sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Indomável

(caio silveira ramos)

Eu ficava ali observando o pai em frente ao espelho: o cabelo ondulado, ainda umedecido, calmamente penteado pela velha escova.  Uma escova de madeira plana e escura, a parte ovalada abrigando as cerdas de náilon duras e amareladas.  Talvez o tempo e o uso tivessem reinventado as cores da madeira e das cerdas, mas para mim a escova sempre foi daquele jeito. Infinita como o pai.
Fui crescendo e os fios grossos foram modelando minha cabeleira cada vez mais volumosa.  As manhãs encontravam minha cabeça envolta num emaranhado intrincado e rebelde, enredando qualquer pente desavisado que passasse por perto. Até que pedi ao pai que me emprestasse a escova. Que finalmente domou sem dor as manhãs e o cabelo.
Então, nós dois passamos a compartilhar a velha escova. Nos sábados, enquanto ele cochilava leve ou ouvia de olhos fechados um programa de chorinho que passava na TV, eu apanhava a escova, redesenhava seu cabelo e invertia o sentido de suas sobrancelhas, transformando o pai em pai-monstro, pai-brinquedo, pai-riso.  Depois reconstruía seu cabelo e ele podia voltar a ser simplesmente o pai.
Quando fui para a faculdade em São Paulo, deixei nosso tesouro só para ele e tentei domar meu cabelo com pentes e até escovas parecidas. Mas nada funcionou. E as manhãs tornaram a encontrar o voluntarismo de uma cabeça emedusada. 
Novamente o total desprendimento do pai veio em meu socorro: num domingo à noite, desfazendo minha mala já em São Paulo, encontrei a escova protegida pela roupa limpa. Fui até um orelhão, liguei para o pai, que riu seu riso de marotagem e completou: “meu cabelo já está domado. Agora ela é só sua”.
Depois de tantos anos, o presente do pai continua lá, socorrendo minhas manhãs dos nós que se apresentam com o novo dia.  Mas durante as faxinas mais pesadas, sempre há alguém que pergunta: “pode jogar fora essa escova velha?”.  Corro para proteger meu tesouro, falo de sua importância, da qualidade da madeira, da consistência única das cerdas. A pessoa ri e a escova se abriga novamente dentro da gaveta.
Por esses dias, nova faxina pesada. E a antiga pergunta rodopia mais uma vez no ar. Dessa vez, porém, meu filho se antecipa e vem me proteger: “não pode jogar a escova fora: é a única lembrança que o papai tem do pai dele!”.
Agradeço ao pequeno, mas digo a ele que não é a única lembrança: eu tenho os livros, as fotos e outros singelos sinais da presença do pai. E mais importante que isso tudo: mesmo que a escova, os livros, as fotos e todos os sinais se percam, eu terei o pai sempre comigo, nos meus passos, nos meus sentidos, no meu pensamento.
O pequeno me sorri compreendendo.
E enquanto passeio com os dedos pelos fios grossos do seu cabelo cheio, percebo que a velha escova de madeira do pai ainda irá domar muitas outras manhãs.
E todos os nós do dia se desatarão.



Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 9 de abril de 2017


Castorino e a capacidade

(caio silveira ramos)


De 1982 a 1988, fui aluno do Professor Castorino Telles de Souza.   E durante todos esses anos, do ginásio ao colegial, ele me ensinou Ciências, Biologia e até Matemática, provando, ao lado da brilhante aluna Luciana Ducatti, que o Teorema de Pitágoras poderia ser corretamente demonstrado com lápis, papel e... tesoura e cola.   Mas isso é outra história.  Como também é outra história lembrar que o irmão do Professor Telles, o Mestre Roberto, chegou a me dar algumas aulas de xadrez na quinta série, mesmo que eu não tivesse nem a metade do talento que meu filho de oito anos tem diante de um tabuleiro.
O Professor Telles sempre foi de opiniões fortes e francas e, por vezes, causou alguma controvérsia. Eu mesmo devo ter discordado dele algumas voltas, mas isso faz tanto tempo que já nem me lembro em quais assuntos. E provavelmente eu era muito novo para ter alguma razão.
No primeiro ano do Telles como meu professor de Ciências, a meninada não entrava em polêmicas com ele. Pelo contrário. No intervalo, antes das suas aulas, as crianças enchiam a lousa com desenhos engraçados que ele, antes de iniciar a matéria, ia apagando um por um até escolher o favorito do dia.  E o mundo ria com infinitos “tellesfones”, “tellesvisões”, “tellesféricos”, “tellescópios”, todos os objetos devidamente barbados, calvos e munidos dos indefectíveis óculos de aros bem redondos.  Acho que toda classe desenhava, menos eu: mesmo que tivesse milhões de ideias “tellúricas”, era tão tímido que se um desenho meu fosse escolhido, nunca teria coragem de me revelar.
    Entre uma lição e outra, ele - além de tirar do bolso do guarda-pó curto uma caixinha com cravos da índia para ajudá-lo a parar de fumar – arrancava da cachola algumas frases e ideias curiosas.  Eu achava deliciosa sua definição para “oô”: “expressão caipiracicabana de espanto e descrédito”, tudo isso dito sem economizar na pronúncia bem carregada do “an" (de “espanto”), de todas as vogais (principalmente dos “es”) e claro, de todos os “erres” a que tinha direito.  Achava saborosas suas frases que começavam com “quem nunca foi criança que...”  e terminavam com algo como “transformou a bola furada em capacete” ou “fez máquina fotográfica de uma caixinha de fósforos”. Os hinos mais famosos do Brasil para ele eram os “do Corinthians (o que eu discordava), o ‘Virundum’ e o de Piracicaba, porque é quase uma moda de viola”. “Para Casa” virava “Prular”.  E a representação gráfica, sacada por ele e pelo Professor Zé Arthur, de uma árvore com dois galhos – que explicava espertamente a evolução dos protozoários até o homem – era jocosamente apelidada de “Chifre do Zé”.
Mas ele também falava sério. E muito: ficava furioso se alguém arrancava displicentemente uma folha do caderno só porque talvez houvesse um erro simples. Dizia que seu pai lutara com dificuldade para educar os filhos. Filhos que, muitas vezes, tiveram que escrever em papel de embrulhar pão para fazer lições e estudos.
Uma das suas lições mais preciosas foi aquela que nos ensinou os mistérios da palavra mágica “capacidade”.  Nas provas e nas tarefas, ele nos segredou que a tal palavra poderia ser usada para explicar incontáveis fenômenos da Ciência. Se acaso se pretendesse definir “fotossíntese”, lá viria a magia: “é a capacidade que os vegetais têm de etc” .  Porém, mais do que isso: ele nos fez refletir sobre o sentido de nossas próprias respostas em todos os campos de conhecimento. Mesmo sem usar palavras mágicas, ao sermos indagados sobre a definição de algo, deveríamos responder com objetividade e clareza, e não com vagos “é quando” ou “é, por exemplo, (...)”.
Muito além das Ciências, ele nos ajudou a colocar as ideias em ordem. 
A pensar sobre o sublime ato de pensar.

