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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A força que vem do além

(caio silveira ramos)

O músico Fernando delPapa foi para França aos dezenove anos com a cara, a coragem, o cavaquinho e o talento.  Depois de mais de uma década na Europa, “Fernando do Cavaco” assumiu o sobrenome (embora artisticamente modificado) e lançou neste segundo semestre de 2016 seu primeiro CD, “Eu também”, um dos melhores discos dos últimos anos.  Suas letras e melodias são tão inspiradas, que o próprio Chico Buarque gravou um vídeo elogiando Fernando e seu CD.  A palhetada do Fernando é tão espetacular que o disco é ao mesmo tempo brasileiríssimo e universal.
Conheci o Fernando numa roda de samba antes de sua viagem para Paris. Naquela época, sua destreza com o instrumento, influenciada por Luciana Rabello, já mostrava “o que pode um cavaquinho”.   Além da paixão pelo samba, eu, ele e seu pai (um fabuloso cantor chamado Sérgio Del Papa) tínhamos pelo menos mais uma coisa em comum: nós três, assim como tantos outros, éramos discípulos de João Borba.    O que nos ligava a esse grande artista piracicabano não era apenas o seu canto: era também todo o espírito do samba que ele encarnava.
Depois que se aposentou do seu serviço na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, finalmente João Borba pôde cuidar melhor da carreira que já vinha desde os anos 1950 e que passava pelo grupo de teatro, música e consciência negra de Solano Trindade, pelas Escolas de Samba de São Paulo e pelas noites paulistanas.   Aposentado, finalmente Borba conseguiu gravar seus três CDs: “João Borba: Memória do Samba Paulista” (gravado em 2005 e lançado pelo Kolombolo em 2014), “João Borba Canta Jorge Costa” (2008) e “Eu comigo e meus amigos” (2011). Aposentado, finalmente Borba pôde levar seu samba e sua voz pelo mundo, principalmente para Paris, onde reencontrou Fernando e seu cavaco.
No começo do segundo semestre de 2015, João Borba andava um pouco doente, mas estava animado com sua última viagem. E já se preparava para ir à Cuba. Ele me procurou dizendo que em Paris, Fernando delPapa tinha criado a palavra “Baoborba”, mistura dos nomes da mítica árvore e do sambista. Fiquei entusiasmado com a ideia de Fernando, que definia tão bem a força soberana de João Borba.  Mas meu amigo me procurava por outro motivo. Tivera a inspiração de fazer um samba, não sobre si próprio, mas sobre a árvore que lhe emprestava o novo apelido.  Ele ainda não sabia como seria, não tinha a letra, nem a melodia, e por isso me provocava com sua doçura: “então, vamos fazer um samba sobre o baobá?”. Aceitei na hora, comovido pelo convite e pelas ideias que já me atropelavam com alegria e fúria.
Fiz a letra, esbocei a melodia e mostrei para o Borba. Ele se empolgou e disse que iria completar a música. Mas lentamente os males do corpo foram solapando a raiz daquele Baoborba que eu julgava eterno: ele não foi para Cuba, começou a cancelar algumas apresentações e não completou o samba.  No dia 10 de setembro de 2016, liguei para dar os parabéns pelos 82 anos.  A querida Salete atendeu, percebi que ele pigarreou para ajeitar a garganta e o corpo, e lá de longe eu ouvi a voz serena do meu parceiro: “estou fazendo 18 anos!”. Para animá-lo, contei que a melodia de “Baobá” estava pronta e acabada só esperando para ele gravar, quem sabe, fazendo um dueto com o médico e baluarte Chico Aguiar. E que poderíamos, no final do samba, preparar um duelo entre um violão 7 cordas e um violoncelo, e ainda... Mas senti que, mesmo colocando o sorriso de sempre na voz serena, meu amigo estava já cansado. E nos despedimos com o carinho de sempre.
No dia 20 de setembro de 2016, dez dias depois, tombou para sempre o meu Baoborba. O Baoborba de Fernando delPapa, Chicão, Pasquale Nigro, Wandi Doratiotto e de tantos outros parceiros, amigos e sambistas. O Baoborba da Pérola Negra, do Império do Cambuci e de tantas outras Escolas de Samba de São Paulo. O Baoborba da Vila Madalena, do Centro, de Embu das Artes, de Piracicaba, de Paris e de onde mais o samba chegou e chegará.
Nesses últimos vinte anos, meu conterrâneo João Borba foi meu parceiro, meu intérprete e meu irmão.  Para ele escrevi e atualizei seus “releases”, fiz o texto de encarte de um dos seus CDs e ofertei sambas que ele gravou ou apresentou em shows.  Juntos, planejamos inúmeros espetáculos (inclusive o que ele pretendia apresentar até o final de 2016: “João Borba: 60 anos de música e sonho”) e compusemos amizade, fraternidade e música.
Nossa única parceria gravada fala de um rio em que nós dois, quando meninos, mesmo em épocas tão distintas, matamos a sede e nos espelhamos.  Que a água cristalina sonhada para nosso rio e para tantos outros sacie todas as aflições. Que o samba, feito um baobá, ilumine todas as almas.
Viva sempre em nós, João Borba!
Para você, o samba sonhado:

