desavergonhado?) tentei não atrapalhar a riqueza das palavras alheias.
Em 2012, dois grandes presentes para mim: uma orelha para “Outono do meu tempo” (Scortecci Editora), de Fernando Szegeri – fabuloso cronista da era da internet (mas com o coração fincado na conversa fraterna da mesa de um bar) –, e outra para os contos (principalmente de ficção científica) de “O grito do sol sobre a cabeça” (Editora Terracota), de Brontops Baruq, um dos mais fabulosos escritores contemporâneos.   Por fim, em 2013, a orelha para “O coringa do cinema” (Editora Giostri), de Matheus Trunk, profundo conhecedor dos mistérios da Boca do Lixo paulistana.
Nesses tempos de “ditadura da imagem” (e de lembranças de outras infelizes ditaduras), este Mirante dobra a orelha até 2011 e relembra o texto para o divertido “Gordo de A a Z”, de Gaspar Bissolotti Neto (Scortecci Editora):

Salve o prazer

Poucos têm sofrido tanto preconceito quanto os gordos: padrões de beleza impostos pela mídia e pela moda geram sofrimento para milhões de pessoas (inclusive crianças) que se veem rotuladas como fracas de caráter, pecadoras, doentes e esteticamente prejudicadas...
“Esteticamente prejudicadas”? Francamente: o gordo é taxado de medonho para baixo.  Já vejo aquela madame seca e seu estilista (que faz roupa para cabide e não para gente) comentarem sobre uma linda moça rolicinha, toda feliz com seu pedaço de bolo de chocolate, e sobre o autor Gaspar Bissolotti Neto: “que gente gooorda e hor-ro-ro-sa!”
Pois Bissolotti veio para dar uma tortada na cara (que desperdício!) nesse “bom gostismo” azedo (“doce? Não, obrigado, estou de dieta”) que determina o que é belo, mas se esquece que esqueleto é pra baixo da terra. Com seu verbo afiado, o grande Gaspar (gordo de corpo e alma) esconde por trás do auto-humor, setas certeiras de indignação e de liberdade.
Ele parece dizer: abaixo a “modelo-manequim e atriz” que diz comer de tudo, mas vive com uma barrinha de cereal a cada quinze dias! Abaixo o narciso de academia que se enoja com celulites charmosas.
Soltem os cintos! Quem gosta de osso é cachorro! Saúde sim, patrulhamento calórico jamais!  Salve as baleias e os anjos barrocos. Viva a pança de Sancho, Obelix e as curvas de Druuna! Viva Mônica, Preta Gil e o Marquês de Rabicó. Viva as mulheres que valem por duas e as que passeiam pelos sonhos dos trabalhadores da construção civil! 
Sob as palavras recheadas e suculentas de Gaspar, gordos de todo mundo, uni-vos!
Mas por favor, não de um lado do só do globo que pode provocar o deslocamento do eixo da Terra.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em  4/4/2014