***


Talvez nenhuma geração tenha sido tão psicologicamente afetada com o surgimento da AIDS quanto a minha. Estávamos a um pé da adolescência quando as primeiras notícias sobre uma terrível doença que guardava estreita relação com o sexo começaram a se espalhar pelos nossos olhos e ouvidos.  Nem bem começávamos a sonhar, nem bem iniciávamos nossa tentativa de entendimento sobre o que talvez fosse o sexo e o mundo, já nos amedrontava a morte certa, o preconceito e a segregação.  Parecia que quando chegara nossa vez, seríamos tolhidos da possibilidade do desejo.
Foi então que o Professor Telles resolveu fazer, uma vez por mês, uma roda (literalmente: as carteiras eram arrumadas formando um grande círculo), que ele, inspirado pelo título do filme de Woody Allen, chamava de “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”.  Para ninguém ficar constrangido ao expor suas dúvidas, cada aluna ou aluno escrevia sua questão num pedaço de papel que, depois de dobrado, era colocado num saco. Então, o Professor Telles ia retirando nossos medos, dúvidas e angústias e respondendo um a um com leveza e sem meias verdades.
E vieram outras lições: na sexta série foi organizada uma excursão ao Zoológico de São Paulo. Uma das propostas da viagem seria observar as placas informativas colocadas em frente às moradas dos animais para ajudarmos a aprimorar os dados dos bichos do Zoológico de Piracicaba.  Me lembro que levei um caderninho e anotei incansavelmente as características de cada animal e as informações relevantes.  Mas o que muito me chamou a atenção foi uma conversa dentro do ônibus que, por mais que eu tenha me esforçado, não consegui não ouvir.
Na viagem de ida para São Paulo, sentados nos bancos atrás do meu, vinham o Professor Telles e a professora de inglês “Teacher” Elisabeth Nocit.  Acho que o passeio até a Capital reavivou a memória e a saudade dele, que deu para contar entusiasmado, à colega, o período em que viveu em São Paulo quando ainda era estudante.  Lá pelas tantas, lembrou do lugar em que morava: na minha cabeça de criança criou-se um prédio decadente no centro da cidade, recheado de figuras interessantes e misteriosas: malandros, travestis, prostitutas, excluídos de todos os tipos e tamanhos.  Eu não entendia muito bem as histórias, mas aquelas pessoas tão cheias de humanidade se criaram em mim e até hoje tecem muitas das minhas histórias.
Nas aulas, Telles nos convidava a experiências, como aquela que revelou o tipo sanguíneo de cada aluno: trouxemos agulhas descartáveis e ele foi passando de carteira em carteira, fazendo delicados furos nos nossos dedos para que brotassem gotas de sangue que eram pingadas numa lâmina de vidro. O professor colocou seus reagentes e tcharam!, nosso sangue se mostrou com todas as suas letras e sinais.
Das lições de Ciências e Biologia, as que mais grudaram em mim foram aquelas que mostravam os ciclos de doenças como a de Chagas, Esquistossomose, Cisticercose Cerebral, Leishmaniose, Malária, Febre Amarela, Dengue e tantas outras.  Com essas lições – inclusive aquela que me revelou o sentido da palavra “profilaxia”  -  eu abri ainda mais meus olhos para as visões que meus pais me ofertavam já em casa: as de que eu vivia em um mundo que não se preocupava em investir em pesquisa para encontrar a cura de doenças que afetavam os mais pobres. Que eu nascera em um país repleto de desigualdades e por vezes cruel e desatento. 
Um país onde muitos não tinham casa, água ou condições sanitárias mínimas para se ter uma vida digna.
Um país em que tantos não tinham sequer o direito a professores que os ajudassem a enxergar a vida.
                                               


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
               Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 e 26/3/2017

Meninas

(caio silveira ramos)

Do pessoal lá de casa, a Ruth talvez tivesse o maior número de amigas. Amigas desde cedo, amigas por muito tempo, amigas para todo o sempre. Amigas de vir em casa, amigas de visitar. Amigas de escrevinhar nos cadernos advinhas enigmáticas de letras e números para revelar nomes dos pretendentes ou dos apaixonados.  Amigas de falar por horas baixinho no telefone, amigas de rir alto e sem motivo aparente, amigas de chorar de mãos dadas, amigas de sair junto. 
E eram tantas e tantas, que os sorrisos às vezes se confundem nos meus olhos para talvez moldar o sorriso só dela, Ruth: Mônica, Adriana, Valéria, Cibele, Idamis, Monique, Lucy, Anete, Sandra, Eda, Cleide, Zuleica, Denise, outra Valéria, Cidinha, Adneia, Bia, Telma, Soninha e, claro, Aninês. E outras. Muitas outras.
Ruth gostava de festa, de praia, de piscina e de chocolate. De fazer bolo. De acordar cantando no sábado de manhã. E de dançar. E de se arrumar para sair sábado à noite, de brincar o Carnaval, de tomar sol. De chorar sentido e de rir sem freios. De falar besteirinhas. De escrever inspirados poemas românticos nas últimas folhas dos cadernos. De tocar piano apaixonadamente.
E quando contava piadas ou episódios mais desbocadinhos (ou quando descobria cacófatos marotos ao juntar os sobrenomes das amigas com os de alguns pretendentes), minha mãe brincava: “ih! Soltaram o tio Sebastião”, lembrando um tio querido que se deliciava ao contar piadas um pouco mais apimentadas.
Aos sábados, os preparativos para a noite começavam logo após o almoço e, enquanto trocava infindáveis telefonemas com as amigas, ela se esmerava em cuidar dos cabelos longos e crespos.  E à noite, a bordo do carro da Telma, um Chevette muito cuidadinho conhecido graciosamente como “Mini-Monza”, lá ia ela se divertir com as meninas nos barzinhos e danceterias da cidade.
Às vezes, no meio do dia, me deparo com sons e imagens soltas daquelas meninas, talvez para me lembrar mais um pouco dela. E chegam num relance o sorriso da Lucy, os olhos da Bia, um samba do Almir Guineto trazido pela Soninha, o riso da Eda, a discrição serena da Telma, a flor no cabelo moreno da Cleide, o liso do cabelo loiro da Sandra. E, claro, a alegria da Aninês.
Aninês, a quarta irmã que morava numa casa querida na rua Gomes Carneiro, casa de Dona Ondina (“Madrinha”, para Ruth), de Seu Antonio Carlos e do Ju.  Aninês, que estava sempre tão perto, rindo com a gente. Vivendo ali com a gente.  Aninês, tão diferente da Ruth no temperamento e no jeito, mas no sentimento tão igual. Tanto, que as duas pareciam transcender a fraternidade para quase sempre parecerem uma só.
Hoje, nos sábados à tarde, aquelas meninas por um segundo pensam em se preparar para sair. E nesse segundo, testam suas roupas na frente do espelho, fazem touca no cabelo, capricham na maquiagem, falam ao telefone e combinam de sair todas juntas a bordo do “Mini-Monza” da Telma.
E todas juntas sonham que a alegria da amiga Ruth se espalhará pela noite de sábado.


Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 26 de fevereiro de 2017


O sorvete solitário

(caio silveira ramos)

(para Dona Janda, por gostar de bolo com sorvete)

Há um episódio de “Os Simpsons” em que o personagem Homer abre o freezer e se vê diante de vários potes de sorvete. Ele abre o primeiro pote e se revela um sorvete do tipo “Napolitano” em que as “faixas” de creme e morango estão intactas, enquanto a parte reservada ao chocolate está completamente vazia. Visivelmente decepcionado, ele vai abrindo as outras caixas e em todas a situação é a mesma: creme e morango até a boca dos potes e o espaço do chocolate completamente vazio. Ao abrir o último frasco, inconformado, grita para a esposa: “Margie, precisamos comprar mais sorvete Napolitano!”.
Quando eu era pequeno, não entendia por que as pessoas compravam sorvete “Napolitano” se “todo mundo gostava mesmo era o de chocolate”. Depois ficava aquela disputa feroz e o meu sabor preferido acabava bem antes dos outros tipos de sorvete.
Não passou muito tempo e eu acabei concluindo que o “Napolitano” talvez fosse mais democrático que o exclusivo de chocolate, afinal, sempre tem alguém que não come esse sabor e não seria justo deixar tal pessoa passando vontade.  Ou quem sabe a razão fosse outra: um pote só de chocolate seria mais ou menos como um final de semana dentro das férias: não teria a mesma graça.
E foi justamente durante umas férias no começo da década de 1980 que algo novo me chamou a atenção: eu estava em Peruíbe, na casa da família do meu amigo Rogério Nakamura. Tínhamos acabado de almoçar, o calor era violento e nós dois ficamos como uma vontade absurda de tomar sorvete.  Dona Marta nos deu dinheiro e, debaixo de um sol impiedoso, saímos alucinados de bicicleta atrás da nossa sobremesa.
Devia ser domingo à tarde de um janeiro: quase todos os bares e padarias estavam fechados. E os que estavam abertos não tinham mais nem um picolé pra contar história. Rodamos, rodamos, fomos longe, com o sol castigando sem dó, quando encontramos um armazenzinho perdido no tempo e no espaço. E dentro do freezer de sorvetes se materializou um único e solitário tijolinho de sorvete de morango Kibon. 
Naquela época, os sorvetes de massa para levar para casa ou vinham em embalagens de plástico grandes ou em tijolinhos embalados apenas com papelão. Esses tijolos, quando rasgado o papelão, deviam ser consumidos rapidamente, pois sem embalagem alguma (que nada tinha de térmica) derretiam num instante.
Pois eu e meu amigo Rogério retiramos o tal tijolinho de sorvete de morango de dentro do freezer como quem encontra um tesouro. Pagamos e o dono do armazém colocou a embalagem num saquinho de plástico que rapidamente o Rogério amarrou no guidão da sua bicicleta. E com medo que nossa riqueza derretesse no caminho, voamos até chegar à casa.
Domingo, calor, depois do almoço: a família toda cochilava em algum canto. Pegamos um prato fundo e duas colheres, nos sentamos na soleira da porta da cozinha e rasgamos a embalagem de papelão sobre o prato. O sorvete já estava começando a derreter, então não perdemos tempo: mergulhamos no sorvete com vontade. Cada um com sua colher. Nunca nada parecera tão gostoso: a consistência, a textura, o sabor, o frescor explodindo na boca e descendo pela garganta.  Num segundo, o papelão desmanchado sobre o prato não tinha mais nenhum vestígio de sorvete. E solenes, sabedores da importância daquele momento, jogamos a embalagem no lixo.
Durante todos esses anos, experimentei muitos tipos e sabores de sorvete: receitas simples ou mais elaboradas, algumas sublimes. Mas poucas se aproximaram do prazer proporcionado por aquele tijolo de sorvete de morango.
E hoje, quando me vejo diante de um pote de sorvete “Napolitano”, nunca deixo de pegar algumas colheres do de morango, provavelmente para me lembrar daquele sorvete tomado com tanta satisfação na soleira da porta de uma cozinha estacionada no tempo. E me dou conta de sempre reparar que os grandes prazeres da vida estão nas coisas mais singelas.
Ou simplesmente constato que o sorvete de chocolate ainda é disparado o mais gostoso.


 Publicada no Jornal de Piracicaba em 12 de fevereiro de 2017 sob o título de Morango rejeitado

Cuidadopaicuidado

(caio silveira ramos)

João Pedro pediu, como pede todos os dias, que eu me deitasse com ele para lermos juntos: precisávamos saber os próximos passos do Bolachão na sua tentativa de desvendar os planos malignos d’“O Gênio do Crime”.  Mas eu tinha trabalhado muito naquela sexta-feira, já era tarde, e disse que teríamos que ajudar o Gordo no dia seguinte, já que, no sábado cedo, duas coisas importantes e inadiáveis nos esperavam: uma compra de Natal e um corte de cabelo:
“Pensei que eram três coisas.”
“Três? Qual é a terceira?”
“Pedir para o tio Carlos se cuidar.”
“Por que ele tem que se cuidar?”
“Porque o pai dele morreu.”
Tio Carlos era o namorado da Dani, tia do João Pedro.  No dia 13 de dezembro, na terça-feira anterior à sexta daquela conversa, de fato, o Carlos tinha perdido seu pai.  Tocado pela preocupação do pequeno, dei-lhe um beijo na testa e resolvi me deitar com ele para lermos nem que fosse só mais uma página do livro do João Carlos Marinho: quem sabe nela seria revelada a identidade do fabricante das figurinhas clandestinas?
Com o pequeno já dormindo, resolvi caminhar um pouco no seu pensamento. E de repente me dei conta que, além do zelo para com o tio, talvez ele se preocupasse também comigo.
Dia 13 de dezembro era também a data de nascimento do Vô Miro. João Pedro sabia disso e sentia a ausência daquele avô que tinha partido sem conhecê-lo.  E mais: percorrendo minhas andanças, minhas dores escondidas ou reveladas, ele entendia (e também sentia) a falta que aquele pai fazia para o seu próprio pai.  E ele tinha razão.
Mas talvez João Pedro, muito justamente, pensasse em si próprio: a perspectiva da dor da perda, da perda do pai, da falta do pai incomodavam o menino também: era preciso que seu pai se cuidasse da dor de uma ausência (e também de outras dores) para que pudesse cuidar dele.  Para que talvez ele, o filho, não precisasse se cuidar tanto por tantas perdas e dores.
E abraçados nos cuidados recíprocos, adormecemos os dois.
E nos esquecemos um pouco de todas as dores do mundo.