Baobá
(Caio Silveira Ramos) – para João Borba e Fernando delPapa

Amei
Acima de qualquer pecado
Rasguei
Meu coração encarcerado
Plantei
Uma semente nessa terra
Que espera, feito ela,
Renascer, se libertar

E do meu coração dilacerado
Brotou
Meu samba novo, germinado
Cresceu
Embriagou-se de tristeza
Recriou a natureza
Se agigantou
Tocou o céu.

Baobá
A força que vem do além
Do além-mar
Além deste tempo, deste lugar
Raiz que ensina a caminhar

Baobá
Rompendo qualquer grilhão
Baobá
Abraço da multidão
Baobá
Sagrada profanação
Baobá

Baobá
Meu sangue já abrigou
Baobá
A sede já saciou
Baobá
Meu corpo multiplicou
Baobá
                                                                                          

                                                                                                                                                Publicado no Jornal de Piracicaba em 9/10/2016



sábado, 5 de março de 2016

Samba servidor

(caio silveira ramos)

O menino anda desconfiado: “como é que Papai Noel não se esquece de ninguém/seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem”.  “Sempre vem? Não sei, não...” Mas tanto insistiram que o menino fez a carta: pediu “uma mochila que dure no mínino quatro anos e brinquedos para todas as crianças”. Terminada a carta, ele se lembrou: “vou passar o Natal com a tia Ester... Como ele vai me achar?” Sugeri: “coloque um ‘P.S.’ no final e escreva: ‘vou passar o Natal com a tia Ester’.”  Ele retrucou: “P.S., não. Ele vai precisar é de um GPS”.
Por essas e outras é que o avô adora provocar o menino para ouvir suas respostas.  Num dia desses, enquanto o garoto corria pela sala contando que seu pai voltava muito tarde, às vezes de madrugada, o avô cutucou:
“O que é que seu pai faz, Pedrão?”
O pequeno já tinha me feito a mesma pergunta.  Mas como ainda era muito cedo para explicar sobre a complexa atividade de suporte ao processo legislativo, disse a ele que trabalhava com leis.  E quando a pergunta hoje se repete, dou a mesma resposta ou digo simplesmente: “sou um servidor público. Como seu avós foram”.  E digo com a certeza de quem encontra no “servir” o sentido mais puro e republicano da palavra: servir como quem se doa, sem interesses particulares, mesquinhos ou suspeitos.
“Então, Pedrão? O que seu pai faz?”
“Samba. Meu pai faz samba.”
Os sentidos falaram mais alto.  O menino se lembrou do velho artista cantando, na TV, um samba apaixonado de seu pai.  E o artista, antes de cantar, ainda falou sobre o menino.  E o artista, quando cantou, deixou-se tomar pela música para que ela desse seu recado.  E com a lembrança daquele dia, o menino também foi tomado: as imagens da alegria arrebataram seus olhos, o samba mergulhou nos seus ouvidos, na sua boca e dominou seus sentidos, seu corpo todo:
“Samba. Meu pai faz samba.” E logo o garoto começou a cantar e a dançar, imitando o velho artista.
Estava certo o menino: fazer samba, viver nele, também implica servir alguém. Mas não ser servil, pois o samba não se verga.
Fazer samba, viver nele, exige a altiva doação do sentimento.  Compartilhar a alma, em forma de letra, ritmo e melodia, sem interesse, para espalhar amores, lutas e denunciar injustiças.
Por essas e outras, servidor que sou, continuo chegando tarde por causa do trabalho. Nas madrugadas, feito um boêmio inveterado, giro a chave devagar, retiro os sapatos dos pés e entro na escuridão da casa.
E muitas, muitas vezes, escuto um teque-teque doce no chão da sala (feito um tamborim marcando o compasso) e sinto o menino envolvendo minhas pernas com os braços. Depois, malemolente, ele volta para seu quarto para dormir tranquilo. Ou eu o abrigo num abraço e o carrego até a cama, onde um sonho bom o espera encantado.
E embalado pelo sonho, meu samba acalenta a madrugada.


Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 27/12/2015




terça-feira, 3 de março de 2015

A viola e o espantalho

(caio silveira ramos)

Sou um espantalho.
Não daqueles de filmes de terror ou das histórias do Batman.  Se for para me remeter ao cinema, estou mais para o Espantalho do Mágico de Oz. E continuo à procura de um cérebro.
Mas a razão da identidade não é o espanto: é a feitura.
Sou feito de pedaços, pedaços das almas, rostos, corpos, visões e amores de quem vou encontrando pelo caminho.
Desde que nasci fui colecionando pessoas. Não para que elas me pertencessem, mas para que eu fosse remendado por elas.  Durante o dia, durante a noite, na vigília e no sono sonhado, uma multidão desfila sem parar na minha frente, costurando minha pele, escorrendo nas vielas do meu cérebro, se aproveitando da minha incapacidade de desamar: a vendedora de uma loja de brinquedos, o coleguinha da pré escola, a menina bonita fazendo a leitura do dia numa sala de aula da minha infância, o cobrador de ônibus, o motorista do táxi, a copeira do serviço, a professora de inglês, a mãe, o pai, a irmã, a mulher, o filho, a prima, a tia, a vó não conhecida.  Todos, todos, todos, de qualquer tempo, inesquecidos, flutuando, me compondo, me reamando.
Ultimamente, passei a usar tecnologias: na internet, os poemas criados por Maira Garcia passam a morar nas minhas ideias. Outra poeta, Marina Mendes, envia por e-mail suas-minhas dores mais profundas.  A fotógrafa Patricia Ide leva meus olhos para passear pelo mundo e me envia as visões dela-já-também-minhas pelo WhatsApp.  O blog de Brontops Baruq muda os descaminhos dos meus sonhos.
Ainda muito pequeno, a imagem de Pixinguinha na capa do volume número 2 da Coleção “História da Música Popular Brasileira” me chamou a atenção. Folheei o encarte, vi as fotos, encontrei o sorriso. Ouvi o disco, o som da flauta, o som do sax, o som da voz de Orlando Silva se misturando aos instrumentos. As melodias do disco se misturando aos sorrisos das páginas do encarte, o sorriso meu se recriando na boca.  Quando aprendi a ler, entendi emocionado a inscrição ao lado da foto da capa: “Este homem é um poema”. 
E minha alma se amoldou àquela poesia. 