Ilustração de Maria Luziano - cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicada no Jornal de Piracicaba em 29 de janeiro de 2017



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desmemórias

(caio silveira ramos)

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, foi preso sob a acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  Cabral, que segundo o Ministério Público Federal seria o chefe de uma verdadeira organização criminosa, teria recebido milhões em propina para fechar contratos públicos, como o da reforma do estádio do Maracanã. Isso, sem falar (também de acordo com o MPF) na compra de joias caríssimas (que teriam servido para lavagem de dinheiro) e de sua ligação criminosa com o empreiteiro Fernando Cavendish, que, ao lado de Cabral, de secretários estaduais e de um conselheiro do Tribunal de Contas, participou na Europa da chamada “Farra dos Guardanapos”.
Assim que o ex-governador foi preso, pensei imediatamente em seu pai, o jornalista Sérgio Cabral, fundador e editor do lendário “O Pasquim”. Sempre admirei o velho Cabral por seu espírito bonachão e carioquíssimo. Mas o que de fato me liga a ele é a paixão avassaladora pela música brasileira.  Mais do que isso: muito dessa paixão eu devo a Cabral: por meio de seus artigos, crônicas e livros eu me deixei (e me deixo) embebedar ainda mais de samba e de choro.   Li e reli seus livros sobre Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Almirante, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Nara Leão, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro e, principalmente, me encantei com sua fundamental obra narrando a vida e a arte do meu querido São Pixinguinha.
Logo constatei que a preocupação com Sérgio Cabral pai não era somente minha. O escritor Ignácio de Loyola Brandão escreveu no jornal “O Estado de São Paulo” a crônica “Diante da situação tenebrosa, a notícia ruim é bênção” em que ele se pergunta o quanto o velho Cabral estaria “pensando e sofrendo com este show de horror com que o filho brindou o Brasil”.  Consultando escritores amigos como Antônio Torres e Ruy Castro, Brandão nos informa que há cerca de três anos Sérgio Cabral está doente e que, segundo Ziraldo, “as névoas do Alzheimer se insinuaram, mas provavelmente se acentuaram quando Sérgio sentiu a realidade. Seria uma forma de negá-la? Hoje, ele já não distingue o que é e não é, não identifica quem é. Mergulhou no escuro total, a memória dissolvida”.   Seguindo esse caminho, mas esquecendo-se de qualquer poesia, Maurício Lima escreveu em uma nota crua para o Radar On-Line da Veja.com: “o jornalista Sergio Cabral, pai do ex-governador do Rio, está com Mal de Alzheimer. Quando perguntado sobre o que aconteceu com seu filho, preso na operação Lava-Jato, ele responde que o menino morreu ainda criança”.
O que explicaria um pai enganchar sua desmemória na construção da falsa morte de um filho pequeno?
Pois numa entrevista do velho (mas feliz) ano de 2011, esbarrei nas voltas da memória perdida daquele escritor que se esqueceu de seu mundo e de suas histórias. E acho que encontrei a resposta.

***

Fui atrás do velho Cabral na internet e descobri uma entrevista sua, de 2011, para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Nela, ele diz que considerava seu filho (naquele momento, já no segundo mandato) o melhor governador que o Estado já tivera. Que ele pegara o Rio em frangalhos e rapidamente o transformara na unidade da Federação que mais recebia investimentos. E que a violência estava sendo combatida com muita competência. E que as finanças estavam de tal forma “arrumadíssimas” que o Rio teria sido o primeiro Estado brasileiro a ser reconhecido “por essas agências internacionais que dão nota aí”.  Alguém mais sarcástico poderá dizer hoje: ou o Rio estava bem mesmo e em poucos anos Cabral Filho foi tão corrupto e mau administrador que arrebentou o Estado ou o Alzheimer já em 2011 tentava fazer seu pai não ver a realidade.
Esse alguém também poderá perguntar se o pai não teve influência decisiva sobre o (mau) caráter do filho. De fato, me incomodo um tanto ao descobrir que o velho Cabral se orgulhava de ter nomeado o filho seu chefe de gabinete, quando fora vereador na cidade do Rio, na década de 1980.  Nepotismos à parte, ainda prefiro ver o escritor não como um deformador do caráter do filho (até porque a responsabilidade é pessoal do ex-governador que, cá entre nós, já é bem grandinho), mas como um sério pesquisador e escritor que teve influência decisiva na minha paixão pela música brasileira e pelas palavras ligadas a ela.

Mas continuando a passear naquela entrevista de 2011, me deparo com uma descoberta pungente, que talvez explique o porquê de um pai costurar sua mente na invenção da morte de um filho ainda na infância:
No começo da década de 1970, Sérgio Cabral pai estava hospedado em um hotel, na cidade de Campos, Estado do Rio de Janeiro, quando recebeu um recado de sua mulher: o jornalista devia, urgentemente, entrar em contato com ela. Durante quarenta minutos, enquanto não conseguia telefonar para a esposa, seu pensamento girou desesperado: ele e a família moravam no bairro do Leblon, bem próximo da praia. O dia estava lindo: com certeza um dos seus meninos (um de 5, outro de 6 e o mais velho de 7 anos) teria morrido afogado.  Mas qual deles? Qual deles? Quando finalmente conseguiu falar com sua mulher e ela lhe disse que o Exército tinha invadido “O Pasquim” e estava atrás dele para prendê-lo, Sérgio simplesmente respondeu: “ai, que alívio!”.
Quem sabe, no aqui e ali de sua mente perdida, o velho Cabral se alivie um pouco ao se encontrar de repente com a flauta de Pixinguinha ou com a batida do surdo da Estação Primeira de Mangueira.  Mas fora disso, enquanto vai dizendo adeus ao ano novo, ele talvez insista em existir apenas naqueles quarenta minutos traumáticos de angústia e medo: Serginho, seu amado filho mais velho, morreu naquele dia afogado no mar. Não em um mar de lama. Mas num mar daqueles de Caymmi, feito de poesia, mistério, morte e doçura.
E naquele mar, morrendo junto, ele parte em busca de seu menino.


Ilustração: Maria Luziano– cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º/e 15/1/2017



Contra o Natal

(caio silveira ramos)

Seu Astrogildo não gosta do Natal porque sente aumentada sua solidão.
Pierre, porque acha uma festa cafona. Duda, porque acha uma festa careta. Carlos, porque acha uma festa puramente comercial e consumista. Wladimir, porque considera um evento capitalista e burguês. Gustavo, porque vê o Natal como mais uma manifestação golpista e machista. Cíntia, porque diz que é um momento representativo da culpa incutida pela Igreja Católica. Haroldo, porque vê na festa a imposição da cultura opressora ocidental-européia aliada ao perverso imperialismo americano. Dolores, porque diz que é uma época de pura hipocrisia. Jussara, porque acha que as pessoas ficam ainda mais falsas. Fabiana, porque acha que as pessoas demonstram uma alegria fingida. Fabiano, porque acha que as pessoas demonstram uma solidariedade forçada. Letícia, porque vê todo mundo feliz, menos ela. Joaquim, porque se lamenta ainda mais por não morar em Londres. Edson, porque se lamenta ainda mais por não morar em Nova Iorque. Jurema, porque se lamenta por não ter onde morar. Humberto, porque não gosta de dar caixinha de Natal para os porteiros do prédio. Carmen, porque sente que a miséria do mundo fica muito mais gritante. Sônia, porque sente que a miséria humana fica muito mais flagrante. Paulo, porque sente que os marginalizados são ainda mais excluídos. Magnólia, porque num dia de Natal morreu uma tia querida. Gabriel, porque se lembra ainda mais dos parentes que já se foram. Gonçalves, porque percebe que os lugares à mesa da ceia ficam a cada ano mais vazios. Sebastião, porque a mesa da ceia fica mais vazia a cada ano. Juca, porque não tem ceia. Osvaldo, porque não tem mesa. Nunes, porque fica mais deprimido nessa época. José, porque fica tão deprimido nessa época que sente profundo desejo de se matar. Murilo, porque previram que ele morreria num dia de Natal. Soraia, porque fica aflita com os preparativos e as correrias típicas do período. Ludmila, porque fica estressada com os preparativos e as correrias típicas do período. Mônica, porque fica com vontade de matar alguém com os preparativos e correrias típicas do período. Tamires, porque a comilança atrapalha seu regime. Nice, porque fica com mais fome ainda. Sandra, porque não tem o que comer. Pedro, porque também sente aumentada sua solidão.  Manuel, porque não gosta de dar presente. Rui, porque não gosta de ganhar presente. Uéslei, porque não ganha presente. Rosa, porque não gosta do passado. Evandro, porque tem medo do futuro. Ebenéser, porque não tem tempo a perder. Tiago, porque fica com saudade da infância. Luís, porque fica apavorado ao se lembrar da infância. Taís, porque tem que ir para o interior e lá é um inferno de quente. Tatiana, porque tem que ir para praia, lá é um inferno de quente, tem areia que gruda no corpo e um monte de parente chato. Dirce, porque detesta reuniões de família. Diva, porque detesta a família. Soraia, porque também sente aumentada sua solidão. Fátima, porque acha uma maldade com o peru e outros bichos. Lucas, porque tem medo de Papai Noel. Ana, porque acha brega o Papai Noel com roupa de frio num país tropical. Gabriela, porque tem dó do Papai Noel de loja que tem que usar roupa tão quente num país tropical e ainda aturar criança chata. Tomás, porque detesta shopping lotado. Dimas, porque detesta shopping. Daniel, porque diz que montar presépio é pecado. Enrico, porque não suporta música natalina. Cláudia, porque detesta cheiro de panetone. Raimundo, porque reclama que a cidade fica um caos. Solange, porque diz que as luzes piscantes dos prédios agride seus olhos e sua intimidade.  Mirela, porque acha que as lojas enfeitadas ferem seus sentidos e seus bolsos. Vicente, porque acha que o Natal é uma festa de origem pagã e que a data certa do nascimento de Cristo é outra. Hugo, porque não acredita no nascimento de Cristo. Luigi, porque não acredita na divindade de Cristo. Ivo, porque não acredita em Cristo. Michel, porque não acredita em Deus. Silmara, porque acha que, ao contrário da música, Papai Noel sempre se esquece de alguém. Dante, porque diz que as imagens nos saguões dos edifícios afrontam sua fé. Virgílio, porque pensa que o feriado não condiz com o Estado laico. Ângela, porque sonhava em ganhar uma boneca na infância e num Natal longínquo sua tia deu a boneca sonhada para uma prima. Vitor, porque não gostou do presente do ano passado. Manuela, porque acha que Papai Noel nunca dá o que ela pede.  Francisco, porque Papai Noel nunca lhe deu presente. Augusta, porque também sente aumentada sua solidão. Felipe, porque não gosta e pronto. E Nelson, que fica na dúvida se gosta do Natal, porque diz que não pode afirmar com certeza se Deus realmente existe.
Mas para sempre perdido no tempo, o menino eterno gosta do Natal. E na verdade, nem sabe dizer o porquê.
Lá está ele com a mãozinha limpando o espelho embaçado pelo banho recente.  Ele se vê: está arrumadinho, de roupa nova e umas gotas de colônia no pescoço. Olha para o cabelo molhado e pensa que só a escova velha do pai pode dar um jeito naquilo. E enquanto a escova vai domando a cabeleira, imagina que poderia ir até a sala, subir no banquinho e adiantar o relógio pra meia-noite. Não, ele não vai fazer isso. O bom é a espera. Pelo cheiro gostoso da comida, ele já imagina a mesa posta e um embrulhinho ao lado do presépio (nem que seja um carrinho de plástico bem simples: mas tem que ser surpresa). O bom é a espera. E ele espera: cinco abraços o esperam. Assim como um cocho para animais aguarda outro menino.
Daqui a duas, três horas, enquanto um garoto já estiver deitado no cocho brincando com o mundo, o outro dormirá feliz com o carrinho de plástico ao pé da cama.  Talvez ele sonhe com a manhã do dia que vai nascer.
Ou, quem sabe, com a espera do Natal do ano que vem.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 18/12/2016