***
Eu já tocava um pouco de violão, quando a voz me veio.  Cantando um samba que eu não sabia de que em era, a voz me veio. Claro, o som que saía de mim era de menino. Nove, dez anos.  Mas havia uma doçura na busca das palavras, uma tentativa de aveludamento do meu timbre agudo de pouco volume.  O ritmo se fez outro.  Um ritmo que às vezes acelerava, como se fugisse tímido. E que impunha ao violão uma cadência que obrigava meus dedos a procurar uma batida que eu desconhecia.   Minha irmã Ruth desvendou:
“Você está parecendo o Paulinho da Viola.”
Então fui conferir o nome e a figura. E percebi que já tinha visto o sambista na TV. E a voz e a imagem se fundiram. 
O som do samba agora saía daquela imagem. E o samba se chamava “Não é assim”.  Fazia parte do caderno de violão da irmã Ruth? Podia ser, mas como eu sabia que o samba tinha que ser cantado com aquele jeito intimidado? Já teria ouvido no rádio? Seria um tema de novela?
“Não é assim” se tornou um dos meus hinos – não cantado em altos brados (que a música pedia justamente o contrário disso) -, mas interpretado com a cadência, com a batida que Paulinho da Viola me ensinava à distância.  E junto caminhava uma doçura humilde, mas altiva, acompanhada da timidez de um fechar de olhos e do encabulamento de um sorriso discreto.  Aquele samba de Paulinho da Viola era uma verdadeira carta de intenções para toda minha vida: a cadência, a batida, a busca da doçura humilde e altiva, a timidez e o encabulamento não seriam dali em diante somente instrumentos do samba.   Seriam os alimentos que passariam a coordenar meus músculos, meu pensamento, minha voz, minha maneira de conceber e entender o amor.
Outros sambas vieram de Paulinho da Viola.   Outros sambistas vieram com outros sambas diversos: sincopados, risonhos, candentes, rasgados: compositores e composições me tecendo, me remediando, me espantando.  Mas aquele jeito embebedado com “Não faz assim” enraizou-se em mim e eu me tornei um pouco aquele samba.
Mais tarde eu descobri que não era apenas Paulinho da Viola que emprestava seu jeito a “Não faz assim” e me contaminava junto.  Havia ali, uma doçura-além que não vinha dele, mas que eu já sentia que viajara para dentro de mim.  Havia entre os versos um contracanto, um lalaialaiá sereno que embalava a canção toda. E aquele voz – eu soube bem depois – era de Dona Ivone Lara.   Então, se no dia a dia meu jeito se afeiçoou a Paulinho da Viola, meus sonhos se abrigaram no colo daquela senhora.
E de viola em viola, de laras em laras, eu continuo me espantalhando.  Não um espantalho de afugentar, mas um que estende os braços e fala com passarinhos, tal qual o personagem cantado pelo próprio Paulinho da Viola em “Vela no breu”, samba composto por ele e por Sérgio Natureza.
E se não é assim que se faz, me perdoem.
É assim que me faço. 

Ilustração: Maria Luziano – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 e 27/2/2015

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Água Cristalina

(caio silveira ramos)

João Borba lançou, em 2012, seu CD “Eu comigo e meus amigos“.    João Borba recebeu uma crítica profundamente elogiosa ao seu CD no jornal O Estado de S. Paulo.  João Borba é hoje uma lenda viva da Velha Guarda do Samba Paulista.  João Borba é um dos maiores nomes do samba.  João Borba é piracicabano.  Mas Piracicaba pouco conhece João Borba.
Eu também não conheci João Borba em nossa cidade: fui encontrá-lo na Capital, nos corredores do prédio do nosso trabalho.  Mas só fui conhecê-lo mesmo quando o expediente terminou e nos esbarramos numa roda de samba: ele com sua voz soberana e eu com o meu cavaquinho mambembe.    E foi só João Borba cantar um primeiro samba para eu sentir que encontrara um amigo querido e eterno.  Pedi timidamente que entoasse “Linda Borboleta”, de Paulo da Portela e Monarco, e ele abriu o sorriso e a voz como um abraço fraterno e infinito: “Linda borboleta/ não seja buliçosa/ deixa minha rosa que tão linda está no galho/ é o meu prazer ao amanhecer/ fazer-lhe visita, vê-la banhada de orvalho/ quando vem o sol/ cobre ela de ouro: no jardim do pobre é um tesouro”.  E nos tornamos irmãos para sempre.
Em seu CD, eu sou um dos seus honrados amigos: nossa parceria “Água Cristalina” está lá lindamente vestida por sua voz, que baila com a de Dona Inah, outro mito do samba paulista tardiamente descoberto pela crítica.   Com a suavidade que evoca os duetos de Cascatinha e Inhana, Borba e Dona Inah entoam com sentimento o nosso samba-rural que fala de um rio que teima em existir dentro da alma. O rio de nossos avós que ainda queremos tomar pelos olhos e pela boca. 
Nas outras faixas, Borba, com a sabedoria de seus quase oitenta anos, exala sua música com a maestria da sua voz e de seu talento para nos fazer respirar o samba e a vida.    E “Emossamba” e “Carente”, só para citar dois clássicos da noite paulistana criados por ele, agora encontram seus registros definitivos e passam a correr tranquilamente por nossas veias.
Vejo agora uma foto de meu filho diante de João Borba – aliás, um dos Joões que inspirou o nome do pequenino: no colo negro e majestático daquele grande e fraterno amigo, meu menino parece conversar seriamente sobre a vida. 
Mas olhando bem de perto, descubro que a conversa é outra: de dentro da foto, uma melodia doce parece escorrer pela sala e ganhar a rua.   De leve, ouço um tamborim sincopando o asfalto.
E dessa nova parceria nascerá um samba eterno.

 Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                         Publicado no Jornal de Piracicaba em 6/12/2012



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Malaco Agitadeiro

(caio silveira ramos)

Texto originalmente publicado no encarte do CD “Casa de Malandro”, de Hermes Petrini, de 2010. O texto chega agora a este Mirante, revisado, atualizado, ampliado e remexido. Agite(-se) antes de ler.

Quando, há quase 20 anos-luz, bateu no meu escutadô de batucada e promessa de amor o samba “Filosofia de Bar, acendeu um lampião na minha cachola: de-quem-de-quem-é essa obra-primona sincopada?  De quem é esse sambaço que usa e abusa das bebidas pra construir uma história inteirinha e risonhada, que bota num balaio tropical o cáiser e o Che Guevara?   Pois naquele dia me falaram que o tal samba era justamente do cantador que estava ali na minha frente empunhando a viola e atendendo pelo nome de Hermes Petrini.  Tava eu ajudando a arranhar o cavaco pros Menores de Assis, rapaziada sabidaça que fazia uma roda de samba lá pros lados da Igreja dos Frades (e que metamorfoseava até bula de remédio em samba-enredo), quando me apresentaram o mano da Helaine. E o que a moça tinha de formosura e denguice, ele tinha de talento, música na veia e liderança, pois sendo pouco mais velho, já era o guruzão daquele bando todo.
Ali e depois fui conhecendo aquele bamba, que além de talentoso, tem um coração de rodear o mundo e ainda abraçar a Lua, pois se tornou camarada de horas tantas, músicas muitas e conversas infinitas.  Um sujeito capaz de transformar uma torneira quebrada em prova de amizade e samba de primeira.
E o danado ainda joga nas onze, bate o escanteio, cabeceia na área, defende debaixo da meta, recolhe – humilde como um gandula –, a bola do lado de fora, e ainda dá as instruças do banco: manda bem no canto, na corda, no coro e nas tecladagens; compõe, arranja e interpreta.   E não para por aí: feito polvo habilidoso, dá aula de música pra meninada, inventa serenata, capricha no choro e incendeia baile e arrasta-pé.  E tem outra: ele ainda toca em casamento, fazendo a noiva se enformosurar ainda mais na igreja e a festa terminar com os convidados dançando no teto ao lado do lustre.  Se bobear, seu Hermes anima até velório e convence o morto a saltar de banda, desmaiar três senhoras e sair riscando o chão do recinto.
E não é que o malandro se metamorfoseia até em pai de canal educativo?  Pois o fulano criou na paz e na alegria suas duas meninas, hoje moças cheias de talento e belezura (devem ter puxado a mãe Zahira...) capazes de fechar o comércio da rua Governador e fazer o sujeito fugir até da Boa Morte.  Isso sem contar que uma delas, a Carina Nina Ninoca da Paçoca, feito o pai, se bordou de cantoria e danou-se a enfeitiçar montanhas e mundos com suas bagualas e coplas.
Mas o tal Hermes é mesmo um vagulino estranhoso, que labora sábado, domingo, feriado e dia santo.  Pois malaco que é malaco sempre tem que estar na contramão: se a honestidade hoje caiu na valeta, o marginal da vera é aquele que vai lá no meio-fio esgotado e toma a água da chuva que escorre pelos cantos, quase perdida, justamente pra resgatar a danada da honestidade, trazer a dita pra tona e escancará-la na careta da vilanada.
Na linguagera modernosa, Hermes Petrini é um “agitador cultural, que vai além da música, irradiando movimentos, tecendo todos os gêneros, dançando na corda ou em cima da lona do circo.  Mas pra mim, ele é um Malaco Agitadeiro, subvertendo gostos, desgostos e maus gostos. Livre, talentoso e valente.
Como todo malandro de responsa tem que ser.

                       Ilustração: Erasmo Spadotto - cedida pelo Jornal de Piracicaba
                                    Publicado no Jornal de Piracicaba em 2/11/2012