Sapatos e papéis

(caio silveira ramos)

Quando descobri que meu pai, para ganhar alguns trocados lá na sua infância na cidade de Itu, tinha engraxado sapatos e carregado malas na estação, resolvi botar a mão na massa também.
Só que ele mesmo me explicou que os tempos eram outros: o mundo começava a entender que obrigação de criança era brincar e estudar.  Na infância difícil, ele tinha trabalhado não só para comprar umas poucas bolinhas de gude ou as tais balas que vinham com figurinhas, mas principalmente para ajudar com as despesas da casa dos tios, onde ele morava com os primos e a irmã mais nova.   Lendo pensamentos, meu pai disse que se eu quisesse comprar alguma coisa para mim, ele poderia ajudar. Desde que a tal coisa não fosse muito cara.
Eu sabia que o cinto em casa andava permanentemente apertado e que loja de brinquedo era um lugar de passeio e de sonho, não propriamente de compras.  De qualquer forma, o que eu queria, nem brinquedo era. E mesmo se tivesse coragem de pedir um presente, a ideia era adquirir meu objeto de desejo sozinho. Com meu próprio dinheiro.
Meu pai me disse que, se fosse em casa, eu poderia trabalhar um pouquinho: seria bom aprender coisas novas, desde que não atrapalhasse os estudos e as leituras. Eu até poderia encarar o “serviço” como uma boa brincadeira, mas para ganhar algumas moedas, a brincadeira teria que ser séria e bem feita.  Ah! Arrumação da própria cama e enxugamento de louça do almoço de domingo já eram obrigações e não seriam remuneradas de jeito nenhum.
Já que não havia malas pra carregar, escolhi engraxar sapatos. Meu pai arranjou uma escova de dente usada, duas latas novas de graxa (uma preta e outra marrom), três flanelas limpas, uma caixinha simples de madeira e uma escova grande. Nem bem me deu as instruções básicas e eu já saí pela casa à caça de fregueses e de sapatos.  Virei, mexi e arranjei uns seis pares, sendo que quatro eram dele: ali, na minha mão, aqueles seus sapatos surrados, todos com o formato inconfundível de seus pés desconcertados por horas e horas de aulas e sofrimentos passados tantos.
Sapatos e bailarino calejados pelas mil voltas de uma vida tormentosa.

***

Eu já tinha engraxado todos os sapatos da casa e nem assim conseguira juntar o dinheiro que queria para iniciar meu projeto secreto.  Com muito jeito, fui até meu pai e me ofereci para fechar o portão da garagem toda vez que ele saísse com o carro. Quando percebi que ele ia rir gostosamente, me adiantei e expus todas as dificuldades que a tarefa exigiria de mim:
Para que alguém do meu tamanho pudesse fechar a garagem seria preciso dar um salto e se pendurar na grade inferior do pesado portão de ferro. Depois, esse mesmo alguém deveria fazer força para baixo usando todo o corpo: só assim a parte superior do tal portão poderia correr pelo trilho preso no teto ao mesmo tempo em que um complexo sistema de cabos e roldanas levantaria, junto à parede, um gigantesco paralelepípedo de madeira que servia de contrapeso. Mas não era só isso: depois de fechada a garagem, seriam necessárias muita técnica e intrincada ciência para erguer um pouco e com muito jeito a base do portão, o que faria a lingueta da tranca se encaixar no local devido. Aí, e somente aí, se poderia girar a chave e a garagem ficaria trancada com segurança.
“Hum...Além de força, técnica e ciência, essa tarefa parece exigir uma grande responsabilidade...” , tentou não rir meu pai.
“Uma grande responsabilidade!”, confirmei muito sério.
E naquela mesma tarde, assim que meu pai saiu com o carro, fechei solenemente a garagem com a tal “grande responsabilidade”, segurei com força a moeda recebida por aquele serviço, apalpei o bolsinho do short que guardava as minhas economias amarrotadas e atravessei a rua.
Com o coração lá na frente, dobrei a esquina que dava para o Largo Santa Cruz, cumprimentei rápido seu Chalita, que atendia alguém no balcão da sua loja, e entrei na porta vizinha, a da Papelaria Rossi.
Minutos depois, ao lado da grande mesa do escritório-biblioteca de meu pai, abri o sonhado pacote de 250 folhas de papel sulfite comprado graças a alguns pares de sapato e ao portão da garagem.
E sobre a antiga escrivaninha de datilografia do meu avô, agora transformada na minha mesa de estudos, retirei dez folhas do pacote, ajeitei-as meticulosamente e, emocionado, mergulhei naquele mundo branco, imprevisível e incontrolável.
E deliciosamente sem limites.

***

Minha mãe sempre soube o feitiço certo para anzolar criança na leitura.
Não se sabe como ela descobriu uns livros grandes e finos, de bordas onduladas e capas instigantes: dentro de cada um deles, gravuras coloridas e curiosas (sempre socorridas por frases curtas escritas com letras também grandes e em negrito) contavam histórias que eram lidas uma, duas, dez milhões de vezes. Como aquela do porquinho e do coelho que entravam em um castelo assombrado por um fantasma, que no final se revelava um lobo escondido sob um lençol. Ou a do posto de gasolina que na última página ia pelos ares por causa da imprudência de um senhor porco – de anéis no dedo e metido a sebo – que acendia um charuto enquanto abastecia seu carro conversível.
E se não eram esses livros, eram os fascículos (comprados em banca de jornal e depois encadernados) que traziam os contos clássicos da Disney em quadrinhos ou as incríveis histórias da Revista Recreio, cujo lema no início da década de 1970 era “Leia e pinte. Recorte e brinque”.  Editados pela editora Abril, cada número da Recreio trazia um ou dois contos, geralmente escritos por feras como Sonia Robatto, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Joel Rufino dos Santos, acompanhados pelas ilustrações de desenhistas geniais como Waldyr Igayara, Izomar Camargo Guilherme, Renato Canini e Brasílio da Luz.
Da Revista Recreio se aproveitava tudo: as folhas centrais que depois de recortes, dobras e colagens se transformavam em incríveis brinquedos de papel; o brinde encartado no fascículo (que podia ser um brinquedinho singelo de plástico ou até sementes para plantar no vaso); as páginas com ilustrações sem colorido feitas para o próprio leitor pintar como quisesse, e até as abas de cada folha, que apresentavam as mais diversas atividades. E, claro, as sensacionais histórias que incendiaram a imaginação das crianças da década de 1970 e as tornaram muito mais felizes. Aliás, não só daquela década, porque muitas dessas histórias, que naquela época eram vendidas em bancas de jornal por alguns cruzeiros, hoje podem ser compradas em livrarias por uns tantos reais, mas por menos pessoas.  Se atualmente tais histórias se revelam em papel de altíssima qualidade, com projetos editoriais ricamente elaborados e ilustrações que até parecem obras de arte, garanto que a apresentação gráfica simples, o papel comum e os desenhos cheios de cor, mas sem rebuscamentos (feitos justamente para ajudar a contar aquelas histórias) cumpriam muito bem sua missão de instigar, divertir e iluminar almas novas e sedentas de vida e de sonho.
Assim, quando eu me via diante do mundo branco de sulfite, meu coração se acelerava: com minhas canetinhas coloridas eu fazia desenhos em cada página e depois voltava colocando os textos que acabariam por formar pequenos livros de histórias.  Histórias que eu sonhava que fossem como as da Revista Recreio ou as dos livros finos de letras grandes e pretas. Mas nem que não fossem: o importante era contar histórias, brincar de Deus, criar do nada ou recriar o imperfeito.
Cada vez que retirava meu pacote precioso de dentro da gaveta e me emocionava com as folhas em branco, eu podia me espalhar pelo mundo conhecido ou até mesmo fazer outros. Novos. Remundos.
Cada vez que as canetas coloridas rabiscavam minhas histórias desvairadas com seus desenhos encapengados, sentia que de alguma forma eu podia rearranjar os caminhos sofridamente tortuosos de meu pai, para que seus pés libertos nunca mais deformassem seus sapatos.
Para que meus pés libertos encontrassem caminhos nunca imaginados.

Ilustrações: Erasmo Spadotto e Maria Luziano – cedidas pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 16 e 20/11 e 4/12/16


O menino, o mar e os poetas

(caio silveira ramos)

O Colégio São Francisco Xavier do Ipiranga escolheu a obra e a vida do poeta Vinícius de Moraes para desenvolver um projeto de leitura com seus alunos do 2º Ano do Ensino Fundamental.  O projeto culminou com uma apresentação teatral e eu fiquei matutando se não seria melhor terem usado mais músicas do repertório infantil do poeta do que suprimir “trechos incômodos” de algumas de suas obras.  Talvez fosse mais interessante cantar “A pulga”, “A foca”, “Menininha” (todas parcerias com Toquinho) e “São Francisco” (com Paulo Soledade), ou até mesmo obras adultas como “Chega de saudade”, “Se todos fossem iguais a você”, “Garota de Ipanema” (todas com Tom Jobim), “Coisa mais linda” (com Carlos Lyra) “Valsinha” (com Chico Buarque) e “Pela luz dos olhos teus”, que vetar as partes faladas de “Samba da Bênção” (com Baden Powell) – o que fez sair de cena as próprias bênçãos -, e de “Sei lá...a vida tem sempre razão” (com Toquinho) ou retirar as estrofes que enumeram os amores marotos do pequeno bardo de “O poeta aprendiz” (também parceria com Toquinho). 
De qualquer forma, o saldo do projeto foi muito bom, porque fez a meninada voltar para casa conversando sobre os parceiros do Poetinha e cantarolando a parceria com Tom Jobim, “Eu sei que vou te amar”, a com Toquinho e Paulo Soledade, “O pato (pateta)”, e as canções, só de Vinicius e Toquinho, “A Porta” e “Tarde em Itapuã” (com direito até a estrofe em que se argumenta “com doçura com uma cachaça de rolha”). 
Eu, sem saber se a professora tinha explicado o significado de algumas palavras de “O poeta aprendiz”, abri um dicionário com João Pedro e fomos tirando da cartola todos os sentidos de um menino valente e “caprino”. Ou do “bodoque” de um “infante” sadio e “grimpante” com o olhar “verde-gaio”.  E depois rimos gostosamente quando meu pequeno disse que uma coleguinha, ao interpretar “Tarde em Itapuã”, cantava “na Praça caída senti preguiça no corpo” em vez de “na Praça Caymmi senti preguiça no corpo”.  Aproveitei a deixa e perguntei se ele sabia quem era aquele “Caymmi” que dava nome a uma praça.
“Era um cantor, né?”
Era. Mas era tanto mais. Tanto que o verbo devia ser conjugado no presente: Caymmi é.  Mas como explicar isso ao pequeno? Como resumir o mar, o mar tamanho, a uma gota repousando na palma da mão?
Não entanto, Caymmi é mar e é gota.  Preenche os espaços abertos e se abriga nas miudezas. Revela os infinitos e as pequenas coisas.
Então, achei que, melhor que explicar tudo aquilo, seria contar uma história. Uma história que ocorreu noutro dia mesmo para mim. Ou há muito, muito tempo para um menino de oito anos.
Bebê de colo ainda, João pouco chorava. Mas quando chorava, pela proximidade do sono ou quando qualquer outra coisa lhe perturbava o sossego, sua voz ecoava com força. E eu, pai de primeira viagem, inventava mil e um segredos para recolher no meu próprio peito aquilo que eu achava ser dor ou incômodo para uma vida que cabia nos meus braços. 
Um dia, durante um daqueles momentos de choro, depois de andar com os pés no teto e me equilibrar na corda do varal (mas sem o sucesso da trégua), me veio em socorro a voz de Dorival Caymmi. Grave, potente, sonora. Mais sonora que o soluço do Joãozinho. Porém, ela não chegou trazendo o seu famoso “Acalanto”.  Ela saiu de mim em forma de mar. “O mar”:
“O maaaaaar, quando quebra na praiaaa, é boniiiiiiiiito, é boniiiiiiito”.
O pequeno parou imediatamente de chorar e me olhou intrigado. Um olhar profundo com todos os seus veres.
Aproveitei a deixa e, tal qual a gravação Caymmi, modulei a tonalidade:
“O maaaaaar, quando quebra na praiaaa, é boniiiiiiiiito, é boniiiiiiito”.
Aninhado pelo som potente que fazia vibrar meu peito e meu colo, Joãozinho sossegou de vez seu choro. E serenou, serenou. Até que dormiu.
E dali em diante, cada vez que ele chorava, eu me caymmizava todo. E “O mar” desaguava majestoso e sonoro sobre o desassossego do pequeno.
Anos depois, ele acharia graça por ter se deixado hipnotizar tantas vezes pelas ondas de um mar desenhado pelo homem que dava nome à praça da canção de Vinicius de Moraes e Toquinho.  Mas lá atrás, com meu filho ainda no meu colo e já dormindo, eu me lembrava de meu pai e de outra canção daquela dupla. Então, mergulhado em benquerenças, eu sussurrava baixinho para alimentar seus sonhos: “dorme meu pequenininho, dorme que a noite já vem/teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem”.
E inundado de mar e poesia, eu adormecia também.



Ilustração: Erasmo Spadotto – cedida pelo Jornal de Piracicaba
Publicado no Jornal de Piracicaba em 23/10/2016

A força que vem do além

(caio silveira ramos)

O músico Fernando delPapa foi para França aos dezenove anos com a cara, a coragem, o cavaquinho e o talento.  Depois de mais de uma década na Europa, “Fernando do Cavaco” assumiu o sobrenome (embora artisticamente modificado) e lançou neste segundo semestre de 2016 seu primeiro CD, “Eu também”, um dos melhores discos dos últimos anos.  Suas letras e melodias são tão inspiradas, que o próprio Chico Buarque gravou um vídeo elogiando Fernando e seu CD.  A palhetada do Fernando é tão espetacular que o disco é ao mesmo tempo brasileiríssimo e universal.
Conheci o Fernando numa roda de samba antes de sua viagem para Paris. Naquela época, sua destreza com o instrumento, influenciada por Luciana Rabello, já mostrava “o que pode um cavaquinho”.   Além da paixão pelo samba, eu, ele e seu pai (um fabuloso cantor chamado Sérgio Del Papa) tínhamos pelo menos mais uma coisa em comum: nós três, assim como tantos outros, éramos discípulos de João Borba.    O que nos ligava a esse grande artista piracicabano não era apenas o seu canto: era também todo o espírito do samba que ele encarnava.
Depois que se aposentou do seu serviço na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, finalmente João Borba pôde cuidar melhor da carreira que já vinha desde os anos 1950 e que passava pelo grupo de teatro, música e consciência negra de Solano Trindade, pelas Escolas de Samba de São Paulo e pelas noites paulistanas.   Aposentado, finalmente Borba conseguiu gravar seus três CDs: “João Borba: Memória do Samba Paulista” (gravado em 2005 e lançado pelo Kolombolo em 2014), “João Borba Canta Jorge Costa” (2008) e “Eu comigo e meus amigos” (2011). Aposentado, finalmente Borba pôde levar seu samba e sua voz pelo mundo, principalmente para Paris, onde reencontrou Fernando e seu cavaco.
No começo do segundo semestre de 2015, João Borba andava um pouco doente, mas estava animado com sua última viagem. E já se preparava para ir à Cuba. Ele me procurou dizendo que em Paris, Fernando delPapa tinha criado a palavra “Baoborba”, mistura dos nomes da mítica árvore e do sambista. Fiquei entusiasmado com a ideia de Fernando, que definia tão bem a força soberana de João Borba.  Mas meu amigo me procurava por outro motivo. Tivera a inspiração de fazer um samba, não sobre si próprio, mas sobre a árvore que lhe emprestava o novo apelido.  Ele ainda não sabia como seria, não tinha a letra, nem a melodia, e por isso me provocava com sua doçura: “então, vamos fazer um samba sobre o baobá?”. Aceitei na hora, comovido pelo convite e pelas ideias que já me atropelavam com alegria e fúria.
Fiz a letra, esbocei a melodia e mostrei para o Borba. Ele se empolgou e disse que iria completar a música. Mas lentamente os males do corpo foram solapando a raiz daquele Baoborba que eu julgava eterno: ele não foi para Cuba, começou a cancelar algumas apresentações e não completou o samba.  No dia 10 de setembro de 2016, liguei para dar os parabéns pelos 82 anos.  A querida Salete atendeu, percebi que ele pigarreou para ajeitar a garganta e o corpo, e lá de longe eu ouvi a voz serena do meu parceiro: “estou fazendo 18 anos!”. Para animá-lo, contei que a melodia de “Baobá” estava pronta e acabada só esperando para ele gravar, quem sabe, fazendo um dueto com o médico e baluarte Chico Aguiar. E que poderíamos, no final do samba, preparar um duelo entre um violão 7 cordas e um violoncelo, e ainda... Mas senti que, mesmo colocando o sorriso de sempre na voz serena, meu amigo estava já cansado. E nos despedimos com o carinho de sempre.
No dia 20 de setembro de 2016, dez dias depois, tombou para sempre o meu Baoborba. O Baoborba de Fernando delPapa, Chicão, Pasquale Nigro, Wandi Doratiotto e de tantos outros parceiros, amigos e sambistas. O Baoborba da Pérola Negra, do Império do Cambuci e de tantas outras Escolas de Samba de São Paulo. O Baoborba da Vila Madalena, do Centro, de Embu das Artes, de Piracicaba, de Paris e de onde mais o samba chegou e chegará.
Nesses últimos vinte anos, meu conterrâneo João Borba foi meu parceiro, meu intérprete e meu irmão.  Para ele escrevi e atualizei seus “releases”, fiz o texto de encarte de um dos seus CDs e ofertei sambas que ele gravou ou apresentou em shows.  Juntos, planejamos inúmeros espetáculos (inclusive o que ele pretendia apresentar até o final de 2016: “João Borba: 60 anos de música e sonho”) e compusemos amizade, fraternidade e música.
Nossa única parceria gravada fala de um rio em que nós dois, quando meninos, mesmo em épocas tão distintas, matamos a sede e nos espelhamos.  Que a água cristalina sonhada para nosso rio e para tantos outros sacie todas as aflições. Que o samba, feito um baobá, ilumine todas as almas.
Viva sempre em nós, João Borba!
Para você, o samba sonhado:

Baobá
(Caio Silveira Ramos) – para João Borba e Fernando delPapa

Amei
Acima de qualquer pecado
Rasguei
Meu coração encarcerado
Plantei
Uma semente nessa terra
Que espera, feito ela,
Renascer, se libertar

E do meu coração dilacerado
Brotou
Meu samba novo, germinado
Cresceu
Embriagou-se de tristeza
Recriou a natureza
Se agigantou
Tocou o céu.

Baobá
A força que vem do além
Do além-mar
Além deste tempo, deste lugar
Raiz que ensina a caminhar

Baobá
Rompendo qualquer grilhão
Baobá
Abraço da multidão
Baobá
Sagrada profanação
Baobá

Baobá
Meu sangue já abrigou
Baobá
A sede já saciou
Baobá
Meu corpo multiplicou
Baobá
                                                                                          

                                                                                                                                                Publicado no Jornal de Piracicaba em 9/10/2016